Quanto te sentes mal a primeira coisa em que pensas, logo depois de reparares que afinal não bateste a bota, é naquilo que está mal na tua vida. No que corre ao contrário, no que acontece como não devia, no tempo inútil que se perde sem noção do que estás a fazer, ou do que se faz com a maior das inutilidades. No medíocre que és quando perdes aquilo que tens de mais precioso, que é o tempo. O tempo perdido em coisa nenhuma, com pessoas que não queres ver, com quem nem queres sequer falar. E nisto passam-se dias, semanas, meses. E o resto, aquilo que na verdade és, fica escondido atrás de uma pedra. Uma vida inteira atrás de um morro à tua espera. E tu aí, feito palerma. Claro que só te podes sentir mal e no fim acabas por ter um chilique! Se não bates a bota nessa altura é puro milagre, mas também é um grande azar porque tens de continuar com o suplício...
E por falar em corredores. Nesse mesmo corredor, quando se vem da casa-de-banho, a andar, se me encostar bem do lado esquerdo, mesmo junto à parede mas sem lhe tocar, talvez apenas roçar a banda das calças ao de leve, consigo fazer um arco de circunferência perfeito quando desaguo no corredor principal muito mais largo. É linda a perfeição da curva, gostava que alguém me fotografasse por satélite, lá muito em cima, e depois com um compasso verificar este milagre científico. Só para ver como é!
Não é raro termos a mania da conspiração. Ataca-nos assim de surpresa.
Às vezes, como da última vez, achamos que estamos a ser controlados. Que nos espiam. Ficamos quase com suores frios com todo o entusiasmo.
O meu colega do lado fica a pensar coisas, com os bichinhos a subirem-lhe pelas pernas, e eu tento elucidá-lo. Perguntava-me se 'eles' não nos controlavam os mails, se não liam tudo, de frente para trás, de trás para a frente, e então queria resolver a situação, alterando a proveniência das suas mensagens electrónicas.
Tive de lhe explicar, que se altera esses dados ele não recebe o que lhe é devido. Que a sua caixa de correio se abre por um fio ordenado por nós, uma chave. Uma caixa como outra qualquer que se abre e que nos dá a conhecer o que está no seu interior. E sem essa chave não recebe as suas cartas.
É assim que passamos o tempo. Ele fica sempre na dúvida, a olhar para as câmaras no tecto que o observam quando vai no corredor para a casa-de-banho. Eu a mim não me importa nada, ser espiado, antes pelo contrário, até me dá um certo prazer.
Tomamos café todos os dias. Duas vezes. Uma de manhã e outra depois do almoço. Telefonamos uns aos outros e dizemos: "Vamos lá?", e vamos, um após o outro.
É na cantina do local onde trabalhamos que bebemos o nosso café. Há dois tipos, um a que chamamos "mau" e o denomidado de "bonito", quatro vezes mais caro. Bebemos sempre do bonito. Mas quando nos queremos insultar pedimos um mau para alguém, só para demarcar o nosso minúsculo terreno intelectual. E quando isso acontece, rimo-nos sempre muito, porque não temos mais nada para fazer, e são esses momentos que fazem as nossas alegrias. É para isso que vivemos, diariamente, sempre à mesma hora.

«Olá Z.
Peço-te ao menos que leias a Ana Sá Lopes, mas porque não o MVA, independentemente de ser fundador da Associação dos Gamadores de Gasolina ou anjo barroco no Vaticano. Apesar das desconfianças culturais que o Pacheco Pereira me merece, leio-o. E, deixa-me dizer que até subscrevo algumas partes do artigo, tal como, de resto, subscrevi as declarações do líder do CDS que na RTP esta semana produziu sobre o assunto. Não é que a liberdade de expressão seja agora património deste ou daquele - se houve iniciativa nestes dias que me agradou em Portugal (eppure si muove) foi a concentração de meia dúzia de gatos solidários (também não podemos exigir muito, sempre é Portugal) - à porta da embaixada da Dinamarca que reúne figuras ideologicamente divergentes como o Rui Zink ou o Vasco Rato. Por isso, a liberdade de expressão, tal como o laicismo, é um legado do liberalismo democrático e ponto final.
Sobre as minhas liberdades, não é que considere a invocação do direito à liberdade de expressão uma intermitência subjcetiva e até estranho que a uses como arma de arremesso, mas adiante. E também, não é preciso irritares-te dessa maneira.
Voltando ao artigo do PP, só acho que mais uma vez se está a querer fazer disto um nós contra eles. Outra vez. Até gostaria de analisar com mais tempo o artigo do PP, mas do que tenho da memória, considero-o explosivo. Falar em guerra neste contexto é, no mínimo, inconsciente, e só não entende isto quem não vive num qualquer outro país da Europa que não seja Portugal.
Preocupo-me mais com a rua europeia do que com a rua árabe. A rua europeia é cada vez menos branca, católica ou protestante, menos identificável e mais híbrida. Fixar a identidade europeia é um trabalho de Sísifo. Pensar a Europa em termos de identidades nacionais dos povos é inoperante, irrelevante, discriminatório e contribui mais para arrastar o problema - que é um problema (também é estético, principlamente estético, mas enfim, esta já dou de borla) político, de relacionamento com o que é diferente, de competências interculturais dos cidadãos, das instituições e, dos media que cada dia que passa vomitam disparates, a televisão então é um ver se te avias - do que para desenhar uma compreensão mínima do que está em causa. É muito mais fácil dizer "nós europa e eles mundo árabe" do que explicar que "nós" somos muita coisa e que o mundo árabe não é só "o mundo árabe". É manifesta esta dificuldade em enquadrar em termos mediáticos esta pluralidade e esta alteração estrutural do tecido cultural europeu.
Falar em guerra significa arruinar todo o trabalho de cooperação de diálogo inter cultural, interreligioso, mesmo ecuménico, destruir o trabalhar de anos de antropólogos, sociólogos, políticos, arquitectos, psicólogos, artistas, juristas, e toda uma rede imensa de associativismo, agencias oficiais, não governamentais, institutos e centros religiosos, que se encontram espalhados pela Europa e pelo Mediterrâneo. Decretar políticas identitárias, como parece sugerir PP e essa abencerragem do jornalismo luso que é Luís Delgado (mas enfim cada um com os seus fantasmas), baseada nessa ideia de guerra, do por mim ou contra mim, seria impensável para quem viaje e viva um pouco fora de Portugal. Basta teres um amigo de Belgrado e uma amiga de Zagreb - e não é assim tão difícil encontrá-los por essa Europa fora - sentados à mesma mesa para entenderes os erros da defunta Jugoslávia, e as lições que a Europa deve dali retirar, ou perceber-se o que se passa hoje na Holanda e o fim do modelo dos pilares para se deslumbrar o que as políticas securitárias fizeram à auto-percepção nacional dos holandeses e ao lugar-comum da tolerância holandesa. O que seria de uma cidade como Roterdão, só para dar um exemplo!
Já agora para quem se interessar sobre estas coisas, se lessem alguns autores sobre o chamo "euro-islão"não lhes faria dor de barriga. Deixo aqui algumas sugestões:
Tariq Moddod, embora se incline mais para uma visão comunitarista da coisa do que propriamente para um ideia multicultural que a, mim, também não me agrada muito, mas, enfim, melhor do que "é a guerra, é a guerra"; ou o mais interessante, agora parece conselheiro de Blair, Tariq Ramadam - "To Be a European Muslim".
Estas referências são óptimas neste tipo de exercício epistolar - dá cá a mão Marcelo. Reforçam-nos a credibilidade, permitem-nos discutir com menos leviandade sobre os problemas, fornecem um espécie de hegemonia cultural sobre a discussão e além disso ainda nos garantem argumentos de autoridade.
Brilhante!
Abraços,
JM»

FUCK OFF RELIGION!

"Uma geração que consente deixar-se representar por um Professor Aníbal Cavaco Silva é uma geração que nunca o foi. É um coio d'indigentes, d'indignos e de cegos! É uma resma de charlatães alaranjados e de vendidos, e só pode votar e parir abaixo de zero!"
[COMENTÁRIO TRANSPORTADO DAQUI]
Querido,
Como eu gosto de acordar de manhã e sem querer passar a mão por ti e descobrir que estás duro. Não sei com que é que estás a sonhar, mas não me importo e isso até me excita. Então chupo-te, quero dar-te tanto prazer quanto o dos teus sonhos. Sinto-me realizada quando acordas e te deixas vir, depois levantas-te sem olhar para mim, nem olhas para trás. Tomas banho, fazes a barba e ficas mais bonito e confiante. Fazem-te bem os meus broches. Meu amor.
«I can't escape her. She lives inside me. She is in my hair. She's behind my eyes. She's under my skin... She's downstairs...»
Jonathan Caouette talking about his mother in "Tarnation"

Adolf Wölfli, "The Dragon Rock-Trimbach Railway Foot and Traffic Bridge in China," 1909.
From "From the Cradle to the Grave"
«Every Monday morning Wölfli is given a new pencil and two large sheets of unprinted newsprint. The pencil is used up in two days; then he has to make do with the stubs he has saved or with whatever he can beg off someone else. He often writes with pieces only five to seven millimetres long and even with the broken-off points of lead, which he handles deftly, holding them between his fingernails. He carefully collects packing paper and any other paper he can get from the guards and patients in his area; otherwise he would run out of paper before the next Sunday night. At Christmas the house gives him a box of coloured pencils, which lasts him two or three weeks at the most.»
by Walter Morgenthaler, doctor at the Waldau Clinic.
LINK: ADOLF WÖLFLI FOUNDATION
- que durante o fim de semana perdi o cartão para levantar dinheiro;
- que o meu cartão VISA perdeu o magnetismo e agora só funciona online;
- que não me apeteceu ir levantar aquele cheque;
- que só tenho uns trocos dentro do bolso;
- que já não são horas dessas coisas para me resolver os problemas estarem abertas;
- que não tenho nada de especial em casa para cozinhar;
- que já é de noite.
[HOMEM SEM LEME]

Para melhor compreender a Revolução Francesa:
"The sickness in France's heart", International Herald Tribune
"Early skirmish in the Eurabian civil war", Telegraph UK
"What's Wrong with Europe?", Der Spiegel
"Intifada in France", NY Sun
"Explosion in the suburbs", Guardian UK
"Les Misérables", WSJ
"C’est l’économie, stupide", Times UK
"French lessons for us all", Spiked Politics
"Reflections on the Revolution in France", Daniel Pipes
"The Revolt of Ennui", NY Times
"Get French or Die Trying", NY Times
"France is clinging to an ideal", Guardian UK
"Why France Is Burning", Washington Post
"Intifada a la francaise", Canada News
"But, What Country Is This?", Washington Post
"World Opinion Round Up", Jefferson Morley
"Don't Forget Paris", Salon
"Why Immigrants Don't Riot Here", WSJ
Gritos ouvidos neste lugar.
«Antes de tudo, quero dizer que não cultivo a tristeza, nem sequer sob a capa de uma qualquer estética, se há algo que cultivo é, ao contrário, um vitalismo radical. Se há algo que me apaixona é a realidade em nudez e crueza, é o aquilo que é. Por isso, agora falo para vos falar de um país triste. Mais triste ainda visto da distância, em que voluntariamente me coloquei há mais de uma década.
Antes de qualquer juízo, de qualquer discurso, a verdade é que o que há para falar é inequivocamente triste. E, paradoxalmente, o que há é um país em desaparecimento ou que, pelo menos para os mais lúcidos e desassombrados, talvez já tenha mesmo desaparecido. Para mim, perdoem a pessoalidade da coisa, se assim se pode dizer, a Portugal resta o estatuto de nação. Foi o lugar onde nasci, onde nasceu uma das línguas que falo: nada mais.
Tudo o resto é inerme, inválido, insosso, insuportável. Tudo o que resta é um aparelho de Estado, fronteiras de mapa, cada vez mais ténues, e uma colecção de indivíduos nascidos no interior delas ou seus descendentes, indivíduos sem destino ou rumo.
No sentido em que um país é uma entidade que existe por acordo entre homens livres, e no sentido em que ser triste não é, a limite, ser livre no sentido absoluto pois se trata de uma privação, Portugal é hoje, na realidade, um não-país.
François Julien, filósofo francês com o projecto de pensamento mais sólido das últimas décadas, afirma, sem inovação mas com grande acuidade, que “la crise de la pensée occidentale est identique à lá fin de l’impérialisme”*. Ora, dir-se-ia, talvez Portugal ainda não tenha sequer entrado num verdadeiro estado de crise dada a queda do seu império ser relativamente recente. Mas para esta afirmação ser logicamente aplicável é necessário, também, considerar que existe um pensamento português, o que não é de todo líquido pois, se existisse, as suas manifestações seriam visíveis e não são. Traduzir-se-iam em soluções e não traduzem.
Apesar de Eduardo Lourenço, de José Gil, de Boaventura Sousa Santos e dos diagnósticos e reflexões que nos oferecem, não existe, em termos gerais, de povo e de massa, um pensar digno desse nome não só ao nível mais básico da consciência da pobreza triste em que se habita., como na busca de alternativas urgentes. Existe um queixar-se, isso sim, um reflexo automático permanente e antigo que se alimenta de si próprio e cega e adormece e embrutece. A dificuldade constante tornou-se, no seu sentido etimológico, um estupefaciente. Se as dificuldades desaparecessem os portugueses ficariam sem tema e sem discurso. Quando, de raro em raro, elas se atenuam, esse tempo de algum desafogo não é aproveitado nem investido na criação de meios, de estruturas, de comportamentos, que previnam o regresso do mal-estar que resulta do estar mal.
A dinâmica é simples e transparente: as bases delegam no topo a resolução dos seus problemas (como é enfadonho repetir estas noções óbvias, estas frases feitas que a comunicação impõe) e o topo não merece confiança porque, claramente, tem primeiro que se servir a si próprio, consumindo nesse processo os escassos recursos materiais e intangíveis do não-país. Nesse não-país, junto da classe dos políticos, a noção e a prática do sacrifício é nula e anula qualquer desejo de um renascimento. Desde os primeiros passos na infância política, as pessoas - porque se tratam de pessoas, de carne e de ossos e não de algo impalpável, não de entidades sobrenaturais e ausentes como parece ser crença generalizada: o famoso e misterioso “Eles” - as pessoas, dizia, começam de imediato a subir por degraus de interesse, espezinhando a ética como um animal danado, incómodo.
A avassaladora e democrática maioria dos senhores e senhoras que vemos sentados (quando a isso se dignam) na Assembleia da República é um exemplo vivo de ausência de pensar. Por eles, como por lentes humanas, miramos o vácuo absoluto do pensamento, mas também da acção, de quem apenas consegue, e com exasperante mediocridade, operar no circunstancial, no imediato, por reacção. É uma desgraça de ponta a ponta.
Sem império e sem pensamento, aprisionando os seus cidadãos em salários que são verdadeiros coletes-de-forças (quer o Estado, quer as empresas, nacionais ou não), murando as suas magras alegrias com impostos altíssimos e impossíveis de evitar quando aplicados a bens de consumo, este não-país surge-nos de democracia trémula (vejam-se quaisquer estatísticas de afluência às urnas) onde se começa a ouvir cada vez mais, em certos círculos até melhor ilustrados, a expressão, a exigência: “menos direitos, mais garantias”.
Enquanto não houver uma verdadeira crise, esse território do continente europeu denominado Portugal viverá de dolorosa crise em dolorosa crise. À excepção de uns mínimos milhares de famílias de onde deveriam surgir os mais capazes e mais generosos (mas não surgem), Portugal é triste e sem projecto – basta ver o olhar entediado, perdido em névoas pós-prandiais da ministragem e da deputanagem (é um facto que nos arredores de S. Bento se alojam ninhos da mais alta gastronomia, ou se não há sempre o BMW para ir almoçar à Linha).
E por tudo isto, cada vez mais, quando o interrogam, “So where are you from Lord Gin?”, este responde, “ I was born in Lisbon, I am from Macau.”
Talvez uma solução possível, um vero projecto de pensamento político e de acção política, fosse a criação de uma Europa das cidades: as estruturas tradicionais da civilização, sistemas de vida democrática muito mais flexível e directa, de administração e gestão muito mais fáceis.
Se o actual projecto Europeu titubeia é porque ninguém nele se revê de modo a sacrificar a sua identidade. Por outro lado, parece-me, uma Europa das cidades-república seria inovadora, renovadora da essência da história do continente, e reforçadora das identidades.
As cidades, não os países, são a raiz da Europa. Imagine-se uma constelação de urbes, co-existindo em rede, especializando-se em indústria, em cultura, em lazer, gerindo os recursos dos seus lebensraum rurais adjacentes, resolvendo os problemas de forma descentralizada e veloz (na verdade a noção de centro passaria a ser puramente nominal, quiçá eventualmente rotativa). Imagine-se o regresso da pólis e de homens verdadeiramente soberanos e envolvidos. A queda de toda uma estrutura política insolúvel se imagine, e dê-se labor ao pensar, aquilo pelo qual somos livres. Esse primeiro passo é, sem dúvida, uma responsabilidade da filosofia e corresponderia, simultaneamente, a um revitalizar do seu papel fundamental, no entanto é à política que cabe fazer a transmissão das ideias para que estas se possam tornar ideais. A ética da política é a pedagogia.
*François Julien, in «Penser d’un dehors (la Chine)», Paris, Éditions du Seuil, 2000.
Nesta obra, em formato de entrevista (com Thierry Marchaisse), F. Julien propõe que para nos arrancarmos à nossa própria tradição de pensamento, num acto de higiene do pensar, é necessário faze-lo de um “fora”, de um exterior. No seu caso, e pela sua formação de sinólogo, Julien elege a China como lugar desse pensar sobre as categorias europeias, num movimento inaudito e sem paralelo na história da filosofia. A sua obra, já extensa, parte, sobretudo, da estética dirigindo-se no sentido de outras áreas, como a política. Recomenda-se sem reservas a sua leitura a todos os que desejem acompanhar o que de mais pertinente se vai desenvolvendo no campo da filosofia.»
LORDE GIN por RUI CASCAIS in Hoje Macau

Afinal a história do arrastão na Praia de Carcavelos nunca existiu. Diz A Capital, dizem dois jovens detidos, dizem dois jovens sem culpa, apanhados ao acaso, um branco, um negro. Afinal dos quatrocentos jovens, perdão, criminosos, pertencentes a gangs organizados, que interromperam o sossego de um dia de praia, não sobra nenhum, o que aconteceu não passou de uma brincadeira de crianças, jovens, no final do ano lectivo. Afinal a notícia não o foi. Afinal foi tudo mentira. Afinal...
Os mesmos órgãos de comunicação social que deram cobro à notícia, que a multiplicaram, que a difundiram, vêm agora, como se não fosse nada com eles, desmenti-la, dar-lhe a volta, inseri-la noutro contexto. Deturpá-la? Que é isto afinal? Eu sei que às vezes reformulo a minha opinião. Mas assim deste modo, à escala mundial, já que as imagens correram mundo, é sinal que o País está profundamente doente. Profundamente em estado de sítio. Mesmo que afinal não tenha havido arrastão nenhum.
A imprensa é sem dúvida o meio que comanda tudo o que se passa no país, que forma a opinião da sociedade em geral. Eles é que sabem. Depende só da disposição como acordam. Não há mais ninguém que mostre a realidade. Que a prove. Que a demonstre. Existir não chega. Existir não existe.
Segue o artigo retirado d'A Capital.
Confusão mostrada pelas fotografias que correram mundo só aconteceu quando chegou a polícia.A história do arrastão que nunca existiuHouve roubos, como sempre na praia mais perigosa do país, mas um «arrastão» como acontece no Brasil ninguém viu no dia 10 de Junho em Carcavelos.
Banhistas, polícia e jovens presos há uma semana em Carcavelos garantem que o «arrastão» do passado 10 de Junho, afinal, nunca existiu. Todos confirmam que existiram assaltos pontuais no areal, apesar de não existir uma única queixa de roubo na PSP, mas as imagens daquele dia, difundidas por todo o mundo como um «arrastão» organizado por 400 pessoas, mostram sobretudo a fuga de centenas de jovens provocada pela chegada da polícia à praia.
Pedro e João, alunos numa das várias escolas secundárias da Amadora, e dois dos jovens detidos naquele dia pela polícia, garantem que tudo não passou de uma enorme confusão. O início do Verão aproximava-se e, como noutros anos, explicam, «milhares de alunos das várias escolas da Linha de Sintra foram passando a palavra dizendo que no feriado iam à praia a Carcavelos».
O ponto de encontro seria, como sempre, a velha bola da Nívea, mesmo no centro da praia. Hora e meia de viagem depois, Pedro e João (nomes fictícios de dois adolescentes de 16 e 17 anos de cor negra e branca, respectivamente, que nos recebem à porta da sua escola secundária) chegaram ao início da tarde à praia, que na zona da bola de Nívea já estava completamente cheia de grupos de jovens, sobretudo de pele negra.
Aqui, a versão da polícia, responsáveis dos bares da praia e restantes banhistas de Carcavelos diverge da dos jovens detidos a 10 de Junho na praia. Pedro e João garantem que tudo começou quando uma roda de jovens, sobretudo negros, se juntou à volta de um grupo com um rádio a dar músicas de hip hop. No meio, outro grupo dançava.
[continua na edição impressa]
por NUNO GUEDES / A CAPITAL
E assim Acontece. Em Portugal.
Apresento-me.
Apresento-me..
Apresento-me...
Se pensa que vai entrar num MOTEL recheado de surpresas, de conversas animadas, de teorias sentimentais , de música, de sonhos e pesadelos, de desejos e até de sexo, está enganado!
Este Motel já teve a sua época. É que tudo tem o seu tempo, depois...é inevitavelmente o declínio. As camas estão por fazer, as portas dos quartos não têm fechadura, o restaurante já não funciona, só serve ginginhas em copos de três (querem pior?). Na recepção encontrará uma boazona decadente a limar as unhas, que por aqui se manteve sem razão, e que pela mesma razão se vai embora. Para quem gosta de fenómenos espectrais, talvez valha a pena dar uma espreita, é que vive um fantasma no Motel Prusidente, uma mulher que se enfiou e se perdeu num dos quartos e que ainda hoje é vista a vaguear captando imagens dos poucos que se atrevem...
O que aconteceu? Dizem que foi uma virose. O Prusidente anda por aí a carpir e os outros seguiram-lhe os passos. A Madame Satã foi de retro com o seu amigo, a Produtora de Inventos e o Mestre foram de Lua de Mel, nunca mais ninguém os viu.
Vos deixo com uma frase do Mestre:
"Perdições"
Amigo sem A não é como Revolução sem R
Amigo sem A, continua a ser amigo é o Migo
E estamos cá é para andarmos de braço dado.
ATÉ SEMPRE!
É muito simples chamar as coisas pelos nomes. É simples dizer. Dizer o sentir. O árduo, o obscuro. O difícil é descobrir de onde vem o sentir, o que o traz para dentro de nós, de repente, sem pedir. São desejos, sensações estrondosas, arrepiantes. São pensamentos. Ideias. Não têm foco, não têm corpo, são apenas impulsos que atordoam a alma. A ideia do momento.
Não é a ideia do corpo, ou o desejo do corpo, é mais, muito mais, é a fusão em algo incorpóreo, que excita dos pés à cabeça. E é também a mente, a exuberância da mente. A fala, é muito a fala.
Falo de amor. Do amor a sério, verdadeiro, sem transparências. Falo do sentir do amor, da falta de sentido, da falta de lógica, do perigo, que o amor transporta. A verdade do amor, escrita cá dentro, que mais ninguém sabe, mais ninguém sente.
O desejo de estar perto. De estar dentro. O desejo cego do sublime, do fundir sem corpo, a aliança imaterial impalpável. Maior que o universo, maior que todos os universos juntos. Maior que o infinito. Infinitamente maior que o infinito, que o ilimitado, que o absoluto. Um sem fim imenso.
O amor sem limites nem medidas. É disso que falo. Do meu amor. A extinguir-me numa insaciabilidade que me exalta. Em combustão permanente. O amor exasperado de paixão, maior que o tudo. A enfurecer o sentir, a revolver o espírito. A inconsciência.
Sou eu a bater forte. Num corpo infinito, sem espaço. Onde tudo roda, tudo ferve. Falo de ti, meu amor. De ti, apenas. Sem palavras para te descrever. Sem uma única palavra para te nomear.
Não há palavras, frases, no mundo, em qualquer idioma, que te possam eleger. Nenhuma. Nem todas.
Por isso, falo de mim. Apenas.
Senhor dirigente desta casa, quer-me parecer que esse recado, à laia de esclarecimento, porventura colocado por alguém debaixo de sua porta, não é dirigido à minha aborrecida personalidade. Parece-me ser um recado transverso em que tanto o emissor como o receptor estão subentendidos no próprio teor do texto. Senão vejamos. Afigura-se-me que o verdadeiro emissor é outro que não esse, tentando aliviar eventuais pesares tão pouco sentidos por outrem que não por si, afigura-se-me de igual forma que o receptor nunca solicitou tais satisfações e menos ainda póstumas justificações. Senhor Prusidente, eu sou um chato e como chato que sou não padeço de perenes sentimentos.
A. CASTELLANI
Assim como Kant, Wittgenstein estabelece na linguagem os limites da razão, do pensar e do dizer, para libertar, não mais a crença, mas a linguagem, para que possa "mostrar" (liberta das exigências de seus pressupostos lógico-científicos) a ética, a estética, o inefável e o Místico, mas ao mesmo tempo, mostrar o acontecer, tomado então como puro acaso: se as coisas simplesmente são, devo calar-me diante delas. Devo "dizer" apenas a verdade científica, segundo os rigores do método lógico – e esta é a função e os limites da filosofia. Em Kant, tratou-se de determinar os limites da razão pura, sendo que os da filosofia eram ainda os de estabelecer uma razão prática e um juízo estético e teológico; com Wittgenstein, os limites da filosofia são apenas os da razão científica: quanto à ética, à estética e à crença, que podem apenas ser mostrados (por algum tipo de linguagem não proposicional, mas não pela filosofia, cuja linguagem deve ser lógica), é melhor ficar calado.
Já Heidegger (ontem enquanto me ungia com óleos perfumados)
descreve como e porquê se afastou da fenomenologia, a partir de um incomodo gerado por uma contradição interna da obra Pesquisas lógicas do seu então futuro mestre Husserl. O primeiro argumento do livro La Logik. Die Frage nach der Wahrheit ( Lógica. A Pergunta pela verdade) afirma que uma teoria do pensamento e do conhecimento não pode fundar-se sobre a psicologia, mas sim sobre a lógica – neste ponto, concorda com Kant e ainda mais com Wittgenstein. No segundo argumento, no entanto, descreve os actos essenciais da consciência na edificação do conhecimento, retornando, num certo sentido e apesar de tudo, à psicologia, perguntando-se: "em que consiste o próprio da fenomenologia, posto que ela não é nem uma lógica, nem uma psicologia?" E responde: a "subjectividade transcendental" e busca explicar "a estrutura dos actos vividos", assim como "os objectos vividos nos actos de consciência, do ponto de vista da sua objectividade" determinada pela própria consciência (objectividade "transcendental", determinada pelo sujeito do conhecimento). Conclui, por fim terminando a massagem: "o que, para a fenomenologia dos actos de consciência, se realiza pelo manifestar do fenómeno, é pensado por Aristóteles e em todo o pensamento dos gregos como ???????, como o aberto sem retraimento da presença, o seu desvendamento, o mostrar-se." E sendo assim, continua Heidegger, como e de onde se determina a questão própria da filosofia? "Trata-se da consciência e de sua objectividade? Ou do ser do ente no seu não retraimento e no seu retraimento?"
Esmurrei o carro da Junta. Foi sem querer. Distraí-me a olhar para umas pernas e com o pensamento que veio a seguir. Como o olhar não voltou para onde devia, esmurrei a viatura. Como se fosse de papel, o carro da Junta, amarrotou-se, encolheu-se, gritou. Ui! Incrédulo não queria acreditar nos meus olhos, que ainda não estavam lá. Não queria ver. Eu sei que o carro é da Junta, que tem arranjo, que se endireita, mas a sensação do momento que não devia ser momento ficou a latejar-me nas fuças. O senhor em quem bati, incrédulo também, face ao seu arranhãozinho invisível ao lado do meu amarrotanço, riu-se, encolheu os ombros e quase me pediu desculpa. Por estar no momento em que não devia estar. E afastou-se. É o carro da Junta. É para estimar. Eu, o Prusidente, embriagado na distracção, teimo em criar-lhe tatuagens, à frente e atrás. Coisas de muito pouca ordem. Mas que magoam, o orçamento sentimental. E, para além disso, fica mal, passar nas ruas da cidade, e as pessoas pensarem, lá vai o Prusidente com o seu carro amarrotado!
Não vai durar muito. É preciso preparar a viatura para qualquer visitante ilustre. Que se avizinha.
Segura-te. A ti. É melhor. Estou à tua espera. Com a minha língua de tempestade revirada. Temo os teus sonhos eléctricos, quando rezas na máquina de luz. Temos vida. Temos mesmo uma coisa boa a andar.
Vem. Se pensas que vamos conseguir, é preciso que te segures a ti.
Dá-me uma ajuda. Podes levitar-me. Se o todo em tudo for verdadeiro.
Oiço a tua voz no fundo do quarto. Chega-te mais perto. Preciso de ver a tua cara.
Tenho que te dizer, não sou eu que te vou introduzir, mesmo conhecendo as pessoas que te podem mudar.
Há caminhos por onde não vou, mesmo que te aches especial.
Todos têm segredos e este é o meu. Se roubei e menti foi porque me disseste. E agora nada faz diferença.
Podias ter sido tu. Se para além do olhar te tivesse seguido. Ou perguntado se o que estava a ver era o mesmo que te aclamava. Fiquei. Neste nó. Na mesma linha. À espera de um descarrilamento. Que não veio.
Se te tivesse seguido não estava aqui. Cego. Ou a caminho.