
Já não suporto esta cidade, nem a gente, nem a mim nesta cidade. Que fazer? Mudar de mim ou de lugar?

«Todas pálidas, as redes metidas na voz
Todas pálidas, as redes metidas na voz.
Cantando os pescadores remavam
no ocidente - e as grandes redes
leves caíam pelos peixes abaixo.
Cresciam as barcas por ali fora, a proa
aberta como uma janela ao sal.
Metida na voz, toda pálida, a proa rimava no ocidente
com a cal que os pescadores
remavam, cantando grande, pela luz fora.
Ao sol, ao sal.
E o espírito de Deus como num livro
movia-se sobre as águas.
Com seu motor veloz à popa, veloz, peixe
sumptuoso, o espírito de Deus, motor de um número de cavalos, galgava
a antiga face pálida das águas. Enquanto,
cantando as redes,
os pescadores metiam as mãos cheias
de cal pelos grandes peixes abaixo.
E pelas barcas fora a luz remava
pelo ocidente todo pálido, rimando
as redes leves com a proa.
E o peixe espírito de Deus, rangendo
o motor, rompia com um número,
remando todo pálido os seus grandes
cavalos. Deus
cantava no ocidente sobre as redes de cal,
a proa aberta - como as guelras
da luz. E os pescadores
metiam as redes pelo espírito de Deus abaixo,
E os remos rimavam com as redes
leves no peixe sumptuoso.
Por ali fora as guelras caíam na voz
dos grandes pescadores.
E Deus metido então nas redes, puxando
cor de cal para dentro
das barcas, as mãos cantando cheias
de pescadores.
E sobre as águas rangentes, rompendo
o leve ocidente, os pescadores remavam
o espírito de Deus para terra - peixe
de motor à popa - e a proa
grande aberta.
E cantavam o seu peixe sumptuoso, espírito
pálido na leve cal do ocidente
cantando.»
in Máquina Lírica
Herberto Helder
A canção que na corrente da tua melodia
Inunda as estrelas
Soa agora no pátio
Enquanto meu coração bate a compasso.
Todos os meus botões rebentam em flor
Quando ris;
O vento sul embriagado com o perfume
Das minhas flores perdeu o rumo.
Ó Brancura, enviaste uma onda de cor
À minha alma;
O meu coração que murmura enredou-se
Na rede do teu riso.

A hora em que não sabíamos nada uns dos outros / O jogo das perguntas ou a viagem à terra sonora - Peter Handke
Livros Cotovia - Trad. e introd. de João Barrento - Centro de Dramaturgias Contemporâneas - Porto

clepto-cracia: elemento de formação de palavras, de origem grega, que exprime a ideia de roubo; cracia é o que já se sabe.

Sonhei com isto esta noite. Há quanto tempo, uma memória esquecida, de lá de trás, uma das florestas encantadas. E um palácio assim.
Seu vestido, uma nuvem, seu rosto, uma flor,
cintilante como orvalho na Primavera.
Estou no cume da montanha de Jade,
ou num terraço do paraíso, ao luar?
Caminhemos, caminhemos desesperadamente
juntos ainda na noite profunda
e leve e aveludada do Verão.
«Este passo encontrado que nos guia entre as mesas
este chegar tão tarde às pontes levadiças
para uma exposição de rosas no nevoeiro
este eterno trabalho de dadores de sangue
é o que mais nos defende do massacre
vá recomeçemos
do ocasional gemido do fantasma eriçado
as notas principais:
pendurar numa árvore o rio capitoso de tantas lágrimas
descer de chapéu na cabeça até ao patamar
dizer para sempre aos cabelos da noite
que basta descalçar lentamente um sapato
que basta ter achado atrás do travesseiro o relâmpago azul do contacto com as mãos
ou ter ido seguro por lençois de linho a devastar de arbustos as solidões do teu corpo
do qual recordo ora as mais vivas carícias ora um mar interior de grande obscuridade
feito de todo o mármore do mundo de toda a areia que sobra do mundo erguido para o silêncio que estrutura o dorso de todas as paisagens belas frágeis do mundo
descer depois já a chorar de medo e a tremer de amor todo o lado de cá
chegar de rosto na água a aparecer às janelas
com um capuz no sítio da cabeça
ah um automovel
Nós vivemos há muito nesta espécie de caverna bruxa
alta pelo silêncio que nos veste
real pela erosão de um sol peculiar que ilumina o recinto intermitentemente
um sofá que não é para aqui chamado
também podia servir de modelo à ampla descrição do fenómeno a luz
que nos excede e emite nos liberta e sufoca
depois há um que entra a perguntar o que é
e tudo assume um pouco o ar policial
dos cascos em fuga pela realidade fora
Merecemos o nosso passo de bichos de dilúvio
merecemos que nos ceguem todos os dias
merecemos estar sozinhos rodeados de prédios
merecemos ter connosco toda a vontade
fim princípio moleza dos costumes
assassinatos histórias de basílicas
e até porque não dominicais
mas como não gritar à passagem triunfal do Grande Monstro Parado
como sermos bem nós e a localidade
muito bem disfarçada de necessidade
pela subterrânea passagem que é nossa
como não aspirar a um ponto de espírito um ao outro
em que a deflagração cristalize uma rosa ascensional
e como são as palavras para dizer que te amo
fantasma
cidade doida
braço contra as nuvens
alta promessa minha sempre em vão corada
Apetece contar uma história tão estranha que as pessoas saiam aos tropeções de casa
apetece anunciar com voz fanhosa
cronologicamente cruelmente
todas as horas do pasmo
todos os dias do calendário do medo
todas as terças-feiras da angústia de haver rosas
todo o fumo e toda a raiva de um relógio de sol.
Tomaram-nos o pulso e ficámos febris
com o amor que não há a inundar-nos a cara
este amor não esquece este amor
não se esquece há um rato
na tua camisa o céu brilha o céu está
os amantes retomam os seus quartos
num plácido e extenuante recolhimento gráfico
mas não basta encostarmo-nos à parede
para que tudo ressurja e vestir de novo as fardas
a imaginação ainda não é
para servir de pedreiro A Imaginação
as radiosas salas superiores
através da cidade nos jardins nas gárgulas
abre-se o leque das mil cenas celestes
com o homem na ponte cor de rosa velho
as mãos na água a cabeça no mar
Onde é esta partilha este verdete
esta limalha que nos sobem à boca
onde é esta verdade que empurra as estrelas
para intranspossíveis mundos transportadores
uma última vez despedaçados amemos
amemos a nossa pedra o nosso olhar de mil cores
o mármore sem remédio das figuras bloqueadas
como são as crianças e os gigantes
uma última vez e mais estranhos
mais desertos de enigmas mais atrozmente firmes
sob a opulenta folhagem dos soluços.
Dir-te-ei que os meus dias foram os teus dias o teu leito o meu leito este corpo este mar
dir-te-ei que há uma rosa oculta num jardim e que ela é ma e outra como nós fomos
estas pétalas são os teus olhos fechados
são as ondas por onde sopra o vento e nasce a cor da aurra e o grito gelado das coisas
Dir-te-ei foi agora
cintilante mortal cortado a fogo
e breve
rigorso Na sombra repousante
os teus olhos os teus
vãos pensamentos
como um leito avançando sem suporte
ou um navio perdido do dono
Tu partirás primeiro de lado contracenando
e arrastando contigo toda a paisagem
vejo uma águia assustadoramente voando alto
na retina
do vento
vejo o que foi permitido:tocar o horizonte.
Amanheceremos fantasmaa doutro teatro de sombras
seguiremos imóveis caindo por distracção
de amarra para amarra tomaremos o eléctrico
para o fundo da Terra cidade lúcida e quente
a aí expostos de novo sempre à fúria de curiosos engenhos destruidores
interceptaremos outra vez a vida
digo-te sim faremos girar a Terra
com o polegar nos polos canto telegráfico só captável pelo ar do Karakala, entre os gelos gigantes do Tibete
e o indicador nos céus realizando o futuroo da harmonia
para além de uma lágrima de um adeus com os olhos
numa estação sombria vomitando morte.
Dito isto fica um grande espaço vazio
onde o homem está só não já de corpo ou espírito
onde o homem está só não jé de corpo ou espírito
mas de todo o murmúrio e todo o espasmo
e então sim contra os vidros
o amor soluça tempestade
deuses cegos assomam às janelas e tombam
sobre o odioso chão que ladra e ladra
uma aurora de cães afivela o teu pulso
e a cobardia responde à cobardia
como a coragem responde à coragem
Um pouco de certo modo por toda a parte
há homens desmaiados ou simplesmente mortos
O AMOR REDIME O MUNDO diziam eles
mas onde está o mundo senão aqui?»
Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura
Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio
Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante!
Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício
Não é verdade, rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola
Que afinal o que importa não é haver gente com fome
que assim como assim ainda há muita gente que come
Que afinal o que importa é não ter medo (...)
Centenas de caribous atravessam um rio algures na América do Norte, todos os anos por altura do Outono. Os lobos e os ursos esperam nas margens à espera de uma refeição fácil, à espera de um acidente. Uma pata partida ou presa nas pedras do fundo do rio é tudo o que lhes basta.
No dia seguinte uma cria de caribou lambe uma bola disforme de carne cor-de-rosa, distinguem-se intestinos e outros orgãos mas não um caribou.
Tem o cheiro da Mãe. Deita-se ao lado do que resta da progenitora à espera que os lobos ou os ursos venham acabar o trabalho.
Espalhado por Lisboa agora um anúncio a um perfume da Cacharel. Chama-se 'Amor' mas a imagem que lhe serve de suporte diz outra coisa: SEXO.
Um adolescente, carnes rijas, com boquinha à Leonardo di Caprio.
Já me passou pelas mãos uma amostra e saiu de lá um cheiro enjoativo, pesado, adocicado.
O amor que eu conheço não tem estas cores, pesos e cheiros.
"Já ninguém escreve cartas" - Dizia uma das manchetes do jornal gratuito Metro há uns dias.
Senti-me em vias de extinção.
Porque há sempre uma (nova) primeira vez para tudo, e que às vezes pode surgir tão depressa quanto a última.
Ou: quanto do que escreves é originalidade & autonomia, ou a surpresa de veres mudadas as palavras tuas.
Tenho dito.
Era assim:
"No confronto entre ti e o mundo opta pelo mundo."
Bom dia! Alguém viu por aqui "A Loucura do Útil" do Georges Bataille? Se alguém souber do paradeiro é favor enviar um telegrama cantado para o meu jardim. Agradecido e boa noite!
"é um tipo compreensivo sem dar lições de moral"
Hugo Pratt, sobre Corto Matese
Despeço-me sempre a estas horas largas. São as horas mágicas do meu jardim em que nada se sabe, este princípio virginal do mundo fabricado no paradoxo do dia e da noite, no circulo do tempo que nos enreda. Já cumpri a maldita função, e encerro o jardim, até ao novo princípio e ao novo silêncio. Gosto de me deitar na cama dos limbos, nas anestesias suaves e indolores. E gosto tanto do meu jardim!
O respeitoso membro de Azevedo e Silva
nunca perpenetrou nas intenções de Elisa
que eram as melhores. Assim tudo ficou
em balbúrdias de língua cabriolas de mão.
Assim tudo ficou até que não.
Azevedo e Silva ao volante do mini
vê a Elisa a ultrapassá-lo alguns anos depois
e pensa, pensa com os seus travões
Ah cabra eram tão puras as minhas intenções
E a Elisa passa rindo dentadura aos clarões.
Alexandre O’Neill: Entre a cortina e a vidraça - 1972
Imagina o que nós dizemos aos outros e como eles mudam de sentimentos. Falamos para o mundo e eles julgam-se o mundo. Imagina como eles sacodem o coração quando as palavras que ouvem ou lêem começam a roer a admiração que têm por nós. Deixa, isso sou eu a pensar porque não tenho mais nada que fazer. Apetece-me desmontar pessoas. Sim, pessoas que eu descobri serem falsas por ordem de algumas palavras que disse ou escrevi. Falei disso a alguém e sabes o que me disse? Quem escreve sobre as pessoas dessa forma depravada e injusta corre o risco de se perder numa imagem desumana criada por si. Então eu tinha um dia negro à minha espera. Lembrei-me quando era uma criança e escrevia no profundo da minha ingenuidade. Escrevia sobre o ódio, mas o ódio que eu escrevia era natural demais para ser um sinal perigoso para ser destruído pelos outros. Imagina agora como posso eu ser diferente se o mal do que escrevo está gravado nos outros. E tu sabes que eu só escrevo como se fizesse uma limpeza emocional naqueles que realmente amo. Tenho este hábito de recuperar o humano para me alimentar dos seus fracassos. Estou onde está o sofrimento, tu sabes, mas as palavras são ainda a minha defesa. Sempre quis saber muito sobre os outros, muito para além do humano, e agora julgo não saber nada sobre mim, nada numa terrível consciência de viver por eles as suas tristezas. Quem me lê não imagina o sofrimento que foi preciso condensar num tempo escrito para que tudo voltasse a ter uma vida que escapasse à ficção de existir no meu pensamento. Peço silêncio para as minhas palavras.
em Escrita Ibérica
Late afternoon. Lennie comes to the river. His dead Aunt Clara appears and scolds him. A huge imaginary rabbit tells him George will leave him. George shows up and reassures Lennie. While they talk of their dream, George puts the Luger to the base of Lennie's skull and fires. When they see Lennie everyone assumes George took the gun from him and shot him. Slim says "You hadda, George," and takes him for a drink.
from "Of Mice and Men"
M estava desorientada, e uma mulher neste estado bate inconscientemente contra os vidros da sua própria razão, estilhaçando tudo à sua volta. Telefonou dois dias depois e confessou com alguma amargura e revolta que fazia sexo intensamente com o companheiro quando ele chegava das noitadas com a amante. Questionava-se, entre soluços, como é que ele aguentava tanto sexo. M obrigava-o a ter relações com ela, num cocktail de angústia, desespero e vingança. Esta imposição sexual arruinava-a no seu íntimo, mas mesmo assim continuava com o esquema humilhante de querer salvar uma relação através das suas debilitadas emoções. M é uma mulher fraca por natureza, e numa situação destas a sua fraqueza transformava-se numa força negativa e conflituosa. Queria saber como era a outra na cama, se fodia como ela, posições e fantasias; nada escapava à sua forma de inquirir como se procurasse nas respostas do companheiro (muitas delas suspeitas e desvalorizadas pelo ambiente tenso que se instalara entre eles) um motivo que realmente esclarecesse a violação de fidelidade que ele lhe devia. Por mais cambalhotas que desse na cama, M nunca conseguiria descobrir um indicador de preferência da parte do companheiro que a pusera naquele estado e transformara a sua vida para sempre. Não daquela forma tão baixa de enfrentar um caso de adultério. A sexualidade em M não era uma resolução em si, mas um problema a agravar-se em cada noite que passava. A imagem que ela transmitia era a de uma mulher fragmentada em muitas histórias de mulheres que já passaram pelo mesmo. Em M o sexo era o ponto estratégico e o seu meio de defesa, porque era pelo sexo que ela pretendia recuperar o seu lugar de mulher única e ao mesmo tempo esgotar no companheiro todas as formas de diversão extra conjugais. Por fim, tinha uma voz de sexo estafado quando nos disse antes de desligar que nunca na vida tinha fodido tanto como agora.
Tudo tivera início numa brincadeira: beliscões; palmadas nas nádegas; dentadinhas nos seios e no clítoris; alguma violência simulada no limiar do suportável. Nessa tarde estavam dispostos a aceitar essa experiência sadomasoquista. A parte mais dura da sessão viria na inconsciência febril do acto sexual. Teriam de se relacionar como personagens de um teatro burlesco. Era uma condição confortável se sentissem que não se conheciam de lado nenhum e nunca fizeram amor. A familiaridade afectiva tornava-se um obstáculo de contornos vergonhosos. O incitamento à agressão partia dela; uma voz escandalosa e desafiante que se ocultava num murmúrio de luxúria e medo do que poderia sentir. Mas a voz dela era a presença que orientava a dor e o prazer que se alojava no corpo. Ele era o instrumento agressivo. Aquele que seguia uma voz no túnel do seu desejo. E ele não poderia nunca ultrapassar a zona escaldante que delineava a sensação de acidente corporal. Teria de haver um equilíbrio de fronteira que vigiasse os excessos cometidos. No pedestal feminino, numa fúria de cego que perdera o seu único guia, ele estava sempre em risco de criar o perigo emocional, encenando uma sexualidade sem regras friamente definidas. O amor estava desalojado do comportamento adulterado que os dois haviam proposto como primeira experiência. Em níveis diferentes de sensibilidade, o desempenho sexual de cada um preenchia o vazio sexual do outro. Semelhante a um processo de animação radical pornográfico, a violência sexual fazia parte de uma abstracção do amor. O sofrimento aguardava-os nesse compartimento regulamentado pela inexperiência deles.
Levantou a cabeça do jornal e olhou para a mulher deitada no sofá em frente. Estava para lhe fazer a pergunta há bastante tempo, mas não tinha a certeza se ela lhe responderia ou o achasse um tipo perverso possuidor de um sistema de ideias sexualmente indecorosas. E a pergunta era simples: se ela guardava na memória a queca mais fantástica em vinte anos de casados. Ela olhou-o com algum incómodo traçado no rosto, mas ele insistiu: gostaria de saber se houve um momento de sexo entre os dois, uma imagem que ainda fosse visita constante na recordação erótica dela. A resposta foi negativa e tão fria como uma rapidinha encostados ao balcão da cozinha. E não valia a pena insistir no arquivo sexual da mulher porque ela acabou por confessar a sua falta de especialidade para avaliar o erotismo desses actos. Para ela todas as quecas eram iguais e vinham desprovidas de intensidade que as distinguiam umas das outras. O empenhamento sexual dele; as performances mil vezes idealizadas, originais na abordagem ao corpo; todo o amor investido em sociedade com o desejo; as fantasias e paraísos construídos pelo prazer; as cascatas de palavras luminosas, cada uma a relampejar no ouvido dela as obscenidades e as indecências que mantinham o corpo aceso; tudo isso não passava de um péssimo poema na sua vida conjugal. Não havia um momento de doçura no instinto sensual daquela mulher. Nenhuma inspiração que activasse positivamente a sua memória sexual. Uma mulher-moldura que se adapta a qualquer tipo de imagem que se faça dela. Ele voltou a colocar os olhos no jornal. Nessa noite eles fariam sexo como das outras vezes. Sem história.
Não há sentimento mais verdadeiro numa mulher do que o amor duma puta por um homem. As putas não se sentem na obrigação de amar ninguém. Quando amam um homem, então é verdade o que sentem. Elas raramente fazem a encenação do fingimento. Em questões emocionais, as putas têm um comportamento honesto e transparente. São ingénuas e infantis na relação com quem amam. A velha imagem do afectuoso compromisso da puta com um homem está associada à carência paternal. A puta vê sempre um pai ou um irmão mais velho numa relação que lhe ofereça segurança afectiva. O materialismo é uma questão secundária quando o amor é maior e corrompe a astúcia comercial da puta. Um beijo de amor duma puta é o acto mais humano e mais sagrado do universo. A intensidade como se entregam e a religiosidade sentimental do seu amor fazem as putas sentirem-se amantes de Deus. A puta ama um homem na base da sua religião emocional. É uma entrega inequívoca em relação ao homem e a Deus. As putas que frequentam a igreja, fazem-no não para o ritual do desvio dos seus pecados, mas para solidificarem a sua entrega ao santíssimo. Um homem que é amado por uma puta não se sente obrigatoriamente religioso, mas sente-se todavia tocado pelo sagrado. É como acreditar em Deus e não frequentar a igreja nem saber rezar. Nestes casos a sexualidade não é um plano prioritário na relação. A espiritualidade é o segundo sexo duma puta. E é nesse universo que se faz a conversão ao amor. Tudo é verdadeiro e inaugural como o primeiro amor e o primeiro beijo. Tudo é virginal como se as sensações de amar e ser amado fossem citações da Biblia.
Tinham discutido durante o dia inteiro. Nada de grave, apenas a má disposição matinal que é transportada da cama para o quarto de banho e que depois se propaga como um fogo lento e irritadiço na secção cerebral amorosa. Isto se ainda houver amor entre o casal. Mesmo que o amor se tenha transformado em novas imagens para cada um deles, ou que ela se comporte sexualmente enfadonha e inactiva espiritualmente, e que não olhe com amor intenso a figura repetida e enjoativa que ele representava, a noite pode transformar o cenário mais péssimo da vida duma mulher. Tem acontecido com ela, e por esse motivo já atribuiu o fenómeno à sua passividade sexual. Pensou ligeiramente se não seria uma marionete, ou o seu comportamento não estaria ao nível de uma boneca insuflável. Para uma mulher que ao longo da sua vida de casada foi hipotecando o desejo e o prazer, uma mulher que em tempos de juventude e novidade pornográfica tentou cultivar o êxtase mais profundo e interior, enfrentava agora o acto sexual como um frete rotineiro semelhante ao compor as roupas da cama todas as manhãs. Mas ela sente-se triste e humilhada por isso? Sente-se mal amada pelo companheiro, esse que só a quer para se fazer representar no papel de amante? O jogo encantado da mulher está na recusa de se dar ao homem numa total abertura emocional. Havia um acto de vingança enfatizado na doce renúncia de se entregar e sentir prazer. A mulher amava no verso de si mesma. Amava com o negativo de se sentir amada numa revolta que não controlava. Sentia-se como se ele decalcasse no corpo dela um conjunto de selos raríssimos e valiosos; selos belos e atenciosos colados por cima de estampas desagradáveis e agressivas. Ele fazia o ritual da maquilhagem comportamental. A noite era a sala do arrependimento e da elevada compreensão. A noite, a luz farsante do ambiente nocturno, era o esquecimento. E eles envolviam-se sexualmente sem qualquer identidade.
Incomodado com o facto de ser infiel, pensou colar o corpo da mulher ao rosto da amante. Resultado: enquanto fodia a mulher, olhava a amante nos olhos. E quando olhava a mulher nos olhos, fodia o corpo da amante. Só assim compreendeu que o corpo e o espírito não frequentam o mesmo lugar.
São estas coisas que me lixam: nos velhos tempos era uma criança. Neste tempo recente sou um velho. O que é que transforma uma pessoa? O tempo ou a idade?
Nos tempos que correm, o difícil é escolher a mulher que não levamos ao tapete.
Todo o homem tem um defeito - que é a mulher.
Onde eu trato melhor as mulheres é na cama... quando elas estão a dormir.
A maior frustração dum homem é pensar que teria de viver duzentos anos para compreender uma mulher. Com essa idade não há compreensão que lhe dê prazer.
Uma nova relação afectiva é sempre uma repressão para qualquer dos lados. Há sempre o cuidado de não ser o primeiro a peidar-se e à conta disso os intestinos enchem-se de cólicas a abarrotar de merda.
O grande problema português é que o povo é um mau político.
Qualquer dia temos o josé luis peixoto a escrever sobre os milagres da Nossa Senhora de Fátima.
O sexo é a liberdade livre. Que me perdoe o poeta ramos rosa, mas sexo também é poesia. E as mulheres bem comportadas raramente o são na cama. Felizmente. O conforto do desejo está no mau comportamento do casal em relação ao sexo. O acto sexual é uma fuga às pressões do quotidiano. E sexo com paixão? não há melhor.
Quantos casais ficam aquém do verdadeiro prazer? Porque não sabem fantasiar? Porque o pudor de um dos elementos ( ou dos dois ) não permite entrar no campo das experiências sexuais? Porque estão aprisionados a ideias e preconceitos que não lhes dão espaço de liberdade sexual? Já me aconteceu olhar para casais e imaginar a intimidade que lhes assiste no segredo dos seus quartos. Belos romances.
Sexo é luta. É um duelo das sensações e dos desejos mais perversos. Mas o sexo é também uma sensação de nascimento. É primordial em todos os sentidos. É o amor em estado activo. Faz-se sexo como se fosse sempre a primeira vez. O acto sexual é um desejo repetido que nunca se repete a si mesmo.
Perdermo-nos nas palavras é um sinal positivo. O pior é quando nem sequer as encontramos.
A pílula liberalizou a sexualidade da mulher, e de certa forma compensou muito mais os homens.
O amor e o tempo nunca combinaram. Separam-se sempre.
Só questionamos a felicidade quando somos adultos.
Se tenho um amigo na vida, esse amigo é o tempo.
É ele que me representa perante os outros.
SERÁ QUE A LINGERIE É A MAQUILHAGEM DA SEXUALIDADE?
Eu penso que primeiro ama-se muito; depois talvez se ame menos; e por fim concluímos que não se amou nada.
O silêncio é uma masturbação contemplativa.
A perda da virgindade é a primeira coisa que uma mulher deve fazer para se sentir útil na vida dum homem.
Quando os nossos actos não obedecem à respiração do pensamento,
é porque houve um colapso do consciente.
O sexo é uma violência corporal. Existe luta; e há casais que enquanto fazem sexo aproveitam para expulsar pequenas mágoas acumuladas no dia-a-dia. São as mudanças de ritmo e intensidade com que se envolvem. O orgasmo é o alívio de todas as torturas, daí os casais sentirem-se satisfeitos no esgotamento do combate sexual.
Há-de chegar o dia em que o sexo será tão estimulante e reconfortável como uma visita à igreja. O sexo espiritual é uma reza dos sentidos. A animalidade sexual numa relação guardo-a sempre para o fim do acto, quando sinto esgotada a minha fé pornográfica. Mas eu gosto de permanecer eternamente no convento feminino.
Só os que fazem a dieta da carne podem aspirar ao sexo do espírito. Para mim, o corpo é a sobremesa e nunca o repasto principal.
A ESCRITA É COMO O SEXO: SEM REGRAS É MAIS EFICAZ.
O MISTÉRIO DA MULHER ACABA NO SEXO
Há mais sociologia na composição de uma pílula
do que num tratato sobre a humanidade.
Se o amor soubesse silenciar mais no princípio de uma relação, inaugurava-se assim uma eternidade amorosa entre aqueles que se amam, tendo como pano de fundo o silêncio. Mas não será o silêncio uma arma contra o amor? O amor não precisa de palavras para ser silêncio, como se essas palavras iniciais fossem uma reserva de silêncio para o amor viver para sempre. Mas existirá um tipo de silêncio que se harmonize com alguma forma de amar?
Deduzo que o acto de viver é a procura da felicidade que não existe no interior do ser humano. É preciso vencer a exterioridade para conseguir ser feliz. De que felicidade falamos quando não inserimos a imagem ou as manifestações sentimentais dos outros em nós? Poderá alguém reunir todas as condições para sentir felicidade e ignorar essa particularidade? Não serão os outros que pressionam o gatilho da nossa felicidade?
Tudo é eterno na compreensão de quem nunca esquece.
O amor é sempre eterno, mesmo quando já não existe.
SE ENCONTRARES NA TUA MULHER TUDO O QUE PROCURAS NAS OUTRAS, SER-LHE-ÁS SEMPRE FIEL.
SENTIMOS SOLIDÃO QUANDO ESTAMOS PERDIDOS ALGURES ENTRE O PASSADO E O FUTURO
O QUE EU PROCURO NUMA MULHER ESTÁ MAIS NA SUA CONSCIÊNCIA
DO QUE DENTRO DAS SUAS CUECAS.
A ESPIRITUALIDADE É A POSIÇÃO MAIS CONFORTÁVEL NUMA RELAÇÂO SEXUAL.
ALZHEIMER É A POESIA CRUEL DA HUMANIDADE.
A VIRGINDADE É UM PROBLEMA DE CONSCIÊNCIA LOCALIZADO NA VAGINA.
O PENSAMENTO É A RESPIRAÇÃO DA CONSCIÊNCIA
Cede-se espaço físico-social por motivos de obsolescência existencial.
Não inclui carácter nem honestidade adquiridos durante a vida.
A identidade é oferta por saturação viciosa da parte do sistema.
Homem de meia idade recusa-se a permanecer num espaço de existência constantemente posto em causa, como se o tempo fosse uma viagem que ele tivesse de pagar. Em troca do seu doméstico destino, dêem-lhe um deserto com uma fonte de vida no cérebro.
É FÁCIL PREVER O FUTURO DA HUMANIDADE PELA PERSPECTIVA DA DESGRAÇA
A MORTE MAIS DIFÍCIL DE ACEITAR É A QUE O TEMPO IMPÕE SOBRE A HUMANIDADE
NÃO HÁ PRAZER SEM SACRIFÍCIO
sentir um orgasmo é melhor do que saborear um bife com ovo a cavalo. foi isso que eu disse ao miguel cardo. ele riu-se, mas não tinha apetite. que se foda. a amizade é fodida. depois, para o irritar lembrei-lhe aquelas festas que ele dava na sua casa. uma amiga minha que não tomava a pílula ficou grávida só por se sentar na alcatifa da sala do miguel. ele levou a mal e quis comer-me o assunto. a sobremesa foi deliciosa.
in tudo em familia
ontem estive com o Peixato. esse que escreve umas merdas de redacções da primeira classe. comemos um gelado e fomos para a cama. disse-me que ia escrever sobre o assunto. zanguei-me com ele. riu-se de mim com aqueles dentes estragados. tive vontade de lhe bater. não. uma punheta não. ele nem sabe a sorte que tem quando escreve aquelas merdas de crianças. os editores devem estar loucos. disse-lhe isso ao ouvido. ele concordou, mas continua a escrever as mesmas cenas.
in tudo em família
a cama fazia muito barulho. fomos para o chão. a nossa respiração fazia muito barulho. beijamo-nos. os beijos eram ruidosos. pus a mão na tua boca. a tua vagina estava muito húmida e fazia o som da água a chapinhar. fechaste as pernas. assim não conseguia foder-te bem. puseste-te inclinada para a frente e fui por trás. tens a cintura fina e as nádegas perfeitas. esqueci-me de te foder, enquanto olhava para a tua perfeição.
se queres ser o amor da minha vida, tira as cuecas. pôr o dedo no ar é inestético em relação ao amor.
esta noite vou comer a dany. na praia, no lugar onde deixámos a toalha e as marcas dos corpos. abro-te as pernas com a ajuda do silêncio, beijo a areia dos teus cabelos. a tua vagina fresca onde as ondas segredam desejos e prazeres húmidos. fodo-te sem ninguém ouvir. nem a fogueira vigilante derrete os teus gemidos vermelhos. fodemos de lado e eu tenho a minha mão dentro do teu cu, a puxá-lo ainda mais para essa gruta se abrir dentro de mim. apago as tuas palavras com os meus lábios negros. estou a vir-me como a maré a crescer pela areia fria. quero a tua morte dentro do meu sexo. quero o teu fogo apagado no meu cérebro. amanhã é dia de nos masturbarmos como se remassemos contra a maré.
estou a viver numa ilha. afoguei todas as palavras. não levei caneta nem folhas de papel. risco com o dedo na areia o nome do meu amor. não preciso de mais para ser feliz.
Só me inspiro nas mulheres que estão acima de todas as bonecas.
Imaginem, meus amigos, que nos tempos correntes existia uma revista dedicada aos nossos autores literários, e que explorasse a vida e a obra de tão inteligentes pensadores. Dou alguns exemplos: Saramago já não aguenta uma canzana. Problema de articulações gramaticais? A verdade é que nem com almofadinhas por baixo dos joelhos.
Peixoto tem nova namorada. Autor de morreste-me levou metade da obra a declarar-se nestes termos: o meu amor por ti é o amor imaginário que eu sinto que sentes por eu sentir que te amo nesse imaginário de amor que ambos havemos de sentir um dia.
Depois separaram-se embrutecidos pelo amor no segundo capítulo da vida.
Adiante. Lobo Antunes é o homem do lixo. Os seus romances são contentores recheados de tralha existencial.
Quem me dera: Margarida Rebelo Pinto procura cobaia masculina para experiência pop e sexual no seu teatro de diversões literárias.
Ficamos por aqui. Podem comentar.
Duas mulheres com estilos diferentes? Duas formas de sentir diferentes? Duas mulheres com comportamentos diferentes? Duas mulheres bem comportadas? Ou uma bem comportada e outra mal comportada? Sexo com etiqueta ou sexo sem etiqueta?
Já não preciso de Freud. O meu pensamento tem-me curado de todos os males.
Em Alzheimer a poesia é a memória.
A memória é o carrocel de Alzheimer.
Que se foda a vida questionável.
Só que eu sou um tipo que está sempre
a foder o sendido da vida.
O termo " Gaja " é um carinho pornográfico.
Os homens sentem o sexo até no coração.
Para muitas mulheres o sexo é uma obrigação. Como lavar a loiça.
Uma mulher para se sentir objecto sexual, tem que ter consciência do valor do seu sexo. No fundo, as cuecas são o menos.
Oh, minha querida! O meu amor é bem profundo. O primeiro olhar é uma prova oftalmológica do coração. Mas não estou a dizer-te que o meu coração precisa de usar óculos.
Se queres saber, não sou adepto da linha erótica interior feminina. E quando vou para a cama é sempre despido de qualquer roupagem ambiental que me leva a apreciar mais a natureza sexual da mulher em detrimento da moda-interior que ela adoptou para enriquecer as formas das suas capacidades amantes. O fio-dental é a mascarilha vaginal que só funciona no imaginário daqueles que quase nunca têm mulheres. Os solitários do amor e do sexo cada vez mais improvável.
O termo "queca" faz-me lembrar rotina. Gosto da palavra foder. Esta palavra invoca poder e transfigura a normalidade de quem se fode. Também não gosto quando se diz: fazer amor. Esta expressão, no contexto da sexualidade, remete-nos para uma situação de pudor. Foder com amor seria o acto perfeito.
Cada vez mais o real assemelha-se a uma máquina antiga e desajustada em conformidade com os novos valores instituidos. Faz todo o sentido levantar a questão da surrealidade das nossas atitudes e comportamentos. A informação é surreal. Os atentados públicos que se repetem todos os dias são uma disformidade da realidade. O surreal é uma impostura do real.
Às vezes o que está dentro das cuecas de uma mulher não é mais do que a legenda conspurcada do seu carácter. Ok. Sempre gostei de "ler" uma mulher de cima para baixo, por mais difícil que pareça.
Nada é estranho e nada é absurdo quando alguém está disposto a amar o outro. E eu da mulher só sei que nasci para lhe entregar todo o meu amor.
O sexo em si implica a materialização do acto. Espiritualidade/Matéria é o que forma a posição confortável no acto sexual. Possuir mentalmente um ser, para além da sexualidade. Chegar ao seu amor. Inverter a ordem sentimental.
Peixoto em excesso de expressão: “ Na semana passada, depois de o condutor do reboque saltar da camioneta, com um pedaço de desperdício desfiado a sair-lhe do bolso das calças, depois de me dar um passou-bem de homens, parou-se a olhar para o carro e disse: “
Na semana passada, quando saltei da camioneta rebocada, com o bolso das calças desfiadas por um pedaço de desperdício, depois de te dar um cumprimento de homens, parei-me a olhar para o carro e disse:
Na semana que passou, quando me reboquei da camioneta com um salto, com as calças desperdiçadas por um bolso desfiado, depois de te dar um homem bem passado, parei o olhar no carro e disse:
O que se passou na semana passada, quando a camioneta me rebocou num salto, com o desfio das calças no bolso, depois de te dar por homem mal passado da cabeça, parei o carro no olhar e disse:
Na camioneta rebocada pelo condutor desperdiçado, no bolso que passou pelas calças do homem desfiado, a olhar para o carro...
A morte é tão fácil.
O JL em acção literária, em nome do Peixoto: " No inverno, tinha um barrete do Sporting com salpicos de cimento. No verão, tinha um boné do Sporting e cimento. "
Se o barrete tivesse pala e ameaçasse ruir: No inverno ele enfiava o barrete de cimento na insegurança do Sporting.
Ou seria mais justo: No verão ele tinha a pala do boné de cimento a salpicar os adeptos.
Mas como o Peixoto não parece interessar-se por futebol: No inverno ele punha salpicos de verão no cimento da cabeça.
Uma frase menos dura: O Sporting é um barrete no boné de cimento dos seus adeptos.
Que me perdoe o Peixoto: No inverno ou no verão a tua escrita salpicada de cimento é um barrete a apanhar bonés.
Sou do Estoril-Praia
JL - Peixoto e a sua quinzena temporal: " No dia em que te partiste por uma semana; todos os dias de uma semana; todas as horas de uma semana; minutos; e os minutos, cada minuto, são maiores do que horas, porque são maiores do que dias...".
Se ela partisse mesmo para sempre: No dia em que partiste para sempre; todos os dias de sempre; todos os momentos de sempre; instantes; e os instantes, cada instante, são maiores do que momentos, porque são maiores do que sempre...
Mais poético: No dia em que partiste pelo tempo, todos os tempos do tempo; todo o espaço do tempo; Marte; e os tempos, cada tempo, é maior do que o espaço, porque é maior do que o tempo...
Mas ela não partiu, partiu-se: No dia em que te partiste por uma semana; tu fragmentada todos os dias de uma semana; despedaçada todas as horas; migalhas; e as migalhas, cada tudo teu, é maior do que o todo, porque é maior do que tu...
Em Marte não precisam de escritores? Pelo menos ouviríamos falar do Peixoto só daqui a 60 mil anos.
JL - Peixoto e as suas pérolas: " Não conseguirei dormir porque não conseguirei parar de pensar e não conseguirei parar de pensar que não quererei pensar ".
Mas seria mais tranquilo: Não conseguirei dormir porque não conseguirei arranjar cama e não conseguirei arranjar cama porque não quererei dormir.
Mas se pensar é o melhor remédio: Não conseguirei pensar porque não conseguirei dormir a pensar que conseguirei pensar a dormir.
Lembrei-me agora e bem acordado: Não conseguirei dormir porque nunca conseguirei pensar acordado e não conseguirei parar de pensar que não sei pensar.
Ó escritores! Nunca quereis ser como o Peixoto e durmam a pensar a dormir. E os leitores que pensem acordados a pensar.
Escreve Peixoto no maçudo Jl: " ... olhávamos para ele sempre como se tivesse a nossa idade porque ele olhava para nós como se tivéssemos a idade dele".
Bem vistas as coisas: eles olhavam-no no olhar da idade que tinham.
O que quererá dizer: ele olhava-os na idade do tempo que demorava o seu olhar.
Nem o Prado Coelho chegaria tão longe: eles olhavam-se na diferença temporal que a idade intensificava.
Mais profundo ainda: a idade fragmentava-se no tempo de cada olhar.
Mas se ele usasse óculos, o que tudo leva a crer que sim: o olhar dele era a amplificação do tempo inscrito na idade deles.
Não resisto: a idade deles era o reflexo dos óculos dele.
Podem comentar.
Inaugura-se aqui um espaço de " peixotadas filosófico-literárias do nosso aceitável José Luis Peixoto - um escritor de Portugal ".
Um dia no Jornal de Letras, escreveu ele: " A tampa da caneta caiu no chão com um som de uma tampa de caneta que cai no chão ".
Acho que é mais ou menos assim. Mas se eu desdobrasse a frase: " A tampa caiu da caneta com um som de ausência de caneta que não chegou a cair no chão ".
Ou ainda: " O chão é o som da caneta que perdeu a tampa ".
Desdobro ainda mais: " A tampa perdeu o som da caneta ao embater no chão ".
Vamos esticar mais a frase: " A caneta perdeu o contacto com o chão quando a tampa se desfez no som de uma caneta insonorizada ".
Compreende-se agora porque não lêem os portugueses?
Se as crianças representam o futuro, Portugal é um país prostituído. A começar pelos políticos. Prostitutos ideológicos. Animais citadinos perigosos. passeiam-se pelas ruas levando atrás uma seita de sonâmbulos contaminados de mentiras. Eles riem porque sabem que discursam para um povo ignorante e pobre. Esses políticos representantes do folclore português despem-se uns aos outros num strip ordinário. O eleitorado gosta porque não vai ao teatro. O palco das ilusões está na rua. há-de haver um dia em que as multidões os engolem de raiva, e as campanhas da vergonha serão feitas em estúdios fechados. O político é o único sacana que acredita nas mentiras que diz. O que ele defende para o seu país é a sua própria família e a piscina implantada no quintal verde da sua obra por acabar. Como é bom ser político em Portugal. Pensar e não fazer nada. Falar como se fosse entendido. Construir como se não existisse coisa nenhuma. Pobres crianças de Portugal, esses filhos da desgraça que provaram que a Casa Pia é a cópia pirata do país em que são educados. As campanhas eleitorais já não fazem sentido. As ideias valem tanto como o ordenado ao fim do mês.
O casamento de Felipe de Borbón e Letizia Ortiz é um atentado ao direito das mulheres. O acordo pré-nupcial prevê que a futura princesa ( e futura mãe ) perca o direito à custódia dos filhos, em caso de divórcio. Letizia entrou no negócio e assinou contra os filhos que poderão nascer deste amor. Na cama nupcial o diálogo bem poderia ser este: não há valor humano que transcenda a riqueza e o poder.
querido, desculpa, mas desliguei o computador. estou aqui a tremer pelo tempo que te faço perder. estava a limpar o pó e encalhei nos fios. não sei se é grave, mas deve ser pela forma como me olhas. pensei até abandonar-te. fugir para a casa da minha mãe. agora não podes falar com as tuas amigas pelo messenger. e não me chames estúpida, ouviste? até aposto que estás a pensar que as tuas amigas não fazem estes disparates quando limpam a casa. mas vou ser sincera contigo, e sabes o que penso das tuas amigas? que são todas umas porcas. não levantam o cu do computador e não têm as refeições a horas. é uma dessas que precisas, filho da puta. lá por escreveres não julgues que és melhor do que eu. nunca mais me humilhes por errar numa merda sem importância. eu devia era partir essa máquina de enganos. vai escrever, vai. e mais logo sempre quero ver se me pedes para foder.
é o herói do dia. está de volta. foi recebido em apoteose. em portugal, as crianças mentem ou são rascas. grandes são os homens que se encobrem uns aos outros. em portugal não se cresce. nasce-se crescido. as prisões são para as crianças, não para os homens de palavra. este país cabe inteiro numa camarata da casa pia.
quando eu era criança ia para a rua brincar e depois de conversar um pouco com os outros miúdos, tinha também de lutar contra eles. eu tinha palavras para dizer e eles não tinham palavras para me responderem. eu tinha livros lidos no silêncio da minha vida, e eles tinham silêncios e vazios que me causavam dor. eu falava do mundo e eles falavam da rua. eu escrevia coisas que nem sequer sabia dizer, e eles não sabiam pensar aquilo que sentiam. hoje eles são mais felizes do que eu. são gordos e brilhantes. nunca ouviram falar do lobo antunes. gostam do carlos cruz. e vivem bem em multidão. hoje não sou muito diferente da criança que me deixaram ser. o problema é que as lutas são agora travadas entre mim e ela.
sou o tipo mais sério a prestar serviço nesta casa. na espelunca desta casa. eu e a valéria mendez. o resto são todos uns obsecados sexuais. até as vossas palavras cheiram a sexo. onde está o prusidente? este blog é um bacanal. anda-se por este corredor de textos e sou assaltado por fantasmas nus desejosos de dar uma queca no juízo dum gajo. isto assusta-me. este motel parece um hospital psiquiátrico. um hospital frequentado por masturbadores da ficção pornográfica. quase sinto a língua da nudez disparatada, remota, enfiada. isto é uma máfia da literatura de bordel.
As evoluções do 25 de Abril:
Casa Pia - sexo infantil, todos ao cu.
Futebol - mais vale pagar pouco por uma mentira do que a dobrar por uma verdade.
Política - a democracia é para os ricos, o voto é para os pobres.
O SEXO DISPENSA A TEORIA
Foder sempre também cansa. Estou enjoado de todas as posições. Não há segredos. A imagem repete-se. Os movimentos dos corpos são monótonos. O tempo de prazer demora sempre os mesmos minutos. O som dos teus gemidos é sempre igual. Cada um pensa na sua própria vida. Os pensamentos desviam-nos a atenção do que estamos a fazer um ao outro. Começamos a foder com a ansiedade doentia de acabarmos. Esgotamos o corpo para nada. A insatisfação é o nosso orgasmo.
O protótipo do colonizador colonizado.
O ressaibo plebeu de quem herdou a deserdação.
Gostava de ser o escritor dos que não sabem ler.
Em troca, o barrete estalinista
por bons serviços prestados ao inimigo absoluto
de tudo e de todos adiadas as almas
para o dia do baptismo na grande igreja
do comunismo futurista
onde os porcos são menos porcos que os comunistas.
A saudade portuguesa congelada no frio do Kremlim
e hipotecada para umas férias sensuais
no caraíbe do Fidel
ou nos retiros místicos de lanzarote da Pilar.
(Textos do Capado)
O maestro sem batuta e com batota.
Em arte, o que não sabe fazê-la, ensina-a.
O grande génio do Hitler ou do Salazar
foi confundirem a sua identidade
com o aparelho da rádio que presidia
aos serões dos anos 30/40.
O poder era entrar em casa das pacatas famílias
e falar-lhes como um espírita em noites de assombro.
A cultura esmaga e a televisão dilui.
O Victorino esmaga e dilui os miolos dos portugueses
erguendo-se como sumidade rival dos detergentes Betoven
em concorrência da margarida vaqueiro.
Na política cultural mais barata e menos eficaz
que é a de substituir a laranja pela Sumol.
Populismo. Vedetismo. Soarismo. Compadrismo. Mediocrismo.
Ausência de raíz e de coerência na indiferença pela erudição popular.
(Textos do Capado)
O pequeno Portugal dos portugueses grandes.
O Julião foi para a américa por ter
um metro e noventa e oito de altura e calçar o nº 51.
Tamanho pésudo,
só poderia fazer carreira numa terra
onde os sapatos seriam pequenas traineiras em Portugal.
O Julião é longo como o Richard Long.
Inteligente como o Julian
quando foi à missa e o cão comeu-lhe a piça.
Vai daí o Julião só pensa nela.
E com a emblemática literatura visual pós moderna
vai esgremindo o pincel na tela
como se estivesse em cima dela.
Americanas é o que ele gosta.
Artistas ou galeristas,
espeta em todas o pincel produzindo telas a granel.
Tal Ives Klain, sem o azul do sonho,
nem a coragem do macerico.
Envia-nos directamente de New Yorque a arte
que os outros despejaram no penico.
( textos do Capado )
José saramago é um político frustrado ou um escritor comprometido com o comunismo? O discurso de Saramago é um subsídio idealista que tenta recuperar os erros da sociedade para desenvolver uma incomodidade de viver sob o domínio de qualquer estrutura governativa. Sabemos que é um homem revoltado e tardio. Um homem que popularizou o seu imaginário literário em nome de uma política utopista. Se o homem fosse mais novo, teríamo-lo como candidato a presidente de Portugal. O pensamento de Saramago é uma mágoa crónica, as posições que defende são uma espécie de exibicionismo provinciano, e ele sabe que a sua sabedoria inocente é uma combinação de profundidade psicológica e espectáculo convencionalizante de publicidade político-literário. Disfarçado de hipnotizador dos que se sentem ter perdido a auto-estima, Saramago também se assume como o patrão dos pobres. Ele, o nobelizado que ocupa agora um lugar ilegível na sociedade portuguesa, vem dizer-nos que a democracia é um valor monetário e um luxo ideológico para a maioria dos povos. O problema é que este operário da palavra social é agora um privilegiado a construir-se de acordo com as regras da burguesia dominante. As preocupações de Saramago lixam-no, afastam-no ainda mais da realidade portuguesa. O apelo ao voto em branco é um apelo à corrupção das ideias. É uma dramatização da sinceridade que acredita num futuro; é uma falsidade que é mais grave do que um mau juízo. Proponho a Saramago que escreva um livro em branco. Um livro escrito onde o seu pensamento humanize um comportamento menos traumático em relação com o mundo dos outros.
Existem blogs que são autênticas repartições públicas. Editam entradas em hora de expediente ( normalmente quando o proprietário do blog é funcionário do estado ). A avaliar pelos comentários aos posts publicados no emprego, chega-se à conclusão que os leitores-comentadores também são trabalhadores fora de serviço ( privados ou estatais ) e que se servem do sistema de comentários como se este fosse um guiché para o expediente das suas opiniões públicas emitidas fora do tempo lúdico. Se visitarmos um desses blogs à hora do almoço, a sensação que temos é a de que, ou está fechado, ou o esfomeado blogger adianta serviço de casa ao mesmo tempo que despacha uma tosta. Ao fim de semana o horário foge a todas as regras diárias. A actualização dos textos é nula, e o blog encerra num acto de solidariedade para com os comentadores habituais. Não vou revelar nomes, mas se suspeitarem de alguém que trabalhe tanto em serviço, façam o favor...