“…sou
uma estaca atravessada pelo sangue, e dela rebentam,
por exemplo: áscuas. Isto é uma fábrica de demência:
palavras
onde se manobra a púrpura, onde
o aroma que mata ascende de jardins construídos
levemente
na escuridão. E uma imagem fecha
tudo o que se fecha: quartos
dias sobre si mesmos, as frutas redondas por força
da doçura interna. Quando as vozes
ferozes se desngolfam, a terra
move-se como um músculo encharcado entre a boca
e o coração que não dorme
nunca – E todas as minhas vísceras são
inocentes.”
Herberto Helder
Vi este filme com o meu Pai

Sinto-me isto, sinto aquilo e aqueloutro. O que é que eu sinto??
Fosse eu a Antártida como um pedaço grande de gelo que se separou e se afasta para sempre em direcção ao alto mar, ao nunca mais.
Brindo a ti com um copo de vinho:
Boa viagem Pai.
Dantes ainda escrevia. Agora já nem isso. Deixei. Quer dizer, o acto em si, estar aqui a escrever, não sei se me apetece. Mas costumava fazer-me bem. Dava-me esperança. Alento de mim. De um novo eu. Ser capaz de escrever. E às vezes penso nisso. Às vezes penso que estou a escrever e vou escrevendo pelas ruas fora enquanto caminho. Não é o mesmo como o acto em si, mas já é qualquer coisa.
Daniil Kharms was one of the ringleaders of Leningrad's avant-garde OBERIU group until it was forcibly disbanded in 1931. Arrested in 1941, he feigned madness to avoid the firing squad and died in an insane asylum.
ONE FAT MAN
«One fat man invented a way to lose weight. And he lost it. The ladies began pestering him, trying to pry out his secret. But the thin man replied that it becomes men to lose weight, whereas it does not become ladies at all; that ladies, on the contrary, ought to be full-figured. And he was absolutely right.»
«"A slow sort of country!" said the Queen»
«Now, HERE, you see, it takes all the running YOU can do, to keep in the same place. If you want to get somewhere else, you must run at least twice as fast as that.»
Lewis Carroll - "Through the Looking-Glass", 1872
"A ausência de alternativas clarifica maravilhosamente a mente"
Henry Kissinger n. 1923
E então achei que se alguém me dissesse vieni eu me perderia para sempre.
Numa manhã cinzenta de Outubro a família estava, como de costume, modorrando. A cozinheira cozinhava, o jardineiro jardinava, a minha mãe gritava ordens (via telefónica) para o talho, a minha irmã mais velha soletrava verbos em francês para uma mademoiselle e as crianças brincavam. Eis senão quando, todos estes afazeres e respectivos protagonistas foram surpreendidos por alguns gritos lancinantes:
«Está a arder, a chaminé está a arder!...»
Efectivamente, o telefone não Efectivamente o telefone não parava de tocar... O Sr. Santos da Invencível, a fábrica de chitas e popelines em frente ao matadouro, ciente da nossa usual incúria, prevenia-nos da ocorrência: o Sr. António, da mercearia, informava respeitosamente que a casa ardia; a tia Géna, de São Roque-o-Velho, alertava para os rolos de fumo negro que cobriam a rua. O quartel da Bela Vista (assim chamado, mas nunca percebi porquê, uma vez que só viam a nossa casa!) foi o ultimo a falar, porque a sentinela de serviço contactou o impedido que, por sua vez, correu a hierarquia até chegar ao coronel, o qual, ponderando a gravidade da situação, teve a delicadeza de nos ligar informando, via militar, que ardíamos abundantemente!...
Perante tão emocionante notícia, a família correu e olhava perplexa o espesso fumo negro e labaredas, quando o badalo do portão começou a tocar. Acto contínuo:
Entrou a I corporação de bombeiros... A II corporação de bombeiros... A III corporação de bombeiros.
Assim de enfiada, se bem me lembro, foram cinco...
Capacetes brilhantes, machadinhos em riste, escadas magirus às costas. Ordenando ao jardineiro que indicasse torneiras de rega, desdobravam mangueiras tipo gibóia e foram tomando conta da ocorrência. Estávamos francamente deslumbrados! Em 10-20 minutos a casa ficou um esterco, da cozinha saía uma catarata do Niagara em negro, apenas um terço da chaminé ficou de pé. Alguns bombeiros mais eficientes, que começavam a desdobrar diligentemente a escada para alcançar o andar de cima, foram impedidos de levar a cabo esse trabalho pela minha mãe, que jurava não ver a necessidade duma destruição adicional. Com o almoço irremediavelmente destruído, almoçámos e jantámos em casa da tia Géna. Durante dois dias varreu-se água suja da casa inteira. Foi preciso renovar tudo, de alto a baixo. Cada um de nós tinha 25 histórias para contar sobre o épico acontecimento, um tinha segurado heroicamente a mangueira, outro uma escada, os mais atentos sabiam o nome próprio de 4 ou 5 bombeiros e respectivas corporações: Valongo, Corujeira, Antas, Rio Tinto, etc.
Quando tudo acalmou no terceiro dia e contávamos à Virgínia, que não estivera presente naquele dia, como tinha sido emocionante, ela rompeu em lágrimas e num assomo de profunda revolta declarou que nunca mais queria ficar em casa dos padrinhos, porque lá não tinha graça nenhuma, a casa nunca ardia!
O meu pai também teve uma reacção inesperada, quando recebeu cinco contas dos bombeiros, três multas por não ter limpo a chaminé e a conta da pintura de todo o andar de baixo!... Depois de um sumário e ineficaz inquérito sobre quem, estupidamente, tinha chamado os bombeiros, proibiu tudo e todos de tornar a chamar, qualquer que fosse o caso, um único bombeiro: se a chaminé ardesse, nós apagávamos!...
Num exemplar acto de comunicação interna, martelou esta mensagem não só nas nossas onze cabeças, mas também nas das criadas, jardineiro, homem do talho e todos os que, de longe ou de perto, seguiam os grandes e pequenos acontecimentos da tribo.
Tivemos, intervaladamente, mais dois épicos incêndios... Repetiram -se os telefonemas da vizinhança ao primeiro sinal de fogo, tudo o que era gente em casa atendeu os clamores da vizinhança informando ter o fogo sob controlo. Ligávamos ao meu pai para Gaia, solicitando a sua superior coordenação para dominar o sinistro. Ele lá vinha, punha a família em fila, pendurava-se numa escada junto à chaminé, na qual despejava diligente os baldes que nós passávamos de mão em mão até lhe chegarem lá cima. E assim repetimos feitos façanhosos. Na cozinha, o desastre era total, os almoços e jantares inutilizados boiavam pela casa, o chavascal era indescritível. Mais duas vezes a minha irmã Virgínia, que era azarada, se desfez em lágrimas por não ter assistido nem colaborado naqueles esplêndidos incêndios. Durante uma infinidade de dias todos contávamos e explicávamos uns aos outros, e a quem fazia o favor de ainda nos ouvir, os inúmeros passos, baldes e actos de heroísmo que tínhamos praticado no combate às chamas. Mas o meu pai fez o balanço. Chegou a uma douta conclusão, veementemente apoiado pela cozinheira: o grande problema dos incêndios na chaminé não eram os estragos feitos pelo incêndio propriamente dito, mas sim as consequências do seu apagamento. Encetou então uma nova campanha de informação interna, desta vez proibindo, não só que se chamassem bombeiros, mas também que qualquer dos seres vivos da casa tentasse apagar o fogo, declarando «Da próxima vez que a chaminé arder... deixa-se arder...»
Obviamente, aconteceu! O velho fogão a carvão, para fornecer banhos e refeições, era aquecido ao rubro e, como dizia a Maria, até parecia um cavalo... A vizinhança, já treinada, não se poupou de prevenir. A família, inabalável e obediente às instruções paternas, não se coibiu de responder com correcção e indiferença que se deixava arder... Era não contar com a persistência dos nossos companheiros de rua. Cada um deles repetia o telefonema esperançado em encontrar do outro lado do fio uma criança menos obstinada ou um adulto mais sensato que não dessem aquela louca resposta, mas em vão. A D. Berta Valente, fazendo jus ao seu nome, falou cinco vezes até conseguir ser atendida por um adulto e obter a mesma resposta. Em desespero de causa, telefonou para o escritório do meu pai e teve um chilique quando ele lhe respondeu serenamente que se deixava arder. Durante quatro horas a chaminé forneceu a toda a rua o seu fumo espesso e negro. Nós, inabalavelmente, defendemos a teoria paternal. E foi tudo, o fogo limpou a fuligem e a cozinha não parou de funcionar. Tudo não, desde esse dia todos os nossos vizinhos, que já desconfiavam disso, adquiriram a firme certeza que, do primeiro ao ultimo, éramos todos loucos. E qual é a moral da história? Muitas vezes acontece: Quando a experiência nos dita uma medida de elementar bom senso, todos à volta pensam que somos doidos.
MMRP
Ontem passei o dia na cama. A dormir. Sonhei que o meu nome era um anagrama, já não me lembro de quê.

Não sei onde está a Suzy hoje. Esta foi a última vez que a encontrei.
A Suzy fuma desalmadamente, com fúria. Não sei bem o que está à espera quando fuma assim. Mas acho que não está bem a fumar. Como não está bem a escrever. Gasta cigarros. Fuma de uma maneira como eu nunca vi ninguém fumar. Como se o cigarro se fosse gastar. E ela com medo que isso aconteça. E com esse pavor fuma ainda mais depressa, para aproveitar o cigarro todo. Mas com a velocidade a que vai aspirando o fumo o cigarro gasta-se mais rapidamente. Num minuto, talvez.
Não sei bem explicar este fenómeno. É uma espécie de suicídio do tabaco. Não sei.
E é assim que ela escreve também. Com medo que as folhas se acabem. E por isso escreve e escreve, usando as folhas o mais depressa possível. E escreve. Com medo que elas se gastem. Com medo de não ter mais palavras.
É esta a filosofia da Suzy. É este o sorriso que traz sempre na cara quando olho para ela.
Vou pedir-lhe que me escreva uma coisa em inglês. Só para ver, sem estar a pedir a alguém que me traduza.

- Suzy, vais ter de me mostrar essas coisas que escreves.
- Que coisas?
- Isso tudo, quero ler, quero saber o que escreves.
- Mas não é nada.
- Mas diz-me o que é, são histórias? Escreves histórias sobre Macau, sobre a tua vida?
- Não, não escrevo, são só palavras.
- Frases sem história?
- Não, não são frases... são só palavras... muitas palavras.

Encontro a Suzy muitas vezes, em vários sítios da cidade, está sempre agarrada a um caderno a escrever. Sempre quis perguntar-lhe o que escreve ela com tanta efusão, longe de tudo o que está à volta. De caneta na mão sem conseguir parar.
Hoje encontrei-a na praça onde vou passar muito do meu tempo. Fala inglês, o que foi uma surpresa, podermos conversar. "I'm Suzy", disse ela. E perguntei-lhe. E ela respondeu:
- Escrevo qualquer coisa.
- Mas escreves o quê?
- Qualquer coisa, não interessa o quê. Escrevo!
E fez um gesto de chegar a mão à cabeça, como se estivesse a demonstrar ter tanta coisa para escrever. Sempre. A toda a hora. Em qualquer lugar.
Perder a sombra, perder o rasto.
Deixar a cidade, esta vida aqui (e sempre um outro capítulo aberto algures).
Fechar este, como quem apaga, tenta, uma coisa ainda viva.
Começar de novo.
Construção do quotidiano, (des)construção da memória.
Começar do zero.
Reboot.
(Aqui também).
«Ele escuresse o ar, ele ara a sombra.»
Escavado do Senhor Manel
queria escrever aquilo ali em cima com letras maiúsculas.
quem sabe o que quer dizer UHU ?? essas três letrinhas já tão entranhadas no vosso quotidiano que nunca são questionadas.
se quiser perder uns minutos e esclarecer-me sobre o significado da triletria, deixe escrito.
agradeço.
p.s.
ó moço gosto de ti tanto quanto sempre gostei.