fevereiro 15, 2007

Só uma carta

Caro Sr. Primeiro Ministro.

É assim que deve ser, simples, o rasto que as palavras de um jornal deixam entre quem as escreve e o seu leitor. À sua frente e na oportunidade de lhe falar e de ser claro, penso em demasiados assuntos que no fundo, de tão misturados, vão delinear coisa nenhuma. É também assim o mundo que temos perante nós, ainda debaixo dos pés. Uma desordem e um embaraço. Acreditar nele, acreditar nas pessoas que o compõem. Dar valor aos seus dirigentes. È de todo um exercício de complexa dificuldade. Haverá diferença entre a telenovela do fim da tarde e o que vivemos no dia-a-dia? O que se vê? E nisto digo entre o estar numa face ou na outra. No lado de cá da tela ou no lado de lá, da ficção, do sonho, do planeta. Do pesadelo? Não se conhece de todo o limite, o rosto e a margem que os separa e determina. O logos. Que veste a razão com os seus princípios de inteligibilidade.
Isto são expressões que não pretendia usar mas que me tornam a língua acre. E no tumulto remonto a uma mistura de saudade com inconformismo e pergunto de novo haverá alguma importância nisso?
Aqui, terra de jogo. De facilidades. Nunca fez tanto sentido a expressão “a árvore das patacas”. Aconteceu em épocas passadas, a corrida ao mesmo Ouro. É apenas uma sequela com outras legendas. Mas cada um vive no seu iraque particular onde o farol é mais a intuição do que a lógica do raciocínio. The world wide web. Que ao sacudir-se das águas se deforma e se mítífica na expressão de um espelho e nessa altura não há nada a fazer, o ecrã já não se desliga.
Conversa da treta, Sr. Primeiro Ministro. O que lhe queria na verdade dizer, sem lhe falar em concreto da gente do seu País que por cá navega, que não tem unidade, talvez seja discorrer acerca do conforto da distância. Do tempo das deslocações. Que me coloca como Estrangeiro ao regressar a qualquer ponto de partida. É um estado híbrido sem identidade em que o pasmo de ficar se sobrepõe à vontade de ir. Uma sensação boa, de zapping. E quanto mais distante melhor, digo-lhe eu, mais se alonga a perspectiva.
Se por vezes me dá a sensação que somos, nós os do sofá, os únicos a ter verdadeiro amor aos desígnios desta terra, sem significado em número mas de importância no espectro social e urbano da cidade, sei que o existir cai para lado nenhum e que nessa inclinação se estende para todos em simultâneo. É essa a natureza que nos encosta a este nicho do mercado e que nos sugere o desejo de resistência. A quê? A coisas más. Aos opostos mundos trocados. Que em informar desinformam. Reflectidos no espantalho.
É uma vontade enorme de voltar a ser dinossauro.
De si? Diga-nos que do passado, do Espaço 1999, se vai começar de novo. Do zero. Sem influência mas com mérito. Que no seu degrau que lhe confere importância fulcral no assumo das decisões. Não por aqui, nem pelo País, mas pelo Mundo. Se erga e faça por nós todos. A Vida. O Regresso. A Diferença. De quem está e de quem foi.
E o que fica da sua passagem por Macau? Fica este abraço que lhe envio e o papel que lhe deixo aqui nas suas mãos para que não se esqueça, para lhe dar alguma lembrança, e um domicílio, do que há para fazer.
E rien ne vas plus.

Com muita estima,

António Faisão, Fotógrafo
[Carta publicada no Jornal Hoje Macau aquando da visita a Macau do Engenheiro José Sócrates, nos dias 2 e 3 de Fevereiro.]

Afixado por António Faisão at 06:50 PM | Comentários (3)

janeiro 04, 2007

Os novos ícones de 2007

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janeiro 23, 2006

O cavaco de salvação

«Ele há muitas maneiras de se olhar para umas eleições presidenciais. A televisão portuguesa, por exemplo, passa um anúncio, que presumo da responsabilidade da Comissão Nacional de Eleições, para estimular as gentes ao voto. Trata-se de uma carinhosa relação entre um pai e um filho, dando a entender que o presidente é o pai de todos nós. Não é novo este conceito, pois bem me lembro que o meu livro da terceira classe apresentava a mesma ideia em relação ao moribundo almirante Américo Tomás. Salazar já tinha morrido. Ou talvez não.
Na verdade, nesses tempos passados, o verdadeiro pai da Pátria era Salazar. Foi nisso que grande parte do povo pensou quando o ditador se finou. “Foi-se o nosso Pai”. Como o povo igualmente sabe, quando a pancada é muita o corpo amolece. E depois de 48 anos de fascismo, os portugueses tinham o corpo e a alma bem amassada. Um país de “sôr dôtor” e barretada, de espinhela curvada ao padre, ao médico, ao engenheiro, ao juiz, num hábito de reverência saloia e de aceitação do seu lugar na vida. Marcas ainda hoje presentes no nosso corpus social. Daí que quando Salazar expirou, apesar de já não se encontrar no poder há algum tempo, muita gente se sentiu órfã, independentemente de gostarem realmente do homem de Santa Comba Dão ou não.
O problema é que desde então, depois de um período caótico de fraternidade no pós 25 de Abril, o país ressente-se ciclicamente dessa orfandade, procurando imagens, figuras, personalidades que, de algum modo, reúnam características que se assemelhem às do provinciano ditador, nomeadamente as que o definiram como salvador da Pátria. Honestidade, probidade, magreza, origens humildes, amor pela economia, desprezo pela cultura, solidão, teimosia, certeza inabalável da sua superioridade (megalomania?), desconfiança em relação a todos os outros. Estarei a descrever quem, Salazar ou Cavaco Silva?
Longe de mim pensar que o segundo se assemelha ao primeiro do ponto de vista político. Ou sequer que as suas ideias e práticas remetam para algo que tenha a ver com o fascismo ou ditadura mais ou menos provinciana. Nada disso. Cavaco é um democrata. Por muito que isso às vezes lhe custe. Refiro-me unicamente aos aspectos simbólicos de uma candidatura à Presidência da República que muitos dão como vitoriosa. Não tem e usa Cavaco muitos dos trejeitos de Salazar? Penso que isso salta à vista, é inegável. Então a pergunta será: por que razão o povo português segue este tipo de dispositivo simbólico e não o rejeita como uma má experiência? Não sei. Atrevo-me a pensar que o longo apagão sobre o fascismo que a nossa educação pública efectuou nas últimas três décadas não terá construído uma memória desses tempos e desses tiques nas pessoas. Hoje, que parte da nossa juventude tem consciência clara do que era Portugal antes do 25 de Abril, de qual era a nossa taxa de analfabetismo, de pobreza, etc.? Quem sabe exactamente quem foi e como era Salazar? Uma diminuta percentagem como as estatísticas infelizmente revelam. Talvez seja essa ignorância ou falta de memória que pode levar um povo a apreciar os mesmos tiques e... sobretudo, não os achar ridículos, anacrónicos, não se rir deles.
Infelizmente, isto não tem piada nenhuma. Sei que não consigo encontrar uma resposta que realmente me satisfaça e convença. Um dos tiques mais irritantes de Cavaco é o seu silêncio, o mistério que envolve as suas opiniões sobre uma série infindável de questões. Mas é também um dos mais eficazes, um dos que marca mais pontos, exactamente porque remete para o segredo e a solitária tomada de decisões, que podem ser as mais inesperadas. E isto fascina o povo, na sua tacanhice e desejo de desresponsabilização.
Tem, portanto, alguma razão a campanha televisiva paternalista: trata-se, no limite, de uma infantilização do cidadão, de uma mensagem clara de que ele precisa de um PR que seja uma figura paternal. Quem terá encomendado este sermão à Comissão Nacional de Eleições? Quem é que disse que o PR deve ter estas características paternais? Onde é que aprenderam que isso promove e exalta a República, na medida em que reforça o sentido de cidadania? Tudo isto me parece muito esquisito, muito esquisito mesmo. Quando o Estado nos dá este tipo de mensagem subliminar 30 anos depois da instauração da democracia, não posso deixar de estranhar. Onde é que ficou a imagem do cidadão responsável, adulto, consciente das suas obrigações cívicas e políticas, digno, culto, interessado, a exercer o seu direito de voto? Algures, num qualquer oceano de boas intenções. Isto para não entrar numa de teoria da conspiração e achar que nada disto é inocente.
Cair na real, dizem. Cair na economia, nas finanças, nas privatizações, nas bolsas. O pior é que nada disto tem qualquer realidade e é precisamente esse Portugal que nos empurra para trás.
Se a direita portuguesa só se consegue unir através de um símbolo salazarento como Cavaco, isso explica muito do nosso atraso em termos de desenvolvimento económico, dá muito a ver da mentalidade empoeirada dos grandes patrões de Portugal e do provincianismo egoísta dos nossos banqueiros.
É provável que Cavaco ganhe as eleições, até porque é apoiado por estas gentes do dinheiro. Um país cujos grandes projectos nacionais são o Euro 2004 e agora o Alemanha 2006 significa um povo à deriva e sem valores, capaz de se agarrar a qualquer cavaco de salvação. Nem que ele venha, lúgubre, salazarento, bafiento, a flutuar do passado. O que sabe o que quer e para onde vai, perdão... o que raramente duvida e nunca se engana. O cavaco de salvação.»
Carlos Morais José in Jornal Hoje Macau - 20 de Janeiro de 2006

Afixado por eLustre Convidado at 03:49 PM | Comentários (0)

janeiro 17, 2006

Associação Artistas de Plástico

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Manifesto

Quando se inicia alguma coisa há sempre dois pontos de partida. Primeiro, o espaço físico que ocupamos e que nos permite avançar e propor uma nova dimensão no tempo e, segundo, a construção social que desfrutamos e que nos leva a interagir com o balanço desse mesmo espaço. A forma e o conteúdo. Não é claro, eu sei. O que quero dizer é que há sempre uma balança para qualquer situação. Dois pesos, duas medidas, duas forças. Os dois lados de um espelho, os dois lados de uma montanha, as duas direcções de uma linha recta. O equilíbrio, a igualdade, a proporção. Mais uma vez. O que estou a tentar explicar é que no ponto de partida há sempre o antes e o depois, o cá e o lá, o claro e o escuro. A verdade e a mentira: o sim e o não – não vou dizer o homem e a mulher. Uma coisa vive sempre do confronto com outra. O acto sem a sua prova, o seu testemunho, não existe. O vazio não faz sentido sem a representação do cheio. E por aí.
A Associação Artistas de Plástico (AAP) parte da ideia da fusão destes dois termos, de retirada dos pratos da balança, de a tornar inútil na sua função redentora mas ao mesmo tempo instruí-la com uma nova utilidade. A utilidade do objecto que observa sorridente todo o seu passado e que abraça o futuro com os dois braços que a compõem. Parte-se da ideia da coexistência de elementos opostos, ou de dois conceitos díspares, num só corpo. Na sua mistura híbrida. O móvel e o imóvel, por exemplo. Configurar o dia e a noite de modo a que passem a existir, como dia e noite, num só momento. Num período de tempo que é, em sincronia, a imagem do espaço que o frequenta. O tempo que visita a sua demora e que a aglutina. Da associação simultânea da forma com o conteúdo. Do que vê e do que se sente. Do que há e do que não há.
A AAP surge do conceito que jaz num infinito onde tudo é possível, onde a criatividade não tem morte, que ganha forma na frase NADA É TUDO, termo onde todo o universo está contido, onde todas as palavras, significados, idiomas existem, e dentro delas, ou nos seus espaços, as pessoas todas que escrevem a face da Terra. Que a povoam de raças, de géneros, de crateras. NENHUMA COISA É TODAS AS COISAS. São. Têm. Possuem. Expressão que se multiplica, ou divide, até ao que não tem fim, ao que não tem limites nem medidas e que inebria o juízo. Trocando-lhe os fusíveis, fundindo-os num só.
E no entanto a AAP é simples, de espírito fogoso e imaginação ardente, mas de agrado fácil. Amoldável e influenciável pela erosão circundante numa absorção constante do seu discernimento e igualdade, respirando-as com o tacto. Agrado sim. Num consórcio crescente de ideias e de dispositivos que identifiquem os estímulos no intuito de fornecer métodos de criação. A AAP fornece apenas formas de pensar, ideias, ar e céu azul. Em pacotes alternativos e consensuais. Oferece caminhos e abre portas com o sopro do olhar. Atreve-se. Molda as cores sem as distinguir. Rouba o ruído ao silêncio e o silêncio ao som e faz melodias que se podem ver e tocar. E ao mesmo tempo não, não se podem ver nem tocar. Nem ouvir.
A AAP exagera e delira, pensa demasiado. Contradiz-se. Recicla o inútil e o útil e escusa-se a dar explicações. Inventa de maneira generosa, abundante, e por vezes grosseira, e não se importa com isso. Atira para a atmosfera coisas cheias de pólvora da largura de uma praça, que rebentam com grande clamor e palmas, e com o passo dá chutos muito fortes numa bola que quase sempre acerta ao lado. E não se importa com isso.
A AAP não se importa com isso.
Vive para viver com estrondo. Vê balizas em todo o lado e o seu campo move-se como o trepidar de uma peça de fogo de artifício ou de artilharia defunta. Flutuando enquanto navega, enquanto se enrola. Enquanto beija o asfalto. À partida ou à chegada. Esfola-se daqui para ali. O seu extremo é uma linha circular que envolve com uma rede todos os bens do seu desoriente, incluindo os que não ficam bem. E tudo. E nada. Até ao centro.
A Mongólia que é a Turquia, que é a Argentina, que é a Islândia.
A AAP não faz sentido e por isso faz todo o sentido.
Insatisfeita com o quotidiano adjacente que vacila para as suas incertezas nasce da criação de um novo estímulo que venha suprimir esse fenómeno. Essa fome.
A AAP tem necessidade ou grande apetite de comer e tem uma sofreguidão avassaladora pela sua própria existência.
A AAP não existe. Dá apenas forma e serve para formar, modelando.
Os Artistas de Plástico (AP) que a formam derretem com o dinamismo em que se movimentam. Suam. Decompõem-se. Submetem-se a uma relação de amor com o objecto que representam, com a interacção crescente que interrompe o ritmo das suas silhuetas. Os APs vivem da razão mas não a têm, vivem de uma concepção lírica da sua trajectória que se ilustra sem o balanço de um pêndulo. Os APs interpenetram entre si, ouvem-se, falam e gritam. Agitam as mentalidades alheias iluminando-as. Os APs não servem para nada, servem para tudo. Dedicam-se de viva alma à criação de um formulário novo que expresse a relatividade entre o peso e a expansão, entre a rotação e a volta. Entre a crise e a procura. O retorno. Têm uma existência própria travada no desejo de ir mais além, obcecados na fórmula de construção de uma vida que crie neles uma sucessão infinita de eventos. De criações. De novas vidas. Desobstruindo-lhes os acessos não na sucessão encontrada na repetição dos pés, dos braços e das caras, tantos como os povos que existem no mundo, não na sua fecundação, mas conseguida com a busca intuitiva de um único modelo que produza uma continuidade no espaço. Na interacção com os outros, com as chuvas e com os mares. Com tudo o que se puder tocar.
A AAP vive da inspiração das coisas grandes. Dos terramotos, das infindáveis secas, das coisas más e tortuosas. Da dor. Dos furacões e das avalanches.
A AAP recorta o que é mais pequeno e minucioso e dá-lhe a dimensão de um continente. Sem se importar com isso. Hoje e qualquer dia. Criando pelo caminho um círculo vicioso. Um jardim. Uma receita de uma iguaria. Um sorriso em alguém que ia a passar, um bocejo num pássaro que não se atreveria a espirrar depois disso.
Quando se inicia alguma coisa, nem sempre saí bem, nem sempre tem duas pernas. Nem sempre se constrói um provérbio. O que se passa com esta Associação é a intenção de fazer. A intenção de ajudar a fazer aqueles que não conseguem, por alguma razão, fazer. O desejo antinatura de um realismo que reaja e se separe das consequências de longos reinados amorfos e separados à nascença. A Associação Artistas de Plástico quer unir-se, acoplar o artificial e o fixo. Aqui. Criar, projectar, mover. Causando uma comichão milenar na estática e na aberração que muitas vezes vive aterrada nestes aeroportos de vistas curtas. A AAP quer ser bonita e feia. E colateral. Quer ser tudo o que quiserem que ela seja. Quer rir com as suas interpretações. Quer exortar as mentes simples e as universais. Quer dar as mãos ao arbitrário e à síntese. Ao complexo. Quer ser enorme no seu poder criativo. Quer mover mundos.
Oh! Os Artistas de Plástico querem ser tanta coisa. Querem ser tudo. Querendo ser apenas nada.
Nada é tudo. Nunca para sempre.
Estamos aqui. Venham.
[REDIGIDO PELO CAMARADA RING JOID - NOV 2005]

Afixado por Mestre at 04:26 PM | Comentários (1)

janeiro 03, 2006

Resposta a Beltrano no fôlego de uma querela política

Estava claramente a armar-me em esperto...
«Caro Z.

Sim, tens razão, é um descrença nas virtudes de quem tem as garras do poder - não confundir com desconfiança.
Não quero acrescentar nada. Nem estou, com este meu modo, a perseguir, a correr atrás, ou a pôr em perigo, os objectivos e liberdades de que falas. Não é de todo minha intenção englobar-me nessa tarefa, porque ela vive, na sua essência, dentro de mim. Não é preciso soletrá-la e penso que não era a tua intenção estar a ensinar-me a andar. O que não quer dizer que seja a minha forma de vida, que esteja sempre a rezar para isso. Não. Porque os cidadãos por defeito são uns bichos e gostam que lhes dêem direccções, quando estão libertos só andam à procura de umas algemas, uns ançaimos, e, ouve, estou simplesmente a generalizar.
Isso é tudo muito bonito, essa coisa dos objectivos de uma sociedade, mas é tudo elouquência, um lugar mais que comum, nem te estou a ouvir falar, mas já te estou a ver seguir os passos para dentro da mesma gaiola. É desses discursos sem nada para dizer de que eu fujo. A tua capacidade de argumento baseia-se no atirar com os desfavorecideos para a linha da frente, tornando-os sonantes. Visíveis. Os coitadinhos. Pareces um politicozinho com o mesmo discurso falível que já não convence ninguém. Alegação vulgar e requentada. São esses gajos que se afunilam nos pântanos do poder pensando que estão a levar para a frente o que quer que seja. São simplesmente ridículos. Funâmbulos. Enterram-se e não dão por isso.

Não sei há quanto tempo cá andas mas já devias saber que a teoria escorrega na prática, que uma tese é pura conjectura: são suposições. A realidade é bem diferente, vive de factores desconhecidos. Vive do império do improviso. Da humidade, da erosão, da fertilidade da terra. Das Estações. Não quero dizer que a política seja de todo um processo aleatório. É um jogo. Uma utopia. Um simulacro de situações. Um mundo de boas intenções. E não lhe vanglorio nenhuma eficácia. Corrompe, na maior parte das vezes, o fluxo dessa lenga lenga do tira e mete. Ok, "pessoas na miséria".

Não estou, nem estava, a disparar, respondo a um tom acusatório com uma génese de insulto que usaste na tua espingarda de uma maneira descuidadada. Nem sequer estou sitiado num casulo a desoriente, apenas padeço desse mal de me considerar acima de tudo um cidadão do mundo. Não vivo amarrado a essa coisa da Pátria. A esse acaso de ter nascido no país em que nasci. Tive origem num Planeta todo ele virado para o caos. É dele que derivo. Abres a janela e podes vê-lo definhar diariamente. É aí que reside o meu desassossego.

No meio de toda esta discussão, considero a minha atitude mais válida para a percepção de um movimento ontológico mais claro.
Vale mais um gajo como eu, a viver no rebordo, no abismo de um mundo imaginário, do que cem como tu que se encarrilam nas linhas do empolamento social, que vivem encerrados nas normas. Cheios de medo do que não é servido numa bandeja. Do que não traz carta de recomendação. Do que é repentino e não vem no programa. Das falhas.

Para acabar, quero dizer, para que não te sintas de todo injuriado, que tudo o que está acima é especulativo. A mim move-me o prazer da resposta. Como um exercício. De jogar com esta afectação do confronto de ideias. Atirando-as ao ar. Nesta androginia de termos e de modos que sustem o relacionamento entre as pessoas. Vieste com uma receita eu larguei esta gosma toda. E nisto não estou a deixar cair o que escrevi. Toma-o como quiseres.
Um abraço.

A.

P.S.- "Portugal e os Portugueses" é um conceito de compartimentação da natureza que não me diz nada.»
E com isto só vou dormir seis horas. Damn it!

Afixado por António Faisão at 06:01 PM | Comentários (1)

novembro 22, 2005

Teste as suas cores!

Consegue vê-los?
Snapped from The Daltonic Brothers sight.

Afixado por O Homem do Leme at 04:28 PM | Comentários (0)

novembro 21, 2005

Breaking the mainstream

Improv Everywhere & The Cacophony Society

Afixado por O Homem do Leme at 04:56 PM | Comentários (0)

novembro 18, 2005

Um país lerdo

Já o Eça dizia que “Portugal não é um país, é um sitio, e ainda para mais mal frequentado”. Neste país os professores não querem substituir os que faltam, os Juízes não querem trabalhar durante as férias judiciais, os médicos não querem tratar mais doentes...


"A slow sort of country!" said the Queen.

"Now, HERE, you see, it takes all the running YOU can do, to keep in the same place. If you want to get somewhere else, you must run at least twice as fast as that."

Lewis Carrol - Trough the Looking-Glass, 1872


Felizmente vamos ter um TGV até à Ota. Vamos chegar bem depressinha…

Afixado por Iconoclausta at 02:16 PM | Comentários (1)

novembro 11, 2005

Mudança

Mudei, não sei se alguém reparou, mas está na minha altura da muda.
É cíclico e chegou a altura. Estou mais chata, mais rezingona, menos preocupada com os outros e mais preocupada com os meus. dou-lhes mais atenção mas a chata também funciona com eles.
Deve ser da idade. Que chatice!

As mudanças podem vir para o bem ou para o mal. A maior parte das vezes têm os dois lados da moeda. Esta tem os dois lados com certeza. Tomo menos iniciativas para ver os meus amigos e com isso já não vejo ninguém há uns tempos, o que só mostra que se não for eu a tomar a iniciativa, ninguém me quer ver. Logo... mau sinal. Para compensar resolvi tomar a iniciativa de um modo cultural e aproveitar os meus colegas de trabalho e as suas iniciativas que não passam disso, para andar para a frente com um "projecto"! Os Daltonicbrothers são um "colectivo" muito bem formado que gosta de partilhar experiências e conhecimentos. Sendo assim tomou a liberdade de tornar pública a sua formação (é daqui que vêm os bem formados) e realizar esporadicamente as Colourfull Sessions. Criaram um blog: daltonicbrothers.blogspot.com e a primeira sessão já foi anunciada. Não sendo um local público espero que não apareçam aos magotes, nem temos cadeiras para todos, mas ficam a saber que naquele dia aquela hora, vamos lá estar!

Afixado por Enfiada Especial at 10:32 PM | Comentários (2)

julho 27, 2005

A Foice e o Marcelo

Sempre que ligo a televisão no momento errado, no lugar indevido, aparece o Professor Marcelo. E pasmo, sempre que ele aparce. Apetece coçar-me. Beliscar-me a pensar que o que vejo não é real. Mas é.
O Professor Marcelo é a caricatura do Baptista Bastos interpretada pelo Herman José. O Professor Marcelo não existe. Pergunto-me sempre: é para levar a sério? É isto uma comédia em pé?
As Escolhas de Marcelo dão vontade de atirar a televisão pela janela. De escovar o país da lêndea da Terra. Eu que não vivo nele, apetece-me fugir do sítio onde estou, por contágio intravenenoso. É para levar a sério, o Sr. Marmelo? É para o ouvir?
Ele, na melhor das hipóteses, é uma caricatura do seu próprio boneco do "Contra Informação", está só a tentar imitá-lo. Mas estará também a tentar imitar outra pessoa, a tentar ir mais longe? Digam-me, quem é o Dr. Marvelo? Que faz ele, que comprimidos toma? Que sanatórios frequenta? Que lhe aconteceu quando era pequenino? Porque é que não o calam? Enfiar-lhe a edição toda do Expresso na boca e de seguida tapá-la com fita adesiva! Remédio santo.
E no outro dia.
No outro dia. No dia seguinte. É pior.
No dia seguinte, tudo o que é meio de comunicação, vem com estas garrafas: "O Professor Castelo disse...", "O Sr. Murtelo acha que...", "Na opinião de Fulano Metê-lo de Sousa o país..."
Mas desculpem, sou eu que estou a ver mal, a ouvir? Sou eu que estou doente? O Professor Marcelo é a prova viva, constante, que o país vai mesmo mal. Vai virado do avesso. E à conta deste séquito, destas metástases, nunca mais se endireita. A primeira coisa a fazer era mandar este imbecil para o espaço!!
Não percebo porque é que ainda não o fizeram. Ser dado como lixo nuclear radioactivo ou assim. Qual é o número da DHL?

Afixado por O Homem do Leme at 05:40 AM | Comentários (2)

junho 13, 2005

Who wants a WEB DESIGNER?

Precisa de criar um site? Aliás, quer criar o seu site? Ou apenas reformulá-lo mas de maneira diferente, vivo, atraente, especial? Precisa de uma nova imagem para a sua empresa, atrair clientes, essas coisas? Um menú, cartões de visita? Mais. Quer fazer uma revista e não sabe como, ganhar uma campanha eleitoral? Então carregue aí no lado direito, em SOMA SPACE, ou aqui.

Afixado por Prusidente da Junta at 10:30 AM | Comentários (3)

março 02, 2005

orgia, orgia, orgia, orgia, orgia

Tambem tu, levaste no cu,
mas nao penses que era
sempre a mesma orgia.


Havia de manha,
na casa do Ze,
havia a tardinha
em casa da Ninha.

Depois veio o Joao,
com o seu monstrao
veio logo a Joana
com a sua bezana.

Fomos todos uns aos outros
ficamos todos doridos
mas se a guerra fosse assim
ninguem morria no fim!

Afixado por Enfiada Especial at 02:44 PM | Comentários (1)

maio 19, 2004

A Doença Americana

"Mais de 3000 suspeitos de terrorismo foram já presos em muitos países e muitos outros tiveram um destino diferente. Digamos assim: deixaram de constituir um problema para os Estados Unidos." George W. Bush, discurso do Estado da União, 2003

Por MIGUEL SOUSA TAVARES
Sexta-feira, 14 de Maio de 2004

(...) P.S.: E agora, que o nosso Governo de direita se prepara para privatizar mais uma empresa estratégica - a Galp - e que, a fazer fé no que consta, o Carlyle Group se apresenta como potencial vencedor do concurso, talvez fosse interessante aprendermos mais sobre esta empresa americana, que dá trabalho a Carlucci e a Bush-pai e que entre nós aparece associada ao ex-ministro dos Negócios Estrangeiros Martins da Cruz (não há uma lei de incompatibilidades para situações destas?). Se quiser saber mais sobre a Carlyle - que, nos últimos anos tem surgido ligada a negócios estratégicos nas áreas do petróleo, armas e "combate ao terrorismo"- aconselho ao ministro Carlos Tavares a leitura do livro de Dan Briody ("The Iron Triangle - Inside the Secret World of the Carlyle Group"). Para depois não se vir refugiar na decisão de uma "comissão de sábios independente".

De cada vez que George Bush atravessa um momento particularmente difícil, em que navega à vista sem objectivos políticos claros, a Al-Qaeda parece prestar-se a vir em seu socorro. Foi assim com o 11 de Setembro, que escancarou a porta a toda a espécie de legislação e comportamentos de excepção, abrindo profundas fendas num património acumulado em 228 anos de Estado de direito, mas justificadas e consentidas em silêncio pela necessidade de combater eficazmente o terrorismo. E foi assim agora novamente, com a divulgação das imagens aterradoras da decapitação do cidadão americano Nicholas Berg, na altura em que Bush e a sua Administração enfrentavam o escândalo dos abusos cometidos sobre presos iraquianos.

Mas não confundamos as coisas, conforme muitos se apressaram rapidamente a fazer: a Al-Qaeda não existia no Iraque, até os Estados Unidos o terem invadido. Foi a invasão e ocupação do Iraque que deram a Bin Laden e seus seguidores a oportunidade operacional, política e popular de se instalarem também eles no "bazar" iraquiano. E, como já toda a gente de boa-fé percebeu, longe de ajudar o combate ao terrorismo, a aventura iraquiana veio potenciar o terrorismo, desviando as atenções e os esforços do combate à Al-Qaeda, dando carta branca a Israel para sabotar definitivamente todas as veleidades de uma paz definitiva na Palestina e espalhando o ódio à América e ao Ocidente em todo o mundo árabe e muçulmano, onde o terrorismo organizado encontra agora um terreno cada vez mais propício ao recrutamento de voluntários.

Não impede que as imagens do bárbaro assassínio de Nicholas Berg tenham vindo no momento decisivo para contrabalançar as outras imagens da prisão de Abu Ghraib. Porque não adianta ter ilusões: a maioria da população americana, como o demonstram as sondagens, não ficou particularmente chocada com as imagens dos abusos, humilhações, torturas e sevícias sexuais cometidos pelo Exército americano no Iraque. O que os chocou foi a divulgação pública dessas imagens e por isso agora discute-se abertamente se mais e piores imagens existentes e conhecidas de alguns devem ou não ser divulgadas. Mesmo antes do "site" da Al-Qaeda ter divulgado o vídeo da execução de Berg, já havia senadores republicanos a dizer que bastava de autoflagelação e antipatriotismo, porque não há guerras "limpas", em especial contra o "terrorismo". E, no momento em que o "Washington Post", o "New York Times" e o "L.A.Times" exigiam a demissão de Rumsfeldt e o "Herald Tribune" escrevia que "o mundo espera por um sinal de que o Presidente Bush entendeu a gravidade daquilo que aconteceu... começando por exigir a demissão do secretário da Defesa", o que Bush fez foi deslocar-se propositadamente ao Pentágono para fazer o elogio público do sinistro Rumsfeldt e agradecer-lhe o seu "excelente trabalho" no Iraque.

Não há ingenuidade alguma naqueles que se esforçam em ver nos retratos da prisão de Abu Ghraib apenas um episódio isolado. Primeiro que tudo, as próprias imagens em si são perturbantes pelo que implicam para além dos factos retratados: os prisioneiros nus, o sadismo e exibicionismo sexual, os cães, a mulher-soldado que puxa um preso por uma coleira, tudo aquilo é desagradavelmente familiar - lembra os campos de presos geridos pela Gestapo. Em nenhum exército do mundo os soldados se comportam assim e ainda se fazem fotografar (são centenas de fotografias, não umas dúzias!), sem que haja uma cadeia de comando que incentiva, consente ou encobre deliberadamente tais actos. Por isso mesmo é que, entre aqueles que se indignaram com estas imagens nos Estados Unidos, estão não apenas democratas, imprensa e organizações cívicas, mas também círculos militares que não se conformam com a imagem degradante que as fotografias fornecem sobre o Exército americano.

Em segundo lugar, aquelas fotografias não revelam apenas factos isolados, mas são sim a documentação que faltava para demonstrar o ponto a que pode chegar um país que progressivamente se vai colocando à margem da lei. É má-fé, e não ingenuidade, pretender que as coisas acontecem por acaso ou por ocasionais e "condenáveis desvios" . Quando George W. Bush se recusou a submeter os soldados americanos à jurisdição do Tribunal Penal Internacional, não ratificando o tratado assinado pelo seu antecessor, quando fez tábua rasa da 3ª Convenção de Genebra, assinada pelos Estados Unidos em 1949, fazendo de Guantánamo uma zona de não direito, onde os presos não têm estatuto civil, nem político nem militar, e onde o Exército americano, como sucedia na Argentina dos generais, nem sequer identifica quem está preso, é evidente que a mensagem transmitida de cima para baixo, do Presidente ao mais simples soldado, é clara: vale tudo, tudo é permitido porque a nossa impunidade é total.

O que está a acontecer com o clima moral dos Estados Unidos vai muito para além de Abu Ghraib ou Guantánamo. Aqui está uma nação que humilhou publicamente Bill Clinton - o Presidente que lhe assegurou a maior prosperidade económica das últimas décadas - porque ele manteve relações íntimas com uma secretária na Casa Branca. Acusado do grave crime político de ter mentido, por se ter recusado a incriminar-se a si próprio, foi devassado e enxovalhado na sua vida privada à vista do mundo inteiro e por iniciativa da maioria republicana do Congresso.

E aqui está uma nação que, a seguir, aceitou sem pestanejar um Presidente que se fez eleger com batota na contagem dos votos, que transformou o excedente orçamental herdado de Clinton num astronómico défice, que falsificou os relatórios sobre a situação ambiental nos Estados Unidos e no mundo para dar carta branca a indústrias altamente poluidoras de amigos e aliados políticos, que ignorou negligentemente os avisos sobre a iminência de um ataque terrorista em território americano, que começou a congeminar a invasão do Iraque assim que tomou posse, para depois se exibir como "Presidente de guerra", que fabricou provas e mentiu deliberadamente aos americanos e aos aliados da América sobre os fundamentos para a guerra, que fez tábua rasa da carta da ONU, dos tratados e convenções internacionais de que os Estados Unidos são parte, que já sacrificou perto de mil vidas de soldados americanos e uns milhares de milhões de dólares numa ocupação militar sem solução à vista e onde os únicos que até agora ganharam são os seus amigos do governo ou próximo dele ligados à indústria de armamento e de petróleo, e cujo Exército, finalmente, se dedica a seviciar os presos confiados à sua guarda. E que se prepara para ser reeleito, numa espécie de redenção póstuma ao general Custer, derrotado no século passado por esses outros "selvagens" que eram os índios do Faroeste.

Este homem, este Presidente americano, é perigoso. O seu governo é perigoso. Esta América é perigosa. Deles se pode dizer o mesmo que o "Herald Tribune" disse de Rumsfeldt: "A sua crescente soberba e arrogância transformou-se numa deliberada cegueira." Quem viver verá.

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abril 22, 2004

PORTUGAL: PESSIMISMO/PEDOFILIA

São dois os principais problemas de Portugal: os poucos pessimistas profissionais, que passam a vida a contaminar o resto da população, e uma governação inadequada, ineficiente, ineficaz e fora de contacto com a realidade no país. Que Portugal e os portugueses têm inegáveis qualidades, não hajam dúvidas. Não é por nada que Portugal é um país independente e a Catalunha, a Bretanha, a Escócia e a Bavária o não são. Não é por nada que o português é a sétima língua mais falada no mundo, à frente do alemão, do francês e do italiano. No entanto, estas qualidades precisam de ser cultivadas por quem foi eleito para liderar e dirigir o país. O que acontece é que nem agora, nem por muito tempo, Portugal tem tido líderes dignos do seu povo, capazes de liderar a nação, realizar os projectos que foram escolhidos para realizar. O resultado é uma onda de pessimismo, no meio dum mar de desemprego, desinteresse e desorientação que serve de combustível para a economia emocional não funcionar, aquela economia que é tão importante quanto a economia das quotas de oferta e procura. A consequência é uma retracção não só da economia mas também do psique da sociedade, com uma introversão patológica a manifestar-se no escrutínio colectivo do umbigo nacional, ou um pouco mais abaixo. A não-história da pedofilia, já uma psicose nacional, é um belíssimo exemplo de até onde pode chegar uma sociedade quando nem é orientada nem estimulada a pensar em horizontes mais saudáveis. Há mais que um ano, a imprensa portuguesa regurgita a história do abuso sexual de meninos do orfanato/escola Casa Pia, apontando nomes sonantes da vida pública que nem têm lugar aqui, visto que até ser provado ao contrário, uma pessoa numa sociedade civilizada, é considerado inocente.

Na busca de quem foi ou quem não foi, deu origem ao levantamento na praça pública duma lista substancial de nomes do mundo artístico, desportivo, e político, aos mais altos níveis. Não é a causa do pessimismo em Portugal, mas espelho dele. A noção que "nós não prestamos, somos os coitadinhos da Europa e a alta sociedade é podre" se ouvia nos finais dos anos 70, desapareceu e com a não governação do primeiro-ministro José Barroso, voltou. Está tangível, quanto mais para um estrangeiro que ama e estuda este país há 25 anos. Outra manifestação deste pessimismo é a negatividade ao nível das conversas nos cafés (inaudíveis nos claustros de cristal onde pairam os governantes do país) acerca dum evento que a priori é a melhor hipótese que Portugal alguma vez tem tido para se projectar na comunidade internacional? o Euro 2004. O Euro 2004 é o ponto desportivo mais alto na história quase milenar de Portugal. É um dos três mais vistos eventos televisivos no mundo e é uma excelente oportunidade de enterrar de vez a falácia que Portugal é uma província espanhola. Mas o que é que acontece?

Enquanto o resto da Europa se prepara com entusiasmo para o Campeonato da Europa em Futebol, se ouve em Portugal por todo o lado que os estádios não estão preparados, ou que não são seguros, ou que os aeroportos não estão adequados ou que vai haver problemas com hooliganismo ou com terrorismo. Disparate! Ou pior, uma vergonha, por quem perpetua este tipo de lixo que se chame notícias por aí. Para começar, os estádios estão tão prontos que já se joga futebol neles. Segundo, as normas de segurança têm de obedecer a rigorosíssimas normas de controlo estipuladas pela inflexível UEFA. Terceiro, os aeroportos têm dos sistemas mais avançadas de controlo de tráfico aéreo, total e completamente integrados nos da União Europeia e mais, os adeptos não vão todos chegar no mesmo dia, nem todos de avião. Quarto, quando os bilhetes foram vendidos na Internet, foi consultada a base de dados proferida pelas forças policiais dos países presentes no Euro 2004. Quinto, Portugal é alguma vez um alvo para ataques terroristas, desde quando? Só se fossem as FP-25 de Abril. Porém, onde estão as autoridades a explicarem a verdade, a estimular a população, a instilar o optimismo, não só para o Euro 2004 mas para galvanizar a economia, a liderar o país? Exactamente onde estiveram, estes ou outros, quando os interesses dos portugueses estavam a ser vendidos por um preço barato, o que levou gradualmente à situação actual em que uma família portuguesa gasta substancialmente mais do seu ordenado em necessidades básicas do que no resto da Europa. Não se admite que num supermercado espanhol, se encontram exactamente os mesmos produtos bem mais baratos do que em Portugal, não se admite que no Reino Unido o cesto básico de alimentos custa bastante menos, quando se ganha cinco, seis ou sete vezes mais. Há duas semanas, vi três restaurantes no centro de Londres com o cartaz "Comam o que quiserem por £5.45 - 9 Euros, ou um pouco menos. Os portugueses gastam uma fatia tão grande do seu ordenado em mantimentos fundamentais que não há capital disponível para os serviços, restringindo a economia a um modelo básico e muito primário. Se bem que Portugal é um país pequeno, também é a Bélgica, a Dinamarca, os Países Baixos, o Luxemburgo, a Suiça, a Irlanda. Estes países têm um plano de médio e longo prazo e nestes países ganham os lugares de destaque pessoas competentes e devidamente qualificadas e formadas. Em Portugal, o plano é ganhar as próximas eleições, ponto final.

O que acontece depois? Há uma onda laranja ou cor-de-rosa a varrer o país e ocupar todos os quadros altos e médios, seja em ministérios, em faculdades, em firmas, até em hospitais. O grande plano é, quanto muito, de quatro anos, o que explica a pequenez de pensamento e a falta de visão personalizada por uma ministra das finanças que trata a economia do país como se fosse uma dona de casa maníaca, que, munida com uma tesoura gigante, tenta transformar um lençol de cama de casal numa bata para uma boneca diminuta? Corta, corta, corta.

O resultado disso tudo é o que se vê: desempregados à espera de desemprego durante largos meses, não semanas, sem receberem um tostão do governo que elegeram para os proteger. Quão conveniente por isso que o país fale de pedófilos e não da economia, do emprego, da falta de poder de liderança deste "governo" PSD/PP, da ausência duma cariz democrático, ou social, ou ou calor humano destes, que foram eleitos para proteger seus cidadãos. O que fizeram? Absolutamente nada. Lamentaram que o país era um caos, e calaram-se. Então, onde estão as políticas de salvação? Portugal está, e por muito tempo tem sido, liderado por uma argamassa de cinzentos incompetentes que venderam os interesses do país irresponsável e negligentemente para fora. Portugal precisa de quem tenha o brio e a chama suficiente para incendiar a paixão do povo deste país lindo, desta pérola do Atlântico, de ajudá-lo a ir ao encontro dos seus sonhos, acreditar em si, redescobrir as suas consideráveis qualidades e colocar Portugal num lugar de destaque entre a comunidade internacional. O leitor pode apontar quem tenha feito isso nos últimos anos? O José Barroso está a fazê-lo? Caso contrário, se não descobrir, e rapidamente, quem for competente para governar este país, os projectos audazes e brilhantes, que vão de mãos dadas com o espírito e a alma portuguesa, como por exemplo a EXPO 98 e a EURO 2004, ambos com uma gestão excelente e uma preparação de que poucos países se poderiam gabar, perder-se-ão no mar de lamúria que assola Portugal. Francamente, a paciência dos que tanto lutaram para fazer qualquer coisa deste rectângulo atlântico, começa a esgotar-se. Já que gostam de dizer que quem não está bem deve mudar-se, começa a ser uma excelente ideia.

TIMOTHY BANCROFT-HINCHEY
Director e Chefe de Redacção
PRAVDA.Ru - Versão portuguesa

Afixado por eLustre Convidado at 02:36 AM | Comentários (0)

abril 18, 2004

Ja reparou que Lisboa está mais bonita?

«Arranjem-me um bitoque, se faz favor». Por favor, estou tão mal-disposta, só me apetece comer. Pata fez eco à Enjoada, e agarrou-se à barriga, rebolando de dores: “Ai, Jesus, ai, que morro!”. Miséria entrou de rompão, com um molho de fotografias na mão. Olhou para as duas enjoadas e pôs-se a decantar profissionalmente o vinho. Lançou apenas um olhar de desprezo para a Mázinha que estava acocorada, comendo desalmadamente um doce de gema amarelo-esverdeada: “Hum, isto é que é vida, ovos de província, vindos directamente das quintas da Vovó Madeira.”
Vóvó, apesar de ser francamente surda, ouviu falar seu nome, largou o Grãosburgo com quem dançava desalmadamente o traque “Love on the Beat” e confirmou que os ovos tinham saído directamente de seu cú de galinha.

“Oh coisinha fófa, as maminha da minha fófinha", dizia acaricianddo deliciada a bisneta de quatro anos que engolia ferozmente todo o prato de macarronete de porco” Je vais et Je viens..entre tes rins..”. responde a bisneta de boca cheia, escorrendo uma seiva pelo canto almiscarado de sua pequena boca esventrada. Na realidade o macarronete entrava e não saia, só entrava, tudo entrava a verdade é essa, “uma autêntica rebarbadora a minha bisnetinha”.Com tanta rebarba, Vóvó apelou para o pé boto de sua pequena bisneta e desiludida diz sem dentes “Que pena, ela não vai lá”. Tratava-se do passeio de domingo da Família Banzé , o passeio de todos os domingos de há 50 anos a esta parte, chamavam-lhe “carne na montanha”, consistia num banquete ao ar livre, na Serra da Luz, à sombra de um cartaz “ Já reparou que Lisboa está mais bonita”, que acabava sempre da mesma maneira – Ruína e companhia resfolgando-se no corpo de pequena bácora da bisneta. A porca ou cabra revoltada pega numa gillette que a puta da velha usava para rapar os frangos e as pernas e leva tudo a eito. Num banho de sangue imundo a bácora chafurda qual demónio num festim e diz: “Na minha .... já ninguém chucha, caralho”. Em contrapartida Rúina usa a faca das sandes pr’abrir a botëlka, emborca meia dum trago e levando as mãos ao baixo ventre urra pelo que jaz no chão. A bácora ulula pela vitória de ter descabeçado o velho amigo de Vóvó que desde a sua tenra meninice havia trocado a velha ovelha de casa pelo corpo firme da nova cria engordada a massa au champignon.
“Pronto, agora é que são elas”, disse Ruína, com uma máquina de calcular em riste. Três já se foram, mas caralho eu seja homem e mesmo sem a puta da ferramenta venha quem vier que eu hei de aviá-las”. FODA-SE!


Este argumento para uma curta foi composto a oito mãos, por A. Castellani, Assuz, Enfia mas principalmente por O rapaz da Carapinha Loira

Afixado por Assussora Remota at 03:17 AM | Comentários (9)

março 26, 2004

Mulheres do Prusidente II



Da direita para a esquerda, de baixo para cima: a Lady Tron!

You’ve got me girl on the run around run around
You’ve got me all around town
You’ve got me girl on the run around
And it’s getting me down, getting me down
Lady if you want to find a lover
Then you look no further
For I’m gonna be your only
Searching at the start of the season
And my only reason
Is that i´ll get to you
I´ll find some way of connection
Hiding my intention
Then i´ll move up close to you
I´ll use you and i´ll confuse you
And the i´ll lose you
Still you won’t suspect me

Roxy Music - «Lady Tron» - 1972

Afixado por Prusidente da Junta at 05:00 PM | Comentários (4)

novembro 18, 2003

Alterações Urgentes

Sugiro que se contrate aquela empresa que asfaltou o estádio, novo, de José de Alvalade, se ainda se chama assim, e que se arrelve o país de uma ponta à outra. Que se coloque uma baliza no Algarve e outra em Trás-os-Montes, ou no Gerês do lado do Minho, que se ofereçam equipamentos, coloridos, a todos os portugueses. Que se coloquem câmaras de vigilância em todos os montes, planícies, sobreiros, postes de iluminação. Que ponham o sinal no ar para que todos os canais televisivos apanhem e retransmitam para todos os lares, vinte e quatro horas por dia. E que se transforme Portugal num enorme Estádio, sem mais nada. Será suficiente para a felicidade de cada um.
Quem discordar que seja enviado para o Iraque, ao menos o Primeiro Ministro e o Ministro da Defesa saberão apreciá-los. Futuramente, que se eliminem as eleições parlamentares, a Assembleia, o Governo, o Presidente, todos eles, inclusivé eu, a República em si e que se façam eleições para eleger os jogadores e a equipa técnica, de entre todos os portugueses, mesmo os emigrantes, ou imigrantes alojados no nosso país, que representarão a selecção além fronteiras, e cá dentro também. Que se referende a côr do equipamento e a marca de café que os jogadores irão, no Iraque, beber. Decerto, ficaremos à frente do mundo inteiro, em todas as frentes. A nossa presença além mares será Digna, Competitiva, Memorável e chamará investidores estrangeiros ao nosso terreno de jogo, ao nosso cenário nacional, ou, como está na moda dizer-se, e fica muito bem, a qualquer hora do dia, em qualquer situação, no Teatro de Operações, nem eu diria melhor!

Afixado por Prusidente da Junta at 08:49 AM | Comentários (2)