Apaga. Depois não sobra nada.
- As mãos sobram!
- Sobram os dedos!
- Sim, os dedos da mão.
- Mas a mão toda não são os dedos só.
- Pois, não são, mas o resto da mão o que é se não tem dedos? Não serve para nada!
- Não serve. Mas está lá. Um bocado de mão, ainda. Por isso não podes dizer que sobram as mãos se o que sobra são apenas os dedos.
- O que é que isso interessa?
- Interessa muito. Não podes andar para aí a dizer mentiras.
E o resto apaga-se, ainda dentro de um corpo que ferve.
- Ferve, o caraças!
- ...
E calaram-se.
Lime & Purple mais uma vez num lugar qualquer, um lugar sem importância, talvez uma Pastelaria.
- Sabes... já não tenho nada a dizer, não tenho paciência, nem para me aprofundar em comentários. Quer dizer com as pessoas com quem raramente lido... já não me apetece fazer nenhum bolo com elas!
- Hmmmm... Tem cuidado para não ficares numa concha, não se pode perder esta abertura ao mundo. Seja quem for... que cada um é como cada qual.
- Mas que mundo, que concha? Que abertura?
- Digo fechado na concha e ao mundo, às pessoas. Acho que é bom não se derrapar e cair no vício. É preciso voltar à tona como a baleia branca, que também serve de metáfora à epifania, ao rasgo de asa. Digo a mim que o que mais temo é a amargura, um certo misantropismo...
- Mas que queres, é que às vezes nao me apetece mesmo...
- Nem a mim... mas já te disse isto uma vez, acho que é sempre preciso ultrapassarmo-nos, fugir da natureza... da nossa natureza e estabelecer, digamos, um compromisso.
- É isso às vezes não me apetece... negociar... Deixo-me ir como vou e pronto...
- Mas é assim, aqui onde vivemos, não tem piada, o deixar ir... por isso é preciso tomar uma outra posição.
- Sim, não tem.
- Mas... sei lá...
- Sei lá!
- Outro dia estive na igreja porque me sentia mal fisicamente e estava mal, em desequilíbrio. Fui procurar silêncio, respirar, fazia assim onde vivia antes de vir para esta terra.
- Respira-se mal aqui, o problema é esse... os sentidos respiram mal... enferrujam mais facilmente...
- Não era uma necessidade tanto espiritual... mas de elevação de mim próprio...
um pouco de ascese, é isso, com que procuro viver uma certa ascese e tudo o resto perde a expressão... Não perder de vista o longe, o horizonte, que já não existe como se sabe... como seguir pisando a linha que na praia separa a terra do mar.
- Mas isso da ascese nao é pores-te a decorar essa concha?
- Não. É deixar-me lá na concha e no mundo... e sair, ver-me ao longe, observar-me lá em baixo. Mas também é por aí que vamos, a decorar a concha... é uma sedução.
- Às vezes estou tão perto de um certo abismo.... que quase que o abraço com satisfação... por o reconhecer... por saber que ele me acompanha... atrás de uma certa montanha que também arrasto... mas que não tem espessura...
uma montanha infinita sem espessura... infinita em peso e em tamanho... mas sem expressão... sem sentimento... sem valor... bla bla bla... um reverso qualquer... de uma coisa importante... que é todo o nosso sentido... e que por isso está lá. Ainda hoje quando esperava pelo sinal verde para atravessar a estrada dei com o abismo debaixo de um camião e quase que lhe estendi o braço num compromisso de entre-ajuda. Percebe-se?
- Não! Mas tu percebes não percebes?
- Mais ou menos... percebo e não percebo... Porque de uma maneira geral o mundo é para não perceber! Porque é mundo...
- Lá estamos nós, mas quem é que quer perceber o mundo? Percebe-se e não se percebe e qual o drama?
- Se um mundo fosse unidade, Lime, talvez se percebessse... mas assim... somos plasticina...
- Plasticina...
- E é na elasticidade que reside a nossa possível felicidade.
- Não somos pedra tens razão mas náo é elasticidade, é este estádio intermédio entre o nada e o tudo...
- Que são a mesma coisa... o nada e o tudo!
- Soundbytes portanto...
- Nada de muito mais ou Cesarinny, portantes! E assim está na hora de me pirar...
- Portantes!
- Até logo...
E o pano desce.
Lime & Purple no muro de um espaço ermo:
- Nada, não é?
- Não. Muita coisa.
- Queria perguntar-te...
- Pergunta!
- Expressas-te bem com as pessoas de quem gostas? Expressas bem o que sentes? De modo claro?
- Que supresa essa pergunta. Em que sentido? Em que contexto?
- No contexto íntimo... No contexto íntimo dos sentimentos...
- Posto dessa maneira e agora aqui entre a leitura desta vista... não sei.
- Ou será mais uma coisa por bilhetinhos... por deixas...?
- Mas os sentimentos expressam-se sempre claramente?
[Purple coça a cabeça ao de leve e abana os pés ao vento.]
- Não na maneira de os expressar mas de os dizer [...] às claras, abertamente!
- Acho que é pelas duas maneiras, acho, quer dizer, sinto claramente mas expressar às vezes é mais frustrante.
- Mas o que sentes é normalmente o que expressas?
- Nem sempre, a expressão acaba por ser uma coisa instrumental não é? Em casos de ansiedade ou relativa violência existe a não expressão.
- Mas é instrumental ou um instrumento onde se toca?
- É o instrumento do sentimento.
- Mas há muito ruído? Coisas que não se percebem?
- Entre mim e o outro? Nunca entenderei completamente e ao mesmo tempo acho que entendo.
- O que é o instrumento... o sentimento ou a expressão?
- A expressão!
- E o sentimento é o quê? O veículo?
- Não! Mas aqui com esta paisagem não se vai lá.
[+ vento...]
[e continua...]
- Mas a que propósito vem isto, estás a tentar explicar a tua situação?
- Lembrei-me a propósito do bilhetinho que ele deixou...
- Qual?
- ... e ando sempre a pensar nestas coisas, nas relações e ambivalências das pessoas...! O bilhete foi aquele que te deixaram aqui, o último.
- Aquilo é uma memória nossa, um poema, entendes? E claro que nem tudo é linguagem clara e transparente. Mas isto é Wittgenstein. O segundo. Menor que um momento. A ambiguidade da palavra, nas relações familares com as outras palavras.
- Tudo na verdade é uma pastelaria! [afiambra Lime]
- E não disse o resto!
- Que resto?
- O resto. O gritar mais alto...
- Aaaaaah...
[e nisto o Sol põe-se...]
Purple e o seu amigo inseparável sentados no passeio com os pés para a estrada:
- Precisava que me ajudasses.
- Claro, Lime, sabes que te ajudo sempre. Que precisas que eu faça?
- Preciso de ti.
- De mim? Mas eu estou aqui, sabes disso.
- Quero que sejas meu.
- Teu?
- Sim, meu, meu.
- Sim, meu, eu sou teu. Não é coisa que precises de pedir.
- Mas o que quero dizer é que... sendo meu... eu posso usar-te.
- Usar-me? Como?
- Usar-te! És como se fosses eu. Eu e tu somos mais. Tu és tu, mas sendo eu, és mais ainda.
- Não te percebo. Queres saltar-me para a espinha é isso?
- Não, meu. Nada disso. Quero só usar-te como pessoa que és. E tudo o que isso implica.
- E...?
- E em vez de ser só eu, sou duplo, sou duas vezes. Sou duas vezes tudo. O que implica que tenho o dobro do tempo, o dobro dos braços, o dobro das pernas, o dobro do pensamento. Percebes?
- Hmmm... queres dizer que precisas de um marceneiro, não é?
- Mais ou menos. Isso e o resto todo. Tudo o que mais há, é mesmo o que eu quero. Pode ser?
- Claro que pode. Manda vir. Dá-me estalos se quiseres. Põe-me na linha!
- Tens aqui esta lista de coisas que eu tenho de fazer, são urgentes, quando acabares vem que te dou outra. Faz tudo como está aí escrito e não me perguntes nada. Só te quero ver para te dar a lista seguinte. Ok?
- Ok, Chef!

- Lime, estás aí?
- Espera, nao fales, parece que ouço alguém, uns passos, lá ao fundo, muito ao fundo... consegues ouvir?
- Passos? Não! Apenas ouço o que me parece ser o bater do teu coração. Estás nervoso? Os comprimidos, tomaste-os hoje?
- Espera!! Tenho a certeza. Tenho a certeza que vem lá alguém. Até já sinto o peso das botas.
- Que peso? Do que é que estás para aí a falar? Acendes a luz, ao menos?
- O peso de umas botas 42 ou 43 a pisar o chão, a criar um pequeno sirocco.
- σιρόκος?
- Sim, isso mesmo, σιρόκος!
- E quem os traz, sabes? Quem traz essas botas e esse vento?
- Eu acho que é alguém, tenho a certeza de que é alguém!
- Só pode, só pode ser alguém. Espera parece que já consigo ouvir qualquer coisa.
- Vês, eu consigo distinguir todos estes sussurros.
- Sussuro? Mas não era Sirocco?
- Sim isso. Tanto faz. Tanto faz quando é alguém que o traz!
- Tens razão, nunca antes tinha pensado assim...
Purple acende a luz, uma luz como as outras luzes que iluminam o que antes estava escuro.
[FIM]
- Fala-se tanto na China, tu sabes alguma coisa da China?
- Eu? Sim, sei, sei alguma coisa.
- O que é que sabes?
- Sei que na China vivem os chineses.
- Pois vivem, mas isso não quer dizer nada. Há muitos outros países onde também vivem chineses.
- Ah sim? Quais? Quais países?
- Ora. Por exemplo, Portugal. Em Portugal vivem muitos chineses.
- Está bem, mas não são chineses da China. Ai é que está.
- Pois não, não são, mas não é por isso que deixam de ser chineses.
- Sim, mas eu estava só a dizer que na China há chineses. Que é lá que eles vivem. Foi isso que me perguntaste.
- O que eu te perguntei foi se sabias alguma coisa sobre a China. É bem diferente...
- Diferente de quê? Já é qualquer coisa. Porquê, tu não sabes nada sobre a China?
- Sei, sim, sei muita coisa.
- Ah sabes? Então diz lá o que é que sabes?
- Agora não interessa, ainda para mais, fui eu que perguntei primeiro, por isso vamos lá a abrir essa boca.
- Aaaaaaaah...
Lime abre a boca e Purple espreita lá para dentro, cheio de minúncia. Por fim diz:
- Não vejo nada.
- Não vês o quê? O que querias tu ver dentro da minha boca?
- Ora, tu tens com cada uma, queria ver a China...
- Sabes?
- O quê?
- Se sabes?
- Se sei o quê? O que queres que eu saiba?
- Nada, é só uma maneira de dizer.
- Mas de dizer o quê? O que queres tu dizer?
- De dizer, de falar. De me iniciar.
- Iniciar?
- Sim, começar uma conversa.
- Que conversa?
- Nós os dois aqui. Neste momento.
- Ahh...
- Sabes?
- Onde vives Lime?
- Vivo no Santo Nome de Deus.
- Isso é um país? Uma cidade? Um pedaço de terra?
- Não sei. Deve ser nas nuvens.
- Que fazes tu nesse lugar?
- Vejo a chuva. Chove muito. Não gosto de olhar para ela. Mas não tenho mais nada para fazer.
- E porque não sais, não fazes as malas e te vais embora?
- Porque não!
- Porque não?
- Sim. Porque não.
Purple desliga o telefone e vira-se de novo para a janela, nesse momento perde a vontade de encolher os ombros.
- Lime?
- Sim? Que foi?
- Estás apaixonado?
- Eu?! Eu sou lá gajo de me apaixonar!
- Eu sei que não és, mas estás apaixonado?
- Bem...
- Sim ou não?
- ...
[Lime encolhe os ombros e abre muitos os olhos, esticando as sobrancelhas...]
- Não queres dizer, é? Não queres dizer que estás apaixonado?
- Quero, quero!
- Então...?
- Então o quê, meu?!
[Lime pega em Purple ao colo e leva-o para a tasca mais próxima onde permanecem o resto do dia.]
[mais tarde, saem os dois abraçados, a cantar uma canção dos Smashing Pumpkins:
«Hey Blue, all your love is strange
Come out, with all those crazy names
So true
When you lie
For you, Blue
Right or wrong
I belong
Right or wrong
Hey Blue, where'd you run to now
Hey Blue, miss you since they found you out
I've been waiting such a long time
For your smile
For you, Blue
I lay with you, this velvet morning
Stay with me, for a while
Where we run to, is up to you
Just stay with me, for a while»]
Lime: Sabes da minha hipotenusa?
Purple: Não! Não sei a que te referes.
Lime: A minha hipotenusa, preciso de a encontrar, sabes onde está?
Purple: Já te disse que não. Que hipotenusa? Que queres dizer com isso? Tu não és uma figura geométrica, não és o cabrão de um triângulo.
Lime: Eu sei que não sou. Mas preciso de a encontrar, não posso explicar, não consigo. Só sei que preciso de encontrar a minha hipotenusa. Sabes onde está?
Purple: Está bem, vou tentar ajudar. Vamos por partes. Que é uma hipotenusa, para ti?
Lime: Não venhas para cá perguntar o que é uma hipotenusa, não sabes é? Queres que explique, com as mãozinhas? Com os dentes? Queres que explique o que é o preto? Para mim? O que é um pássaro, para mim? Queres?
Purple: Tem calma, só estava a querer ajudar.
Lime: Ajudar uma porra, só fazes perguntas parvas.
Purple: Está bem. Olha, acho que está ali. Ali fora, vi-a mesmo agora passar.
"Recto oposto" in Motel Prusidente long time ago!
- Lime, estou tão podre que nem imaginas!
- Imagino sim!
- Imaginas?
- Sim, imagino. Imagino que estás podre. Muito!
- Oh, isso não é muito bom de se dizer de alguém.
- Pois não, mas foste tu que disseste.
- Sim, fui eu. Mas é diferente ser eu a dizer do que outra pessoa qualquer.
- Claro. Mas eu não sou uma pessoa qualquer.
- Pois não Lime, não és.
- E sabes que mais?
- O quê?
- Porque é que eu disse isso?
- Não.
- Porque também estou tão podre que nem imaginas!
- Está bem, já somos dois.
Nisto alguém apaga a luz e o silêncio toma conta da ocorrência.
Lime e Purple de manhã na cozinha, de facas na mão a brincar com a manteiga, enquanto esperam que o pão salte da torradeira.
LIME: Vou casar-me hoje.
PURPLE: O quê?
LIME: Vou casar-me hoje!
PURPLE: O quê??
LIME: Eu disse que me ia casar hoje.
PURPLE: O que é que disseste?
LIME: Ca-sar... ho-je!
PURPLE: Ca? O que é ca?
LIME: Ca-sa-mento!
PURPLE: Mento? O que é este mento?
LIME: Não é mento, mas ca-sa-mento!
PURPLE: O que queres dizer, com não é mento?
LIME: Sim, não é mento, só isso!
PURPLE: O quê?
LIME: Sim, não é mento. Percebes!? Não é mento!
PURPLE: Estás outra vez de volta desse mento. Não percebo o que é que o mento tem a ver com o caso.
LIME: Ora vai-te lixar! Ca e mento! O que é que se passa contigo? Não consegues comprender que dizer apenas ca não tem sentido nenhum?
PURPLE: O que é que disseste?
LIME: Ca, disse eu, não tem sentido nenhum!
PURPLE: Stid?
LIME: O que é tudo isto afinal? Como é que podes apenas apanhar pedaços de palavras, e logo as mais absurdas como esse: stid! E já agora porquê stid em particular?
PURPLE: Vês, lá estás tu outra vez - stid.
LIME começa a barrar PURPLE com manteiga. As torradas saltam directamente para os pratos ainda a fumegar.
Tradução livre sobre um pequeno conto de Daniil Kharms, "Koka Briansky", de 1933.
Assimilado aqui.
Lime e Purple ao fim da tarde:
- Lime, grita-me um nome!
- Um nome?
- Sim, um nome qualquer!
- BATES!
- Bates?!
- Sim, isso é um nome qualquer. Não era um nome qualquer que querias?
- Sim, era...
- Então aí está... Bates... BATES! Se queres que o grite...
- E há uma explicação para esse nome?
- Não, não há. Foi o primeiro que me apareceu à frente, limitei-me a lê-lo. Tu é que tens de explicar para é que queres que te grite um nome...
- Ora, isso é cá comigo... Bates, então. Obrigado.
- Está bem, sempre às ordens, é um prazer comunicar contigo!
EU: - Não me levas a sério, não é? Para ti sou uma espécie de escombro, um boneco de feira. Não vês aqui ninguém. Nem uma sombra de gente...
TU: - Deixa-me. Larga-me. Desaparece. És pior do que as baratas...
- Sabes o que é que me fode mais, Lime?
- O quê, Purple?
- Não ter certezas, certezas absolutas.
- Não tens certezas absolutas, tu?! Essa é que é boa! Ah Ah Ah AHA AH AH...
- De que é que te estás a rir, parvalhão?
- AH AH AHA!
- Ri-te à vontade, estende-te ao comprido se te apetecer mas a mim fode-me não ter certezas absolutas...
- Ah ain ah ah... Mas, ain ah, diz-me lá tu, Purple, tu não gostas de gajas?
- Sim, gosto, gosto muito.
- Vês, aí está uma certeza absoluta, grande camelo!
- Falo precisamente de gajas mas não estava a ser tão superficiel?
- Superficiel?
- Desculpa, superficial...
- Superfícial?
- Sim, não se trata de limitar a discussão ao gostar ou não gostar...a crise é quando não sabes o que é que é mais importante...
- Explica-te, caralho!
- Sim, de um lado está o gostar muito do conforto e do outro o gostar muito do desejo...
- Quê?
- Não ter a certeza do que é amar...
- Nunca amaste, é essa a tua dúvida dentro das certezas, dromedário?
- Dormedário?!
- Não tanso, eu disse Dromedário.
- Está bem, adiante-se, amar amei mas nunca percebi até onde chega esse amar.
- Esse amar não te deu para mudares a vida do avesso e vai daí achas que o teu amar não é coisa que se veja, se bem te entendi...
- Pois e essa merda fode-me!
- Olha, sabes que mais?
- Que mais?
- Anda daí que eu pago-te um copo.
- Vamos.
- E sabes que mais, não existe amar de amor de verdade. Nós queremos foder e fora isso temos é muito medo de estarmos desamparados, sem Mãe ou qualquer coisa que se lhe pareça. Nós sem Mãe não somos coisa que se veja. Elas não querem ficar desamparadas do pé para a mão, sem alguém que tome conta delas e dê ordens e lhes decida o rumo da vida e, muita vez, tal como nós confundem o amor de verdade com amar de teatro e de filmes, ´tás a ver?!
- Foda-se, Lime, tu és um génio, caralho!
- Então?
- Oi.
- Que tal vai isso?
- Vai-se indo... e aí?
- Também. Vai-se cavando o caminho. Com as patas!!
- Isso tá mau, é?
- Não, não está nem deixa de estar, é assim mesmo. É assim que tem de ser, não há nada a fazer.
- E quando é que nos vemos?
- Mas não me estás a ver agora? Estou mesmo à tua frente.
- Pois estás, mas apareces sempre meio desfocado e já estou cansado disso.
- Eu também. Mas é assim mesmo. É efeito do fabrico.
- I see...
- Não há nada a fazer...
Lime & Purple conversam enquanto esperam por um duchese, uma tíbia e dois cafés:
- Amanhã é apresentado o Prazer dos Diabos, essa oitava maravilha.
- Ah sim?
- Sim.
- Prazer do Diabos, fuck, isso deve ser bom.
- É! Podes crer que é.
- Kew!l Fixe! Bacano!
O empregado chega e diz:
- Duchese? Tíbia?
Conversa das cinco da tarde:
- Lime, acorda!
- ...
- LIME! Vá lá... já são horas!
- ...
- Já são horas!?
- ...
- (mas horas para quê?)
- ...
- ...!
- Acreditas que ele lhe bate?
- Não, não acredito.
- Mas é o que corre por aí.
- Tem piada esse "do que corre por aí", como se ao correr por aí definisse toda a verdade e a própria vida.
- Foi assim que mo venderam. O diz que se diz. Que ele lhe batia.
- Deixa-te de parvoeiras. Isso é impossível.
- Claro que é impossível, mas também se dizia que ele batia à mulher.
- E ela gostava?
- Não sei. Talvez. Levava e calava.
- Que barbaridade. Também não acredito nisso. Quem é que te disse?
- É o que se diz por aí...
- Estás a ver, isto é mesmo uma terra miserável.
- Deves pensar que as coisas continuam como estavam.
- Não, não penso.
- Que continuam no mesmo sítio...
- Estás enganado, não penso mesmo nada disso!
- Repara, por exemplo, vê estes negativos... espera, negativo não é um bom exemplo, olha bem para estes diapositivos.
- Sim!? O que têm?
- Está lá a imagem, vês? Continua lá, mas repara bem...
- No quê?
- Nos cantos, na cor, no contraste, nestas manchas...
- Sim, foi o tempo que fez isso.
- É verdade, foi o tempo. A imagem foi transformada. É a mesma, mas já não está lá. Pelo menos não está como estava. Foi-se. Já não podes fazer nada com ela. Já não a podes publicar.
- Posso posso. Não há nada que um bom software de imagem não dê para remediar. Essas coisas fazem milagres. Levantam os mortos.
- Está bem, se calhar não foi um bom exemplo.
- Não foi não. Mas para te aliviar podes ter a certeza que eu não penso que as coisas estão como eram.
- Continuam como estavam, foi o que eu disse.
- Sim, isso. Não penso assim.
- Eu também não!
- Ainda bem para ti.
- Tens razão, tenho cada vez mais, esqueço-me de tudo. É incrivel, criei um vácuo dentro de mim. Nada agarra.
- Mas ficam-te bem. Dão-te um ar mais maduro!
- Vi o Sideways há dias, não tinha visto ainda...
- Não há porra de dia em que não pense em mudar-me para o campo... é bom, não é?! O filme...
- Foda-se meu... o Miles era eu! Aquele arrastar todo, o passado às costas... enjoou-me ver aquilo. Ver-me. Com tamanha ressaca, daquelas que ficas com a cabeça do tamanho da Lua.
- Eu não sou o outro, mas pouco falta.
- Espero que não andes a deixar as carteiras em quartos alheios e a fugir nu pela estrada fora.
- Não...
- Se calhar um dia vais ver isso... olhas para ti, ali em cima de alguém que não te diz nada e começas a perguntar... mas que merda é que eu estou aqui a fazer? E apetece-te voltar para o colinho da mamã...
- Quero lá eu ver isso!
- Sim, tens razão, é melhor não ver. Ficavas enjoado!
- E as bombas em Londres? Dizem-te alguma coisa? Eu não sinto nada... é um fenomeno estranho... devia sentir-se qualquer coisa. Quer dizer, estava à espera disso. Quando se ouve uma notícia do género.
- Oh podes crer, não me dói. Não como em Espanha, talvez.
- Não sinto ponta de corno... Depois de tantos Iraques e putas que os pariu, já tudo é corriqueiro! Um fastio! Quase um gozo. Já nada importa.... uma pívia! Is it my problem? Ou é de lá?
- É de lá!
Lime & Purple parados numa esquina:
- Viste?
- Sim, vi, difícil era não ver.
- Incrível, não achas?
- Impossível!
. Extravagante. Não há bem palavras. É sobretudo muito estranho.
- Imcompatível!
- Isso. E uma grande dose de medicação, não achas?
- Drogas?
. Muitas. Uma dependência delas.
- Aqueles comprimidos para o estômago? Caixas deles por dia.
- Só assim... para o enjoo.
- Sim, só assim... Deve importá-los às centenas.
- Mas viste bem? Aquela coisa já não se faz.
- Sim, já não há no mercado.
- É todo o conjunto. Uma peça de museu! Um gargalhar.
- "La camera secreta!"
Lime tropeça no atarantado Purple que, com os cabelos em pé, ia a passar por ele.
- Hey, onde vais com tanta pressa?
- Eu?
- Sim, está aqui mais alguém? Como é que foi?
- O quê?
- O quê... é preciso fazer um desenho?
- O negócio?
- Isso....
- Foi o segundo que fechei no mesmo dia, é sempre bom. O patrão gosta.
- Aah sim? Não sabia do primeiro. Esse envolveu o quê?
- O mesmo. Dinheiro. Facilidades. Há pouco tempo convenci-os a investir em nós, investindo mais neles, percebes? Simplificar. Criar atalhos. E assim é uma loucura, acredita.
- Aah I know that... I like it too...
- É sempre no mesmo sítio, sempre a mesma conversa.
- E hoje ao almoço é mais um. O patrão gosta.
- Não tens mais nada para fazer... bela vidinha. E comer? Não comes?
- Agarro-me a uma peça de fruta. Arrumo o assunto assim, não penso mais nisso.
- Oh que bonito... uma peça de fruta.
- Gosto disso, sou sempre a mesma coisa, vicio-me e fico dividido. O trabalho ou a fruta.
- Entao arranja mais um ofício... assim custa menos... ja não é a meias.... é 33% para cada um, sente-se menos o peso!
- Mas depois falta-me o tempo.
- Ora... trabalhas menos, vais menos ao cinema, ja não vais à bola.
- He he he he.
- Não te rias, não é para rir. O que quero dizer é que no entretanto disso tudo tens o magusto.
- Já tenho a cabeça cheia, não aguento muito mais. Mas o patrão gosta...
- Uma dor de cabeça dentro das calças...
- A Rute66™ foi à falência, separam-se.
- Ah foi? Era o que se esperava... dura apenas umas horas, ao fim de três ou quatro é preciso atirar-lhes um balde de água para cima. Como os cães.
- Não tarda nada recomeçam com o folhetim das palavras e com as transferências para a Suiça. Mas o patrão gosta... e não sente a culpa. Por acaso acho que eles vão dar em doidos, cá entre nós.
- Como toda a gente!
- Eles mais cedo.
- Sorte a deles!
- Deixaram as instalações desocupadas?
- Vais fazer-te, é? Sabes muito.
- Não... já te disse variadíssimas vezes que não é o meu género.
- He he he he...
- He he he he?!
- Sim, he he.
- Não é para rir.
- Claro que é. Género? Falaste em género? Mas qual género, pá, qual género?! Como dizia o Jack Nicholson no alguém tem que ceder «eu sou um homem que não tenho qualquer tipo». Se os negócios gostam de mim e se têm algo que me faça gostar deles, não há safa!
- ... que filme era esse?
- He he he he!
- Não vi. Bem tenho de ir.
- Nunca mais te vou dizer estas cenas, parece que me estou a armar ao pingarelho e não estou mesmo.
- Vai lá para onde ias. Queres um pente?
- Não, o patrão gosta assim.
- Qual foi o último concerto que viste como espectador, sem estar a trabalhar?
- Antony and the Johnsons
- Na Aula Magda?
- Si...
- E como foi o Candy Says? Disseram-me que foi muito bom. Parecia quase cantado em silêncio.
- O pessoal estava todo histérico, o gajo falava e as pessoas riam-se...
- Porquê?
- O gajo dizia 'olá' e desatava tudo a gargalhar...
- Mas porquê?
- Sei lá, porque o adoram e porque não sabem distinguir o que é sério e o que é a brincar.
- O fascínio da ânsia...?
- Histeria do caralho!
- E o Candy Says... sabes qual é? Aquela dos Velvet?
- Não cantou o Candy Says, que eu me lembre, cantou uma do Cohen.
- Cantou cantou... qual do Cohen?
- Desconheço o name...
- Acho que se chama The Guest não me lembro qual é.... estive aqui a ver agora.
- Exacto, era o The Guest... o gajo disse.
- "(...) o encore, já com Aula Magna a prestar tributo com uma ovação em pé, ficou por conta de «Soft Black Stars» e a apaixonante desconstrução de «Candy Says», um dos clássicos de Lou Reed (...)"
- Pruontos!
- Foi a última... mas falaram-me tanto da maneira como ele cantou essa música que queria perceber como terá sido...
- Foi igual a todas as outras. Só houve duas cambiantes em todo o concerto, ocorreram quando pediu a participação do público, primeiro com palmas e duas simples palavras «Water and Dust» e depois com um "MMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM" continuado...
- Ok. Thanks.
- Ouve. Vamos sair daqui sem dizer nada a ninguém. Saímos, descemos as escadas. Sem fazer barulho. E na porta das traseiras, piramo-nos. Lá fora está um carro azul, a cair aos bocados. Não lhe toques. Está armadilhado. Mais à esquerda vais ver duas bicicletas. Monta-te numa e desaparece. Desaparece!! E não voltes nunca mais, nem olhes para trás. Mesmo se alguém te chamar. Percebeste?
Lime e Purple descem uma rua qualquer.
- Viste passar o Gorila?
- Vi!
- Acreditaste no que viste?
- Não.
- Reparaste bem?
- Sim, era o Gorila!
- Num descapotável.
- Sim, mas um descapotável serrado. Mal serrado, diga-se. Cheio de rebordos, falhas, borbotos.
- E o cabelo, chupadinho.
- Parecia-me uma grande carrada de cuspo.
- Também achei. Luzidio. Mas uma coisa achei estranha.
- O quê?
- Os olhos!
- Pois. Não os tinha. Que olhar estranho. Pequeno. Sem vidro.
- Lembrou-me um boneco. Daqueles que têm um ponto apenas, lá no fundo.
- De Lego?
- Hmm... acho que não. Talvez um Playmobil.
- Mas diz-me uma coisa...
- Sim?
- Porque ia ele de marcha-atrás? Ia a fugir de alguém?
- Não me perguntes. Parecia amedrontado. Com um pavor de cuspo.
- Raio de gajo. Que figura!
- Que é que queres... é o Gorila!
- Pois...
Beijaram-se no final da esquina e seguiram para lados opostos. Refira-se, como adenda, que os opostos nem sempre são opostos. Por vezes é apenas ilusão de óptica. Um factor de simulacro.
Lime diz:
como é que vai isso?
Purple responde com uma pergunta:
tens ai um martelo?
e continua:
daqueles pneumáticos...
cheio de imaginação:
das obras??
Por fim, quase a coçar a cabeça, atira:
preciso de acordar...
Lime, incrédulo:
não...
Purple já vai longe:
preciso que mo enfies pelos ouvidos...
e em desespero:
fazes isso, por mim?
Lime cheio de compaixão, sugere:
estás a precisar de enfiar qualquer coisa na cabeça?
Purple:
Não. Estou com sono!!
- A memória! Onde está a minha memória, Lime?
- Esqueceste a tua memória?
- Não. Como poderia esquecer a minha memória, sem a ter! Sem ter a memória!
- Então por que me perguntas pela tua memória?
- Lime, Lime, procura, procura...devolve-me a memória!
- Como poderei devolver-te a memória, se nem esquecimento, nem lembrança existe dessa memória?
- Lime eu nada sei da minha memória. Só tu! Só tu poderás devolver-ma para que possa depois esquecê-la!
- Mas como o poderei fazer?
- Fazendo... Lime... fazendo-o em memória de mim!
- Lembra-me, Lime, não te esqueças, lembra-me!
- De quê?
- Que não posso esquecer de me lembrar.
- Mas lembrar-te de quê?
- Que não posso esquecer.
- Esquecer?
- Sabes, Lime, eu não tenho memória, preciso de lembrar-me dela. Lembrar-me do esquecimento. Trazê-lo de novo vivo para dentro da memória. Trazer o esquecimento que ainda me lembro. Onde vive a memória. Ainda viva no esquecimento.
- Queres que escreva, as tuas memórias, é isso?
- Não, basta que me lembres dela. Que ela existe. Lembra-me para não me esquecer.
- Da memória...
- Sim, Lime, lembra-me da memória, não te esqueças, lembra-me.
- Sabes do que tenho saudades?
- De quê?
- De uma Tasca. Daquelas escuras onde só há velhos a beber.
- Ahhh....
- Tenho saudades de me pôr lá dentro, pedir um copo de qualquer coisa, Teobar de preferência, ou uma Ginja, ou um Bagaço, e derrubá-lo. Derrubar um copo a seguir ao outro. E ficar ali a ouvir os velhos, a meter-me nas conversas, a chateá-los até ao osso, a enterrar-me nos Rissóis de três semanas. E a ficar tão bêbado que nunca mais me conheço. A ficar tão velho como eles.
- Não sei se te faz bem, ficares velho.
- Faz, faz. Ficar velho como eles. Enterrar-me como eles. E ficar com um nariz de maçaneta!
- Ficavas lindo!
Lime nasceu perto de Pisek, num lugarejo chamado Horni-Záhori. Purple vem de Tábor. Entre as duas fica Bernartice, onde ambos se encontravam para discutir. Para debater ideias. Lime era sempre o primeiro a ligar, pegava no telefone e dizia 'vamos discutir'. Era um impulso imediato, agarravam nas bicicletas e faziam os vinte quilómetros, distância para ambos os lados, em pouco mais de meia hora. Sentavam-se na praça principal, fizesse sol ou neve. Purple falava, Lime ouvia, atento, tirando notas que escrevia na escuridão do cérebro. No fim discutiam, por vezes envolviam-se fisicamente, por falta de adjectivos. Mas na maior parte do tempo estavam calados a controlar o tempo. A olhar para o ponteiro dos segundos, imaginário, que circulava na torre da Igreja. Ouviam a calçada e, por baixo da calçada, ouviam a terra, que gemia de dor. Apertada. Ouviam os outros que estavam também à espera de os ouvir. Calados na mesma praça, com as mesmas bicicletas. Vindos de terras adjacentes, a vinte quilómetros de distância. Foi a partir daí que, mais tarde, se formou o chamado, porque não tinham nome, Grupo de Bernartice. Poetas e carpinteiros que se juntaram para libertar o país das amarras do marasmo. Com o país libertaram-se eles. Libertou-se a praça.
Nada de revivalismos, está bem? - Lime tinha acabado de chegar, estava há vinte minutos a tentar convencer Purple a não se atirar do cimo do monte. Escarpado. Ouve o que eu te digo, aconteça o que acontecer, nada de nada de revivalismos! Nada de nada de nada! Estás a ouvir? - Purple sofria. Só porque estava a ouvi-lo. Ouvia-o para sofrer. E deixava-o falar para sofrer ainda mais. Mais e mais. Não penses em reviver. Reviver não é nada. É morrer de novo - Mais e mais. E mais. Era tão bom se ele continuasse. Até ao fim. Ficava aqui a olhar, no cimo deste monte, até me atirar para a erosão da escarpa. Quando ela já não existisse. E não estivesse aqui mais ninguém. Nem eu nem ele. Quando mais nada existisse. Nem eu nem ele. Mais e mais e mais. No revivalismo não acontece nada, sabias? Sabias que o revivalismo está vazio? Oco? Sem ninguém? Vazio de gente. Nem tu nem eu. Sabias? Vazio de ti, de mim? Sabias? - Era tão bom se ele continuasse. Mais e mais. E mais. Era tão bom. Até à erosão do movimento. Do tempo. Quando já não existisse tempo. Nem ninguém. Só a cavidade do universo. Sempre. Nada de revivalismos! Acabou! Estás a ouvir?
Desci. Sem segurança nenhuma, aos encontrões na carlinga. Não consegui desprender-me. Dos destroços que ficaram espalhados no solo. Tenho uma mão a funcionar. A outra não mexe. Está perfurada e não a vejo, para aí. Respiro com dificuldade este ar de plasma...
Pergunta-me o que estou aqui a fazer.
"O que estás aqui a fazer?" - perguntou Lime a Purple.
Abre-se aqui um novo capítulo na Junta. Lime & Purple são dois exequentes funcionários, está bem, são estrangeiros, que actuam sempre juntos. Têm toneladas de histórias para contar, sempre que chegam. A mim e aos outros. Mais do que o Moço de Recados eles fazem qualquer trabalhinho. Sujam as mãos se for caso disso. Ei-los.
Lime e Purple encostados ao muro amarelo, descem a rua.
- Sabes ir lá ter? – Diz Lime.
Purple olha para o relógio, dez e dois minutos.
- Consegues ir lá ter?
Purple amansa o passo e sustem-se no limiar da esquina. Acende um cigarro para ganhar tempo. Também quero ganhar tempo.
- Sabes onde fica? Vais lá ter sozinho? Sabes o caminho?
- Queres saber se sei lá ir ter? – Olha para a esquerda e para a direita num movimento prolongado e continua - Mas eu não vou! Não quero saber. Vou ficar aqui.
- Não vais? Não vais? – Lime só estava estupefacto, preparava-se para lhe dar um murro.
- Não vou e tu está quietinho, nem um sopro!
- Temos de ir, não podemos não ir.
- Mas quem disse nós? Vais tu e eu digo-te exactamente o que tens de fazer. – Atirou o cigarro para trás do muro e acendeu outro. Queria ganhar mais tempo. Eu também quero ganhar mais tempo. – Ouve-me com atenção, chegas lá, ainda de dia, e ficas à espera, à espera como estamos agora aqui à espera. Esperas que alguém venha, alguém há-de vir. E quando vier tu entras em acção. Lembras-te o que vimos ontem? Lembras-te como nos conseguimos safar ontem, sem ninguém dar por isso? Vais fazer exactamente o mesmo. Esperas por alguém que vai chegar mais cedo ou mais tarde, é melhor que chegue ainda de dia, e quando o vires, quando estiver a cinco passos de ti fazes exactamente o que fizemos ontem. Lembras-te?
- Não! – Lime estava a caminhar para o desespero.
- Não interessa, fazes exactamente o mesmo que fizemos ontem. Ontem e nos dias anteriores. Lembras-te dos dias anteriores?
- Não! Não me lembro de nada. Não sei do que estás a falar.
Purple olha de novo para o relógio, para os ponteiros metálicos que tinham a forma dele próprio. Ele próprio o relógio. Era um relógio dentro de um relógio. E dentro dos ponteiros haviam outros relógios, e dentro desses relógios mais ponteiros e por aí fora. Era um arquétipo do relógio e marcava dez e quase vinte. O muro amarelo encostou-se a Lime. Purple chegou-se também e apagou o cigarro deixando uma marca fumegante.
- Então é assim. Vais lá. Esperas. Ainda de dia. E fazes exactamente o que fizemos, o que fizeste, toda a vida. Lembras-te da tua vida, da minha? Isso mesmo toda a tua vida. E nada mais. E é importante que seja assim porque não há outra maneira.
- E tu, ficas aqui? A fazer o quê?
- Fico aqui à espera da multidão que vai sair daquela porta, e vou com eles.
- Com eles? Quem? Para onde?
- Vou com eles para onde eles forem. Vai sair uma multidão daquela porta e eu vou com eles, exactamente para onde eles forem e tu vais fazer o que te disse.
- Sim e depois?
- Depois vens para aqui e ficas à espera. Vai sair outra multidão daquela outra porta, estás a ver? E tu segues essa multidão. Perdes-te lá dentro e deixas-te ir.
- Para onde?
- Exactamente para onde eles forem. – O relógio sucumbia agora no ponto mais a sul e o ponteiro dos minutos preparava-se para galgar a ladeira. Purple começava a ficar nervoso. Não acendeu mais nenhum cigarro.
- Vai!