Cara Assussora
Não tenha medo.Gostava de falar consigo não sobre o Albergue mas sobre outra coisa mas perdi o seu contacto.Estou muito contente porque ontem www.saturnias.blogspot.com
Podia-me enviar um mail pro saturniaman@yahoo.it ???
Para eu falar-lhe to tal assunto
Abracinhos e beijinhos
Todos nós, de acordo com Walter Benjamim, momentos antes de acordarmos experienciamos o Instante.
Um breve momento em que não sabemos quem somos, onde estamos, como nos sentimos e o que temos que fazer.Só apenas após este instante começamos lentamente a “vestir” os papeis sociais que nos dizem por exemplo se somos pais, filhos, orfãos, empregados, desempregados, ricos, pobres ou sem-abrigo.
Consiga ser esta proposta um arremedo desse instante e uma oportunidade para uma muito desejada reflexão sobre o que normalmente entendemos do mundo.
Neste sentido A Arte saíu á rua num dia assim é uma manta de retalhos, de muitos e variados retalhos, como todos nós, criados pelos utentes das instalações da Associação dos Albergues Noturnos de Lisboa sita na Rua da Cruz dos Poiais nº 10 em parceria com a Crew Hassan que generosamente ou visionariamente disponibilizou este espaço.
A Associação dos Albergues Noturnos criada em 1881 é uma instituição privada que acolhe sem-abrigo onde lhes é proporcionado uma cama, duas refeições (jantar e pequeno almoço)e o acesso a instalações sanitárias além de um regular apoio e acompanhamento feito por parte de assistentes sociais.
A instituição contactou-me de modo a criar um espaço de interesses assentes na criatividade e dinâmicas de convívio.
Foi um processo irregular mas em que descobri que por desconhecimento e alguma insensibilidade normalmente se constroem muito rapidamente e levianamente opiniões estereotipadas sobre os sem-abrigo e sobre as razões que podem levar alguém a viver na rua. De resto porque não?
Há nos criadores de A Arte saíu á rua num dia assim valores, memórias, visões e em bruto algumas cordenadas para a formulação de políticas sociais que urgem serem pensadas evitando de uma vez por todas o síndrome do “coitadinho”.
A provar que não bastam cobertores e pão na vida de um homem esta exposição ilustra a vontade do Albergue e da Crew Hassan de dar voz a estas questões.
Questões dificeis e por vezes melindrosas ás quais por regra se foge e se cria uma carapaça de certezas. Agradeço portanto a todos os envolvidos na realização desta proposta pela sua generosidade e duvidas.
"Tão diferentes como os viajantes eram os seus olhares(não é o olhar o espelho- concavo ou convexo- da alma?)
Ao interpretarem o que viam com ingenuidade, carregado de cálculo mercantil ou de vontade de poder conquistador, tanto do império como da fé; com frias observações de ciência pura ou interessada, na inentariação de novos mercados.(...)"
In O olhar do viajante de Fernando Cristóvão
O chamado "selvagem" foi sempre um brinquedo para o homem civilizado ... fonte de emoções fortes na teoria. O selvagem foi sempre chamado para dar foros de autenticidade a essa ou aquela hipótese a priori, tornando-se, conforme o caso, cruel ou nobre, lascivo ou casto, canibalesco ou humanitário — em suma, o que melhor conviesse ao observador ou à teoria.
B. Malinowski
Todos nós, de acordo com Walter Benjamim, momentos antes de acordarmos experienciamos o Instante.
Um breve momento em que não sabemos quem somos, onde estamos, como nos sentimos e o que temos que fazer.Só apenas após este instante começamos lentamente a “vestir” os papeis sociais que nos dizem por exemplo se somos pais, filhos,orfãos, empregados, desempregados, ricos, pobres ou sem-abrigo, "selvagens" ou "civilizados".
"Será o unico momento da história da expansão do Ocidente em que o olhar é um doce espanto que engloba toda a paisagem com encantamento.
Um claro exemplo é a carta de Pero Vaz de caminha narrando os cinco primeiros dias na costa do Barsil e o divertimento de ver e brincar com aqueles homens.
Mas é um instante que apenas dura o tempo do primeiro contacto.Quando os indios são trazidos para mostrar na Europa, já o olhar se servira de uma ferramenta para melhor ver: o dedo."Joaquim Pais de Brito
Caliban da Tempestade de Shakespeare sintetiza o quadro mental de uma Europa em crise com a descoberta das Américas e dos amerindios no Sec. XVI.
Geografias novas que entram em conflito com a concepção do Mundo assente em Santo Agostinho.
Na peça do bardo inglês pode-se ler na sumula descritiva dos personagens que Caliban é um monstro, escravo, selvagem e disforme.
São famosas as discussões e Salamanca do mesmo século em que se procurou apurar a existência ou não de uma alma com fins de ordem mais prática que espiritual:A concluir-se terem alma não poderiam ser escravizados.
Caliban, o selvagem sem lei, pagão de uma sexualidade bestial e desviante transforma-se aos olhos dos Europeus com a chegada ao Taithi do Capitão Cook no sec. XVII.
Deste cartografar do maior dos mares da Terra, o Pacífico, em que se desfazem miticos sextos continentes algures a sul da América do Sul que se julgava ser a Patagónia o inicio inicia-se a gesta do Bom Selvagem tão ambíguo e ilusório como o imaginário anterior.
Na lógica cabrita do dedo em riste nós somos o que os outros não são e os outros são o que nós não somos para o bem e para o mal.
Sobre a história do Pacífico, James Cook, doenças venéreas, argonautas lapitas e a emergência de Ilhas do tesouro, Robisons Crusuès, Mobys Dicks, bons selvagens e iconografia.
"Eu digo-lhe que a terra tem sempre razão.Sabe aquele sítio onde as pessoas vão todas cagar e mijar?Ao pé do Mcdonalds.
Olhe, avomitei-me todo ali e ajoeilhei-me e voltei a comer tudo.Há pessoas que vão a Fátima...É preciso muita coragem não acha??
A flha do Alanches vai-me pagar um dia tudo o que me fez.Vai vai."
Trecho de conversa que tive com um dos utentes do Albergue onde trabalho.
Aqui segue o 1º editorial do "projecto" de jornal que ando a tentar ver se vai para a frente.É também um teste a ver se o blog ainda está activo.
Um provérbio oriental diz que uma grande viagem começa por um pequeno passo,
poderia juntar-lhe a máxima portuguesa que depressa e bem não há quem.
Neste sentido A Comunidade que por agora se apresenta em formato de jornal de parede é mais um passo para a sua, espera-se, cada vez maior visibilidade.
O nome foi sugerido pelo Carlos Simões que por motivos de ordem maior já não se encontra aqui na “redacção”.Fica aqui o reconhecimento pelo nome que considero ser inspirado.
Um grande bem-haja a todos os que se disponibilizaram com as suas palavras e contributos desfazendo a ideia feita de que a palavra é de prata e o silêncio é de ouro.
Toda a história avança porque houve gente com coragem, que arriscou e falou.
Estou a pensar por exemplo em duas figuras incontornáveis da história que não escreveram uma uníca linha e que passaram a vida toda a falar quase parecendo que não gostavam de trabalhar:
O filósofo grego Sócrates e o nazareno Jesus Cristo.
Acreditem que a vida deles e a de muitos outros não foi nada fácil!
Não nos deixemos levar pela ilusão de maior ou menor importância que julgamos ter na vida. Normalmente essa importância é-nos dada por gente do nosso tempo e lugar.
No dia a dia dos chamados grandes nomes da história uma multidão de gente anónima, directa ou indirectamente, contribuiu, muitas vezes sem o saber, para o formular de ideias que se tornaram ideia e palavra.
Não por acaso na Bíblia da mitologia cristã comece justamente por dizer No princípio era o Verbo.(A palavra)
Lembremo-nos também que as palavras têm significados diferentes conforme a situação.
Apelo ainda á compreensão dos leitores se de algum modo o aspecto gráfico desta primeira experiência não for do agrado geral. Aceitam-se sugestões e comentários.
Aceitam-se igualmente críticas ou comentários sobre os textos aqui publicados.
Caso alguém não se sinta muito confortável em se expor aqui pode sempre recorrer ao anonimato.
Estejamos pois à altura do que nos vai acontecendo.
"(...) num dia próximo (...) hão-de aparecer revestidos de
plumagem de pássaros numa cratera minúscula aberta numa
flor. (...) E assim até que a Verdadeira Vida de que somos
abortos seja erguida sobre os alicerces de que eles são os
portadores
Desci as escadas.
Do lado direito a Lua, do lado esquerdo o Sol, ao centro o Fogo
dos Séculos. (...)"
António Maria Lisboa
Caminhei o dia todo sem destino e indiferente ao charme de Roma. As decisões nao se encontram ao virar da esquina. Habituo-me outra vez à doce ilusão do conforto e pelo caminho vou observando com atenção os rostos e os gestos dos vagabundos.
Que esperam, de onde vêm ?
Compreendo–os tão bem. Esperam apenas do presente um lugar seco e tranquilo onde se possam deitar e dormir longe de olhares que os façam reagir. Talvez um banco de jardim não muito duro por detrás de uma árvore grande.
Os melhores lugares da cidade são os primeiros a ser ocupados .
Beijo, se é que os meus lábios são dignos, as mãos, os corações de todos os rostos amáveis e familiares que foram deixados para trás e que os amaram enquanto estes nomadas se deixaram amar.
Procura-se o esquecimento, procura-se não pensar demais, tornar-se completamente vazio de laços, vaguear sem memória, sem remorsos num labirinto sem fim.
Abandonada a memória, a bússola, o fio, deixamos de ter sonhos .
Comidas as migalhas que nos podiam reconduzir de volta à saida entregamo-nos nas mãos de uma providência sem significado.
O perigo passa a ser imediato.
Os possíveis perigos futuros um luxo de quem vive em camas fofas e quentes.
"Na história de Eros e Psique contada por Apuleio, Pan protege Psique do suicídio. Desconsolada, sem amor, a ajuda divina é-lhe negada, a alma é presa do pânico. Psique atira-se ao rio mas este rejeita-a. Naquele momento de pânico, Pan aparece na forma do seu outro lado reflexivo, o Eco…
…O comportamento é natural, em um certo sentido, divino; é um comportamento que trascende os jogos humanos dos objectivos…
A causa de tal comportamento é obscura: nasce espontaneamente, repentinamente.
O seu lugar de origem, a Arcadia, é uma localidade tanto física como psíquica. As obscuras cavernas... onde vivem o impulso, as trevas fora da psique das quais nascem o desejo e o pânico.
...um vagabundo sem a estabilidade que resulta da geneologia..."
James Hilman in Saggio su Pan
"[...] ou converso de modo tresloucado, infantil ou muito sério com a parte mais profunda de mim, que por comodidade chamo de Deus."
do Diário de Etty Hillesum (1941-1943), editado pela italiana Adelphi, ainda sem traduão em português. São as últimas palavras antes de ir para Auschwitz, palavras corajosas sem pieguices que procuram luz e sentido quando à volta tudo se torna cada vez mais difícil.
"[...] Lasciar completamente libera una persona che si ama,lasciarla del tutto libera di fare la sua vita ,è la cosa piu dificile che si sia..."
"Chorava.
Dizia:
fiz tudo
errado.
Como se fosse Deus."
António Rego Chaves
Escuto mas não sei
Se o que ouço é silêncio
ou Deus
Escuto sem saber se estou ouvindo
o ressoar das planicies do Vazio
Ou a consciencia atenta
que nos confins do Universo
me decifra e fita
Apenas sei que caminho como quem
é olhado amado e conhecido
e por isso em cada gesto ponho
solenidade e risco.
Não é um caso de policia, é um caso de memória que me sufoca:
"I need someone, a person to talk to
Someone who'd care to love
Could it be you
Could it be you
Situation gets rough
Then I start to panic
It's not enough
It's just a habit
Hey kid you're sick
Darling this is it
You can all just kiss off into the air
Behind my back I can see them stare
They'll hurt me bad but I won't mind
They'll hurt me bad they do it all the time
Yeah yeah, they do it all the time
I hope you know that this will go down on your permanent record
Oh yeah well don't get so distressed
Did I happen to mention that I'm impressed
I take 1 1 1 'cause you left me
And 2 2 2 for my family
And 3 3 3 for my heartache
And 4 4 4 for my headaches
And 5 5 5 for my lonely
And 6 6 6 for my sorrow
And 7 7 7 for no tomorrow
And 8 8 8 I forget what 8 was for
And 9 9 9 for a lost god
And 10 10 10 for everything everything everything..."
[by Violent Femmes]
No telejornal de 1 de Janeiro da SIC, a notícia de que um pedaço de gelo quase do tamanho de França inesperadamente se separou da Antártida alarmando a comunidade científica e ecologistas. Que as alterações climáticas realmente estão acontecer já se sabia mas de maneira tão acelerada e abrupta causou e causa apreensão.
Não obstante a existência de megabytes de informação que confirmam isto a responsabilidade humana continua a ignorar o problema de forma irresponsável e assassina. Logo a seguir à peça jornalística vieram as imagens de mil fogos de artifício de festejos da passagens do ano de uma comunidade global que realmente é una no gasto e no absurdo. Chega a ser surrealista tanta fuçanguice e irresponsabilidade de dar ao público apenas e só o que vende. Pensar no que os media nos vão dando e no que não nos dão chega a ser desanimador e não augura nada de bom para 2007.
A carneirada toda espera para 2007 paz e saúde. Eu preferiria mais consciência.
Como é surrealista todo o conjunto de peças que andam agora por quase todos os canis informativos onde se lê em grandes letras que afinal Saddam Hussein tinha um lado humano:
Dava migalhas aos passarinhos, os restos do que não comia aos famintos e que fazia jardinagem chegando a regar até mesmo as ervas daninhas.
Entretanto num programa da RTP 2, em formato do extinto Caderno Diário mas mais digital, dois personagens, um irmão e uma irmã, vão fazendo uma espécie de Querido Diário narcisista impregnado de tecnologia virtual. O programa chama-se PICA mas ainda não percebi bem porquê. O que sei é que o maninho pôs-se a falar sobre liberdade de informação e sobre os cartoons alusivos ao Islão e a Maomé do jornal Dinamarquês.
As palavras eram boas mas quem de raios edita o programa intercalou boas intenções com os tais cartoons desfocados contradizendo com isto tudo aquilo que o adolescente maninho da maninha ia dizendo.
Quem me dera dizer como dizem esclarecidos em massa "Isto apenas em Portugal, neste país" mas infelizmente o que seria razoável que sucedesse apenas e só num país com a dimensão de Portugal em termos de absurdo que quase parece ficção acontece à escala global.
A nível pessoal vou tentar este ano impôr-me rotinas boas que como dizia um músico do Final Fantasy: "They are great, you control your life with them", ser não só amor mas também ter um bocadinho mais de razão. É que só arrebatamento provoca sempre, mais tarde ou mais cedo, confusão. Vou tentar...
Um livrinho de formato pequeno que dá para viajar connosco no bolso, a editora é a Asa, " O poder dos sonhos " de Luis Sepúlveda.
Passei os olhos nele por acaso e há bons acasos.
Mal acabadinho de chegar às mercearias portuguesas às dúzias a novidade da semana "Eu, Carolina" que conta as desventuras da mesma com o Presidente do Futebol Clube do Porto, o bacalhau Pinto da Costa. Hoje já não há nenhum à venda nesta loja onde o vosso Mohamed trabalha. Há os reality shows, este é um reality livro.
"Tem um livro... Carolina qualquer coisa... do Pinto da Costa?"
"Não, já não temos, já esgotou, veio ontem e já acabou!"
"É incrível!" - diz o cliente desconsolado e humorado com a fome de cusquice à volta deste novo produto de mercearia.
"Pois é..." - digo eu, e só penso como é que se gastam árvores para fazer destas porcarias. Que vendem. Há procura para estes fast-books e o que isto revela não é nada animador.
Uma semana inteira a levar com os flashs de mil telemóveis à entrada do hipermercado Continente no ainda mais hipermega Centro Colombo (acho que é assim que a geração Floribela fala agora). Não lhe dão descanso.
Estou a falar de um stand do Benfica onde há uma semana exibem uma águia que se deve estar nas tintas para toda aquela fama e atenção. É um animal de porte que devia estar a voar. Não há dignidade nenhuma naquilo mas esta é sociedade do espectáculo não é?
Isto é tudo tão normal, tão banal que já ninguém reaje e papa tudo.
Os comportamentos anormais tornaram-se normais e quem não vive pela bitola baixa é anormal, joga na "equipa contrária", é estranho.
Viva o monóxido! Venha mais.
A serpente muda de pele, o empregado da pastelaria despediu-se farto de clientes a reclamarem do leite azedo. Farto do gerente, farto dos passos, farto de gente, farta-se, marta-se, pasta-se, passa-se.
De um lado o mar, do outro a serra, por cima nuvens descontroladas e em frente árvores despenteadas.
Que razão tem a razão se do medo o espanto comeu as línguas todas e se fez canto?
Escrevo sobre um pardal e salta-me um para a mesa, saltitante, terno e confuso. Dirige-se para a mão que escreve, a direita.
Pede-me para não esquecer, para não me deixar por um canto. É ele o canto, é ele o espanto, a origem da pedra, o manto, a viagem, as línguas todas, o silêncio, o mar, a serra, o diabo e o santo.
Limpo as ramelas e levo o copo de leite frio à boca.
Desterrado no armazém subterrâneo da grande torre marca livros como quem marca vacas e faz um filme com aqueles titulos todos. A porta dá para o parque estacionamento e o fumo de mil carros, de mil clientes, ajuda-o ao transe. Monóxido de carbono,venha ele em quantidade. Levita.
Nas prateleiras cadáveres de baratas. As vivas devem estar escondidas com a agitação.
Ser normal é comer a horas certas e fazer o que toda a gente faz, queixar-se muito e andar sempre a correr. Tudo com ar muito ocupado e responsável. Tudo muito produtivo.
A cera, é o reino da cera, a voz da terra tornou-se tosse, o sentido vende-se nas livrarias. O pai morre e ninguém almoça.
Nada disto faz sentido e é.
Pele muda muda pele.
Ser pente pentear a pele muda a pele ser.
Mundo pente.
“…como diz um amigo meu –um rapazinho que recorda os proverbos dos velhos-“o mundo é dos bons ,e os patos bravos é que o gozam”….Contudo eu,velho burguês racionalista e idealista ,ou seja “ dos bons” ,continuo sempre a detestar com todas as minhas forças o espírito de renuncia.Que afinal de contas é ânsia de integração e opurtonismo.” Pier Paolo Pasolini
A principio quando me perguntavam por livros sobre crianças Indigo ainda julguei tratar-se de um livro sobre os infantes de alguma etnia que eu nunca tinha ouvido falar.
As crianças Indigo é a ultima moda mistica carregadinha de esperança e um bocadinho, no meu escasso entender, preguiçosa e de algum modo niilista pois remete o futuro do mundo para estas crianças prodígio,the next step on human evolution.Encaradas como os neo-Messias.
Prevê-se conversas entre pais do género:
"Tenho 2 Indigo e um cristal puro."-Cheios de orgulho os pais e ás crianças que são crianças espera-lhes uma grande responsabilidade que os pais demitem-se enquanto projecto investindo nas mil formulas de fazer crescer melhor os seus indigos de maneira a torná-los mesmo Indigos.Recorda-me não sei porquê a educação especial para os chamados sobredotados que já estão ultrapassados.
Veem ai tempos de novas comparações,o meu indigo é maior que o teu por isso tem prioridade.
Enfim a cada época um traje novo para o que restou dentro da caixa aberta da maluca da Pandora.
Não é mau,qualquer ideia que trate bem das crianças é sempre bem vinda.
A PEÇONHA DO NATAL, DOS SORRISOS MOLHADOS DE COMPRAS E PAPEL DE EMBRULHO. O NATAL É UMA TRETA, AS PESSOAS SÃO UMA TRETA O ANO TODO, NESTA ALTURA MENTAL DO ANO AINDA MAIS, COMO SE FOSSE SEMPRE DOMINGO. UM GIGANTESCO NATAL BOVINO E EU VOU CEDENDO À INFLUÊNCIA DOS MAUS FÍGADOS OU DOS BONS FÍGADOS E A CADA DIA QUE PASSA TENHO MENOS PACIÊNCIA PARA ISTO TUDO QUE SE REPETE. ESTE ESTADO DE ALMA BOVINO.
João Zuzarte Reis Piedade é o nome da criatura autora do livro "O filho de Odin" e que segundo o próprio quer ser conhecido como um escritor da nova era, jovem e imprevisível. Pois... Literatura jovem significa isto? Existe???
Menino pequeno burguês vulgo beto da linha de Cascais escreve sobre vampiros e logo no primeiro parágrafo "uma espécie de celebração satânica..." seguido logo de "... os acólitos de uma espécie de padre demoníaco..."
Diz ele que um dos seus objectivos é incitar o público mais jovem a ler.
Se mais pessoas começarem a ler destas Margaridas Rebelos Pintos adivinha-se o pior do que já é e que já diz Papá e quantos anos tem.
Já agora deixo aqui três sugestões de leitura:
"A apoteose da vontade romântica" de Isaiah Berlin, "Raça e História" de Lévi-Strauss e para quem aprecie (...) "Lugares etruscos" de D.H. Lawrence.
ADEUS
Esta é a cadeira que o Mohamed frequenta, assistindo e participando. E do mesmo modo ajudando a construí-la. Gostava que ele pudesse falar sobre isso. Sobre o que se passa dentro da aula e fazer ele próprio o link.
A ESTUPIDEZ NÃO TEM COR.
É BRANCA COMO O GORDO DE FATO E GRAVATA COM A RESPECTIVA GORDA DE CASACO DE PELES NAS ESCADAS ROLANTES A QUEM PEDIMOS SE PUDEMOS PASSAR A VER SE CONSEGUIMOS APANHAR O AUTOCARRO PARA CASA DEPOIS DE 9 HORAS DE TRABALHO, A VER SE CONSEGUIMOS AINDA LER UM BOCADINHO PARA A UNIVERSIDADE, A VER DE T-SHIRT MAL AMANHADA, BARBA POR FAZER E CABELOS POR CORTAR MAS MESMO ASSIM A VER...
"- DEIXA O SENHOR PASSAR QUE DEVE ESTAR CHEIO DE PRESSA PARA IR...", ISTO DITO COM UM DESPREZO E BOÇALIDADE TAIS QUE NÃO HÁ ENTUSIAMO QUE RESISTA.
É PRETA COMO O PRETO GORDO COM A SUA MULHER GORDA DE VOZES ALTAS A QUEM PERGUNTO SE TÊM 2 EUROS PARA FACILITAR O TROCO NA LOJA. MAS PODIA TAMBÉM SER VERDE, QUE ERA O MESMO.
DIZEM QUE SE VÃO QUEIXAR À DECO, QUE ISTO ASSIM NÃO PODE SER (!!!!!)
COM A MESMA BOÇALIDADE, DESPREZO E AGRESSIVIDADE DOS BRANCOS OU DOS AZUIS, NÃO INTERESSA. TÃO REAL COMO SURREAL QUE FICO A VER IDIOTIZADO, HIPNOTIZADO COM TANTA IDIOTICE GORDA DE BANHAS MAL AMANHADAS. OU O QUE FOSSE.
RESOLVO FAZER-LHE O TROCO SEM LHE PEDIR MOEDAS.
"- ENTÃO JÁ TENS?", DIZ-ME COM UM OLHAR QUE DESAFIA, QUASE COMO SE QUISESSE PANCADA (!!!!!)
A MULHER PRETA GORDA DO VERDE GORDO:
" - ENTÃO DISSE QUE NÃO DAVA TROCO?" (!!!!!)
PORQUE É QUE ESTA GENTE RESPIRA?? PORQUE É QUE ESTA GENTE NOS DEITA ABAIXO???
O CLIENTE TEM SEMPRE RAZÃO???
ISSO É PARA A REALIDADE VIRTUAL. QUE SE FUEDA O CLIENTE E A SUA CAVERNA DECORADA DE CAGALHÕES.
UFFFF PRECISAVA ESCREVER ISTO ASSIM.
JÁ COMEÇO A FICAR ALIVIADO.
O movimento na loja vai aumentando cada vez que se aproxima mais o Natal assim como aumenta a pressa e o nervosismo da carneirada. Mais uma vez o paradoxo.N ão é o Natal vendido como uma época de paz entre os Homens??
João, colega de Mohamed em Antropologia passou pelo Centro Comercial para lhe dar apontamentos e fotocópias.. Jantaram juntos numa praça do Colombo chamada Mundo Perdido apinhada de esttabelecimentos alimentícios e gente.
Mohamed acabado de sair do trabalho ficou atordoado com o ambiente. Nunca janta fora, traz de casa um taparuérecom comida e come no escritório da loja onde fica o microondas e o computador de onde escreve estes pedaços.
Mal a comida acabou tiraram os tabuleiros da mesa para poderem falar e estender os papéis das aulas sem os sujar.
Alguma conversa depois chega-se um Segurança:
" - Boa noite, têm que se levantar, à hora das refeições só pode estar sentado nas mesas quem está a comer."
A REALIDADE NUNCA É PARADOXAL.
SE AS COISAS PARECEM PARADOXAIS É PORQUE A PERGUNTA FOI MAL FORMULADA.
SEJA BEM VINDA MADAME SATÃ E MAIS CÓCEGAS PARA A ASSUSSORA.
LÚCIDO, A MELHOR DAS PALAVRAS, CONCLUÍA, SER O SILÊNCIO.
E UMA NOTA APENAS AOS MAIS CHEGADOS;
NÃO CHAMEM A POLÍCIA, NÃO ESTOU MALUCO NEM DESEPERADO
OBRIGADO POR TUDO E ESQUEÇAM-ME. TENHAM TODOS UMA VIDA FELIZ SE PUDEREM OU SOUBEREM, DESCULPEM-ME SE CAUSEI DOR.
MAS ESTAS PALAVRAS JÁ LHE PARECIAM REDUNDANTES.
SIM, O SILÊNCIO ERA A MELHOR FORMA DE DIZER NÃO DIZENDO.
UM AMIGO COSTUMAVA DESPEDIR-SE DIZENDO ADEUS COMO QUEM DIZ DEUS ESTEJA CONTIGO.
A CADA UM O ENTENDIMENTO DESTAS PALAVRAS.
Nos transportes públicos, na rua, por todo o lado ouve-se agora esta quase interjeição, nova forma de expressão retórica do "Chico-espertismo" e fanfarronice nacional. Ao reinado do "Tou-te a ver" , do requintado "A sério?", segue-se este novo registo.
São 12.18 e entro às 3 da tarde mas resolvi sair mais cedo e de casa porque estava a ficar sem saber o que decidir, se estudar se dar assistência ao meu Pai e à minha Mãe.
Eu não me tinha apercebido disto mas de facto ele, o meu pai, está a fazer quimioterapia com a diferença de que em vez de ir todos os dias ao hospital tem aquelas bolinhas radioactivas implantadas na próstata.
Deram-lhe um contentor de aço para guardar as eventuais bolinhas que lhe escapem pela dita no xixi.
A minha mãe passa-se com as vezes que tem que mudar-lhe os lençóis.
Hoje saio à meia-noite e tenho que me levantar amanhã às 6 e tal da manhã para ir com o meu pai ao Hospital de Santa Maria para fazer uma transfusão urgente de sangue.
Acho que um dos símbolos e figuras que me enerva e confunde e que às vezes chego a odiar está a dar as últimas mas isto não me deixa aliviado, pelo contrário.
De cada vez que me tento aproximar levo sempre com tentativas de me rebaixar, de comparar, venenos ambíguos e ironias que não sei bem onde querem levar. Engulo e faço de conta que não percebi mas afasto-me.
Sou eu que me tenho de adaptar, afinal voltei a casa.
Aflige-me as coisas que podem ficar por dizer, nunca chegarmos a saber o que realmente pensamos um do outro.
Seja como for eu tenho que optar por uma relativização das coisas, ser racional, que em sendo inflamado só ia piorar. Por isso escolho o entusiasmo pelas coisas que estou a aprender e não perco muito tempo a pensar no material de leitura que me vai faltando por não ir às aulas.
Já falei com colegas meus que não sabem ainda todos os nomes uns dos outros mas não sei porque já sabem o meu que quase não vou às aulas.
KOTRÁ PONTA é uma expressão em Kristang língua crioula de origem malaia e portuguesa da etnia com o mesmo nome presente em Malaca e que é o objecto de estudo do professor que me inspira mais ternura e simpatia, o americano O'Neal.
Existem 105 000 habitantes em Malaca, grandeza populacional comparável a Coimbra e 37 línguas e 9 etnias!!!
Ao O'Neal interessava-lhe perceber como uma língua sobrevive por mais de 5 séculos e descobriu que existem e existiram casamentos mistos e que é uma norma existirem famílias quadrilingues em Malaca mas que normalmente por uma razão qualquer de simpatia um dos cônjuges acaba sempre por aprender Kristang.
Os casamentos com os malaios são uma excepção pois a cultura muçulmana é mais rígida e se um homem casa com uma malaia além de ter que se converter tem que Kotra Ponta!!! Circuncisão.
Diz o Prof que quanto mais se evitar contactos com mulheres muçulmanas mais se evita o perigo de se ver de repente obrigado a casar com uma sem bem perceber porquê.
Diz ele também que os habitantes de Malaca têm boas relações comerciais com os malaios muçulmanos mas que não lhe abrem as portas da família e do privado, que não discutem e evitam temas como o da religião.
O professor que mais me apaixona mas que a nível pessoal deve ser alguém muito enervante é o Filipe Verde, sobre a História da Ciência.
Nas aulas do Miguel Vale de Almeida que admiro, mas que como professor fico com a sensação que preferia não ter que dar aulas, descobri por indicação dele um dos mais belos textos por onde passei os olhos A Carta do Achamento do Brasil de Pero Vaz Caminha.
É um livrinho difícil de encontrar mas se o encontrarem não julguem o Pero à luz do que um português de hoje pode e sabe. Era um homem do séc. XV a escrever para o Rei... E mesmo assim.
Este Natal boicota diz "Não obrigado" aos sacos de plástico e ao papel de embrulho ou mesmo não dês nada. Ia ser o caos nos estabelecimentos comerciais que começam a encher-se de tralha para vender, mais e mais a cada dia que se aproxima da data comercialícia.
Não faças o que é normal que se faça.
"O Futuro foi-nos emprestado pelos nossos filhos."
[Provérbio Maia]
Estando 8 anos fora de Portugal constato ao regessar um fenómeno que talvez nem seja apenas português (entre outras coisas) no mundo académico: profs e students.
Confirmo esta suspeita enquanto empregado de uma livraria e mais recentemente enquanto "cliente" do ISCTE:
São os estudantes de Letras, Artes, com os de Direito à cabeça, os clientes mais imbecis, afetados e deslumbrados sendo os de Ciências Naturais os mais simpáticos e cuidados!!!!
Soa-me a paradoxo mas talvez seja de pensar muito nas coisas, relativizar tanto que este absurdo se produz pelo menos no que me pareço aperceber.
No mundo dos profs que pregam na sua terra apesar de à partida terem as melhores capacidades para se aperceberem de coisas como circunstância e identidade acabo por vislumbrar quase uma raiva ideológica ao sítio onde nasceram que os impede de serem objectivos e pouco justos.
Mandam recados a toda a hora ao ocidente e mais subtilmente aos portugueses.
De forma apaixonada. A minha pátria são os afetos mas cansa-me este não distanciamento. Como as exigências e intolerâncias que temos com a nossa família que não temos com desconhecidos, amigos ou estrangeiros.
Um estrangeiro em Portugal dá-se mais e tem menos preconceitos apesar de selecionar os amigos.
Seja como for tentarei calar-me e roubar tudo o que de bom houver para roubar nas aulas que estou a gostar muito.
Escrevo no computador da loja na minha hora de jantar.
É um desabafo e ao mesmo tempo um abraço.
Não quero perder a capacidade do encanto e os portugueses parecem estar sempre a queixar-se de tudo.
Gostaria que a associação de estudantes organiza-se uma manifestação pelo ambiente, que pedisse ao governo medidas pouco populares mas urgentes...
Espero que perceba que o rio que corre debaixo deste tapete não é um mau rio. Tem dúvidas. Se a forma não é das melhores lembre-se que há tanta forma de rio.
Ecrever para
Falar, ver, ouvir para
Azul.
O som do mar. O rio.
Nadar. Mergulhar.
E o sol do lado esquerdo.
A pôr-se.
Nós às costas de um mundo todo a passar-se
com o "Q" do mundo
Céu, nuvens nas ondas
Onde o Quando se faz Q
E o que há no "Q"?
Rios, sóis, paraíso?
Por Q, chorar, viver!
E antes disso, alguma coisa?
Pedras, construções.
Vento?
Para quê o quê?
Mulheres, homens, crianças.
Nadar, mergulhar.
O quarto transformou-se numa dimensão negra que se fechava. Ao longe a porta já quase fechada. Saltei da cama em pânico e corri para a porta de onde vinha alguma claridade. Um degrau e mais outro esbarrei nos estores da janela do meu quarto:c onfuso voltei à realidade. Se os estores não estivessem fechados os meus pais no dia seguinte pensariam que me tinha suicidado durante a noite depois de mais um dia de trabalho.
Os degraus eram um sofá e um armário encostado à janela.
Ámen.
Por sorte descobri que o Jardim da Estrela áquela hora ainda estava aberto e estive lá um bocadinho debaixo de uma árvore gigante.
A respirar e a sentir-me agradecido.
Se eu acreditasse em Teus; como acredito; e em todos os deuses e ventanias podia dizer que Teus tem sido bom comigo.
Ontem vi a família toda dos golfinhos. Foi tão bom mor.
Só faltava um toldinho na embarcação tipica do Sado, espécie de barco entre o veleiro e a traineira. Não levei chapéu e deixei a mochila no escritório deles.
São enormes os golfinhos e conversando com o Ricardo (o guia/biólogo/sócio da VERTIGEM AZUL) disse que os golfinhos sexualmente são dados a grandes misturadas/muchiatas e graças ao grande golfinho ao menos não são catalogados. Embarcam no que lhes apetece, golfinho golfinha, golfinho golfinho, golfinho golfinhas e fazem pompinos!!!!!! (Vulgo "broche" em português, gosto mais da palavra em italiano.)
Disse que os golfinhos do Sado são iguais aos que normalmente se vêem nos parques marítimos e jardins zoológicos só que são decididamente muito maiores. Tão lindos mor.
O irritante são os barcos a motor e motas de água que literalmente perseguem os golfinhos num espaço que deveria ter algumas regras. É uma reserva natural. A lei existe e na Vertigem Azul já lhes bastava, ao menos, que se fizesse cumprir a lei existente.
É que eles desaparecem logo assustados.
Aliás o guia disse que nos guias turísticos estrangeiros se aconselha a evitar Setúbal e apenas ir à Arrábida, Sado e Tróia.
Aquela cidade poderia ser um destino sofisticado (leia-se simples, eficaz e inteligente) se houvesse mais visão. Tem tudo para isso.
Mas as pessoas são estranhas, não gostei muito da rudeza dos Setubalenses.
Há um golfinho, o Sujo, que está sempre a encalhar e já pensaram em mudar-lhe o nome para Encalhado.
Anda sempre aparte do grupo, é uma ovelha negra. Foi do que gostei mais.
E vi o bebé, o Tongas.
Finalmente parámos para uns mergulhos e aqui é que vi o que são correntes e água gelada.
Ancorámos ao pé de um banco de areia já longe dos golfinhos. Então puseram umas escadas, uma corda comprida com uma boia amarrada no fim.
Fui o primeiro a saltar e quando regressei à tona parecia que alguém me estava a arrastar muito depressa. Tive que me agarrar à corda. Mesmo agarrado aquilo puxava de uma maneira que foi educativa. A água é muito fria brrrrrrr! Acho que só mesmo um golfinho. As águas ali são muito frias.
Mor mas quero voltar lá contigo.
A familia tem sido o grande empecilho daquilo a que chamamos humanidade.
Por um factor sorte temos à partida circunstâncias mais favoráveis ou não.
Herdam-se tiques, conceitos e preconceitos, crenças e descrenças e até o clube de futebol.
Não é um sistema justo.
Acabamos por nos enredar sempre em remoinhos de alegrias, culpas, remorsos, gratidão. Em família reproduzem-se as dinâmicas existentes na selva. Basta recordar o macho dominante, nos Leões por exemplo, e a ameaça em que se tornam os filhos ao crescer ou os filhos de outro macho.
Fica aqui expresso se tudo está como está se deve à falta de um governo urgente de Mães.
Desculpem-me mas não sei se consegui dizer neste pouco tempo que tenho aqui agora.
"O único caminho é o não caminho. Tudo o resto é hesitação."
"Amigo, pode abrir o dicionário? É que eu acho que a edição que eu tenho não é igual."
Tratavam-se de dois volumes embrulhados em plástico transparente.
"Não sei se posso... Só um momento vou chamar o gerente."
"mas quer vender o livro ou não?"
Abertos os dicionários o homenzinho como quem diz eureka atirou, "viu, não eram iguais. Passe-me aquele dicionário de termos técnicos em inglês."
Um livro quase do tamanho do balcão que o homem se pôs a consultar ignorando a fila de clientes que entretanto se acumulara atrás dele.
Enquanto o fazia levava o dedo à boca, à língua, para mudar as páginas.
Um brasileiro perguntou pelo Evangelho de Jesus Cristo.
"Muito bom, Cristo. Faz bem em ler." - meteu-se o homenzinho.
"O do José Saramago?" - perguntou o brazuca.
"Esse, nem abro os livros desse sujeito, são tudo mentiras. Cristo morreu por nós!"
São tão pios estes crentes...
Contemplo o deserto. Onde encontro o diabo, quarenta dias e noites. O deserto de Al berto, o deserto , o deserto, o deserto...
contemplação
"Estão na minha taça
a vertigem brilhante,
a embriaguez borbulhando.
Grandes redemoinhos
sobre nós às avessas
estão na minha taça.
Um grande coração de urso,
um grande coração de águia,
um grande coração de milhafre,
um grande vento que roda -
juntaram-se todos num só.
Estão na minha taça.
-Bebe-a agora."
(Papagos)
Poemas ameríndios
«No momento em que escrevo ainda não é possível saber todas as consequências das caricaturas de Maomé nas relações com o mundo islâmico. Por outro lado, é evidente a dificuldade que há em pronunciar-se sobre um assunto tão amplo e polémico em espaço tão limitado.
Para salvaguardar a transcendência divina, a Bíblia impõe o mandamento de Deus "Eu sou o Senhor, teu Deus, que te fiz sair da terra do Egipto, da casa da servidão. Não haverá para ti outros deuses na minha presença. Não farás para ti imagem esculpida nem representação alguma do que está em cima, nos céus, do que está em baixo, na terra, e do que está debaixo da terra, nas águas. Não te prostrarás diante dessas coisas e não as servirás."
A controvérsia sobre as imagens no cristianismo durou séculos e a chamada crise iconoclasta desembocou por vezes em perseguições violentas. Foi com o concílio de Niceia II (787) que, com base na encarnação do Verbo, foi reconhecida a possibilidade da representação de Cristo e a veneração das imagens. Mesmo assim, há, neste domínio, diferença entre os católicos, pródigos em imagens, os protestantes, reservados, que se limitam à cruz, e os ortodoxos, que são mestres na arte dos ícones.
Régis Debray fez notar com humor que o ano de 787 marca a data de nascimento de Hollywood, observando de modo fino que "uma cultura que honra as imagens honra também as mulheres. Velha constante das civilizações, que atravessa os tempos e as latitudes! Os que bombardeiam estátuas são os mesmos que lapidam as adúlteras. Quem fecha os museus mantém as mulheres fechadas. A inversa também é verdadeira em toda a parte onde a imagem tem direito de cidadania, a mulher tem o direito de participar".
Entre os muçulmanos, nem sempre foi interdita a imagem do Profeta. Depois, enquanto os teólogos sunitas proibiram qualquer representação humana do Divino, os xiitas reservaram a interdição a Maomé.
Pela sua própria natureza, o Sagrado é inviolável, não pode ser profanado, deve-se-lhe respeito incondicional.
Toda a questão reside, porém, na distinção, essencial, que é preciso fazer entre o Sagrado em si e as figurações humanas desse Sagrado. Foram sobretudo os místicos que estiveram atentos a esta diferença.
Mestre Eckhardt pedia a Deus que o libertasse de Deus, exactamente para preservar essa diferença e prevenir quanto ao perigo constante de confundir e identificar os conceitos, imagens e representações humanas de Deus e a Divindade em si mesma.
Tomás de Aquino, no fim da vida, depois de uma experiência mística, porque sabia que a fé não se dirige às fórmulas, mas ao Mistério, quis queimar tudo quanto tinha escrito.
Também no Islão há uma forte corrente mística. Pense-se, por exemplo, em Rumi.
O místico budista Nagarjuna foi radical. Segundo ele, o homem, se quiser tornar-se livre para a verdade suprema, religioso-mística, tem de ir além da dialéctica comum e mesmo da dialéctica hegeliana (ser, não ser e devir), para atingir a dialéctica dos quatro passos, que nega as quatro possibilidades afirmação (é), negação (não é), afirmação e negação (é e não é), dupla negação (nem é nem não é).
O que pode o homem finito dizer sobre o Infinito, sobre o Absoluto? Algo precisa de balbuciar, mas sabendo à partida que o que diz é finito. Por isso, o crente que pensa não receia os cartoons sobre o divino, pois eles nunca atingem o Divino em si mesmo, mas apenas as suas imagens e representações humanas. As caricaturas nunca caricaturam o Sagrado em si, mas tão-só o perigo das caricaturas humanas desse Sagrado. Os cartoons podem ser um apelo de transcendência, para que os crentes percebam que é preferível ser ateu a ser idólatra.
Ai de uma religião que pretenda ser imune à crítica! O filósofo Immanuel Kant deixou um aviso contra a menoridade religiosa culpada enquanto a mais nefasta "O iluminismo é a saída do homem da sua menoridade, de que ele próprio é culpado", e isso "sobretudo nas coisas da religião, porque a tutela religiosa, além de ser mais prejudicial, é também a mais desonrosa de todas".
O nosso tempo é "a idade da crítica", e a religião, apesar da sua "santidade", não se lhe pode subtrair, se não quiser expor-se a uma "justa suspeita".
No concreto, o problema situa-se na dificuldade em conciliar esta crítica, muitas vezes inevitavelmente provocatória e até corrosiva, com o respeito pelo outro nos seus sentimentos religiosos - uma questão do âmbito da razão prática prudencial.»
Anselmo Borges in DN

Aqui vos deixo um texto de um amigo meu que está a estudar em Manchester, o Faris Musallan (do Kuwait), que não se enquadra bem no imaginário colectivo que a maior parte das pessoas têm sobre o Islão neste momento. Quantos hóspedes deste espaço, se fossem muçulmanos, exibiriam na fotografia do MSN Messenger a bandeira da Dinamarca??
O texto foi publicado no seu blog e enviado para um jornal do Kuwait.
«It has become evident in the last few weeks that Arabs posses a very special talent... of passing judgement without taking the time to understand the situation, the different forms of action that can be taken, and the repercussions.
What I am insinuating specifically are the savage and ape-like actions that have taken place in Damascus earlier today. Why is it that Arabs make their voices heard in the most deplorable way? And yet we have the NERVE to act surprised when the rest of the world regards us as violent, narrow-minded terrorists! Maybe people would take us (and our rich civilization) much more seriously if we didn't blow up innocent people.
It's real, no wonder Arabs are now at the bottom of the barrel. Countless hijackings, suicide bombers, hostage takings - all carried out by the same people who had mastered algebra, geometry, and astronomy, and all carried out "in the name of Palestine", or "against American Imperialists".
It is real, no wonder that with a vast majority of supposedly "good Muslims" that people seem to think that our religion is one that encourages violence, hatred, and the dehumanization of women. When will people understand that Israel is going nowhere, and that the OOOOOONLY solution is a federation (like Switzerland)? When will people understand that the American troops that were (and ARE) stationed in the Gulf, are there at the request of each of the respective governments? It's rather silly to call the Americans imperialists when we've got "intellectuals" calling for a WORLDWIDE ISLAMIC REVOLUTION. If that isn't Imperialism, then I don't know what is. It is also rather hypocritical that the Saudi Arabian government recalls its ambassador to Copenhagen because of a cartoon in an independent (read NON GOVERNMENTAL) newspaper, when its own Ministry of Education publishes textbooks that incite religious hatred and intolerance. (I myself have seen these books and read them). Why is it that the Danes have to show respect to all religions, when only Muslims may practice their religion in Saudi Arabia, and no Jews are allowed into the "Holy Kingdom"?
In addition, why is it that people seem to think that Islam is the only religion that is parodied? And why do people think that this is the first time that Islam has been caricatured? Also, how is boycotting companies such as Arla, Puck, and even Kuwait's own KDD (Kuwaiti Danish Dairy) revenge on a Danish NEWSPAPER? Can we Arabs, the ones who showed the world advanced mathematics, not put two and two together?
One last point, one of the greatest insults on Earth is to burn a flag. People have DIED and SUFFERED for the flag which they douse in petrol, step on, and burn. A national flag represents a government, a people, and a way of life. It carries with it so many feelings of patriotism, that warm feeling of "my home", "my people". Therefore, (in my opinion), burning a flag is an even bigger offense than a satirical cartoon which we were responsible for...
Held og lykke, Danmark!»
Se Deus lê este blogue que faça qualquer coisa, entre hoje e amanhã. Que faça aqui um milagre. Que mude a côr de qualquer coisa, a letra. As horas. Que escreva uma história sobre Walser. Que se manifeste. Que se sente à espera e mude de canal. Vamos ficar atentos.
Hoje a arte, mais do que para deleitar (cf conceito da poética clássica), é para ser apropriada, usada, manipulada (cf edónea teoria utilitarista vs utilitarismo) ingerida, comsumida rápido, e, por que não, fodida?

Finalmente a luz do profeta, andei este tempo todo a adiar o inadiável.
Estão todos convidados…
Alá é grande, a recompensa é monumental!
Quando se chega enchem-nos os ouvidos com as maravilhas da empreitada de Macau.
Se não gostares da casa onde vais viver podes partir paredes, fazer uma janela nova, o que quiseres. Isto quando se chega parece uma coisa boa.
O tempo passa e descobres que por cima, em baixo e à volta anda sempre tudo em obras a toda a hora. Berbequins, betoneiras, marteladas.
Quando julgas que a obra do vizinho de cima acabou, começa a do vizinho de baixo.
Depois os respiradores destes prédios em vez de ar trazem-te o fumo, as tintas, o pó e cheiros de comida do vizinho.
Em vez de te sentires no lar doce lar julgas que foste viver para algum estaleiro em obras ou para a cozinha de um restaurante chinês.
Há sempre uma parte em obras no Casino Lisboa do Stanely Ho. Um vidente disse–lhe que para os negócios irem bem as obras no casino não podem nunca acabar, tem que haver sempre uma parte inacabada ou por construir.
Regresso a qualquer coisa onde realmente nunca cheguei a chegar.
Exmo. Sr. Pruz foi boa a estadia aqui no Motel but I need to do Mohamed Ali check out.
Salam
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Mahmoud Asgari e Ayaz Marhoni (16 e 17 anos) no dia 19 de Julho deste ano na cidade iraniana Mashhad.
“Instead of paying tribute to the action of the judiciary, the media are mentioning the age of the hanged criminals and creating a commotion that harms the interests of the state”
Ali Asgari - Majlis deputy for Mashad
Num prato carne picada frita em mel e malaguetas com rebentos de soja. Noutro prato uma pilha de folhas de alface crua.
Pega-se numa folha com as mãos, tira-se um pedaço da carne picada com uma colher e põe-se dentro da folha. Enrola-se e mete-se à boca.
Assim que me vêem atiram logo um “hello” que julgo não o fazerem em chinês para os clientes chineses que ali vão.
Duas bancas de sumo naturais em frente uma à outra com os mesmos frutos e possibilidades e no entanto aquela onde costumo ir é a que está mais cheia.
Olho para a outra banca, quase sempre vazia, para os olhares desconsolados daquela concorrência .
Mangas, melancias, peras, cenouras, laranjas, kiwis, maçãs, papaias, amarelos, encarnados, cor de laranjas, brancos e verdes.
Digo sempre que da próxima vez vou pedir um sumo à banca vazia mas o sorriso e “hello” enérgico que me atira a banca “mainstream” assim que me topa desarma-me e o projecto mais uma vez fica adiado. Fico sem coragem, inibido .
Moral da história: O meu signo celta é o Sabugueiro (Sambucus nigra), a árvore onde Judas se enforcou

«Cá me parecia que tu tinhas tendência para essa rapaziada! És o da pistolinha, não?»
«Le cœur bien au chaud
Les yeux dans la bière
Chez la grosse Adrienne de Montalant
Avec l'ami Jojo
Et avec l'ami Pierre
On allait boire nos vingt ans
Jojo se prenait pour Voltaire
Et Pierre pour Casanova
Et moi, moi qui étais le plus fier
"Moi, moi je me prenais pour moi
Et quand vers minuit passaient les notaires
Qui sortaient de l'hôtel des "Trois Faisans"
On leur montrait notre cul et nos bonnes manières
En leur chantant
Les bourgeois c'est comme les cochons
Plus ça devient vieux plus ça devient bête
Les bourgeois c'est comme les cochons
Plus ça devient vieux plus ça devient c...»
Jacques Brel
K. mostrou-me o jogo com que se entretia nas folgas. Uma password e dava-se o big bang no ecrã. Conhecia gente de vários sítios que se encontravam ali para jogar. Ele nunca jogava. Dentro de um personagem, na maior parte das vezes um feiticeiro, deambulava pelo jogo para falar com outros jogadores.
Numa clareira rodeada de árvores algumas figuras pareciam dançar.
- O que é aquilo? - Respondeu-me que eram jogadores em festa, numa pausa para dançar.
Uma vida sem toque, sem cheiro em que o único pesadelo é o dia em que o disco rígido se queime.
Na floresta columbiana os agricultores deixaram de cultivar feijão, tomate ou batatas, a planta da coca rende mais , na Papua Nova Guiné um americano dedica-se a organizar excursões First Contact para turistas endinheirados que consistem como o nome indica num first contact com tribos indígenas que nunca viram pessoas fora da floresta.
Wololford vê as coisas do seguinte modo, a elite dos estudiosos, considerada guardiã das descobertas, quer excluir todos os outros. As expedições First Contact servem portanto para tornar o processo mais democrático.
São extraídos a mãos nuas, trabalhados em condições desumanas. Depois são usados como jóias, símbolos de poder e de beleza. São pedras que marcam a vida em todos os sentidos, os diamantes.
O dia está mesmo bonito hoje, são 7 da manhã e está sol sobre o rio das Pérolas.
«-Que sítio encantador!
-Sim, maravilhoso...
-Vamos embora?»
Trecho do Godot de Becket
Pois é a merda dos diamantes continua a ser eterna!
Impaciente suspira com a minha impotência. Eu também quero mas não consigo, tenho vontade mas não me acontece nada. Ela esparramada sobre a mesa espera por um milagre,e u perdi a fé.
Lá fora o dia vai-se esvaindo límpido e eu cá dentro sem saber para onde vou, de onde venho ou o que sou.
Branco como a folha branca aos riscos.
Exibicionista é o beijo dos outros
Augusto M. Seabra
«Um observador do espaço que se designou por Europa Ocidental, aquele que até recentemente tinha expressão política enquanto "Europa dos Quinze", verifica que a opinião no espaço público português é acentuadamente "conservadora" - inúmeras vezes tenho constatado observações dessas e tentado responder a questões que me são colocadas.
Todavia, verifica-se uma recorrência paradoxal dos discursos, com os colunistas e editoralistas a argumentarem, quais cavaleiros solitários, contra uma tenebrosa hegemonia do "politicamente correcto", uma "ditadura do relativismo" ou dos "bem-pensantes", uma dominação do "antiamericanismo", isto é, com todos os tópicos de variados discursos conservadores e neoconservadores. Só falta o ataque ao liberal bias, ao "enviesamento liberal" dos media, ou nem falta, porque preside à criteriosa revista a que Pacheco Pereira procede, qual ministro da verdade orwelliano. Acontece que "liberalismo" é exactamente o outro tópico que tem que ser introduzido.
Que muitas vezes os enunciadores até tenham opiniões diferenciadas acaba por se tornar facto de circunstância perante os espectros constantemente brandidos, criando uma ordem de discurso coerciva, a que só falta a acusação de "terrorismo" - e mesmo isso, na metáfora de "terrorismo intelectual", é por vezes esgrimido.
Quando até o beijo amoroso de duas adolescentes é apresentado enquanto exemplo de "ditadura" e "terrorismo intelectual", como Miguel Sousa Tavares (M.S.T.) o fez, é mesmo tempo de dizer: alto lá, que não se está apenas a censurar implicitamente actos, como também a criar quadros limitativos e a acentuar o défice de liberalismo - de liberalismo, acentuo.»
«Já que falámos de um suposto "antiamericanismo" e de um conceito provindo dos Estados Unidos como "politicamente correcto", vou recordar dois exemplos de confusão, publicados neste jornal em dias sucessivos, e com pontos de vista opostos sobre a reeleição de Bush. A 04/11/04, em God Bless America, M.S.T., numa sentida deploração pela América liberal (que, enquanto tal, eu subscreveria), atribuía aos moral issues da direita conversadora "o carácter de cruzada da virtude contra o vício" do antitabagismo ou contra o "assédio sexual"; também isso eu subscreveria, não se desse o caso de, dessa vez sim, M.S.T. ter perdido uma oportunidade de atacar o "politicamente correcto" -- de facto, ele confundia a direita religiosa com certos "puritanismos" (chamemos-lhe assim) que como código "politicamente correcto" se originaram no campo "liberal" ou "progressive".
No dia seguinte, Helena Matos rejubilava com o triunfo de Bush Jr., ou antes, com a derrota dos seus adversários, sob o título de Na escolinha do pensamento único, título delirante, pois "pensamento único" é um conceito da esquerda militante para anatemizar o que tem como "centrão" dos "neoliberais" e das práticas gestionárias sociais-democratas, perdendo também ela a oportunidade de atacar o "politicamente correcto", pois era a isso que se queria referir.
Como se vê por tais exemplos, não prima o rigor. Mas é este brandir de espectros que faz escola e agora até num discurso que implica a escola também.
Tenho o maior pudor em evocar o já famoso beijo de duas adolescentes numa escola de Gaia, justamente por se tratarem de duas adolescentes surpreendidas e denunciadas. Acontece que há preconceitos, falsidades e confusões a mais no texto de M.S.T. de sexta-feira. Começa pelas raparigas, que têm 16 e 18 anos, passarem para 14 e 15 e andaram a expor-se a crianças de "seis ou sete anos de idade" - extraordinário, de repente já nem a distinção entre escolas básica e secundária existe! E depois é o disparate pegado, como a declaração de que o autor nunca descobriu em si qualquer "orientação sexual homofóbica" (essa da homofobia ser orientação sexual deve première mundial) à obstinação em insinuar que a inconstitucionalidade do art. 175º do Código Penal, que explicitamente criminaliza "actos sexuais homossexuais [e só esses] de relevo com menor entre 14 e 16", permite a pedofilia e o abuso.
Há aqui duas questões fulcrais: o direito de cada indivíduo/cidadão à sua orientação sexual, e a não ser discriminado por ela, como ficou consagrada constitucionalmente na última revisão; outro, não menos importante, é a protecção dos menores em relação a qualquer abuso, cujas consequências aliás afectam a sua autodeterminação sexual e o seu futuro enquanto indivíduo/cidadão. Está isso explicitamente consagrado, e obviamente mantido, nos artigos 172, 173 e 174, pelo que o 175 é uma redundância discriminatória. Mas um jurista, jornalista e colunista não sabe ler o Código Penal?
Tanto ou mais extraordinário, para mim, é o conceito de "beijo exibicionista", como o seria o dessas duas adolescentes. E não falo de outra incorrecção factual, sobre quem de facto "exibiu" publicamente o afecto das jovens. Trata-se do curioso conceito do que é e não é "exibicionista", ou até "exibível", e como ou quem isso determina. "Exibicionistas" são sempre os outros, não? Dir-se-ia que nunca nenhum par de namorados hetero foi tido por "exibicionista" - mas claro, como isso é da norma de M.S.T., já o rótulo não conta.
Tendo invocado a questão fulcral da "norma", terei de repegar nas confusões, para tentar explicar isso de "politicamente correcto". A codificação do "P.C." supôs a restrição de expressão ou actos que pudessem marginalizar ou insultar grupos étnicos, culturais os sociais. A sua origem está assim especificamente ligada a sociedades multicomunitárias (Estados Unidos e Canadá) e supôs o direito à afirmação própria de cada grupo e da sua imagem. Eu posso compreender as razões, mas como noutros casos de lógicas identitárias e comunitaristas também acho que rapidamente extravasou para perversões várias, como a reescrita da História e sobretudo um sentimento de comunidade/quota, em que cada uma negoceia os modos de apresentação da sua imagem, qual detentora do "copyright", como se a sociedade fosse uma sociedade por acções. Posso compreender as origens e o quadro, mas não sou adepto, porque acho o "politicamente correcto" conflitual com os valores gerais do liberalismo.
Acontece que como a tal confusão de M.S.T. há um ano relevava, há um conjunto de valores e códigos restritivos até de sinal oposto, mas todos fortemente politizados. Nesse sentido, a minha posição anti "politicamente correcto" é mais lata e veemente. Refiro-me a um conjunto insistente de discursos fortemente normativos; nesse sentido, haverá algo de mais "P.C." que, por exemplo, as pregações de João Carlos Espada?
E já agora, por falar em pregações: descobri eu ao lado do texto de M.S.T., na coluna de Eduardo Prado Coelho nesse dia rendido à Igreja, que em Lisboa tinha estado o cardeal Schönborn. Pois é ele o autor de Finding Design in Nature, publicado no New York Times a 7 de Julho passado, ou seja, o ponta de lança do Vaticano na questionação da concepção evolucionista darwiniana: contra a "ditadura do relativismo", essa batalha de Ratzinger e acólitos como Espada, já se questiona mesmo a ciência. E é assim que mesmo algo que supunhamos tão adquirido como o livre pensamento terá de estar sempre presente - e que a minha liberdade passa também pelo respeito intrínseco da liberdade e direitos de outros, sem lhes andar a apor rótulos, de "exibicionistas" a "terroristas intelectuais".»
Alguém já parou para pensar um bocadinho sobre o significado da Igreja de Roma quando afirma "… se após três anos o candidato a padre tiver superado as suas inclinações homosexuais pode vir a ser ordenado…"
A frase não seria comentável se não fosse grave, pelo que revela, e no entanto passar despercebida, como uma coisa corriqueira.
Anacrónica e descarada estratégia de marketing, tendo em vista de alguma forma distanciar-se dos padres pedófilos nos E.U.A., esta politica expõe a fragilidade moral daqueles que mais pregam esses mesmos valores atropelando tudo aquilo que são os pilares do cristianismo.
Estes experts em Cristo perderam por completo a sua morada ficando apenas na sua agenda propósitos de sobrevivência alla Maquievel. Não importam os meios apenas os fins, e que fins divinos estes… Nada de novo portanto!
Os bodes expiatórios fazem as vezes dos cordeiros.
A frase acima encara a homossexualidade como uma forma de toxicodependência.
Depois toda esta campanha só vem alimentar a enésima mistificação sobre o binómio gay=pedófilo - quando as estatísticas revelam que uma percentagem maior dos casos de abuso sexual sobre menores consuma-se da parte de “Paizinhos” com as suas rapariguinhas.
Porque não reescrever a frase? Onde se lê "inclinações homosexuais" substituir por "… superado todo e qualquer impulso sexual...”
Volta e meia fala-se de um lóbi gay, já agora que se fale tambem do lóbi hetero que esse sim é organizado e tem à disposição todos os meios, todos os dias e a toda a hora, maquinando imaginários e estereótipos.
Um programa americano “The queer eye for the straight guy” espalhou-se como um fungo alucinogénio pelas televisões de vários países com as bichas loucas locais a fazerem a vez das suas homónimas gringas.
Este programinha só perpétua a imagem associada aos gays apenas e só para um adolescente que tenha as tais inclinações mas que não se identifique em nada com aquelas caricaturas terá como consequência imediata ter medo de ser descoberto, de ser alvo do escárnio e assim crescerá sem dizer "quero ,queria, desejo."
Crescer a negar, a evitar tem as suas consequências e por isso se existem tantas pancadas associadas ao mundo gay é mais uma consequência que uma verdadeira característica.
Tudo isto como sempre revela pouca objectividade nesta era informada, já que pouco ou quase nada se reflecte.
Antigamente o ícone religioso fazia as vezes dos livros para as massas analfabetas, pela imagem transmitiam-se modelos e exemplos.
Hoje isto já não passa de um facto distante. Será verdade?
Não a nenhuma forma pura de raça , de religião, de linguagem, de política e de sexualidade.
O futuro é, quere-se, mestiço.
Tudo o resto é doentio e só diz não.

Procurava avistar nas águas agitadas do estuário do Rio das Pérolas um golfinho cor de rosa como quem aguarda um milagre. Esta espécie está em vias de extinção mas não tendo melhor porque esperar resolveu pôr-se a caminho.
Uma rocha grande amarelada pontuada por blocos maciços de pedras em cima umas das outras em equilibrio quase surrealista pareceu-lhe um bom lugar para o avistamento.
Escalou a rocha grande e descobriu na parte virada para o água um recanto abrigado do vento onde cresciam escondidas duas espécies de plantas. Num dos lados do abrigo dava para encostar as costas.
Ali sentado ninguém o via. Tinha descoberto o seu lugar na Rocha Grande.
Atirou ao rio em jeito de oferenda dois ramos entrelaçados das duas plantas ali residentes.
Agora era só esperar que o golfinho aparecesse.
Gostava deste sol de Inverno, um calor estranho que ora aquece, ora arrefece.
Ondas e barcos de pescadores de grandes redes ao fundo.
Alguns cigarros depois decidiu-se a escrever. Tinha sempre tantas ideias mas depois não lhe saía nada de jeito. E para quê, de resto, o jeito?
Daqui a uns anos vai ser construída no Delta das Pérolas uma megaponte que vai unir Macau, Hong kong e Zhuhai. Os ambientalistas vêem neste projecto o afastamento definitivo dos mamíferos destas águas.
O Rio Tejo em Lisboa já teve como quotidiano golfinhos a saltarem, agora não passam de histórias, quase lendas.
Dentro a arder uma pequena lanterna, vermelho amarelo e azul.
Veio buscá–lo uma amiga que a medo lá subiu à rocha grande.
Quase caiu ficando suspensa no ar agarrada por um braço, à filme, mas não desistiu.
O primeiro Deus dos egípcios, Amon Atum, masturbou-se e ao comer o seu próprio esperma fecundou-se.
«Birds do it, bees do it
Even educated fleas do it
Let's do it, let's fall in love
In Spain, the best upper sets do it
Lithuanians and Letts do it
Let's do it, let's fall in love
The Dutch in old Amsterdam do it
Not to mention the Fins
Folks in Siam do it - think of Siamese twins
Some Argentines, without means, do it
People say in Boston even beans do it
Let's do it, let's fall in love
Romantic sponges, they say, do it
Oysters down in oyster bay do it
Let's do it, let's fall in love
Cold Cape Cod clams, 'gainst their wish, do it
Even lazy jellyfish, do it
Let's do it, let's fall in love
Electric eels I might add do it
Though it shocks em I know
Why ask if shad do it - Waiter bring me
"shad roe"
In shallow shoals English soles do it
Goldfish in the privacy of bowls do it
Let's do it, let's fall in love»
Ella Fitzgerald - Let's Do It (Let's Fall In Love)
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They really were the progressives and the embodiment of the avant-garde in early years of this century. Every time we look at them again they seem to have something for the contemporary world, whether in sexual ethics, liberation, biography, economics, feminism or painting."
Michael Holroyd, in the San Francisco Chronicle, 1995
"It is a very fascinating, queer, self-absorbed, fantastic set of people. But they are very interesting..."
Ray Costelloe in A Letter to Mary Costelloe, 1909 / Bloomsbury Group
«Mas ao Joseph não conheço porque não conheci o pai dele. (...) Talvez uma divindade venha viver para a terra de vez em quando.Ele sobrepõe-se com força á visão confusa, tem a calma das montanhas e as suas emoções são tão selvagens, ferozes e vivas como relâmpagos, e tão destituídas de racionalidade quanto eu me possa ter apercebido (...) A sua figura crescera até se tornar enorme, até ser maior que as montanhas, e a sua força parecer-se-á com o irresistível impulso de vento. (...) Não se consegue conceber o Joseph a morrer. Ele é eterno. O seu pai morreu e isso não foi bem morrer, (...) garanto-te que esse homem não é um homem, a não ser que seja todos os homens. A força, a resistência, o longo e laborioso raciocínio de todos os homens, e também toda a alegria e sofrimento. (....) Ele é tudo isso, um repositório de um pedacinho de cada alma humana e, mais que isso, um símbolo do espírito da terra».
No momento em que a seca parece ter chegado à própria clareira, Joseph teve o intuito de fugir ou desistir. Contudo, sacrifica-se pela terra. Com uma faca corta as veias dos pulsos e o seu corpo «subiu ao céu e dele tombou a fustigante chuva. «Eu devia ter sabido – murmurou. – a chuva sou eu!) (...) Sentia a chuva cair e ouvia-a fustigar o sois Via os outeiros escurecerem com a humidade». A vida regressa com a chuva, a terra está salva, o povo de Nuestra Señora sai para a rua a festejar euforicamente.
«A expressão faminta dos seus olhos tornou-se voraz, ao contemplar o extenso vale verde. A ganancia que o dominava transformou-se em paixão. 'É minha – murmurou. – Até às suas profundezas, pertence-me; até ao centro da terra'. (...) Deixou-se cair sobre a relva húmida, apoiando com força o rosto contra ela. Apertando-a com dedos convulsivos, arrancava-a e voltava a apertá-la. As suas coxas batiam com mais força no solo. (...) Durante um momento a terra fora sua amante».
No centro de uma clareira embutida numa floresta densa existia uma rocha, «tão grande como uma casa , misteriosa e enorme. Dava a impressão de ser sábia e destramente talhada. (...) Parecia um altar que se tivesse fundido e rolado sobre si mesmo. Num dos lados da rocha havia uma pequena gruta (...) e dela corria silenciosamente um fio de água». Joseph, apesar de nunca ter visto a rocha, pensava tê-la visto algures, «talvez num sonho». E diz ao irmão: «Isto é sagrado e... muito antigo».
In A um Deus desconhecido de Jonh Steinbeck
[O ESCRAVO DA ALEGRIA]
«E eu que andava nessa escuridão,
De repente foi me acontecer.
Me roubou o sono e a solidão,
Me mostrou o que eu temia ver.
Sem pedir licença nem perdão,
Veio louca pra me enlouquecer.
Vou dormir querendo despertar,
Pra depois de novo conviver
Com essa luz que veio me habitar,
Com esse fogo que me faz arder.
Me dá medo e vem me encorajar,
Fatalmente me fará sofrer.
Ando escravo da alegria.
Hoje em dia, minha gente,
Isso não é normal.
Se o amor é fantasia,
Eu me encontro ultimamente
Em pleno carnaval.»
Descobri há pouco tempo esta música num CD e agora não me canso de a ouvir. Vem num disco do Toquinho & Vinicius - Colecção Millenium.
Como não sei fazer links de músicas deixo aqui o pedido ao fantasma do Pruz. para que o faça. Tenho-a gravada no computador mas como é que eu a passo para aqui?

Propólis, mel, cera, geleia real e ferroadas, o legado das abelhas.
A rainha, os zangões, as guerrreiras, as obreiras e as larvas.
Diz-se que Akenethon teve um dia uma visão em que viu o disco solar entre duas montanhas. Sentiu que Deus o estava a guiar para fazer uma mudança.
No sexto ano ano do seu reinado, Akenethon rejeitou os deuses de Tebas.
Declarou (pela primeira vez na história de que há registo) haver apenas um só Deus - o conceito de monoteísmo. Do dia para a noite mudou 2000 anos de tradição religiosa no Egipto.
Em criança parecia ser ignorado pelo resto da família. Nunca apareceu nos retratos e nunca foi levado a acontecimentos públicos. Nunca aparecia com a sua família nem era mencionado nos monumentos. E mesmo asssim a sua Mãe favoreceu-o.
Os cientistas estudam o facto de que Akenethon sofria de uma doença rara chamada Síndrome de Marfan.
O seu reinado durou apenas 16 anos em que proclamando-se a encarnação do Sol e único intermediário entre o céu e a terra minou o poder dos sacerdotes e abalou os negócios de uma multidão de artesãos que vivia do fabrico da parafernália religiosa à volta dos antigos deuses.
Com a sua morte regressam os antigos deuses.
A aparência estranha e o seu comportamento misterioso, bem como a sua ligação a Nefertiti e ao mal fadado rapaz - rei Tutankhamon fizeram dele o objecto de muitas paixões e controvérsias no último século.
Uma ferroada de abelha de vez em quando faz bem ao sangue .
Os ursos gostam de mel, Lao Tse dizia que “se queres o mel suporta as abelhas.”
E o Tom Zé que quem perde o telhado ganha as estrelas.
O Prusidente está morto mas deixou-nos pérolas com esta: se não bricássemos com o fogo ainda estávamos na idade da pedra.
“Num certo sentido pode-se dizer que todo o Cristianismo contribui para esvaziar o céu de significados: Viver no mundo renunciando ao mundo. E esta é a grandde novidade de Cristo: "Eu sou do Pai e não pertenço a este mundo". O cristianismo é a negação de qualquer valor que pertença ao mundo. Não para preenchê-lo com outros valores mas qualquer coisa que nos convida a viver sempre fora do mundo.
Nietzsche foi o maior pensador do niilismo porque compreendeu esta faceta do Cristianismo. O niilismo exclui portanto a existência de valores mas não faz outra coisa que confirmar o Cristianismo. Para Nietzsche não se pode sair do niilismo senão a partir do próprio niilismo. Isto é da ideia que que no mundo não existem mais os valores. Introduzir um novo sentido ,é este o nosso objectivo com a condição que seja claro que este objectivo não tenha sentido…”
Jean-Luc Nancy em entrevista ao Il Manifesto
A Tiziana trabalhava num antiquário no centro de Roma, sem contrato como eu. Uma loja que parecia um museu com vasos estruscos, colunas romanas, amuletos vários. O chefe dela tinha uma caixa cheia de crackers para dar aos pombos que por ali poisavam na entrada. Uma vez correu a insultos um cliente por este ter pisado a comida dos pombos.
Mauro trabalhava num café e despedia-se dos turistas estrangeiros com um “Thank you thousand”, guiava pelo centro sem mãos e tinha uma tatuagem pequena em forma de lágrima no olho direito.
Iehmanan veio de Belgrado para estudar arquitectura. Dizia que na faculdade era tudo filhinhos do papá, que tinham dinheiro para comprar os melhores materiais para as maquetes. Ele reciclava.
Ele e Tiziana tinham que apresentar-se de 6 em 6 meses na esquadra central para renovar o visto em Itália. Foi em Itália que aprendi a palavra extra comunitário.
Eram sempre mal tratados.
Nancy da República Dominicana tinha um namorado em Napoli mas em Roma fazia biscates como prostituta de luxo. Uma vez jantávamos todos em casa da Tiziana e assistiamos incrédulos ao telefonema erótico com um tipo que gostava que lhe chamassem papá. Durante a conversa ia pedindo presentes.
Tinhamos todos pouco dinheiro mas recordo-me de risos, de dançar e de nos querermos bem.
Tenho saudades destes amigos claros.
Sei que as coisas nunca voltam a ser as mesmas, que o presente é sempre afinal ainda um presente mas mesmo assim cada vez mais tenho saudades de qualquer coisa que já nem sei bem o que é e talvez esteja a mitificar a coisa.
Tenho medo de perder de vez o jeito, de saber como é que se faz ou vive.
As palavras cresciam como uma teia pegajosa, tentava furtar-se ao monstro que a cada passo se aproximava mais.
Um monstro viciante prenhe de um veneno alucinógeno que nos faz acreditar sempre outra vez em tudo, que nos faz esquecer as experiências passadas, responsável porque nos repitamos sempre e cada vez mais.
Nunca esteve tão gordo.
O projéctil dentro da pistola recusa-se a sair, a cumprir a sua função.
Frunculover a arma que dispara furúnculos estava a passar-se.
O Deus desconhecido do Jonh Steinbeck, a seca seguida de uma chuvada regeneradora e um suicídio.
As cartas a um jovem poeta do Rainier Maria Rilke.
Extasiado vendia a Morte de Deus pelas ruas de Fátima, que o elixir dos deuses guardado pelas três velhotas cegas evaporara. Dentro do frasco de vidro veneziano havia apenas nada.
Uma casa feita de pergaminhos, mapas de astronautas humanautas, as constelações e os signos marcianos, histórias e a antropologia invisível.
Os unicórnios perderam o corno, os cavalos alados as asas, os centauros as flechas.
Tornar visível o invisível.
Os ícones e os clastas. Nas urgências de um hospital acaba de entrar um vagabundo. Cheira mal, mesmo muito mal e o maqueiro que o despe quase se engasga nos ameaços de vómito que o atacam.
Não tem documentos de identificação e está inconsciente.
O cheiro a fezes, a sangue, suor e vomitado mistura-se criando uma atmosfera adocicada que recorda Nestum, as papas.
Um Deus moribundo sem memória, incapaz de criar o que quer que seja acorda ligado a uma máquina.
Pede um cigarro à enfermeira e um copo de vinho.
A enfermeira era estagiária, tinha um belo par de mamas e nádegas.
Sorriu-lhe maternalmente enquanto lhe dizia que ali não se podia fumar e beber álcool.
Baixou-se para apanhar a arrastadeira. Deus não resistiu e apalpou-lhe o rabo.
As palavras cresciam como uma teia pegajosa, tentava furtar-se ao monstro que a cada passo se aproximava mais.
Frunculover a arma que dispara furúnculos estava a passar-se.
Morder-te os ovários, dos teus rins patê. Não tem documentos de identificação e está inconsciente.
Com os teus pontos negros um sabão.
Entropia pia pia piu atchim Bum! Finalmente o germe transformou-se e alastra.
Três longas horas de procissão pelas ruas de Lisboa em directo na televisão de um estado (serviço público?) que se diz laico… Já me disseram que foi mais pelo número de participantes do que pela laicidade ou não do estado, mas mesmo assim... Três horas de desfile de cabecinhas beatas com velinhas que pareciam lava nos grandes planos e com vozes off a encherem os ouvidos de chouriços bentos.
Os galos na Tailândia parece que daqui a nada vão passar a usar passaporte.
Num café algures na China fala-se de Angola, espera-se pelos cafés que vêm lentos como as impressões que se vão trocando.
Os artistas, palavra grossa, de Angola ou Moçambique orgulham-se das suas raízes. Raramente dizem que não pertencem ao sítio de onde vieram, que são estrangeirados ou que são cidadãos do mundo.
Uma identidade à procura de si mesma após 30 anos de indepenência.
Teria a independência chegado mais cedo se não houvesse em Portugal uma ditadura podre?
Vi a rainha das fadas, Titânia, como uma madame de um bordel e as fadinhas que a servem como lésbicas meio tias com ataques de protagonismo entre elas.
Oberon, o rei, um lutador de wrestling e o rapaz indiano disputado pelos conjuges reais, um Ladyboy.
Os amorosos estudam direito e vestem capa e batina e os bosque para onde fogem uma Latada em Coimbra.
Entropia para isto tudo. O destino do gelo é evaporar-se.
Ou a Ordem tende para o caos e vice versa.

Quebra-cabeças do dia:
Dogville com a Nicole Kidman, Chocolate com a Juliette Binoche, Stromboli com a Ingrid Bergman. Filmes, grandes filmes. Embrulhos diferentes para o mesmo tema, antigo como o mundo, desde Caim e Abel.
“Água mole em pedra dura tanto dá até que fura.” Será verdade?
Qual é o tema?
“Feito de contrastes, de extremos, sem pieguices ou meias tintas, sempre atravessei a vida entre casos de amor e de ódio, ambos levados às mais sublimes e às mais mesquinhas consequências. Do divino ao rasca com a rapidez que só um milagre pode explicar. E como eu acredito em milagres, acredito no maravilhoso e horrendo da minha natureza.”
Ruben A. “O mundo à minha procura”
Nas mil bancas desta China que faz fronteira com a Hollywood do Oriente milhões de DVDs pirateados. Está lá tudo, desde o cinema de autor (asiático, europeu ou americano) ao último blockbuster passando por filmes antigos.
Isto dos piratas intriga-me, devem ser requintados piratas post-modernos. Se nas bancas encontramos preciosidades (por ex. Bergman, Dreyer, Tarkosfsky) é porque alguém os escolheu. Há ali bom gosto, exigência.
Dividir-se-ão os piratas por sectores? O Chang Wu fica com os pornográficos, o Ling Chow com o mainstream, o Lao Tsum encarrega-se do cinema de autor.
E se estas cópias existem é porque há procura que não se deve esgotar na comunidade ocidental residente em Macau.
‘We will shine’ - ouve-se no máximo do volume no estádio antes do jogo de futebol Coreia-China.
Dos dois lados os jogadores caem como tordos a cada 10 minutos a cada encontrão. Lá vai maca, lá vem maca.
Passou por ali a meio do jogo uma garça que dizem os entendidos ser espécie em vias de extinção, cuja comunidade se concentra à beira de um lago na ilha da Taipa em Macau. À volta desta micro reserva natural cresce a uma velocidade de olhos em bico um gigantesco parque temático, filial da rede de casinos Venetian.
Mais um pedaço de horizonte ao ar.
Primeiro estranha-se, depois entranha-se. Um destes não-lugares temáticos acolhe agora quem chega a Macau de barco via Hong Kong, o Fisherman's Dwarf.
A volta ao mundo em 80 passos.
Comecei a gostar daquilo e não vejo a hora que inaugure.
Dizem-me que em vez do Sonho de uma noite de Verão do Shakespeare faça uma coisa mais violenta, que é preciso partir a louça aqui na aldeola.
Faça sol ou faça chuva a gente vai levando.
Realizou-se uma largada de rinocerontes pelas ruas do centro de Macau.
Organizam-se “tertúlias “sobre as presidenciais em Portugal na associação Casa de Portugal.
Tão longe e sempre tão perto. O debate possível, o menos melindroso.
O impossível procura-se!
A Juliette Binoche e o Johnny Depp comem chocolates numa aldeola de vistas curtas. Tão bonito. The chocolate revolution.
A garça passou pelas cabeças dos jogadores e de repente caiu fulminada no campo.
Foi o caos no estádio. Alguém espirrou?
No Pátio do Poeta ardem espirais de incenso. Dentro muitos livros que eu ainda não li com títulos sugestivos, chatos nos tomates, abat-jours de seda, uma borboleta gigante, morta, de asas castanhas, aveludadas e um ovo-caixa de madeira maciça.
Em frente, logo à saida de quem sai, um restaurante francês onde se come bem, bons vinhos, bons queijos e boas sobremesas.
Está de partida quem nunca chegou e chegando nunca mais partiu.
Aquele ovo,a quele objecto entre a ficção cientifica e a mitologia em forma pura,~invólucro de nada, símbolo de tudo, encantou-me.
Lembrei-me de um filme do Woody Allen, O herói do ano 2000. Aí um objecto em forma de ovo metalizado induz orgasmos, o orgasmómetro.
No mito grego da Pandora aparece uma caixa que não se deve abrir. A curiosidade foi mais forte. Imagino essa caixa com estas formas ovais.
“Ab ovo”, diz-se em latim do inicio.
Aquele momento em que poderiamos morrer, na impossibilidade de fixar o instante mágico porque sabemos que depois nunca mais será a mesma coisa.
Assim, mortiço.
“Mientras comía o fornicabaustaba ver vér como se decapitaba.
…
Se no fueses tan puta!
Y si yo no supiesse,hacia ya tempo
Que tú eres fuerte cuando yo soy débil
Y que eres débil cuando me enfurezco…”
Contra Jaime Gil de Biedma
De Jaime Gil de Biedma
In "El poeta que volia ser poema"
Nos mil grãos de areia vi o teu nome. Repeti-o até à tontura para esquecer o punhal que me come as entranhas.
Ao longe onde o céu acaba começo eu.
Passam por mim a galope as miragens, dançam à minha volta em silêncio.
Ensurdecem-me!
Carrego às costas um saber, a cada passo curvo-me mais. Tenho saudades do céu mas as forças faltam.
Alá seja grande.
Vem a noite e a festa das serpentes. Enroladas nas minhas pernas como chamas querem-me comer a mão direita.
Para me libertar danço, para me calar faço-me cobra e o escorpião, do alto da torre mais alta, faz um brinde sorrindo.
Hoje haverá uma morte, talvez uma das suas 300 mulheres!
Que diferença haverá entre o exílio de um homem há três séculos e a solidão de um nascido amanhã?
Fazer a ponte, fazer a ponte…
A inocência:
Como são os teus olhos?
A dança continua, os abutres cantam a orgia antiga.
Saiu de mim o saber que me pesa e num beijo dá-me um nome.
As estrelas rodopiam ninfas, as vozes crescem. Cada minuto é uma flor e o Rei parece adormecer.
- Conta-me uma história-pede o eunuco.
Vi-te bocejar no teu trono de crâneos, da tua boca escorre um fio de sangue.
Há muito que não dormes e a montanha ganhou asas ludibriando Maomé.
Cada farol que na noite brilha tem um grito, romaria pagã, senhora vento, senhora eu tento. Avelã!
Aproxima-te tenho que ir.
A Lua fez-se rosa.
Trepei os espinhos até à coroa e encontrei um espelho.
Parti-o, tive que o partir. Os cacos fazem a festa na carne pedindo canções de embalar.
- Dorme pequenina dor, dorme que amanhã arranco os pulmões, dorme que amanhã as raízes mais raras estarão a teus pés em flor.
O Rei boceja novamente, o seu sorriso tem qualquer coisa de sádico. Melancólicas as pedras desfazem-se, inexplicável euforia que o monarca saboreia.
Estou longe da raíz, as pétalas tem as veias salientes.
Sacio-me um pouco naquele sangue verde.
Andei mil quilómetros para te esquecer, há qualquer coisa que me escapa.
Em duvída a flor começou a murchar ficando semente.
Caí do sítio onde havia uma Lua, caí de muito alto mas não te larguei.
Tenho uma semente na mão direita e o que sabia voltou a cavalgar-me.
As serpentes estão malucas, as escamas translúcidas arranham como ácido as pernas.
Querem-me comer a mão com mais força.
Sou salvo pelo abraço do Sol.
Uma história não me sai da cabeça e enquanto não o fizer não terei descanso.
O Rei:
- As palavras, dá-me as palavras… Saiam do vosso anel de chumbo, quero dormir.
Entretanto as Mães em quarto crescente batem as palmas e cantam incentivando os filhos.
Na raíz o sono urgente!
Nao ha um minimo de ousadia,de propostas e a Espanha mesmo ali ao lado.
O governo em portugal tem a maioria que governe e deixe-se de historias,de referendos.
“Qualquer dia “como diria o boneco do Herman jose no tempo em que os seus bonecos tinham piada poem-se a referendar se se constroem mais escolas,novos trocos rodiviarios,se se aprova o orcamento.
Cambada de colhoes engavetados,nada de novo portanto e mais ainda do mesmo.
Com politicos destes quem precisa dde politicos?
Toca a referendar tudo por televoto,60 centimos por chamada ate dava uns trocos fixes.
E a malta o que nao falta sao opinioes.
"As gajas que abortam sao umas malucas,quando estao sem nada para fazer decidem ir fazer um aborto.E tao bom!"-subtexto dos paladinos da moral e dos bons costumes.
"As confidencias sao sempre perniciosas,quando nao se destinam a simplificar vida de alguem."
in Alexis de Marguerite Yourcenar
P.s.- faltam 2 tils,1 acento circunflexo e um normal.
There is a river with no return
Jogos da Ásia, gripe dos frangos, furacões catrinas, boatos numa escola chinesa de que andava um fantasma por ali provocou a morte a 12 putos por esmagamento no meio do pânico, o presidente do Irão a querer riscar do mapa Israel, o Motel, a produção de riqueza, o fim do petróleo em divisas americanas, entra o euro na capoeira pelas mãos da Venezuela, num site descubro que Puck é o nome de uma das luas de Urano, que o nome "vem de uma fada malévola do Sonho de Uma Noite de Verão", o Hi5, os telemóveis, a puericultura e a pedagogia em mil manuais e revistas a comerem de vez as últimas réstias de instinto e bom senso substituídas por um excesso de relativismo cada vez maior, uma frase numa estação de metro de Lao Tse: "Se queres o mel suporta as abelhas."
Uma casa canta no bosque
onde o silencio cresce engrinalado de luas
SUAVE SER FOGO FATUO
O crepitar embala-te os passos
vento
Ha no musgo verdade suficiente que me alente e
conforte
De qualquer modo estou so e na montanha o sol canta
noites
vem dizer-me o que nao sei sombra
diz o filme agora verde perfume
fresco da manha em ti no mel e no vinho ando em extase
com a maravilha eeeeeee encho
o peito aliviado deste ar
Azevinho na alma e um discorrer manso
Na agua contigo
in Infancia de Hermes de R.B.
Dos talentos inexplorados
a alma gentil
a alma boa
como a água que escorre dos rochedos
Onde se penduram azevinhos raros
Em ti o nome que não sei
azul fogo
tépido
Nas margens a memória
aqui o nada
Lentamente
Escorrendo amanhãs
De danças únicas
Vem
Vem agora e dá-me um beijo
amanhã contas-me o resto
“Como que levados pela mão do magister, dos sacerdos, percorramos a voz dos Deuses, ouçamos as pedras que falam - Loquuntur saxa - e aprendamos a refrescar o nosso presente na inesgotável e benfazeja fonte do passado; porque ela contém o gérmen da Fénix que renasce sempre nova e depurada.”
José Leite Vasconcelos
“Talvez ainda não se tenha salientado devidamente que o problema da liberdade sensual em todas as suas formas é em grande parte um problema de liberdade de expressão. Parece óbvio que de geração para geração, as tendências e os actos variam pouco; pelo contrário,aquilo que muda é a zona de silêncio ou a espessura das camadas de mentira à volta.”
Marguerite Yourcenar in Alexis
No baixo Alentejo a alguns quilómetros de Beja fica Cuba. Vila caiada de branco rodeada de uma paisagem plana e árida. Lugar pacato, bom para se ler, escrever e muito pouco mais pois quase nada ali existe. A ausência de estímulos e a coscuvilhice meio abrutalhada dos locais nem dá vontade de sair de casa.
Um lugar bonito que vai morrendo de isolamento. À tarde a canícula e a inevitável sesta. Chaparros,azinheiras e sobreiros. A morte no ideal romântico a piscar-me o olho num manual de filosofia dos
anos 60, encontrado no sótão da casa grande.
Ouvi dizer que é no Alentejo que se situa a maior percentagem de suicídios no nosso país. A minha Mãe nasceu num lugarejo ao pé de Serpa, Pias.
Dizer não posso ou não consigo, aquilo que me sufoca, atrai e prende por isso esta areia que a camioneta é pequena e os olhos míopes.
Quero voltar, não quero voltar, quero voltar, não quero voltar
Desculpem–me estes arrufos que só desinformam, que não embriagam.
A azeitona ao natural colhida da árvore sabe a veneno. Em Évora no cromeleque dos Almendres a acústica é boa dentro do anel de pedras. Algumas pedras parecem ocas pelo som que fazem quando se lhes bate com uma pedra.
Chegamos à Sé de Évora, parte integrante do património da humanidade da cidade, paga-se para a poder ver: 3 euros. As funcionárias dizem-nos que o IPPAR não faz nada, que se não fosse pelo cabido (pelos vistos é o nome que por ali se da a 12 cónegos) que gere o espaço e é responsavel por estes três dinheiros. Dizem-nos que aquilo está abandonado, que está a cair de podre!!!!
Um concurso internacional de jovens na área da pintura e colagens... O autarca recebe os participantes já não no salão nobre mas num ângulo das escadas da câmara municipal. Professores e alunos provenientes da Rússia, Albânia, China(Macau), Itália, Bulgária, Eslovénia, Portugal, França, Alemanha recebem as medalhas no tal ângulo.
Mohamed jantava com o pai.Ja nao se viam ha um ano e seis meses.
"Quando e que voltas a Macau?"
"A 19 Outubro"-responde Moha.A reaccao do progenitor na poderia ser mais elucidativa ao girar-se para a patroa com ar de "estou tramado"-Ja viste,ele so vai a 19 de Outubro.
A "chiquilina" voltou a fazer teatro,falava com o pai desta vez a um almoco.
E na feira da luz,um texto do Cervantes.she was his best friend in portugal.
A proposito de nada o pai:sabes que eu gosto muito dela mas quando ela ia de ferias para o algarve fazia-se comer dos gajos que lhe davam boleia.
Moha ignorava isto,esta confissao era dos tempos em esteve internado no pais das maravilhas.
O almoco passou,as horas passaram mas de repente isto batia-lhe na cabeca.Nao se a amiga foi ou nao comida por motoristas mas sim porque e que o pai saiu-se com aquela historia tao antiga.
Nao foi inocente,nao foi cordial.Havia no registo paterno desprezo como se os seus amigos nao passassem de merda comparado com os amigos dele,que Moha era uma merda e os amigos eram como ele.Uma cambada simpatica mas desgracada.
Fazer de conta que nao se passa nada,um dia teria que perguntar antes que fosse tarde demais:
mas estas contente de me ver ou nao?
Ou so me aturas por causa da enfermeira que te lava o rabinho e te serve o jantar as 8 da noite?Convem-te supotares-me para estares de bem com ela?
Mhoa fica desconcertado quando volta e meia o pai sai-se com gestos e palavras boas e entao sente-se pouco tolerante,um exagerado.
Mas porque e que a figura do pai nao me sai da cabeca?,confude-me,enerva-me.
Versão revista para quem se perder com o original:
Mohamed jantava com o pai. Já não se viam há um ano e seis meses.
"Quando é que voltas a Macau?"
"A 19 Outubro" - responde Moha. A reacção do progenitor não poderia ser mais elucidativa ao girar-se para a patroa com ar de "estou tramado" - "Já viste, ele só vai a 19 de Outubro."
A "chiquilina" voltou a fazer teatro, falava com o pai, desta vez num almoço.
E na Feira da Luz, um texto do Cervantes. She was his best friend in Portugal.
A propósito de nada o pai: "sabes que eu gosto muito dela mas quando ela ia de férias para o Algarve fazia-se comer pelos gajos que lhe davam boleia."
Moha ignorava isto, esta confissão era dos tempos em que esteve internado no País das Maravilhas.
O almoço passou, as horas passaram mas de repente isto batia-lhe na cabeça. Não se a amiga foi ou não comida por motoristas mas sim porque é que o pai se saiu com aquela historia tão antiga.
Não foi inocente, não foi cordial. Havia no registo paterno desprezo como se os amigos do filho não passassem de merda comparando com os amigos dele, que Moha era uma merda e os amigos eram como ele. Uma cambada simpática mas desgraçada.
Fazer de conta que não se passa nada, um dia teria que perguntar antes que fosse tarde demais:
"Mas estas contente de me ver ou não?"
"Ou so me aturas por causa da enfermeira que te lava o rabinho e te serve o jantar as 8 da noite? Convém-te suportares-me para estares de bem com ela?"
Moha fica desconcertado quando volta e meia o pai se sai com gestos e palavras boas e então sente-se pouco tolerante, um exagerado.
Mas porque é que a figura do pai não me sai da cabeça? Confude-me, enerva-me.
Um bocadinho de sangue, um bocadinho de merda:
As cores do Outono...
A minha casa é onde tu estiveres!
"Mentir pode ser um exercício erótico da inteligência na constante re-invenção da realidade. São ficções que consigo transportam outras e povoam toda a paisagem. Não me é agora possível - mesmo que o quisesse, mas não quero - destrinçar entre o que vivi e o que quis viver, entre o que vi e o que quis ver, entre o que disse com vontade de seduzir e exercer poder do que pronunciei com a boca seca e as pernas a tremer.
A vida que vivo não tem nada a ver com a realidade.
Vivo neste devir que nem sempre vem. E do que vem há muito que dispenso, ignoro, esqueço, mas do que não vem há muito que chego a mesmo viver...
Os devires são o que há de mais imperceptível. Ainda não são, mas podem um dia vir a ser ou não. Como o ser também é devir, poderá acontecer que um devir nunca chegue a vir. É uma espécie de gaguejar.
Não são construções. Não são as palavras que contam, nem as frases, nem os ritmos ou figuras. Não são as histórias, nem os princípios ou as consequências. É exactamente esse avançar e recuar da percepção e da acção na indecisão, na dúvida, na incerteza...
Uma palavra, por exemplo, é sempre substituível por outra. Se alguma não vos agrada, não vos convém, agarrem noutra, ponham outra no seu lugar. No devir não há palavras certas. Não há nada para compreender, nem nada para interpretar. Mas como as palavras, os sons, as cores ou as imagens, o devir é intensidade.
Por ser quase completamente imperceptível, não pode ser substituído. É absolutamente fluído, vago, nebuloso. O devir é a intensidade da transformação constante na multiplicidade de combinações possíveis. São milhões de linhas, intersecções, encontros, rupturas, choques, uma espécie de rede dinâmica. Cada combinação é absolutamente única, singular, e por isso sempre digna de ser vivida. Mas as combinações possíveis são infinitas.
Devir nunca é imitar, nem fazer como, nem uma sujeição a um modelo, seja ele de justiça, de verdade ou liberdade. Devir é esse estar se dinamicamente disponível para o “amor”, que no sentido deleuziano do termo significa “a potência máxima da interacção positiva”... EU+TU= ¥ ou/e EU+X= ¥
O problema é que o devir chora o que a ainda não é de chorar, ama o que ainda não é para amar, quer o que ainda não deve querer, vê o que ainda não é para ver e vive o que ainda não é para viver.
É uma espécie de viver ligeiramente antecipado.
Resisto-lhe. Mas gaguejo com vergonha deste meu gaguejar.
Amiga+Paixão+Deleuze+Augé"
P.S.-Friend letter
Margarida é o nome popular comum a uma grande variedade de plantas (e flor respectiva, ou melhor, a sua inflorescência). Na verdade, não existe grande concordância entre os autores quanto à utilização deste nome, que apresenta muitas variantes. Há mesmo aqueles que designam de "margarida" qualquer planta da família das Compostas. Asteraceae é a família botânica com o maior número de espécies entre as dicotiledôneas, é também conhecida por Compositae ou compostas. São mais de 20.000 espécies divididas em 1.100 géneros. Muitas espécies são usadas no paisagismo devido ao seu valor estético, algumas também são consideradas plantas invasoras. Entre os representantes da família estão: margarida (Bellis perennis), girassol (Helianthus annus), crisântemo (Chrysanthemum sp.), absinto (Artemisia absinthium L.) etc. São encontradas em regiões tropicais, subtropicais e temperadas, vegetando nos mais diversos habitats.
Absinto (também conhecido por losna ou sintro) é um dos nomes vulgares da Artemisia absinthium L., Asteraceae (Compositae). Na Grécia Antiga esta planta era dedicada à deusa Artemis (Diana, entre os romanos), deusa da fecundidade e da caça. Daí a origem de seu nome científico. É uma erva originária da Europa e da Ásia, de folhas recortadas de cor cinzenta, de sabor amargo, e que se utiliza como planta medicinal e no fabrico de licores.
O licor de absinto, ou simplesmente absinto, é especialmente popular em França sobretudo pela ligação aos artistas parisienses de finais do século XIX e princípios do século XX, até à sua proibição em 1915. O licor tem geralmente uma cor verde-pálido, chamam-no por vezes "Fada Verde" com um aroma similar ao anis, porem mais subtil devido às diversas ervas usadas, e apresenta uma percentagem de álcool muito elevada (45% a 85%, embora nenhum produto comercializado tenha mais de 74%).
La Quete
«Rêver un impossible rêve
Porter le chagrin des départs
Brûler, d'une possible fièvre
Partir, où personne ne part
Aimer jusqu'à la déchirure
Aimer, même trop, même mal
Tenter, sans force et sans armure
D'atteindre l'inaccessible étoile
Telle est ma quête
Suivre l'étoile
Peu m'importent mes chances
Peu m'importe le temps
Ou ma désespérance
Et puis lutter toujours
Sans questions ni repos
Se damner
Pour l'or d'un mot d'amour
Je ne sais si je serai ce héros
Mais mon coeur serait tranquille
Et les villes s'éclabousseraient de bleu
Parce qu'un malheureux
Brûle encore, bien qu'ayant tout brûlé
Brûle encore, même trop, même mal
Pour atteindre à s'en écarteler
Pour atteindre l'inaccesible étoile.»
Jacques Brel - "Tiré de l'Homme de la Mancha", 1968

Tonino Guerra argumentista de filmes de Antonioni, de Angelopoulos ("O Olhar de Ulisses"), de Fellini, e Tarkowsky:
«Parto sempre com inquietação, uma inquietação humilde mas temerosa. As palavras, que são o meu instrumento de trabalho, são sempre mais limitadas que as imagens. A imagem diz-nos ”eu sou assim” e a palavra limita-se a um “eu sou como tu me quiseres”. Se escrevo, por exemplo, “A Julieta é bela”, quem me ler pôe-se a imaginar a beleza da Julieta, a seu modo.
Mas ao ver as imagens do filme onde essa frase se insere e onde se revela a Julieta, o espectador tem uma uma margem muito pequena para fabricar a “sua” Julieta, porque a imagem é, ao contrário da palavra, totalitária. E é bom que o espectador aproveite essa pequena margem de, digamos 15% de liberdade criativa; é sinal que viu um filme a sério, de um cineasta a sério, e não uma receita mastigada à pressa, das que passam na televisão. É sinal que foi convocado pelo mistério das imagens que lhe foram apresentadas e que ouviu a voz do realizador a pedir-lhe ajuda, a pedir-lhe que desse também o seu contributo...»
in Público 31/Julho/05
«A 25 de fevereiro de 1964, Cassius Clay, 22 anos, proclama-se contra todos os prognósticos Campeão do Mundo de Pesos Pesados, ao derrotar por KO Sony Liston.
No dia seguinte, durante a conferência de imprensa, Clay declara que já não é cristão e que crê em Alá e na paz, como membro da Nação do Islão. Pouco depois afirma que mudava o nome de escravo pelo de Mohamed Ali. A sociedade dos bons costumes norte americana branca ficou horrorizada.
Ali padeceu de engano e desprezo; quase nenhum meio de comunicação aceitou o seu novo nome e continuaram a chamar-lhe Clay. ”Se me fizesse chamar Smith ou Jones ninguém se teria queixado”, disse Ali alguns anos depois. A sua popularidade disparou no crescente movimento de libertação dos negros. Ali tinha-se já convertido numa referência das convulsões sociais e raciais da década.
Porém o pior estava para vir. Em Fevereiro de 1966, Ali foi declarado apto para o exército. Em plena escalada da guerra do Vietname, o campeão, nervoso diante de um jornalista que o rodeava de perguntas sobre o seu recrutamento, exclamou: “Man, I ain’t got no quarrel with them Vietcong”.
A frase ressoou como uma explosão em todo o país e o assunto extravasou os limites do bom senso.
...
A 28 de Abril de 1967 Ali negou-se em definitivo a alistar-se no serviço militar. Uma hora mais tarde seria destituído do título de Campeão do Mundo e proibido praticar box. Além de que teve que sujeitar-se a uma acusação que podia conduzi-lo a cinco anos de prisão, mas Mohamed manteve-se firme. Não voltou ao ringues até Outubro de 1970.
Norman Mailer, um jornalista da época observou: 'O que nos causa constrangimento, no que se refere a Ali, é o desacordo que existe no nosso foro íntimo. Ali é fascinante. A atracção e a repulsa encontram-se simultneamente num mesmo ente. Por isto, também é obsessivo. Quanto mais queremos não pensar nele, mais obrigados nos sentimos a pensar nele.'»
in La Vanguardia Digital de 04/08/2005
Esta e outras casinhas ninho podem ser adquiridas no site www.spea.pt ou directamente no artesão, Mohamed elder brother, para os lados de Sintra:
Rua 1º de Dezembro 123
Cortesia - 2710 Assafora.
Mesmo ao lado de Cortesia duas boas praias. Uma mais pequenina, Samarra, e a outra maior, São Julião. O mar ali é um cadinho agreste mas sabe bem.
Podem também adquirir produtos sem corantes nem conservantes à maneira antiga ou, como Mohamed elder brother lhes chama, "Biológicos": Mel, azeite, tomate, maçãs, pêras, alfaces, cenouras, ervas várias.
Dêem-lhe um abraço da minha parte se lá passarem.
«A obra de arte ou o evento estético quebram o óbvio do espaço e tematizam-no tornando-o objecto visível para que as pessoas se apercebam dele. É possível, deste modo, que os habitantes ganhem distância da cidade e evitem hábitos rotineiros que os tornam cegos.
Mais, fala-se expressamente do direito à beleza como componente central do direito à cidade. Em nome do principio da igualdade urbana, exige-se não só uma cidade mais bela mas também uma beleza urbana acessível para todos e por todos desfrutada independentemente dos recursos económicos e culturais.
O direito à beleza tem como consequência a exigência de poder, decerta maneira, fazer da beleza um objecto de normalização positiva. É possível, questionaram-se vários juristas franceses, uma estética por decreto?
Muitos factores contribuíram para aquela que já foi definida como a Vingança das Musas, entre os quais uma concessão de beleza urbana notoriamente diferente do passado. O hedonismo urbano não é certamente coisa nova. Este é já largamente conhecido e presente no sec.XVIII quando a temática do prazer e do desejo era debatido por literatos e filósofos e quando um Fourier permitia teorizar uma relação diferente e mais profunda entre o desejo e a cidade, denunciando o erro daqueles que não tiveram a coragem de desejar o suficiente.
Carl Shorske ao representar a Viena fin-de-siècle descreve uma difusa Gefuhlskultur, uma cultura dos sentimentos, amoral e ancorada ao prazer, ao desejo e ao imediato.
Como factor de novidade em relação ao tradicional comportamento esteta das almas belas, seja de derivação romântica ou idealista, é a ligação estreita entre a busca do belo e a do prazer contidas na demanda actual da cidade.
Vários estudiosos, de Richard Sennet a Christopher Lasch, sustentaram a crise da sociedade puritana, da qual, de maneira variada, a arquitectura moderna e racionalista é a expressão e o advento de uma nova cultura baseada sobre o narcisismo ou sobre o hedonismo individual. À sociedade fundada nos princípios mesmo que reformulados, de ética prostestante e da ideologia do desempenho substitui-se a sociedade adocicada, soft, onde o princípio da realidade dá passagem ao princípio da comodidade.
É a cidade dos anos Prozac, do fármaco que consente flutuar sorridentes num mundo onde problemas e ânsias foram dissolvidos ou simplesmente retirados. Na dialéctica estrutural existente na cidade entre desordem e ordem, entre estética e função parecem prevalecer os primeiros.
A cidade assumiu a função de tornar o mundo visível de acordo com os modelos mediáticos contemporâneos: tudo deve ser acessível, simultâneo e cativante.»
In "La città postmoderna" - Giandomenico Amendola

«Dois penduras hippies. Ideologia: um fala-me do "rio da consciência". Economia: vão a Marrakesh comprar camisas indianas para venderem na Holanda muito mais caras. Ritual: mal se instalam no fundo do carro, enrolam um cigarro, mergulham na ausência com facilidade, mecanicamente (e acordam logo que se lhes oferece um café)."
Gerard, filho de um francês e de uma indígena, quer mostrar-me o caminho da Gazela de ouro; estende-se no carro para deixar adivinhar os seus atractivos; depois, como uma guloseima rara, um último argumento irresistível: "Sabes, omeu coiso nao está cortado!"
Uma rapariga é castigada em público pela mãe, camponesa. A rapariga grita. A mãe está calma, obstinada: agarrou no cabelo da filha como se fosse uma peça de roupa e bate-lhe na cabeça com pancadas regulares. Forma-se instantaneamente um circulo. Opinião do barbeiro: a mãe tem razão. - Mas porquê? - A rapariga é uma puta (o facto é que ele não faz a menor ideia)»
in "Incidentes" de Rolland Barthes
Mas ainda me levam a sério?
Thinking na Assussora
Inaugurou há coisa de uma semana no Museu Marítimo de Macau uma exposição sobre um navegador chinês, Zheng He. Sai-se da exposição, bem feita e bonita, com a sensação desconfortável que aquilo tresanda a branqueamento da história. Tudo é glorioso, brilhante e qualquer detalhe que possa consporcar o bom nome da China, e da cultura chinesa perante o mundo, e os chineses é diplomaticamente cancelado. A provar que Josés Hermanos Saraiva e companhia proliferam por este mundo fora, cantores de uma nota só. E isto é perigoso pois deste modo tudo aquilo que nos torna tão iguais para o bem e para o mal, quer sejamos amarelos, pretos ou brancos, perde-se. Em vez de uma saudável reflexão sobre aquilo que nos aproxima enquanto humanidade insistimos em notas oficiais que só propagam orgulho e evidenciam apenas aquilo que nos torna diferentes do outro.
A exposição nao fala por exemplo de como se fabricava um eunuco naqueles tempos na China. Os rapazes aos 8/11 anos depois de castrados eram despidos e enterrados em areia quente (para ajudar à cicatrização) ficando só com a cabeça de fora por tres dias.Tres dias em que nao lhes era dado água. Desenterravam-se e aí davam-lhes água a rodos de modo a que pressão da urina fizesse rebentar um buraco na cicatriz. Morriam muitos como se pode imaginar. O Zheng He foi feito eunuco aos 11 anos pelo príncipe Zhu Di.
A importância deste Navegador é inegável mas fica-se com a mesma sensação quando apenas e só se ouve falar de Cristovãos Colombo e dos navegadores portugueses népia. Segue-se o texto oficial da exposição:
«Zheng He, de origem muçulmana, serviu no século XV o príncipe Zhu Di que se tornou imperador e mais tarde lhe concedeu o comando de uma das maiores armadas do mundo conhecida como a Armada Imperial Ming.
Zheng He chefiou uma armada de mais de 300 navios e 3000 marinheiros que entre Julho de 1405 e 1433 cruzou o Mar do Sul da China e o Oceano Índico, explorando os países do Sudeste Asiático, Índia, Médio Oriente e a costa oriental de África.
Os três navios de Cristovão Colombo (Nina, Pinta e Santa Maria) com os quais chegou a América, e a caravela São Gabriel com que Vasco da Gama chegou à Índia, cabiam dentro de um dos navios da armada de Zhen He que tinha 122 metros de comprimento e 52 de largura.
As viagens da armada chinesa eram não só destinadas à diplomacia da China, mas também serviram para o comércio e para obter informações geográficas, astrológicas, botânicas, zoológicas e etnográficas dos países visitados.
No final do século XV o imperador chinês decidiu suspender as viagens devido aos custos exorbitantes e por considerar que a China não tinha nada a aprender com os países estrangeiros.
O almirante chinês Zheng He morreu durante o regresso da sua última viagem à costa oriental de África, em 1433, e que o levaria ainda a Meca, tendo sido sepultado no mar.

Será esta a hora em que nasce o Sol a escolhida para te deixar rumo a uma vida sem rumo, sem retorno para sempre em busca das razões últimas que me vão chamando desde que me conheço.
Talvez tenhas razão quando dizes que sou um viciado em estética a querer fazer da minha vida um poema bêbado de uma qualquer personagem trágica como se nao houvesse na vida beleza sem aquele travo amargo na vida de um mito.
É estranho escrever a palavra tragédia quando o dia vai nascendo, é quase um à vida e ao Sol. Inspirar, expirar, inspirar, expirar.
Renuncio a tudo não por cansaço ou incapacidade de adaptação mas porque em mim faz sentido.
Mesmo pressentido que talvez esteja a navegar em águas não muito lúcidas, razoáveis, das quais conheço os fundos. Delirantes abismos onde tudo parece fazer sentido.
Vou fumando cigarro após cigarro dizendo para mim mesmo, a cada um, que será o último, que a partir daqui espera-me algures uma iluminação qualquer escondida debaixo das pedras, no vento que sopra nas folhas das árvores, nas águas que caeim das cascatas.
Isto é tudo muito bonito mas são apenas palavras. Insuficientes para justificar o que parece não ter justificação por isso debato-me entre tentar dizer e a inutilidade desta tentativa. Falta-me talento ou talvez a natureza destas razões nao se possa verbalizar.
E tenho medo, tenho muito medo de não aguentar o nunca mais te ver e ouvir, de gritar longe o teu nome. De não saber.
Tenho medo do remorso que já me vai consumindo neste esboço de auto-profecia, da dor que semeei, da força que se fragilizou de incrédula perante os factos.
Tenho medo de passar fome, de sentir sede, de estar sozinho à noite nos bosques, de não ter com quem falar.
“A man must do what a man must do”, se é verdade que tenho tanto medo tambem é verdade que tenho esperança num encontro ou reencontro com algo que me ultrapassa, um dia claro onde será sempre Primavera.
No fundo e na superfície não estou a renunciar a nada, no fundo não estou cansado de ti mas sinto-me cansado e sim sou um desadaptado, mas perfeitamente adaptado para nao me adiar mais. Não sei...
Ainda dormes. Não me canso de olhar pra ti quando dormes, derreto-me quando acordas com os meus beijos e me sorris. A mim que quando me acordas me enervo e barafusto.
De saberes desde que nos conhecemos destes meus desvarios, como se nos estivesse sempre a lembrar que nada é eterno como a espiral atravessada por um cometa que desenho como assinatura no que escrevo e pinto.
De como me fazes rir, de como me queres, de como precisas de mim e eu de ti.
Sabendo da força que tem o que não se diz calo-me pois já disse tanto e demais e acabei por não dizer nada.
Mas é que me incomoda o refrão de uma música dos Joy Division “Dont walk away in silence...”
E eu quero ouvir sempre e cada vez mais Benjamin Britten dentro e fora de mim.
“Quem, se eu gritar, me ouvirá na hierarquia dos anjos?”
Rainier Maria Rilke
Inesperadamente por razões menos felizes veio parar-me às mãos um bilhete para o bailado Red Gisele no Centro Cultural de Macau.
Foi uma dádiva dos céus este espectáculo de excelência rara aqui por estas bandas, há tanto tempo que não saía de um espectáculo tão revigorado, com vontade de fazer eu também qualquer coisa.
Neste caso o que senti foi a ausência de crónicas comprometidas sobre o que se vai fazendo por aqui, para o bem e para o mal.
E se uma crítica, diz-se por aí, poderá ser construtiva, aqui em Macau faltam críticas que saiam dos recados habituais e suspeitos do costume.
A Gisela Vermelha conta-nos a história da queda de um sistema, no caso, o dos czares da Rússia, simbolizado aqui pelo ballet clássico. De facto o espectáculo inicia justamente com uma aula, um professor, várias alunas vestidas com tutus e algumas barras.
Se os movimentos a início são clássicos o aparecimento de um bailarino vestido de negro vem mudar drasticamente as regras do jogo e os movimentos passam a ser menos graciosos, mais violentos com laivos rasgos de tango.
Há qualquer coisa mefistofélica nesta cena, a ex-aluna após o seu primeiro bailado como protagonista é abordada por este personagem que a seduz num dueto prodigioso.
Todos nós já experimentámos algo semelhante nas nossas vidas em que de repente o que sabíamos deixa de ser válido, o chão foge-nos debaixo dos pés e descobrimos haver mais vida para além dos limites das cómodas cavernas que nos escolheram.
Os primeiros passos são sempre hesitantes como neste dueto, a bailarina não sabe como se relacionar com este estranho bailarino, mas sente-se irremediavelmente atraída.
“É preciso um grande caos interior para parir uma estrela que dança”, Nietzche Dixit e aqui o caos acontece porque apesar de estarmos na presença de um espírito curioso e disponível, o encontro vai apenas numa só direcção.
A nossa Gisela sucumbe aos encantos do desconhecido ao contrário deste que vê nela apenas um exercício, um desafio. O síndroma D.Giovanni ou D.Juan não anda longe deste personagem.
O homem leva-a a conhecer os seus companheiros vestidos com roupas do proletariado russo mas estes estranham-na chegando mesmo a despreza-la.
Nos modos como a confrontam, homens e mulheres, fazem-lhe saber como é que se faz, como é que se dança.
Quem nunca se sentiu excluído que levante a mão.
Confusa com a agressividade daquela “conversa” que descamba numa quase parada militar - os bailarinos repetem, frenéticos, continências com as mãos - a nossa heroína resolve regressar à escola, onde é mal recebida pelas companheiras. Ela é uma traidora. Todas lhe viram literalmente as costas.
Só o professor se dirige a ela. Mas é tarde. A engrenagem está já em movimento.
Segue-se a invasão da escola pelos elementos da nova ordem, os tutus são coisa a abater e o professor é espancado.
Durante esta cena vemos ao fundo uma procissão de fantasmas vestidos à maneira aristocrática da velha Rússia. Sobem uma rampa que acaba num vazio enevoado. Acenam adeus.
Fiquei curioso em saber a opinião da assistência, de maioria chinesa. Esta cena ter-lhes-á dito alguma coisa? Estou a pensar na revolução cultural.
“Nós éramos os leões, os leopardos...Depois vieram os chacais, as ovelhas. E todos nós leões, leopardos, chacais e ovelhas continuaremos a pensar ser o sal da terra...” in “Il Gatopardo” de Viscontti.
O cenário muda e estamos numa festa em Paris nos loucos anos 20. Vemos uma Gisela alcoolizada entregue aos seus fantasmas.
Volta ainda a integrar uma companhia, mas já nada é o mesmo. De resto nunca nada será o mesmo e a nossa Gisela ignora isto. Um provérbio chinês diz ser impossível banharmo-nos duas vezes na mesma água de um rio que corre.
O objecto da sua atenção não gosta de raparigas, prefere rapazes.
Segue-se a gota de água. O aparecimento em cena de uma nova primeira bailarina faz com que o protagonista, embaraçado, se esconda a meio de um ensaio deixando Gisela a dançar sozinha. Em vão, ela procura o seu partner.
Finalmente, apercebe-se de tudo ao ver o constrangimento da companhia que tenta demover a nova estrela. Furiosa e incomodada com aquela estranha criatura, abandona o palco.
O espectáculo acaba com os delírios de uma Gisela enlouquecida.
Bravo, bravissimmi.
Pessoalmente, passe o pedantismo, acredito que a beleza nos faz ser melhores. Faltam em Macau mais e melhores momentos como este onde estejamos algum tempo todos juntos em comunhão, em silêncio, sem o conforto dos sofás e dos intermináveis DVDs.
Dizia-me uma amiga em resposta a um mail ser a beleza, como a verdade, uma ficção.
Hajam mais ficções, muitas mais.

Um Pai Natal sem dentes, um coelho sem talento, um Rimbaud sem presentes.
«Mohamed:
Hey mister don’t answer me anymore. You are crazy and I don’t talk with fools of your kind.
You just give bad feelings and I don’t like to have this feelings.
Bye and forget me.
Charalampos the orthodox Monk:
YOU ARE a totally stupid person that have no respect at all and going around and around the world looking for things that did not even know what they are.
A person that can not have even a woman is not nothing to have the last word. And if in your life you have learn to talk last one - here is different - shut up to not get answer again loosen man.
You are so loosen person that you don't even have a home to go back.»
P.S. - para os que queiram escrever ao santo homem: info@inathos.gr
Escrevi um mail para um complexo de mosteiros na Grécia, Monte Athos, para saber se era possível passar lá alguns tempos, mesmo como monge.
O sítio é espectacular, mas vejam lá bem o que estes tipos me responderam:
«I don't think that you are going to find what you search here in Athos.
Please try somewhere else.
Let me tell you something more - that probably no one else tell you.
If someone knows the existing of something, there is no reason to make questions, because it's all ready know it.
If from the other point of view, someone do not know something, what is going to ask? For something that it don't even know what it is?
So keep your questions for someone else. In Athos we don't like people that make questions.
We do like only people with good will and open mind to trust us, and only after years and with the God willing maybe they learn something.
Also you need at least 5 years to stay at Athos before start living like a monk, and at that time you must have totally obey with out asking anything, and probably without talking at all - can you stand this? I think not.
We also don't like people that search for experience. We are totally different in that matter.
Some one else can say "Death is also an experience", why no try it also to see the experience ?
So that's why we don't like experience, is lead to bad thinks.
Take care Mohamed and stop searching for answers.
P.S. - Must understand that if you can do questions you know all ready the answers but the true search is for all of that that you don't even know that exist and for that reason you don't even know the right questions to ask.
Some people live all there life in a monastery until some one else maybe some time tell him something, and you think that with some months you can come to a monastery and learn everything that you may think that you search... think again and forget Athos.
Also respect the 1000+ years of Athos and learn/understand something from this.»

Queria escrever aqui e em todo o lado as palavras que vivem debaixo da língua.
Palavras simples sem demais nem de menos.
Mas isto da simplicidade ou de simplificar é arte que não é para todos pois exige muito trabalho, alguma fé e persistência.
Nos gestos, nas palavras, no que não se diz e em tudo aquilo a que se poderá chamar arte.
Mas não é simples.
A simplicidade em última análise será a expressão máxima da sofistificação.
Ou seja, não sou simples, sou preguiçoso e não sou sofistificado.
E sim gosto muito de escrever e receber cartas daquelas em papel com selo e à mão. À maneira antiga.

“Eu hei-de amar, eu hei-de amar nem que seja uma pedra”, dizia para si.
Lançou conchas, presenteou o mar com as filhas da Terra, as flores, subiu e desceu por precipícios equilibrando-se contra o vento, tentava a sua sorte. Buscava um sinal nos anéis rochosos construídos nos lugares onde o azevinho cresce. À noite ali havia festa da Lua, da qual estava impedido de entrar.
E cantava, cantava muito numa linguagem desconhecida que lhe saía espontânea e sem medo. Isto só lhe era possível quando se perdia nos bosques, longe, inevitavelmente longe de qualquer companhia. Não podia duvidar da magia destes gestos, tinha que chegar ao esquecimento total de tudo na sua realização. Ficar absorto, distraído, num estado semelhante ao que via nas crianças quando brincavam.
Sangrar também era magia, boa, mas podia facilmente atrair toda a espécie de forças caóticas nascidas da raiva.
Todos os mitos repetiam a mesma armadilha, fruto de um ímpeto enganador.
Até que um dia as suas preces foram atendidas. Aquilo que tanto invocou e pediu aconteceu. Enredado e confuso, não sabia se feliz, não queria saber, entregava-se áquele cheiro a terra molhada e a mar.
Ardia mas nao se queimava.
”Sim, deve ser esta a grande magia de que os mortais tanto falam e cantam, o tesouro dos tesouros."
Não sabia se aquilo o afastava ou aproximava de uma vez por todas do mundo que deixara. Duvidava agora se o tal mundo que procurava, febril no arvoredo, nao passava de um mecanismo da sua mente que não se adaptava.
Um arrepio frio descia-lhe pelas costas abaixo.
Lembrava-se das palavras terríveis que Sileno disse a Midas, o rei que o perseguiu dias e noites sem trégua para lhe arrancar da lingua o sentido da vida.

Vayrapani was used extensively in Buddhist iconography as one of the three protective deities surrounding the Buddha. Each of them symbolizes one of the Buddha's virtues: Manjusri (the manifestation of all the Buddhas' wisdom), Avalokitesvara (the manifestation of all the Buddhas' compassion) and Vajrapani (the manifestation of all the Buddhas' power).
As Buddhism expanded in Central Asia, and fused with Hellenistic influences into Greco-Buddhism, the Greek god Hercules was adopted to represent Vajrapani. He was then typically depicted as a hairy, muscular athlete, wielding a short "diamond" club.
Image legend Club-wielding Herculean depiction of Vajrapani as the protector of the Buddha, Kushan Period, ca. 3rd century Pakistan (ancient region of Gandhara)
Buddha's First Sermon at Sarnath, Kushan Period, ca. 3rd century Pakistan (ancient region of Gandhara). Gray schist; 11 1/4 x 12 3/4 in. (28.6 x 32.4 cm) Gift of Daniel Slott, 1980 (1980.527.4) Metropolitan Museum of Art.
Taken from this site.
www.nationmaster.com/encyclopedia/vajrapani
"Espera e esperança no horizonte da loucura" - um ensaio de Eugenio Borgna
«O cenário é o da loucura, no qual as vivências interiores diferem das nossas apenas em intensidade. Por isto afastamos os loucos de nós, para não nos vermos e para evitar aquela consciência de si mesmo que, para os homens de hoje, é a experiência mais inquietante.
Porém Eugenio Borgna tem a delicadeza de se aproximar do mundo da loucura através da experiência poética, porque os poetas, como nos recorda Heidegger: ”São os mais arriscados”, aqueles que ousam empurrar a experiência humana até ao seu limite, de modo a lhes dar o sentido ou o seu não sentido, naqueles abismos de verdade, que a poesia, a literatura e de vez em quando a filosofia sabem alcançar, para lá dos diagnósticos clínicos, em que o vocabulário tantas vezes se assemelha a uma armadura defensiva.
Tanto a esperança como a espera estão relacionadas com o futuro, logo com o que está por vir.
A espera com o acontecer imediato normalmente ligada a um evento. A esperança com um futuro distante cheio de promessas, sem os traços de ânsia, de inquietude, de perplexidade, da insegurança que caracterizam a espera.
Há de facto uma enorme relação entre a espera e a angústia. Na espera uma vertiginosa aceleração e uma enigmática anticipação do futuro que queima o presente e torna insignificantes os seus momentos, porque toda a atenção e tensão são deslocadas para a frente, espasmódico concentrada sobre o acontecimento que se espera, como evento feliz que pode ficar defraudado ou como evento infausto que não se sabe como evitar.
Na espera não ha duração, não ha organização do tempo, porque o tempo é devorado pelo futuro que esvazia o presente ao qual tira qualquer significado, porque tudo aquilo que sucede é desviado pela espera que ganha forma no olhar e no rosto.
“Atendere, aspettare” (esperar/em italiano) reenviam-nos ao latim ex-spectare que deriva de specere que significa olhar. A espera faz-se no corpo e no olhar, onde se estratificam o temor, a angústia, a esperança e de vez em quando tragicamente o silêncio, porque o olhar de quem espera procura vislumbrar no olhar do outro a quem se dirige uma resposta à sua espera. E aqui Borgna, pela primeira vez, relata-nos a sua experiência pessoal no hospital de Novara (onde foi assistente antes do encerramento dos manicómios, em Itália, aos quais deu um grande contributo) para dar tema a relação médico-paciente, partindo da espera inscrita no olhar do paciente e da resposta àquela espera ignorada pelo olhar do médico, que muitas vezes não vê pessoas mas sintomas, não apreende vivências mas destroços de comportamento, julga poder curar uma alma prescindindo da alma.»
«Quando o olhar se torna clínico; nas palavras de Kafka “é mais fácil escrever uma receita que falar com quem sofre”; a competência sobrepõe-se à humanidade, a distância ao pedido de compreensão e, a espera que moldava o olhar do paciente, cai sobre si mesma desiludida e ignorada.
Ao entregá-la à genericidade dos fármacos não se viu a especificidade do sofrimento porque o modo de adoecer; se é igual para a todos quando as doenças são do corpo; é específico para cada um de nós quando a doença é da alma. Razão pela qual equiparar a competência psiquiátrica à competência médica significa não só ignorar a especificidade do sofrimento psíquico mas também a especificidade da intervenção psiquiátrica, que com a médica só tem semelhanças marginais.
O olhar do médico, mais do que o fármaco, pode restituir esperança à espera inscrita no olhar do paciente, porque a esperança, ao ver mais longe e ampliando o espaço do futuro, desloca a espera da concentração sobre o presente, liberta-a do imediato, expandindo-se em horizontes que a concentração sobre o presente tinha cancelado.
A esperança é, de facto, a abertura do possível. Esta faz referência àqueles novos céus e àquelas novas terras que são prometidas pelas religiões, pela utopia, pelas revoluções e pelas transformações pessoais que habitualmente tememos porque ancorados à nossa identidade assumida como um “facto” e não como uma interminável e nunca concluída “construção”.
Nós somos uma construção. E se a espera é a ânsia de que esta construção chegue a bom porto, a esperança activa o nosso comportamento de modo a que esteja nas nossas mãos chegar a esse porto.
Neste sentido dizemos que a espera é passiva, vive o tempo como qualquer coisa que vem na nossa direcção, ao contrário da esperança que é activa porque nos empurra em direcção ao tempo como aquela dimensão que nos foi designada para a nossa realização.
A dor, o sofrimento, a infelicidade são sempre acompanhadas de uma margem de passividade. Efeito psicológico da cultura religiosa que nos faz pensar “nas mãos de Deus”, as quais se a soubermos suportar sabe como nos garantir a vida eterna.
Os gregos, que não tinham esperanças numa vida extra-terrena, conheciam a crueldade da natureza que vive da morte dos indivíduos que gera, e a partir desta visão trágica, ensinavam a conter a dor e pelo breve tempo que nos é dado viver, a conduzir uma “vida boa” que, se bem governada e não desperdiçada à baila dos acontecimentos, podia também ser uma vida feliz.
Activos naquele tanto que nos é dado para viver e não passivos porque “nas mãos de Deus”.
E somos activos quando com a esperança caminhamos na direcção do tempo ao contrário da espera em que esperamos que o tempo venha ao nosso encontro.
Quando a espera é desabitada de esperança infiltra-se o tédio, onde o futuro perde balanço e o presente se dilata numa espessura opaca onde o objecto do tempo é aquele do relógio, bate no seu ritmo sobre tempo vivido que se encheu de areia, lamacento, prisioneiro.
No tédio extingue-se a espera, qualquer esperança aniquilada, não há mais projectos nem história. Afoga-se tudo na espuma do dia, do presente onde qualquer horizonte com significado se torna árido e se desliga.
Se um dia é como todos os outros , todos os dias são como um só. Na uniformidade perfeita de uma vida que saboreia este vazio de experiência, que acontece quando são tornadas vãs todas as esperas ,todas as esperanças, todas as ilusões.
É então que o impossível, como um muro, esbarra todas as vias do possível que alimentam o futuro. E o espaço deixado em branco do futuro, abandonado seja da espera, seja da esperança, é ocupado pela expansão do passado que devora todas as esperanças e todas as esperas, subtraindo ao tempo a sua dimensão do porvir.
Sucede aqui neste ponto a passagem do tédio à depressão, que faz retroceder todas as palavras que convidam à esperança, afundando-as naquele desarticulado à medida do qual existe apenas o grito, que às vezes despedaça a couraça espessa e opaca do silêncio que, maciço rodeia a solidão da depressão como estado de alma sem tempo.
Sem esperança e sem espera o tempo faz-se deserto que, na ausência de futuro, se expande do presente mudo (no qual, por invisibilidade, o deprimido desabita qualquer evento) ao passado que seca amores que não se enraizaram, criatividades extinguidas mal iniciadas, recordações que não têm nada para que se recordem, naquela solidão fragmentada onde o semelhante, na sua imobilidade sem expressão, colhe aquela outra face da verdade que é a insignificância de existir.
Então a morte, este silêncio absoluto, começa a falar com o timbre calmo de quem sabe como, em certas circunstâncias, pode ser sedutor o seu convite.
Fim da farra diabólica com a qual quotidianamente tentamos distrair a nossa alma.
Uma confusão que é a comédia do grito que se afunda num tempo sem espera.
No entanto, escreve Borgna, até no suicidar a esperança não é de todo extinta porque não se poderia cumprir este gesto se a morte não fosse tida como a única razão de vida, depois de as esperanças terem sido negadas, as ilusões falsificadas e as esperas ficarem sem sentido.
Esta situação muito frequente na adolescência muitas vezes se prolonga na vida,ora mitigada, ora exasperada ou travada e descompensada.
Fragilizada dos acontecimentos e das situações trágicas que muitas vezes derrotam uma existência, esta esperança conduz à morte como a “última esperança” quando esta não consegue mais projectar-se num futuro, porque não é mais capaz de recuperar um passado.
Tanto Judas como Pedro, de facto, traíram Jesus mas enquanto Judas, ao suicidar-se, encarregou ao passado o trabalho de exprimir todo o sentido da sua vida, Pedro conheceu o cansaço de reassumir o seu passado tirando-lhe a honra de dizer a última palavra sobre o significado da sua vida.
Este é o espaço onde se joga a esperança ou o gesto suicida.
Esperar não significa apenas olhar para a frente com optimismo mas sobretudo olhar para trás para ver como é possível configurar aquele passado que vive em nós, para jogá-lo em possibilidades que estão para vir.
Pelo contrário, suicidar-se é decidir que o nosso passado contém o sentido último e definitivo da nossa vida, para o qual não se dá mais o caso de reassumi-lo mas apenas de lhe pôr simplesmente um fim.
Assim sendo tanto o suicídio como a esperança jogam os seus dados sobre o passado e sobre o sentido que este vem assumindo para mim. E como sou eu a dar sentido ao passado, na esperança existe a liberdade de conferir ao passado a custódia de significados ulteriores enquanto que no suicídio existe a não-liberdade de quem no passado vê apenas um sentido inultrapassável e por isso definitivo.
Estas são as reflexões às quais nos convida Eugenio Borgna no seu último livro.
Impressões que nascem de uma vida a observar a enigmática noite e escura da loucura e que bem se adaptam também à nossa vida, onde o enigma não nos é completamente alheio e a escuridão, consequência do naufrágio da esperança, não é nunca em definitivo esconjurada.»
"Espera e esperança no horizonte da loucura" - um ensaio de Eugenio Borgna
Umberto Galimberti, La Repubblica 13 maio 2005
«A lenda conta que o rei Midas perseguiu na floresta por muito tempo o sábio Sileno, seguidor de Dionísio, sem conseguir apanhá-lo. Quando este lhe cai por fim entre as mãos, o rei perguntou qual era a coisa melhor e mais desejável para o homem. Rígido e imóvel, o demónio resiste; até que escapa dizendo por entre gargalhadas estridentes:
- Estirpe miserável e efémera, filho do acaso e da dor, porque me obrigas a dizer-te aquilo que só te trará desvantagens em ouvindo-o: O melhor é para ti completamente inalcançável: não ter nascido, não ser, ser nada. Mas a coisa em segundo lugar melhor para ti é - morrer depressa.»
in A Origem da Tragédia de Nietzsche
Debaixo desta gosma tropical sufoca-se com ou sem trabalho. Estou farto destes chineses, destes portugueses. Desta gente toda.
Falta-me o ar mas já tenho o dinheiro para um bilhete de avião e enquanto espero encho a banheira de água fria para me enfiar lá dentro.
Não tenho mais paciência para estas relações viciadas, caralho, foda-se tudo.
Macau é um lugar de merda. Digo-o e ao dizê-lo carrego no teclado com ódio.
Que se lixe se isto é conveniente ou não.
Aldeia das relações temáticas, das punhetas asmáticas, das sublimações que não sublimam nada.
Fffffffffffffffffffffffffff...

«São outras as imagens que triunfaram na comunicação catequética de Jesus: o Jesus dos milagres, o contador de parábolas, o Mestre que transmitia a sabedoria do Reino, o Profeta-Messias de Deus… Contudo, este foi provavelmente um dos aspectos do ministério de Jesus mais significativos para os seus seguidores e mais ofensivos para os seus críticos. Chegando Robert Karris (1985) a defender que, no evangelho de Lucas, Jesus foi crucificado pela forma como comia.
À mesa não se desenrola apenas um acto biológico, mas a significativa manifestação de alguns dos códigos mais intrínsecos de uma cultura. Quando se chega a perceber a lógica e o conteúdo dos alimentos, bem como a ordem que regula a mesa (com quem se come, onde se come, a estratégia da colocação da mesa...), alcança-se um conhecimento muito importante sobre a vida de um grupo.
O termo “fariseus” significa etimologicamente “os separados”. E essa separação pode constatar-se na configuração das suas refeições, das quais excluiam pecadores e pagãos.
Uma particularidade de Lucas, é que Jesus, por três vezes é convidado da mesa dos fariseus. São episódios dominados pela controvérsia, pois Jesus revela-se um hóspede inconveniente. No primeiro pasto, permite que uma mulher pecadora o toque. No dia seguinte, profere um discurso violento contra a hipocrisia ritualista. Na terceira refeição cura um hipódrico em dia de sábado e critica o protocolo da mesa.
A comunidade de mesa com os pecadores era tida, pelos adversários, como uma insolência de Jesus, uma actuação anárquica do ponto de vista social e religioso.
Crê-se que um dos motivos que levou Lucas ao privilegiar o paradigma da refeição e da comensalidade no caminho de Jesus, foi a realidade que lhe era contemporânea, à época da redação do evangelho: a necessidade de uma nova comunhão para lá das barreiras étnicas e de proveniência prefigurando a refeição um novo tipo de relações entre os homens.»
José Tolentino de Mendonça

Lord Jim sabia que o barco estava prestes a afundar-se mas não disse nada. Poderia avisar aquela massa humana de passageiros que dormia tranquila que daqui a nada ia começar o pesadelo mas não. Calou-se. De que valia provocar o caos se o desastre era inevitável?
Salvou-se contra vontade, achava que era digno como qualquer comandante que se preze ir ao fundo com o barco, que merecia também ele ir ao fundo como expiação para o seu silêncio.
O Lord Gin que nasceu em Lisboa mas que é de Macau seja lá o que isso for; como se algures houvessem países perfeitos ou menos imperfeitos, venha o Gin sem Lord e decida; fala como o diabo e bem. Parabéns!
Só quem possui uma identidade nacional forte consegue distanciar-se, atacá-la ou renegá-la na agri-doce circustancial do estrangeirado. Não é o caso da maioria dos portugueses em Macau mas isto é outra triste e antiga história...
Estou certo que tudo isto não passa de uma questão de forma porque dizer que Portugal é um não país, por oposiçao a Macau, onde tudo se discute e realiza com inteligência, sobriedade e sensibilidade é, a meu modesto ver, branquear a questão ou se quiserem, dourar a pílula. Nasceu em Lisboa mas é mesmo de Macau?
Não obtstante o queixume que se queixa do meu queixo, tão portugues como outra coisa qualquer quando diz ”As cidades, não os países, são a raíz da Europa” que a “ética da política é a pedagogia” subscrevo e aplaudo.
Poderia dizer que nao se queixe tanto, que não seja tão português no azedume, mas isto de queixas e azedumes é comum a todos os cardumes, sempre frescos à merce do freguês que se segue, e por isso abster-me-ei de o dizer.
A ter sucesso o projecto Europeu será por via de uma geração nova menos enraizada, que viaja ,que aprendeu a flexibilidade alimentada a bolsas Erasmos. Há exepções é claro.
Os outros continuam tacanhamente agarrados ao clubinho que escolheram, vendo da vida apenas as cores da sua bandeira, batendo no peito, chorando por ela. Às direitas e às esquerdas, quer se trate de nobres ou de plebeus, todos mas todos cantam a mesma cantiga e creiem-se diferentes. De alguma forma o famoso e misterioso “ELES” a que faz referência no seu texto.
E nao estou só a referir-me a Portugal, há tantas e tão grandes muralhas que comprometem e adiam o sucesso daquela cidade futura, intangível num impossível possivel, onde os afetos serão a única pátria e arte, não mais se tenha que manifestar.
Perdoe-me este final que já soa a cantilena do John Lennon e do seu "Imagine", mas estou certo que me desculpará a fraqueza.
Vai um gin?
P.S.- Este texto surge como resposta a uma cronica de 6 de Julho do jornal de Macau em língua portuguesa o Hoje Macau da autoria de Lord Gin.
«... quão formosos são teus pés nas sandálias filha de príncipe
as curvas dos teus quadris parecem colares obra das mãos de um artista
teu umbigo uma taça redonda que o vinho nunca falte
teu ventre monte de trigo cercado de lírios
teus seios dois filhotes gêmeos de gazela
teu pescoço uma torre de marfim
teus olhos as piscinas de Hesbon junto às portas de Bat-Rabim
...
Vem meu amado corramos ao campo passemos a noite sob os cedros
madruguemos pelos vinhedos
vejamos se as vides rebentam
abrem seus botões
se já brotam os cachos
lá te darei as minhas carícias
as mandrágoras exalam o seu perfume à nossa porta há toda a sorte de frutos
frutos novos frutos secos que eu tinha guardado meu amado para ti.»
"Cântico dos cânticos" de Salomão
As cascatas de Ein Gedi (foto: oásis no Mar Morto) são referidas neste poema escrito pelo rei da justiça salomónica. Esta tradução do hebraíco para o português aconteceu pelas mãos de um outro poeta José Tolentino Mendonça.
Objecto raro no Antigo Testamento pelo erotismo que emana, e quase completamente ausente no resto da obra, confirma mais uma vez que há mais vida, viva e boa, para alem do que as versões oficias das instituições das túnicas vermelhas nos querem vender.
A tradução também demonstra como nisto das traduções não nos pode bastar um diccionário.
Para o Piero

"Quem, se eu gritar me ouvirá na hierarquia dos anjos?"
[RAINIER MARIA RILKE]

Apanhei no Telejornal o momento da apresentação do candidato à Câmara Municipal de Lisboa, Manuel Maria Carrilho.
Acompanhava-o naturalmente a sua mulher, Bárbara Guimarães, rosto e corpo de alguns programas da televisão portuguesa.
Um jornalista: Trouxe a sua mulher de propósito?
Mas que raio de pergunta é esta, que jornalismo é este?
Cabe na cabeça de alguém ir perguntar a Jorge Sampaio, o Presidente do Motel Portugal, se trouxe a sua mulher de propósito?
Estou a imaginar a noite anterior em casa dos Carrilho:
"B: Morzinho, achas que se eu for não te vão acusar de te estares a servir da minha figura para arrecadar mais votos e simpatias?
C: Boquinha linda, claro que vão mas eu estou-me nas tintas para estes tipos. Tu és a minha mulher. Esquece-te disso agora, que me dizes a mais um bocadinho de Wittgenstein?
B: Ó sim, adoro! Vou preparar as natas e os morangos."

Vi este filme só uma vez na Cinemateca de Lisboa há já uns anos. Como os bilhetes não eram caros dava-me ao luxo de aparecer lá quando me apetecia sem saber que filmes passavam.
Apanhei algumas “secas”, mas também tive bons momentos, que foram superiores aos maus, contabilizando. Grande João Bernard da Costa.
Foi o caso deste "Suddenly Last Summer" de J.L.Mankiewicz com a Elizabeth Taylor, o Montgomery Clift e a Kathryn Hepburn nos principais papéis.
Caravaggio em 1606 aceitou uma encomenda de um convento de freiras. Pintou "A Morte da Virgem" usando como modelo o cadáver de uma prostituta afogada no Tevere. O quadro que à epoca foi recusado pelas monjas pode ser agora admirado no Louvre.
Passou-se o mesmo com "La Madonna del Loreto" com a diferença que a cortesã que serviu de modelo ainda não estava morta. A pose desta Madonna, muito bonita, em trejeitos de bailarina e os pés sujos dos peregrinos ajoelhados agravaram ainda mais o escândalo.
Cá para mim sou mais inclinado a deuses que dançam que a deuses meio monstrengos estáticos e sisudos.
Seja como for estes detalhes, estas curiosidades creio serem irrelevantes. A obra do pintor dos fundos negros tem aquele cunho raro da obra que seja em que tempo for dialoga connosco e nos faz ver coisas novas. Vive seduzindo e sem idade, ”vai segura e não tranquila.”
Nunca mais me esqueci do que um professor me disse em relação ao teatro que deve começar por atingir/chegar ao público nas partes baixas primeiro, subir pelo coração e só por fim chegar à cabeça. Quando começa pela cabeça fica cerebral, pelo coração lamechas.
Podem servir estes detalhes para ensaios filosóficos ou de sociologia sobre o que vemos e o que não conseguimos ver, prisioneiros de costumes e estereótipos do tempo em que vivemos. Algo que está relacionado com a Alegoria da caverna de Platão.
Ao escrever isto tenho presente a qualidade dos textos do director da Cinemateca publicados pelo jornal Público e logo à partida sinto-me desencorajado, não obstante as intenções serem boas, mas isto de boas intenções diz-se...
Poque é que eu chamei aqui o Caravaggio?
Porque além de encontrar afinidades estéticas com o realizador do filme descubro as mesmas pulsões secretas, o mesmo arrojo e genialidade nas formas encontradas.
Embora no caso do Caravaggio estas piscadelas de olho se manifestem mais subtis.
"Subitamente no Verão Passado" apresenta-nos um Montgomery Clift no papel de um jornalista incumbido de escrever um artigo para o seu jornal sobre a morte, de contornos misteriosos, do filho único de uma Milionária excêntrica(Kathryn Hepburn) que vive numa espécie de mansão gótica.
Kathryn Hepburn embora já não esteja muito nova neste filme enche a tela com uma força descomunal que nos arrebata e prende, com ou sem legendas.
Ela fala do filho apaixonadamente, quase como se o idolatrasse. ”Ninguém resistia a Sebastian quer se tratasse de mulheres, homens ou pedras.”
O filho atravessa o filme como um fantasma, nunca lhe chegamos a ver o rosto.
Em extâse a mãe conta as viagens que fez com Sebastian pelos países do sul da Europa.
Agora vão ter que me desculpar mas a memória começa a falhar e já não me lembro muito bem como é que aparece em cena a prima menos rica do defunto, a Elizabeth Taylor.
É uma personagem angustiada que vive encerrada num manicómio por ordem da tia.
A tia conta uma história, uma versão dos factos â volta da morte do filho que não convence o jornalista. Este pressente que é na cabeça da insinuante prima que a verdade pode vir ao de cima, sem adornos e efeitos de estética.
Mas esta não consegue ou não quer recordar-se do que aconteceu, presa de crises e cigarros vários.
Finalmente ficamos a saber através de flash backs que Sebastian usava a Mãe como isco nas viagens que faziam para atrair rapazes.
Com o envelhecimento da Mãe começa a servir-se da prima que por artes e manhas convence-a a mostrar-se nas praias daquelas zonas agrestes e miseráveis do sul da europa de então em fatos de banho cada vez mais provocadores.
Sebastian servia-se também da sua imagem de estrangeiro rico para ir comprando, seduzindo as vontades dos nativos machos.
O feitiço resulta tão bem que acaba por voltar-se contra o feiticeiro.
Nestas últimas cenas assistimos a uma procissão pagã com cabeças e peles de cabras e música feita com instrumentos estranhos, há vinho à mistura.
Os rapazes iniciam uma perseguição febril a Sebastian pelas ruas labirinticas da aldeia mediterrânica. Ele tenta fugir, atira-lhes dinheiro na tentativa de os afastar mas sem efeito. Estão consumidos por um desejo mortal, desejam-no com violência.
Este final recordou-me o final do "Perfume", livro de Patrick Suskind.
Vemos uma multidão de corpos de homens e adolescentes cair sobre o homem dos fatos brancos sem rosto.
Deixamos de o ver mas ficamos a saber o que vai acontecendo debaixo daquela massa humana enlouquecida de desejo pelas palavras histéricas em crescente de Elizabeth Taylor.
“- Eles estavam a devorá-lo, a comê-lo às dentadas... Havia sangue, pedaços de carne nas suas bocas... Faziam esgares de alívio, de extâse, gemiam lambendo os dedos empapados com o sangue de Sebastian!”
Segue-se o confronto com a Mãe que em vao tenta dizer que a sobrinha inventou tudo,que é uma desiquilibrada mal agradecida.
Mais detalhe,menos detalhe em linhas gerais é esta a história de "Subitamente no Verão Passado."
Estas últimas cenas reenviaram-me para a Origem da Tragédia de Nietzsche
Inevitavelmente pensei também em Cristo, no seu corpo e no seu sangue, na componente sacrificial presente ainda nas touradas e em Baco.
Mais a coragem de um realizador na América da década de 50. Como é que isto passou?
Não sei mas imagino que nao tenha sido fácil. Ignoro como tenha sido a reacção do público de então mas por um exercício de lógica desconfio que não deve ter sido muito entusiasta.
Revela também como o pulsar subterrâneo pode levar a consequências imprevísiveis, crescendo no medo, da não aceitação geral de comportamentos considerados vergonhosos e repulsivos.
A obsessão é uma das mais evidentes e a falta de referências outra. Tudo à volta se abre se jogarmos de acordo com o que é normal (seja lá isso o que for), é tudo mais suave e menos complicado.
Catalogar este filme como objecto Gay é perder de vista o essencial, que é claro e iluminado, sendo sombrio, como na obra do Caravaggio ou se quiserem e puderem na poesia do Eugénio de Andrade.
Ninguém diz de um filme rapaz meets girl que se trata de um fime heterosexual!
Um grande filme do principio ao fim em todos os detalhes.
P.S.- Satisfeito Pruz.?

- Mohamed percebo que tenhas gostado da figura mas o postal, para além de nem ser bonito, põe-me em embaraços aqui na casa. Sei lá eu se o porteiro sabe quem é o deus Pan.
- Desculpa, nunca tinha visto nada assim num museu. Devia ter posto num envelope. Ainda vão pensar que têm em casa um adorador de Satanás, desculpa.
Mohamed tinha visto esta estátua num museu em Nápoles numa sala conhecida como “La camera secreta”. Este nome deriva do facto de ter estado encerrada, ocultada ao público por muito tempo por se considerar obsceno, pornográfico mesmo, o seu conteúdo.
Recentemente há coisa de três anos a sala foi finalmente aberta. Todo o espólio foi descoberto na vizinha cidade arqueológica destruída pelo Vesúvio, Pompeia.
Numa sociedade onde gangrena o peso tentacular do Vaticano este tipo de artefactos só podiam ter vindo de uma cidade irmã de Sodoma e Gomorra. Caso ainda houvessem dúvidas morais sobre Pompeia, ali estava o vulcão a avisar-nos sobre o que acontece aos impuros.
Frescos provenientes da Villa dei Misteri explicam, quase como um manua,l a nobre arte de copular. A casa era um bordel onde se educavam os mancebos Pompeianos. Se calhar “Pompino”, calão italiano que significa... cof... cof cof... broche, que afinal deriva de Pompeia. Os broches italianos vieram de lá.
Figurinhas, amuletos de boa sorte, que acabam inevitavelmente num falo desproporcionado, também se podem admirar no quarto secreto. Havia uma que representava um gladiador a lutar com a espada contra o seu mais que tudo que na ponta em vez de glande exibia uma cabeça de leão.
Contra a obsessão, lutar lutar.
Uma outra representava uma casa com pátio, uma árvore e um muro. Encostado ao muro um homenzinho com, sim, com isso, enorme, que dava a volta ao muro e subia pela árvore como uma serpente. A guia explicava que era uma espécie de aviso aos ladrões...
Tratava-se nada menos do Deus que estava sempre em pé, o Priapo.
Várias peças em terracota, argila em forma de seios, ovários e (já me está a faltar o vocabulário) coisos que eram o equivalente aos actuais votos católicos em cera.
Pensavam muito em fertilidade estes romanos.
Dispostas pelo chão e penduradas nas paredes grandes e grossas he he he pilas que segundo a guia faziam parte fundamental na decoração exterior de um Pompeiano que se prezasse. Aquilo pelos vistos dava sorte e protegia.
Basicamente servia as mesmas funções dos Santinhos, crucifixos, Budas ou Kalis que proliferam por aí e por aqui afora.
Finalmente ali estava a estátua que deu origem a este texto e ao diálogo inicial.
É que Mohamed no fim da visita comprou alguns postais entre os quais três que mostravam a peça.
Enviou um para o irmão que vive no campo e outro para um amigo padre que vivia em Roma, numa espécie de Motel de padres, La Casa Internazionale del Clero, sita na via della Scroffa ou, traduzindo, na rua da grande Porca!!!
Também é nesta rua que está se situa a sede de um partido de extrema direita, a Allianza Nazionale. Estes tipos escolhem sempre nomes parecidos, não há que enganar.
Estou consciente que acabei o texto um coche à papo seco mas não me vem mais nada.

Suddenly Last Summer de J.L.Mankeiewicz -1959
Esta fotografia foi tirada do site oficial da Magnum, para consultar basta apenas um endereço de email e uma password. Para mais imagens escrevam no “search” o título do filme.
Sobre o filme, gosto tanto dele que nem consigo dizer nada! ... Ou então já estou aqui há muitas horas sentado em frente ao computador a coleccionar imagens.
Percebo-te tanto que até me dói. Sai-me da cabeça.
Estar contigo é um exercício constante de fé, tenho que optar que confio, que acredito em ti, ou pelo menos que me queres bem.
Não consigo perceber bem porque me falta o ar quando estou ao teu lado, nunca dás parte fraca, argumentas como o diabo e não te esqueces de nada. Incomoda-me sentir que tens sempre razão.
Arrumas o assunto com eficiência num gélido e calmo, sempre calmo “está bem.”
Porque tens que te levar sempre tão a sério?
Esquece-te de vez em quando das deixas, faz-me sentir que também te enganas, que ris e tens brancas.
Envolveste-me de presentes, de afectos e confissões que agora me esmagam.
Exiges prontidão, rapidez, pontualidade nos gestos, insinuando, sugerindo o que devo ou não fazer. Eu quero fazer porque te estimo e quero. Não porque te estou grato.
Eu já compreendi que na aldeia dos strumpfes amarelos de olhos em bico tudo se acaba por misturar. Encontramo-nos todos nos mesmos sítios, patrões com empregados, amigos, amores e desamores. Já compreendi que devemos apenas falar do possível, que devemos saber calar.
Aprender a forma amarela de se ser e dizer.
Quando se quer um café pergunta-se: “Não queres um café?”
Se não se pode: “Que é que achas de fazermos isso amanhã?”
Eu não aguento mais esta treta!
Quero que percas a seriedade, a gravidade de vez em quando, ao menos comigo.
Eu gosto mesmo de ti foda-se.
És um animal raro que entendeu perfeitamente as regras do jogo aqui da aldeia, que não se permite perder de vista os tiques da personagem que criou para poder seguir e ir para a frente.
Não te dei eu nada?
Ou na tua cabeça há uma medida para o que se dá, uma comparação de peso?
Quero acreditar que não mas então porque é que me passam pela cabeça estas merdas?
Em desabafando contigo estas coisas respondes apenas com um silêncio e uma pergunta:
“Não sabes? Devias saber, o que é que achas?”
Expiras o fumo do cigarro e olhas-me sem constrangimentos como se me estudasses. Sedutora, felina.
Não sei...
Tu queixas-te que as pessoas têm sempre a impressão que as manipulas.
Queria ser teu amigo longe daqui ,desta peçonha quente e abafada.
P.S.- Já estou paranóico de certeza, deve ser isso mas ao entrar aqui no Motel e dar de caras com o texto do Controlado parece que de algum modo me senti eu o Arlequim .
Estou a imaginar coisas, que também és cliente do Motel, que passas por gajo.
Não pode ser.
Tanta sofisticação e requinte numa só flor chega a ser obsceno, diabólico mesmo.
SAI-ME DA CABEÇA!
Ainda a propósito de moralidades, vi ontem um filme sul americano sobre o Che Guevara,"The Motorcycle Diaries".
Um filme bem intencionado sobre um período do revolucionário enquanto jovem, onde cada cena nos confirma que o homem era mesmo um grande Homem. Cena após cena sempre a mesma cantilena: Ali está a integridade, ali está a sinceridade, ali a nobreza.
Parecia a biografia oficial da Madre Teresa de Calcutá.
Tentava abstrair-me do que sabia do Che e perceber se o que tinha à frente se tratava de um bom filme ou não, sem referências.
Na minha modesta opinião cheguei à conclusão que o filme não passa de uma bela bosta bem perfumadinha e embrulhada.
O realizador tinha bons ovos, farinha boa, um bom tacho e fermento mas não conseguiu fazer o bolo.
E aqui acontecem as minhas dúvídas sobre a validade do que escrevo a propósito de um comentário da Assussora Remota em que dizia “querer-me abanar para fazer cair a redoma moral que me envolvia.”
Que tem a ver de algum modo com aquilo que quero ou não fazer da vida, com a urgência ou não do que tento
Sempre tive dificuldade em me decidir no ofício da escrita por achar que esta só me traria mais inquietações e vícios. De resto, como em tudo, vou saltando de galho em galho consciente que o próximo passo pode estar podre e cair dali abaixo.
Agradecido pelo muito que certas palavras me deram não me decido, procuro consolar-me ou esquecer embebedando-me de misticismo para não ter que me comparar.
Isto não é um pedido de palavras de encorajamento! Sou eu a pensar alto aqui onde niguém nos ouve.
Compreendo o trabalho, a dedicação de um criador de vinhos amador que com um brilhosinho nos olhos caninos me dá a provar o resultado final: Um vinho sem intensidade, amargo e de fraca qualidade.
E ele explica-me tudo o que envolveu a criação daquele vinho, a dificuldade, o afinco. Sim, a dedicação.
Mas nao é um bom vinho!
Chega de striptease, não vos faço babar mais com as minhas carnes rijas.
Ouvi há alguns dias atrás que quem casa não pensa e que quem pensa não casa.
Expressão ambígua que tanto pode consolar, servir de justificação, como atacar ou deprimir. Uma frase multi-usos à mercê dos caprichos e razões do freguês.
Contudo acho que aquela frase é datada, pertence a uma geração que agora tem filhos e netos.
Para os filhos ou netos a frase pode causar algum efeito mas logo à primeira impressão substitui-se a inquietude pelo que esta não diz e revela.
Nunca me convenceram aqueles discursos em que se diz que naqueles tempos é que era bom.
Nos tempos dos Hard Men/Barbas Ruivas a mulher era uma tolinha, se engravidava antes do casamento era uma devassa. Estes Hard Men contam aos filhos machos como tantas vezes lhes aconteceu terem que arranjar dinheiro para um aborto. Foi vê-los depois tomar posições fundamentalistas contra a sua liberalização, recentemente.
Como se fosse uma festa ir abortar!
Os Hard Men casaram-se e alguns tiveram algumas amantes. As mulheres dos Hard Men um dia já tarde tiveram a ousadia de ter também um amante.
Os Hard Men passaram-se, o que é que a família ia dizer, que num homem a coisa é normal mas agora a mulher?
Podemos sempre sublimar a ausência de qualquer coisa mas ao fim de um certo tempo não se aguenta mais tanta sublimação.
Nao há duches que nos valham!
Nos arquivos labirínticos da memória vem-me uma frase que vi ou li algures no tempo, no cinema ou num livro, que tem qualquer coisa a ver com o pensar versus casar: "Que te aconteça exactamente aquilo que desejas!"
Hoje em dia temos cada vez menos desculpas para não saber, tornou-se tudo tão relativo que bloqueamos. A rapidez comeu-nos a lentidão necessária a uma decisão, vamos reagindo sem realmente agir.
Sugiro à Assussora Remota que dê uma vista de olhos a um filme do Rosselini com a Ingrid Bergman onde encontrará dezenas de machos puros e duros sem hesitações: STROMBOLI.
Isto de amar, desejar ou querer nunca foi pêra doce. Testemunho disto é o incêndio violento que aconteceu entre o realizador italiano e a actriz do filme.
Nao é por acaso que tudo se passa à beira de um vulcão, que dá o nome ao filme.
Portanto atire-se de cabeça lá para dentro com certezas e cheia de dúvidas e esqueça-se de todos os vulcões que porventura já conheceu ou viu.
Obrigado por se ter lembrado de mim. Darei o recado aos meus irmãos muçulmanos mas depois nao se queixe. Eles volta e meia têm a mania de enterrar vivas, chicotear, lapidar algumas mulheres que se calhar sonham com lugares onde os homens não são tão Hard.
“Com a neblina do céu sobre o arvoredo
Sonha-se eterno o que termina cedo”
[Byron]
«The early Christians rejected most anything Roman, including the value of cleanliness. They considered it unsaintly to be clean, sinful to display material wealth. "All is vanity," stated an early Christian writer. St. Benedict pronounced that "to those that are well, and especially for the young, bathing shall seldom be permitted." A 4th-century pilgrim to Jerusalem would brag that she had not washed her face for 18 years so as "not to disturb the holy water" used at her baptism.
By the Middle Ages, the "hot houses" or "stews" of the Roman baths carried the stigma of debauchery and wild parties. During the reign of Richard the Lionhearted, the little rooms or "bordellos" of the baths became synonymous with brothels.»
in The History of Plumbing
Byron aos 19 anos (1807) iniciou o seu Grand Tour que incluiu Portugal. O poema que inicia este texto foi escrito a pensar em Sintra onde pernoitou num hotel que ainda hoje existe e que até há bem pouco tempo estava para ali abandonado.
Foi recuperado pelas mãos e visão de um casal de ingleses (D.Lawrence?). Para os interessados fica perto da Quinta da Regaleira. Mas o que é que Byron tem a ver com sanitas e hábitos de limpeza além do óbvio?
Byron disse de Sintra ser um paraíso na terra deixado aos porcos, os portugueses.
A redescoberta da higiene pela água,os banhos e a invenção da sanita dá-se no sec.XVIII em Inglaterra.
Para um inglês nascido numa altura em que tomar banho era já um hábito banal deve ter sido dificil lidar com a profusão de cheiros e gorduras várias que empastavam os rostos e corpos destes nossos antepassados.
É que em Portugal ainda não se tinham criado estes hábitos. Isto não passa de uma suposição que a preguiça me impede de confirmar mas ao atender que o poeta também passou pela Grécia e por Espanha não é de excluir que os motivos de tal antipatia e nojo pelos lusitanos nao fossem só uma questão de cheiro.
Seguindo esta hipótese meti-me pelo Google adentro num Tour sans Grand e cheguei ao site acima citado.
Que o Cristianismo empastou muita coisa já de longe lhe sentia o cheiro mas a limpeza?
Seja como for todas as religiões têm um início e uma causa ou várias. Uma religião como a romana que favorecia os ricos esquecendo-se dos pobres e dos excluídos (a maioria) é claro que só podia vingar. É a distância no tempo e no espaço que nos faz ver como bolhinhas simpáticas todas as outras que ficaram para trás ou que estão longe fisicamente.
Vi em Roma uma exposição de arte sacra dos primeiros cristãos. Marketing puro. Se as obras não tivessem uma legenda o visitante julgaria tratar-se de peças da Roma clássica. Cristos e apóstolos como atletas ou deuses longe ainda dos esgares de sofrimento que com o passar do tempo se foram aperfeiçoando.
Isto servia de isco aos ainda nao convertidos.
Se sou ateu? Nao, nao sou.
«Trazia consigo a graça
das fontes quando anoitece
Era o corpo como um rio
em sereno desafio
com as margens quando desce.
Andava como quem passa
Sem ter tempo de parar.
Ervas nasciam dos passos
cresciam troncos dos braços
quando os erguia no ar.
Sorria como quem dança
E desfolhava ao dançar
o corpo, que lhe tremia
num ritmo que ele sabia
que os deuses devem usar.
E seguia o seu caminho,
porque era um deus que passava.
Alheio a tudo o que via,
Enleado na melodia
duma flauta que tocava.
[GREEN GOD - Eugénio de Andrade]
Este poema reencontrei-o no suplemento Mil Folhas do jornal Público de 26 de Junho último, ontem. Quem puder ou quiser que tente com urgência dar uma vista de olhos a este número do Público. Tantos e bons textos a propósito do Eugénio de Andrade.
Nunca percebi porque é que só nos dias que se seguem à morte de um poeta é que acontecem textos raros nos jornais. Estou-me a lembrar da morte da Sophia de Mello Breyner por exemplo.
Há palavras que, se quisermos, nos resgatam do nojo de alguns dias.
Experimentem dizer alguns poemas em voz alta.
Vi uma vez por acaso, há acasos assim, um filme dos anos 50/40 (?) sobre um rapaz que acordou com os cabelos verdes. Não me lembro do título mas talvez seja The Green Boy.
A acção passa-se numa aldeola que às páginas tantas começa a formar um círculo de escárnio e desconfiança à volta do rapaz.
Segue-se o lobby dos comerciantes; que receosos de que aqueles cabelos verdes possam ser entendidos como algum efeito secundário dos géneros alimentares que vendem, tentam convencer the green boy a cortar o cabelo.
De forma simples o realizador conseguiu dar a volta a um tema provavelmente dificil de retratar na América daquela época, o da diferença. O filme é de uma simplicidade nada fácil alla ovo de Colombo.
Hoje em dia não existe censura na indústria cinematográfica (Não?) americana. Mostra-se e diz-se tudo embrulhadinho numa quantidade hipnótica de efeitos especiais.
É dos paises em vias de desenvolvimento ou mesmo do terceiro mundo que ainda vai subsistindo a forma limpa e lenta de contar o mundo e o sonho. Seja da escassez de recursos, seja dos regimes totalitaristas, é destas paragens que nos chega ainda perceptível a voz da terra.
A carne pede verbos novos, o estrangeiro menos pátria, a árvore silêncio e a noite um pouco mais de breu.
Na China existem uns passaportes para o Inferno, põe-se lá o nome e queima-se em seguida. Lembrar-me-ia de queimar o passaporte para o Inferno ficando assim impedido de lá entrar mas não acredito Nele e muito menos em mais formalidades depois de morto.
Recordava-se de florestas a perder de vista à beira mar onde se perdia, cagava de rabo ao léu, cantava e dançava como um doido.
Aquele encanto breve onde perdia a identidade e a idade em direcção a um mundo onde as folhas das árvores contam histórias, as cascatas de água revigoram nas nuvens os deuses que amava.
De noite mil pirilampos embriagavam-se sem coreografia, sem hierarquia e eu com eles.
O flautista mágico para se vingar da aldeola que se recusava pagar o prometido raptou as crianças todas que o seguiram encantadas com o som da sua flauta. Uma ficou para trás, coxeava e neste coxear salvou-se.
Toca a empurrar a pedra montanha acima mais uma vez, horas extraordinárias para sempre.
Abro a televisão num documentário que na forma ilustra exemplarmente as qualidades necessárias para se viver hoje em dia. American dream on the head, here and everywhere!
O programa chama-se "Built for the Kill"e recorrendo-se de uma parafernália de gráficos e imagens hi-tec exalta a rapidez, o disfarce, as mandíbulas, o engenho, a aerodinâmica e o engenho de algumas espécies animais.
De cada vez que por acaso lhe ponho os olhos em cima fico angustiado..
Os deuses são seres emotivos, sabem que o seu domínio entre nós permanece por se manterem ocultos.
Se há coisa que um deus mais detesta até a náusea é a identidade como a Medusa uma mulher excêntrica e susceptível que em vez de cabelos exibia serpentes e tinha por habito transformar desconhecidos em estátuas.
É preciso alguma flexibilidade para lidar com a verdade dos outros. O rosto por detrás da máscara sem corantes nem conservantes.
A nossa última esperança resiste no desconhecido, o modo como nos libertamos em lugares onde ninguém nos conhece.
Nada de novo portanto apenas salmonete e ramela.
As uvas já foram pisadas e as abelhas dormem. Daqui a nada o vinho unir-se-á ao mel .
"Todas as comparações são odiosas"
in D.Quixote de Cervantes
Não sei, não quero saber. E quero saber.
A minha profissão é maior que a tua, a minha mãe é mais louca que a tua, a minha família dava um livro, o meu país é único, ninguém tem uma história de amor como a minha. Tu nunca poderás compreender o que eu vejo (porque viajo, porque leio, porque tenho uma escolha de vida, porque porque porquê?). O meu partido é que tem razão, a minha razão é o que tu querias mais. São amigos de verdade os meus amigos, o meu nariz é maior que ao teu, em mim podes confiar, sou franco, está-me nos genes. Aqueles gajos sao uns promíscuos, aqueles são tão santinhos que até enjoam. Ao menos sou pobre mas honradinho que os ricos são todos uns aldrabões e safam-se sempre. São tão giros os pobrezinhos, é fantástico como vivem com tão pouco, esperam sempre qualquer coisa em troca. Aqui na minha terra não há disso, coitadinhos está-lhes nos genes, ai os genes da Teresa Guilherme, o meu jornal não se compara ao teu e e e e e e ee eeeeeeeeezzzzzzzzzzzz......
O Dantas não está morto, novos pim pam puns são precisos à escala da aldeia global, é certo. Já agora alguém me pode explicar porque é que se insiste no conceito de aldeia?
Há alguns resorts e muitas aldeias.
Em comum a mesma patologia, para o bem e para o mal: Surdez!
Serão todos os alemães Goethes ou ao menos partilhem dos seus ideais?
E os italianos Micaelangelos?
Os russos Dostoievskys?
Os franceses Rimbauds?
Os portugueses Camões?
Os ingleses Sheaskspeares ou Byrons?
Os brazileiros Carlos Drummonds?
Os chineses Li Bais?
Os judeus Cristos?
Os argentinos Borges?
Os chilenos Nerudas?
Os gregos Homeros?
Os AMERICANOS Walt Whitmans?
Os marroquinos Averrois?
Os iraquianos Omar kayam?
e por aí a fora...
Todos enchem as pátrias bocarras, é nosso! Vivam as putas que são putas pois são santas nuas, é das santas que eu desconfio, verdadeiras putas vestidas e tão castas como impuras (e a impureza aqui não tem nada a ver com sexo...)
Inocência será ser, não e não, não é saber, não é não saber
«Eu costumo dizer, por piada, que Portugal não se salva enquanto todos os portugueses nao forem obrigados, por lei, a fazer um estágio de alguns anos no estrangeiro, mas proibidos de se encontrarem uns com os outros. Esta proibição é da maior importância, para impedi-los de assarem colectivamente sardinhas, cozerem bacalhau com fervor nacionalista, ou trocarem sofregamente as últimas novidades do Chiado. Viverem no estrangeiro, ãao como emigrantes em “colónias”, agarrados uns aos outros, mas no meio do estrangeiro, aprendendo a língua e integrando-se nos costumes o suficiente para saberem que ninguém sabe da existência deles - o que, com ser uma injustiça, é uma tremenda verdade. De resto, a mais triste e a maior lição é descobrir-se que, para defender Portugal, é preciso saber muito mais do que os portugueses sabem, e que quase todos os portugueses, no estrangeiro, passam pela vergonha cultural de os lusófilos saberem de Portugal, e com outra seriedade, muito mais que eles.
(...)me abriu os olhos para algumas duras realidades do mundo contemporâneo, cuja viso raramente encontro mesmo nas entrelinhas das publicações portuguesas. Aprendi por exemplo, que a crueldade e a injustiça são terrivelmente universais, e que todas as formas de governo são extremamente imperfeitas, e que a mesma mesquinhez e a mesma estupidez subsistem em toda a parte. Isto não me tornou, de modo algum, céptico e conformista, em relação às minhas ideias de sempre , mas deu-me uma sabedoria e uma amarga prudência nas generalizações e nas particularizações.»
Jorge de Sena
As estrelas que brilham no céu estão mortas, já não existem diz-nos a ciência.
Gosto destes fantasmas, de acreditar nestes cadáveres luminosos.
Testemunhos de algo que já não é, que acabou.
Como as palavras de um livro ou destas estrelas novas que são os blogs.
Estas fazem-nos sonhar, acreditar, aquelas violam-nos, revolvem-nos as entranhas.
Algumas distraem e adormecem, outras metem medo e fazem-nos matar.
Estrelas maiores, estrelas menores, estrelas inseguras, nervosas, arrebatadas, corajosas, ingénuas, cínicas, brejeiras, puras, impuras, belas e feias.
As estrelas não pedem nomes, hierarquias. São estrelas e isso basta-lhes.
São Tomás de Aquino dizia “que a palavra mata, o espírito liberta” e isto pressente-se na obra de Carl Dreyer para quem já não suporta tanto ganido e aspira ao silêncio.
E há tantos silêncios como estrelas. Alguns são insuportáveis, noutros quase que acreditamos em qualquer coisa.
Aquelas palavras raras onde o que não se diz acaba por revelar mais do que se está a dizer. Esta simplicidade que não é simples, envolve alguma persistência vontade e trabalho.
Gaguejo, tremo, grito, desespero. Experimento e não alcanço, inquietude e descanso.
Mohamed de ressaca do tribunal onde foi fazer de testemunha e passou o dia todo à espera da sua vez.
“Juro pela minha honra dizer a verdade e apenas a verdade”- disse o que sabia que era pouco e saiu de lá desconfortável com a sensação que o que disse ia prejudicar alguém, que estava ali a ouvir e pelo qual até tinha alguma simpatia.
O que é que isto tem a ver com as estrelas e as palavras?
Apenas o efeito que não morre com a nossa morte, fica ali a brilhar, a pairar, que eventualmente acaba por vir ter connosco. Que contribuímos diariamente para o bem e para o mal. A quantidade do ser e do não ser. O dilema de Hamlet, quotidianamente sendo que o Ser será tudo aquilo que mora no maravilhoso reino debaixo da língua.
Quando recebo uma carta a coisa mais imediata que me chega e ouço é o gesto que está ali nas minhas mãos. Tenha erros ou não, venha pé ou de foguetão.
Gosto do mosaico de luzes, estrelas do Motel.
As estrelas que brilham no céu estão mortas...
Miriam, a mulher de Mohamed, encontrou a lamparina mas não sabia ler. Resolveu esfregá-la bem para a vender no bazar. Não sabia o que iria fazer sem o marido e com dois filhos ainda pequenos, não percebia porque é que ele partira assim de repente.
O mundo era dos homens que faziam o que lhes apetecia quando lhes apetecia. O pai decidira-lhe o casamento com aquele homem que nunca tinha visto, trocara-a por dois camelos, um tapete, uma saca de milho e duas cabras.
Esfregava com força enquanto ia pensando nestas coisas. Teria falhado, não era boa mulher?
Lembrava-se de como era cortejada, de como lhe elogiavam os olhos e a dança do ventre. Sabia cardar a lã, ordenhar, cozinhar, tingir os tecidos, tecer tapetes, remendar roupa. Tinha-lhe dado dois filhos, esmerava-se na limpeza da casa, tinha sempre o chá quente e tabaco à sua espera.
Seria feia, não lhe agradava? Não percebia.
Desde que casara nunca mais dançara para ninguém, o marido não apreciava. Estava sempre sério, sempre a pensar no rebanho e a ir às termas na cidade.
Parou de limpar a lamparina e foi espreitar os filhos, a ver se já estavam a dormir.
Dormiam o sono dos justos, deu-lhes um beijo e saiu para a rua com a lamparina.
Não sentia falta de Mohamed mas lembrava-se que gostava quando ele lhe tocava nos seios, nas ancas, se punha sobre ela.
Tinha saudades daquilo embora não soubesse falar dessas coisas, tinha vergonha.
O que é que iria fazer, pensava quando viu que alguém se aproximava cambaleante.
Ficou apreensiva com aquela aparição, a sua casa ficava nos campos longe da cidade e não era costume ter visitas áquela hora da noite. Seria o marido?
Entrou em casa para ir buscar um punhal e escondeu-o na saia. Pôs óleo na lamparina, acendeu-a e saiu lá para fora outra vez. O estranho não estava sozinho, vinham em dois e estavam ambos embriagados. Não lhe pareceram perigosos, riam e cantavam como ela já não via há algum tempo e eram bonitos. Miriam devia ser apenas alguns anos mais velha que eles. Envergonhou-se dos pensamentos que lhe queimavam na cabeça.
Quertzal, a serpente emplumada tinha um fraquinho por maçãs vermelhas.
Vivia rodeada de ciprestes, figueiras, oliveiras, videiras, amendoeiras, chorões, bungavílias, carvalhos, romanzeiras, laranjeiras, dragoeiros, nogueiras e pinheiros.
Rosas, jasmim, incensos, heras, papoilas, margaridas, musgos, bambús, geribéras, tulipas. Gengibre, morangueiros, alfazemas, amoreiras, girassóis , azevinho, lírios. Nenúfares, relva e sebes várias.
Por entre toda esta vegetação, fontes, bicas e fontanários, jogos de água, um pequeno lago e uma cascata.
Aqui e além estátuas magnificamente trabalhadas em mármore misturam-se harmoniosamente no verde e na água. Algumas aves raras também foram para ali levadas.
Quetzal vivia fechada no jardim proibido do rei e da rainha, ninguém podia ali entrar senão eles.
Era o tesouro mais bem guardado de Adão e Eva, podia transformar-se em homem ou mulher quando lhe apetecia ou lhe pediam e sabia contar histórias. Traziam-lhe cestas com maçãs, no Jardim não havia macieiras.
Ela do mundo exterior só sabia o que o casal lhe contava. Diziam-lhe ser feio e pequeno o mundo lá fora, que as pessoas andavam sempre vestidas e mal humoradas, haviam animais ferozes, maus cheiros e doenças, que se a encontrassem iriam persegui-la para a comer. Não sabia o que eram reis.
Não percebia como era possível que as maçãs de que tanto gostava pudessem vir de um mundo assim.
No engano vivia feliz e amada por aqueles dois bons amigos que tanto prazer lhe davam. Na sua ausência compunha histórias usando como elementos tudo aquilo que conhecia e rodeava, o Jardim.
Mais do que as palavras era o modo como as dizia o encanto de Quetzal.
“Quem suspira pela Primavera não pode olhar para a nogueira.”
Todos os poemas, provérbios e máximas vieram de Quetzal que era cobra e era pássaro, homem e mulher.
Não envelhecia, ao contrário dos amigos que foram deixando de aparecer. As maçãs começaram a chegar pelas mãos de dois rapazes que se apresentaram como seus filhos, Caím e Abel.
Tiveram que lhe explicar o que eram filhos recorrendo-se das aves que por ali nidificavam.
Davam-se mal estes irmãos, tinham ciúmes um do outro. Quetzal tinha saudades dos amigos.
As histórias que inventava só Abel as escutava, Caím parecia sempre impaciente.
Vinham sempre vestidos e só se despiam quando um dos dois não estava.
Abel tentou convencê-la a ir-se embora com ele mas não conseguiu, estava assustada. Caím trouxe-lhe uma túnica de seda cor de laranja. Só a deveria despir quando estivesse a sós com um dos irmãos, ameaçou-a que se não o fizesse as maçãs acabavam.
Confusa e entristecida transformou-se num rapaz como eles para ver se alguma coisa mudava.
Tiveram uma reação violenta e quase a espancaram, daqui em diante só podes ser mulher, ordenaram.
Num acesso de fúria Caím matou Abel por causa da serpente que era pássaro, homem e mulher.
Quando os muros do jardim caíram Quetzal desapareceu e nunca mais voltou.
Foi esta a história que os amigos, Achmed e Gilgamesh, contaram a Miriam mulher de Mohamed.
News :: Environment : In The Courts : Political Repression : Protest, Resistance & Direct Action
NYC Files Suit to Censor TIME'S UP! and End Critical Mass
by NYC IMC (No verified email address) 24 Mar 2005
New York City filed a lawsuit this week, seeking to prevent the TIME'S UP! nonprofit environmental group from promoting or advertising events that the city alleges to be illegal. The lawsuit also states that TIME'S UP! and the general public cannot participate in riding or gathering at the Critical Mass bike ride. It claims that any event whatsoever with 20 or more persons require a permit.
(from the Newswire): "On Wednesday an injunction was filed against the group as well as specific individuals Bill Dipaola, Brandon Neubauer, Leah Rorvig, and Matthew Roth. If the injunction is granted by the state court it will be illegal for any of the named individuals, members of Time’s Up, or "all those acting in concert with" them to promote Critical Mass. Lawyers for the group plan to file a response asking that the city’s request for an injunction be denied.
If Time’s Up’s lawyers fail to halt the injunction, those named would be barred from speaking to the media about Critical Mass or even distribute flyers with the rides time and date. Those who violate the order risk "contempt of court" charges and would be subject to punishment under state law of two possible sentences: a fine of up to $1,000 or a jail sentence of up to thirty or both. “This is really a freedom of speech issue” says Bill Dipaola. "The city is telling us what we are allowed to say and where we are allowed to assemble." [Read More]
TIME'S UP! states that this case is ridiculous, selective enforcement. Everyday there are hundreds of events that goes on with more than 20 people without a permit. Furthermore, we advertise hundreds of events each year promoting sustainable environmental solutions. Some of the events we organize and others we are just passing along the word. Our right to do so is protected under the First Amendment.
We are hoping for a friendly outcome that would benefit the people of NYC and we are actively seeking funds to defend the right to assemble and the right to free speech, without a permit.
Still We Ride!
See also:
TIMES UP!
CRITICAL MASS
São as árvores
antenas da terra funda.
Tanto tempo, tanta terra,
tantra
tanta coisa, tanto coiso e bunda!
O cheiro da árvore
a vida que vive adentro
a vida que morreu afora
fecunda
a ideia verde
a ideia nauseabunda!
A sensação que Deus
inventou o mundo por não saber o que fazer
sem contratos, sem claúsulas
sem medos, sem tactos
porque lhe apeteceu
das rosas aos chatos
das putas aos beatos
dos nobres aos lacaios
escarneceu amou e fodeu
às direitas e às esquerdas
Por Dezembros virados Maios
Nas veriticais, de gatas e aos lados
Mortes vidas fóras nadas
Foda Mãe madrinha fada
Ferida antiga Ferida amada
Óstia branca em cona dura
Enrrabada divina pura
Barros, argilas e estupores
Por ti em mim
Laranjas e limões
As armas e os brasões
Espetadas nos colhões
Para lá da Trapobana
Ar condicionado e uma cabana
Água de coco e uma banana
Para sempre
Sem ínicio nem fim
Gira volta e toca a virar
Todos os patinhos sabem bem nadar
Cabeça para cima
Rabinho para o ar.
P.S. - Bem sei que não sou o Eugénio de Andrade mas isto é uma homenagem aqui do Mohamed.

No sul de Itália na Sicília existe um hotel que se chama "Atelier Sul Mare”, propriedade de um esteta tresloucado, António Presti. Bem haja!
Situa-se numa pequena baía à beira mar onde se ergue uma aldeia medieval muito sossegada, Castel di Tusa.
António herdou a fortuna dos negócios que o pai tinha com a máfia. Não querendo continuar o ofício do pai resolveu ir a Gela, para os lados de Catania “parlare con il Male” e propôr a sua vida em honra de Santa Ágata, Santa padroeira de Gela.
Dedicaria a sua fortuna à busca da beleza, pela Arte em nome da Santa.
Com isto livrou-se de maneira engenhosa da herança intangível do pai. A Camorra não toca na Santa. Ou pelo menos foi isto o que ele me disse...
Nestes propósitos convidou vários artistas para que em nome da St. Ágata criassem velas únicas de dimensões gigantescas, efémeras velas a sublinhar o carácter efémero da arte.
O Atelier surge na continuação destes propósitos. Não há um quarto igual, cada um é obra de um artista. Eu dormia num ainda em construção, a Torre. Um quarto em forma de cilindro com uma enorme cama giratória e uma manivela que ao rodar abria o telhado.
O hall de entrada do hotel forrado a artigos de jornal sobre o hotel e sobre o dono denunciam um ego maior que as velas.
Funciona também como associaçao cultural o Atelier Sul Mare. Tem como objectivo elevar o nível cultural de uma região onde quase nada acontece e chega marcada pelo espectro da Máfia, dos favores que se vão fazendo em troca de outros favores, onde o silêncio é uma forma de vida. Quebrá-lo é regra geral perigoso.
Na altura em que lá estive acontecia uma exposição inspirada na Vénus de Boticelli. Uma das obras chamou-me a atenção na forma de uma pequena urna com cinzas: As cinzas de Vénus.
Uma noite convidou-me a mim mais dois jovens criadores para o seu quarto. Música misteriosa com sons de baleias, vinho e charros. À volta da cama quase do tamanho do quarto vários cilindros grossos de incenso para criar “la mura d’incenso”. Eu tive que sair que já não conseguia respirar. Ao reentrar para me despedir o fumo escorria das paredes como água. Eles riam. Voltei à Torre meio zonzo e a imaginar coisas...
Em Palermo impressiona a quantidade de agências funerárias e lojas de caixões e flores.
Um mercado sem frutas alla Famiglia Adams .
É comum em Catania levar o visitante, homem, a um bosque vizinho da cidade. Lá o mercado é outro e vende-se a pé, em roulotte ou em tenda.
Contou-me do seu projecto de convidar vários poetas para que numa noite os clientes encontrassem as meninas a falar de poesia com os poetas.
“E não tens medo que aconteça alguma coisa aos poetas?”
Respondeu-me no seu ar solene que só viriam os que quisessem.
Também às minhas constantes perguntas se podia trabalhar ali dizia:
- "Mohamed fa la domanda giusta e avrai la risposta giusta!"
E eu apesar da generosidade do homem continuava sem saber com que linhas me havia de coser.
O projecto acabou por ir para a frente mas não como tinha sido pensado. Em volta da Sicília corre um comboio antigo com compartimentos. Foi para lá que os poetas foram falar nas carruagens com os passageiros.
Acabo aqui fazendo votos que o Rivezoer nao me parta a cabeça por causa dos tils.
Nao se deitam connosco os poetas quando os escutamos ou ouvimos?
Vai, Estafermo, lança a bomba!
«João José da Costa Campos nasceu em Goa, Panjim em 1764. Professou na Ordem de Santo Agostinho, com o nome de religião de Frei João de Santa Catarina. Obteve o grau de Mestre e Doutor e foi missionar para a Arménia, onde casou, após ter solicitado ao Papa a autorização para passar ao estado laical, que lhe foi recusada. Rebelou-se abertamente contra Roma, publicando então alguns folhetos em português e em grego, contra o celibato dos sacerdotes. Foi expulso da Ordem de Santo Agostinho e abandonou o estado da Índia. Causou grande escândalo quer em Portugal quer na Índia, motivo por que foi coberta durante muitos anos, com crepes de luto, e pedra de armas da casa de seus pais.»
in "Famílias Macaenses" publicado pela Fundação Oriente
Uma história vem-me cair às mãos folheando por acaso um dos volumosos livros de genealogias de luso-descendentes. Este Frei João nascido em Goa aparece-me agora constantemente a reclamar que a sua história seja contada como um fantasma que só terá paz quando a justiça for feita.
Estes livros de famílias abrasonadas acabam por revelar mais pelo que omitem do que pelo que dizem.
Que naqueles tempos as famílias eram numerosas; este Frei João era o quarto de seis filhos e que a esperança de vida era muito inferior à dos dias de hoje. Basta ver as datas de nascimento e óbitos para constatar que viviam em média 40, 50 anos.
Outros tempos em que as decisões eram tomadas mais cedo e que ainda hoje persistem em lugares onde o direito ao tempo livre não foi conquistado. É ver no mundo socorrendo-se da estatística as regiões onde se morre mais e mais cedo. Sobrevivência é a palavra de ordem.
Crise dos 40 anos? Adolescência? Que era isso? Que é isso?
Ficamos também a saber que regra geral os primogénitos herdavam títulos e fortuna e que os mais novos entravam para a vida religiosa. Por vocação?...
Revelam também a parcialidade ou ênfase que se dá a alguns antepassados em detrimento de outros menos recomendáveis ou menos ilustres.
Reconheço o mérito aos autores destas genealogias que tão dedicadamente se enfiaram em bibliotecas por entre microfilmes e livros dispersos e pacientemente colaram as várias peças de um puzzle.
Normalmente, não obstante o trabalho, é gente sempre predisposta a puxar dos galões , neste caso brasões, dos seus ilustres antepassados. A qualidade humana não nos vem transmitida por passes de magia ou invocação através de um anel, vulgo cachucho.
A Arménia (controlo no mapa-múndi que tenho em casa) é hoje um país incrustado entre a Turquia , o Irão, a Geórgia e o Azerbeijão. A Índia onde nasceu Frei João não fica propriamente a um passo dali. Portugal também não. De facto olhando para a sua localização fica quase a meio caminho entre Ocidente e Oriente. Terá partido de Goa por mar até ao Golfo Pérsico e daí prosseguido viagem por terra em camelo atravessando o actual Irão até chegar à Arménia?
A missão na Arménia devia ser uma missão corajosa pois a maioria dos países envolventes é predominantemente muçulmana mesmo que a cartografia actual não corresponda exactamente à existente no Sec.XVIII.
Faz sentido o genocídio, se é que existe sentido, do povo arménio em meados dos inícios do séc.XX perpetuado pelos turcos: A Arménia é uma espécie de enclave cristão rodeado de países adoradores de Alá.
Nas planícies geladas da Anatólia, de onde convergem os actuais limites da Túrquia, Arménia e Irão, ergue-se imponente uma montanha sagrada, Ararat que tem sido identificada como o lugar onde descansam os restos da Arca do Noé bíblico, após as águas do Diluvio Universal terem descido.
Desde então é um lugar sagrado.
O mito hindu do dilúvio fala de uma montanha ao norte. Os gregos mencionam o monte Parnaso ou o Otris na Tessália. Porém a convicção que foi no monte Ararat que a Arca atracou está apoiada por duas tradições antiquíssimas:O Antigo Testamento e A Epopeia de Gilgamesh (mito sumério).
Foram estas as paisagens desde seguidor da ordem de Santo Agostinho, quase que o vejo tentado a subir ao Monte Ararat. Tarefa impossível, este monte não se situando entre os mais altos é considerado actualmente um dos mais inacessíveis da Terra.
Como é que seria a mulher que o fez perder a cabeça, a que é que se dedicou depois de ter sido expulso da ordem?
E o essencial ,o de ter ousado á época pedir autorização ao Papa para se poder casar e ao lhe ser recusado o pedido fazer publicar folhetos contra o celibato dos padres.
Tento imaginar os argumentos que usou nos seus folhetos em português e em grego. Existirão ainda em alguma estante esquecida do Vaticano?
Tendo sido descoberto ou não o que importa aqui é que este sacerdote anónimo do sec.XVIII foi à luta por aquilo em que acreditava. Sem vidas duplas, sem clandestinidade. Temos aqui um exemplo de integridade intelectual não obstante as circunstancias à sua volta serem tudo menos favoráveis.
Frei João talvez não tenha sido um bom católico mas nunca, estou certo, se esqueceu de Cristo, do exemplo. A sua força enquanto homem de fé tem origem nesta figura central da cristandade.
Deve ter atacado ao tempo dele o modo como facilmente se era um católico exímio, se vestia o hábito em detrimento do melhor que tinha a vertente cristã que é essencialmente amor.
Alguma intelectualidade esclarecida(?) persiste em esquecer-se que Cristo foi um revolucionário no seu tempo.
O fantasma impacienta-se, as minhas parcas palavras parcas sem memória nao o satisfazem.
Mohamed tem falta de livros onde possa descobrir mais informações úteis para a construção de um cenário credível que envolva a figura de Frei João de Santa Catarina.
Alguém aqui no Motel tem informações que me possa enviar?
Vosso Mohamed
“… é belo pensar neste teu profano e impensado amor por uma coisa que, por vezes, me parece irrecuperável, já extinta: a epistolografia. Há tantos meses que não me coloco perante o silêncio afectuoso do papel a desfiar, a dizer, a esconder, a seduzir, a assombrar, a esconder… As cartas pedem um tempo interior que tenho medo de haver perdido. Não me sinto capaz de confidências.E os desejos,o s meus, acho que as folhas das árvores, com a irregularidade cromática, as feridas da luz, os expressam melhor que nenhuma outra língua. Aos poucos, acumulam-se envelopes nas gavetas sem nenhum uso, os postais atravacam espaço, desaparecem na confusão selos bonitos que comprei. A vida adulta é isto? A vida é isto?
Tenho cerca de cem cartas de um grande amigo que está a morrer (e que ele me endereçou nos últimos anos). Antes de adoecer eu dei-lhe autorização para rasgar as minhas. As suas permanecem comigo sem saber do futuro. Às vezes choro abraçado a elas, como se elas fossem o mapa de lugares amados e perdidos.
Por isso, meu querido amigo, podes imaginar a minha comoção sempre que recebo as tuas cartas.
Elas chegam de uma vida límpida, distante.
Talvez seja inexacto mas penso em ti como em vozes de um daqueles pátios escolares que apenas habitamos na infância.”
Carta de um amigo
“O pensamento meridional consiste na ideia que o Sul não tenha só a aprender com o Norte, dos países ditos desenvolvidos, mas que também tenha qualquer coisa para ensinar e portanto que o seu destino não seja aquele de desaparecer para se tornar Norte, para se tornar como o resto do mundo. Creio que o Sul deve ser capaz de imitar mas também de saber reinvendicar uma medida crítica no que diz respeito a um mundo que construiu sobre a obsessão do lucro e da velocidade os seus parâmetros essenciais.
...
Cantar com a voz dos outros é uma falsidade. É preciso cantar com a própria voz e sobretudo reinvindicar alguns elementos que pertencem ao Sul. Eu,regra geral, dou um grande significado ao tema da lentidão. Não é verdade que o mundo é mais perfeito à medida que se torna mais rápido. Há algumas dimensães da experiência que só são possíveis na na lentidão, do amor à consciência. Pensar que tudo poder ser entendido, ser mais rápido e veloz, é uma ilusão que produz uma série de patologias.
Aqui está, o Sul pode-nos ajudar aa perceber as patologias que nascem de um modelo no qual o desenvolvimento e a razão não têm mais um critério de medida, tornaram-se desregulados, privados de possibilidade de governo.
...
Vivemos numa sociedade que pode ser comparada, sem nenhuma dificuldade, a uma máquina, a um automóvel perfeito com todas as comodidades lá dentro, do airbag, ao telefone, à música, ao mini-bar, aquilo que se quer é velocidade, sempre mais velocidade.
O pensamento meridional habitua-nos a pensar que uma sociedade na qual o lucro é a regra fundamental e o resto é apenas subordinado a este ciclo, não é uma sociedade sábia.”
in "Pensiero Meridiano" de Franco Cassano
Mohamed a fazer de conta que não deu pelo bordel.
Tudo fazia sentido, dos títulos dos jornais aos semáforos que se faziam verde à sua passagem. "Procura-se candidato", mostrou ao irmão que já começava a estranhar toda aquela conversa. ”Não estás a perceber? Não posso dizer mais”
O irmão perguntou-lhe se ele não andava a snifar qualquer coisa.
No triângulo formado pela Torre de Belém, pelos Jerónimos e por uma capela no alto do Restelo davam-se os últimos retoques no polémico novo Centro Cultural de Belém.
Os andaimes à volta da Torre e dos Jerónimos eram um convite, mais uma confirmação da existência de forças ocultas que o guiavam numa espécie de caça ao tesouro.
Subiu à torre, arrombou uma porta servindo-se de um casaco para amortecer o embate.
Algumas das salas tinham mangueiras e alguns fios eléctricos, que estavam lá para os trabalhos de limpeza do monumento. Desatou a cantar para ter forças, regou-se com a água das mangueiras, abriu as janelas e pôs fios eléctricos em todos os buracos do corpo. A electricidade estava desligada mas isto era mais um sinal que estava protegido, que era o eleito. Em baixo o vigilante corria doido, provavelmente espantado com aquela invasão num dos lugares mais improváveis da cidade. Resolveu descer pelos andaimes. Em volta da Torre alguns pares de casalinhos dentro dos carros assistiam ao espectáculo. Baixou-se, inspirando, e ao levantar-se abriu os braços e soltou um grito purificador.
A polícia chegou nesse momento. Ele estava sentado com os pés na água do lago em redor da Torre, calmo.
“Então porque é que fez isto?”, perguntou a mulher policia, ”Queria abrir as portas todas da Torre e pôr toda a gente a cantar!”
“Ai meu Deus...”, disse a policia.
“Sim!”
Levaram-no para a esquadra do Calvário. Durante este tempo de delirio religioso em que julgava ser o novo Cristo em versão Espirito Santo; em que não podia dizer quem era; até o nome das várias esquadras por onde pernoitou algumas vezes faziam sentido: Calvário,Belém, etc.
Não dormia, estava sempre em movimento e achava que toda a gente já sabia quem ele realmente era. Mas o reconhecimento da sua divina fugura tardava, as pessoas tinham ordens para não se aproximarem do eleito. Tudo isto e a sensação que toda a gente o queria comer, que o desejavam.
A família tinha medo dele quando ele batia â porta de casa.A mãe viu o filho pendurar-se na janela e a discursar suspenso no ar para a vizinhança.
Queria dar sangue, o seu sangue curava todas as doenças. Pôs-se a caminho do hospital da zona.”Estou aqui para dar sangue!” - O homem parecia estudá-lo e medir cada palavra que dizia.
Saiu por uns instantes e regressou com uma seringa cheia de líquido. O cordeiro de Deus teve um ataque de fúria. Estavam a enganá-lo. Tomou a decisão que o Pai esperava: ser a Fúria. Saiu em direcção a um jardim ali próximo. Conjurando pragas pelo caminho, virou-se para uma bébé dentro do carrinho, deixando a mãe aparvalhada: "Dorme meu bebezinho que daqui a nada tudo isto vai começar a arder."
"Mosquitos piquem, abelhas piquem, cães mordam." - Flagelava-se com urtigas como uma espécie de voodo em que ele era a bonequinha onde se espetam os alfinetes.
"Querem espectáculo? Então vão tê-lo" - O comboio entrara em andamento e ele nos carris na sua direcção. Em vão apitou. O eleito nao parava. Começou a travar.
Veio um carro da policia e 4 agentes. Ao tentarem agarrá-lo começou a luta.
“Vocês vao arder todos ,todos!”
Bem desta vez nao escrevi sobre mitos...
“Sta fermo” - do italiano, em português significa "está quieto, pára!"
É uma inclinação minha! Os mitos.
Acredito haver apenas uma história, a forma é que pode mudar mas é sempre a mesma coisa.
Um bom exercício é ver um filme numa língua que não percebemos sem legendas. Acabamos por perceber o essencial. Aquele é o pai de certeza, ela gosta dele, ele tá na merda, o mais velho tem medo, estão a enganá-la e por aí afora.
Cronos devorava os filhos vivos por acreditar numa profecia que um dos seus filhos iria destroná-lo. A Mãe troca um deles por uma pedra. O pai nao dá pelo engano.
Jupíter em crescendo corta os tomates ao pai. Do sangue de Cronos nascem as Fúrias, a vingança. O filho destrona o pai faz com que este vomite os irmãos todos. Forma uma nova família de deuses, uma nova ordem. Nada de novo portanto, o conflito de gerações desde sempre. Mas a ilação mais gritante é a substância de que os pais e as mães são feitos.
Romeu e Julieta não existiram mas é uma história real, é uma situação que se repete e repetiu. Talvez se as Mães ao tempo é que detivessem a autoridade...
Marcar território não é uma actividade só dos animais. Os filhos crescem e o Pai começa a estrabuchar, a ser posto em causa.
Há mesmo um renomado psicólogo italiano que escreveu um livro/ensaio baseado nos mitos. Aldo Carotenuto se não me engano.
Destronar ou perceber os mitos pode-nos ajudar a decidir de uma vez por todas que tipo de Homens queremos ser.
Dizem-nos para não comermos com as mãos que não somos animais e logo avisam-nos que o mundo é uma selva. Decidam-se!
Lautreamont, escritor francês, escreveu um livro inquietante antes de se suicidar, "Os Cânticos de Maldoror".
Um desfilar de cenas violentas que acabam por ser um grito de revolta a uma sociedade que não o satisfaz, que não o convence. Transpira ódio este livro mas é um grande livro.
Já o famoso narigudo Cyrano de Bergerac escreveu um livrinho mais fraquinho, "Viagem à Lua", que pretendia dizer que havia mais vida, outro tipo de vida além dos tiques e traques da sociedade francesa do seu tempo.
Dispam-se as roupagens da época e chegamos a qualquer tempo. O domínio das pulsões básicas, medo, desejo, ódio, amor, fome, sede.
Não sei se fui muito claro com isto. Desculpem-me este cheiro nauseabundo a presunção.
Saiu-me assim pronto.
Foi uma maneira de pagar o meu quartinho aqui no Motel... thinking on Mila!
Entrou pelo Hamam (banho turco) adentro para esquecer Pamukala. Diz a lenda que as águas esbranquiçadas são o leite de cabras que ficaram por ordenhar.
Os museus Capitolinos em Roma na colina do Campidoglio (também conhecida como Monte Caprino) têm uma estátua de Artemisia de Hefestos, a deusa que seduziu o pastor fazendo-o abandonar o rebanho. Esta representação de Diana ou Hécate nao deixa indiferente quem passa. Descendo pelo pescoço até ao umbigo um gigantesco colar feito de mil mamilos. Um arqueólogo arriscou dizer que não se tratavam de mamilos mas sim de testículos de boi partindo de um culto a esta versão da deusa em que se sacrificavam bois.
Endimiao era o nome do rapaz que amado pela deusa adormeceu para sempre.
Na antiga Ática os sacerdotes reuniam-se à volta da sua árvore sagrada, o pinheiro, e por entre cimbalos, adufes, cânticos e danças no momento de extâse, castravam-se. Tinha lido isto num livro de botânica. Precisava de nomes de plantas e das histórias por detrás dos nomes. Escreveu uma carta a um padre amigo: Já viste como era dificil ser-se padre naqueles tempos?
Os pensamentos encadeavam-se como um mantra. Não podia voltar nunca mais às grandes cascatas de água quente de Pamukala. O vapor à sua volta aumentava. Quis sair. Fecharam-lhe a porta. Sufoca e arde cada vez mais.
Em vão pregou à Madonna del Melograno ou Nossa Senhora da Roma (fruto, nao me saiem os tils).
“Ela gostava de Rimbaud, dos Titãs e de Caetano
e vivia no planalto central
Eduardo achou estranho mas nao quis comentar
Mas a garota tinha tinta no cabelo
Festa estranha
Eu não tou legal
....
E quem um dia vai-me dizer que nao existe razão nas coisas feitas pelo coração
E que me vai dizer que não”
"Eduardo e Mónica" dos Legião Urbana
E assim acontece!
E se tudo não passar de uma grande palhaçada? Em que fazemos de conta que acreditamos no amor, na amizade, tentando não duvidar todos os dias mesmo quando o encanto morreu à conta do hábito. Agarramo-nos ao que podemos, tentamos estar sempre bêbados para não pensar que estamos sós. Talvez seja possível enlouquecer de vez e recuperar a grande magia dos dias com sentido.
Calar-me para sempre por não ter mais nada a dizer. Por não querer saber mais nada.
É hora do grande passo, sem retorno.
Há um grande cansaço a roer-me o tutano e um abraço a fazer-me querer ainda mais um bocadinho o engano.
Começámos a amar a ideia de que gostamos!
Que estamos juntos.
O arrepio vai subindo frio pela espinha. E se estamos enganados?
«Ao pássaro o ninho
À aranha a teia
Ao Homem a amizade »
William Blake in Provérbios do Inferno
«Continuar aos saltos até ultrapassar a Lua
Continuar deitado até se destruir a cama
Permanecer de pé até a policia vir
Permanecer sentado até que o Pai morra
Arrancar os cabelos e não morrer numa rua solitária
amar continuamente a posição vertical
e continuamente fazer ângulos rectos
Gritar da janela até que a vizinha ponha as mamas de fora
Contar histórias obscenas uma noite em família
Narrar um crime perfeito a um adolescente louro
Beber um copo de leite e misturar-lhe nitro-glicerina
Deixar fumar um cigarro só até meio
Abrirem-se covas e esquecerem-se os dias
Beber-se por um copo de oiro e sonharem-se Índias»
Há um pedaço da China do tamanho de uma unha do pé (encravada?) onde as ruas tem nome em português: Macau.
A China fica no outro lado do mundo em relação a Portugal ou Portugal do outro lado em relação à China. É difícil deixar-se a pátria de lado neste cantinho amuralhado à beira de umrRio de pérolas.
No século XVI surgiram no norte da Europa pensadores: Lutero, Calvino, Erasmo, que atacaram o fausto e a decadência da Igreja de Roma. A Igreja dividiu-se. E hoje o norte europeu, na sua maioria, é protestante e o sul católico apostólico romano. A Igreja de Roma condenava a usura, o empréstimo como pecados. A doutrina dos protestantes nada tinha contra. Naqueles tempos uma classe nova emergia, a burguesia com poder económico. Que é que se passava na China entretanto?
A capital do Império do Meio, Beijing ou Pequim, fica a norte e se não sei bem o que se passava ontem no outro lado do mundo, sei o que vejo hoje. Embora sabendo que entre o que os meus olhos vêem e o que não consigo ver há todo um julgar pessoal, muito pouco universal:
É o frio quem nos ensina a objectividade e o pragmatismo, basta olhar para qualquer mapa mundo e veremos que os grandes centros financeiros se concentram quase todos a Norte ou deles derivados.
Como se a urgência da lenha que se tem que ir cortar para não morrer de frio criasse, moldasse, toda uma psique no norte do mundo que se manifesta prática e aguerrida.
Ao sul do mundo, a temperatura a isso proporciona, fica o reino das miragens ,do corpo e da alma.
De lá vieram os números, a filosofia, novas maneiras de pensar o mundo, a poesia e a magia.
E se hoje o Norte, qualquer norte, seja mais forte economicamente, é no sul do mundo que subsistem ainda, entre o excesso e a brandura, o idealismo e a utopia.
Hong Kong e Macau estão a sul mas são herdeiros do norte e do sul respectivamente à semelhança das Américas do norte e do sul.
Portugal nasce do pragmatismo guerreiro nortenho!
Na História, pelo menos na História que nos ensinam na Europa, a humanidade tem como berço o crescente fértil onde se reúnem alguns rios que na génesis da bíblia são indicados como pontos cardinais do paraíso: o Eufrates e o Tibre. Antiga pérsia ,actualmente Iraque. A ironia...
Em Wat Pho, complexo de templos budistas em Bangkok, as paredes estão revestidas de pinturas que evocam a harmonia e sensualidade da Grécia antiga e vasos etruscos.
Mais do que saber quem influenciou quem importa saber se a sensualidade, a nudez original do mundo se manifesta de igual modo nas criações de povos que vivem em lugares onde o Sol aquece os corpos e endoidece as almas.
De igual modo, por oposição, se as criações vindas do frio acabam por se revelar mais vestidas, herméticas mas soberbamente conceptuais.
O paraíso Viking, o Valhala, é um paraíso guerreiro ensombrado por uma profecia que o condena numa batalha final com as mandíbulas de um lobo gigantesco.
É uma psique temerária ou corajosa que se pode pressentir em Mozart e em Nietszche por exemplo.
Não conheço todos os deuses do mundo por isso recorro-me do que sei, acreditando na universalidade de conceitos e princípios comuns a todos as geografias do Mundo.
A ecologia é uma ideia vinda do frio, vinda de lugares onde os signos eram árvores e plantas (zodíaco celta), onde a primavera é aguardada com alguma ansiedade.
Poderíamos considerar que o Norte se rege por princípios apolíneos, pelo sol e pela falta dele e o Sul por princípios dionisíacos.
Arrisco a concluir que o Budismo é uma religião cujas origens vêm do frio em oposição aquelas de matriz quente, cristianismo, islão e judaísmo, os antigos deuses gregos e talvez até mesmo o hinduísmo.
"As Mil e uma Noites", criação do sul, do vinho, do azeite e de sátiros e bacantes várias aportaram na Europa pelas mãos de um viajante incomum para o seu tempo, século XIX, Richard Burton. Mas isto de gente incomum é um factor comum em todas as geografias, em todos os tempos, pese a escassez dos mesmos e daí incomuns. "As Mil e uma Noites" originais não têm nada a ver com as histórias infantilizadas que conhecemos, pelo contrário. Henry Miller sem Trópicos de Cancer é muito mais requintado. Está lá tudo e todos!... O autor é desconhecido mas li algures um artigo que dizia ser mais que provável tratar-se de uma mulher.
Regresso ao delírio,perdoem-me o desvio: Se o Sul se caracteriza por algum desleixo, o regateio nos mercados é disso exemplo, já o Norte se manifesta rigoroso e pontual.
A matemática e os seus números são invenções do Sul mas a banca é uma invenção do norte.
Sendo que todos as invenções são fruto de gente incomum e sendo estas comuns a Norte e a Sul arrisco-me a argumentar que a diferença mais gritante é entre a descontinuidade e a continuidade que separa as latitudes quentes das friorentas.
O norte do mundo manifestamente se interroga, pondera e propõe, tem duvidas e nisto recorda tudo aquilo que associamos às Mães e em última análise às mulheres.
Já no domínio dos ímpetos, das certezas, dos dogmas encontramos no Sul a figura do Pai.
Sendo que tudo se tornou relativo, rápido e informado faço uma pergunta: Em que zonas do mundo a figura da Mãe é tão idolatrada e onde ao mesmo tempo, contradição, as mulheres são brutalmente maltratadas?
Não sei, quente, frio, quente quente a escaldar...
Há coisa de meses houve um encontro de arquitectura (Arcasia) em Macau. Um dos participantes (Fusksa/italiana) exibiu algumas imagens com obras realizadas pelo seu atelier. Uma das obras fez-me engolir em seco, um casino encomendado pela câmara municipal de Amsterdão. Inovador, inteligente, de autor, uma ecomenda com critérios do norte contrastando, como em quase tudo, com os casinos que vão proliferando por Macau.
As razões de Macau não se esgotam nos chineses, em Hong Kong também os há. Uma hora de barco é tudo o que basta para descobrirmos as diferenças...
Será o Norte melhor que o Sul? (A cada um a sua resposta.)
Qual o melhor é questão que não me interessa, o que urge é a vontade de perceber, de mudança no Norte e no Sul do mundo.
“O Oriente è a fonte das civilizações e línguas europeias ,o adversário cultural e uma das imagens mais profundas e recorrentes do Outro.” Edward W.Said
Vosso Mohamed
O teu fémur é maior que o meu... Venha o tufão!
O amor acaba quando o desejo acabou ou há mais vida para além do sexo numa vid a dois?
Das terras. Das saladas coloridas regadas a azeite acompanhadas de pão e vinho. As terras onde o vermelho é felicidade e o luto se veste de branco.
Nas touradas usa-se o vermelho para ludibriar o touro, no fundo são, estes quadrúpedes, vampiros encornados sem a vocação da dentada. Marram bem.
O negro cai sempre bem dizem os entendidos, se calhar porque tem aquele charme que sugere a morte, a cor do luto no ocidente. Metafísica soft ,a moda. Cantava à sombra do baobá enquanto batia a mandioca, uma negra quase azul, vestida de vermelho. Não percebi bem mas os leões pareciam encantados com a imagem, alguns até adormeciam a seus pés sorridentes. Voltei a encontrar-te em Saturnia. Tinhas uma touca vermelha e eu a prinicípio pensei que se tratava de uma bola que flutuava no rio de águas vulcânicas azuis fluroscentes. Era mágico o contraste do verde dos canaviais das margens, a tua cabeçaa vermelha negra naquele caudal azul sulfúrico. Acenaste-me, convidando-me a entrar nas águas. Já não adormecias leões mas vendias-te em Itália nas partes do rio de Saturnia que correm rentes à estrada onde passam os carros. Continuas encantadora minha, nossa, Senhora.
Branco para quem morre e para quem fica, talvez seja menos dramática a experiência da morte no Império do Meio. Ninguém me disse nada. Sei que de repente o silêncio tinha peso, angustiava-me sem bem saber porquê. Seria do clima abafado, da humidade ?Palavras aconteçam, saiam do vosso anel de chumbo. Sinto mas não percebo. Verbalizar é preciso?
Em Itália na passagem de ano, tradicionalmente, as mulheres usam cuecas e soutiens vermelhos por dar sorte. Tem uma origem pagã de certeza. Os símbolos essenciais assemelham-se em todo o lado. As diferenças são rupturas racionais com aquilo com que se rompe. Nem sempre fazem sentido. Revelam mais vontade cega de se dissociar que bom senso "poético".
Eramos deuses sem memória... Por entre o arvoredo a inocência despenteada enfeita-se com coroas de hera, as estátuas sorriem e resolvem sair dos seus pedestais.
Satanás, a sua figura meio homem meio bode provém de um Deus antigo e primordial dos bosques e dos pastores, o deus Pan. Anterior aos Apolos, Jupiteres, Dianas, Bacos e Mercúrios, com os tempos tornou-se secundário. Pan nao morreu, a sua sorte é a sorte da figura daquelas mulheres fabulosas que tinham conhecimentos ou que simplesmente se destacavam e por isso eram perseguidas e queimadas, as bruxas, as feiticeiras. Vestem-nas, insistem em representá-las de negro.
Em Macau descobri numa loja de móveis vizinha às Ruínas de São Paulo um tronco de árvore onde se fundia uma figura humana. Voltei a encontrar
esculturas semelhantes em outras lojas e pinturas.
Descobri os elfos, os Pans chineses!
Quem apenas souber do demo nada mais verá que porcaria e obscenidade. Limpem-se, essas as ramelas e a cera dos ouvidos!
O demónio é uma prisão mental, há tanto coisa que faz parte da lei e comunga dos mistérios e dos ciclos.
Deixar de ser, nada desejar...
A rua da Felicidade é tao bonita,antigamente era uma rua cheia de bordéis. Toda a vermelho e branco... Misteriosos são os desígnios da relatividade. Certa é a frescura da seda sobre o corpo no Oriente.

Nos anos 70/80 passava na televisão ainda a preto a branco, em Portugal, uma serie de ficção cientifica, o "Espaço 1999". Vi-a devia ter para aí uns 10 anos e nunca mais a esqueci. Recentemente voltei a visioná-la por acaso e nisto assassinei uma memória que tanto me encantava. Achei o episódio enfadonho e ingénuo. Pode-se voltar aos lugares onde fomos felizes?
Basicamente a série conta-nos as aventuras e desventuras da primeira colónia terrestre na Lua que assiste terrificada, nos ecrans, à colisão de um gigantesco cometa contra a Terra. Como consequência a Lua é projectada para muito longe do planeta azul.
Nos anos 70/80 o ano 2000 era uma data mítica, acreditavam uns no fim do mundo, outros mais optimistas viam cidades espectacularmente avançadas, carros que levitavam e colónias na Lua.
Testemunho disso é o tempo em que a série decorria e que dava o titulo à mesma, Espaço 1999.
Se as tais cidades de ficção cientifica não correspondem ao imaginário da época, nestes idos de 2005, também é inegável que hoje em dia estamos rodeados de uma parafernália tecnológica que se tornaram banais e ditam novos comportamentos e ansiedades.
Sou ainda do tempo da televisão a preto e branco, dos primeiros computadores comerciais que eram basicamente usados para descarregar jogos gravados em cassetes audio: os ZX Spectrum. Muito antes do advento do Windows de Bill Gates. Alguém sabe o que é a linguagem máquina?
Cresci sem Internet, não haviam telemóveis e comprava o ultimo disco dos Jesus and Mary in Chain em Vinil. Tenho uma colecção de vinis mas não tenho onde os ler (é a palavra que se usa agora), ainda uso cassetes áudio para gravar musica e já me aconteceu querer mostrar uma música e não haver leitor de cassetes. Chamaram-me analógico.
As tardias cassetes de vídeo e mesmo os leitores de vídeo tornaram-se obsoletos com a chegada do DVD.
A minha geração cresceu sem saber como é que as fotografias iriam sair, agora estamos sempre bem com as máquinas digitais. Sem supresas está tudo bem, clean e sem caretas. Mas de onde vem este cheiro a ovos podres?
Ainda escrevo cartas de papel. Não é preciso nehum hardware especial para o fazer. Apenas disponibilidade e, modestia à parte, vontade de sair da carneirada.
Sem saudosismos regresso à série "Espaço 1999".
Vivendo eu agora num espaço não tanto fechado como aquele da série, pergunto-me como realmente se viveria ali naquela base lunar. Era auto-suficiente e portanto a sobrevivência mínima estaria assegurada. A população parecia multiracial e por exercício da lógica devia ser altamente qualificada em tudo o que fosse do domínio das ciências físicas e tecnológicas, além de ser igualmente bem preparada fisicamente.Os critérios de selecção e os salários deviam ser elevados,dada a especificidade do projecto e a componente risco.Um ambiente de elite naquela colónia pioneira.
Interrogo-me particularmente sobre o ambiente que se viveria em Alfa 1 depois do desastre, longe da Terra, sem possibilidades de retorno.
A tecnologia não basta e a ser verdade que nem só de pão vive o homem, sai do nada, de onde chamei este texto, um cenário no mínimo inquietante. Se calhar sou eu...
Esta é basicamente a historia não contada da série, muito mais provável e verosímil que toda aquela sucessão de encontros com criaturas alienígenas.
De repente, ao improviso, toda aquela população teve que conviver diariamente ad eternum com as mesmas pessoas todos os dias sem férias sabáticas na Terra. Irremediavelmente desenraizados começaram a passar mais horas nos ginásios de modo a combater o stress do presente e as saudades da Terra.
Consultas febris às imagens digitais da Terra espalharam-se como uma obsessão.
Vi também os primeiros filhos da Lua crescerem alimentados pelas histórias dos pais sobre as florestas, os mares e os animais da terra criarem toda uma série de mitos sobre aquele lugar que nunca conheceram.
Alguns em crises de adolescência acusaram os pais por terem vindo trabalhar para a Lua, que estavam fartos daquilo. Criaram-se drogas sintéticas para acalmar os ânimos.
Na net, no chat Lunar ninguém era aquilo que dizia ser, uma espécie de jogo/compromisso para criar a sensação que se estava a conhecer alguém que não pertencia a Alfa 1.
Não sendo uma população numerosa é credível que as poucas crianças de Alfa 1 fossem a luz de toda a colónia. O problema chegava quando cresciam e se sentiam sós. Com o tempo decidiu-se criar um banco de esperma e ovários para a criação de bebés proveta.
Não consigo ver se era uma sociedade puritana ou se pelo contrário considerando que nem toda a gente ali seria compatível, se houve casos de violação ou a proliferação de sexo esporádico e mecânico.
Como seria o ensino e o tribunal em Alfa 1?
Professores e juristas ficaram de fora do projecto nos seus primórdios, basicamente foram enviados para Alfa 1 cientistas de várias especialidades físicas e químicas. Não se previa o asteróide solitário que resolveu chocar contra a Terra. Delegaram-se competências, reciclaram-se ofícios na base do voluntariado em sistema de horas extraordinárias.
Como se inventa o dia quando a metafísica nos abandonou?
Joe escreveu isto no seu diário antes de se suicidar, era um dos primeiros filhos de Alfa 1.
Isto não passa de uma conjectura, deixo aos clientes do Motel que pacientemente leram estas linhas a busca do seu sentido e um grito:
De mais gente se consciencializar para a urgência que Tratados como o de Quioto expressam.
Bases lunares nao há ainda para aí aos pontapés.
Mais uma vez desculpem-me os erros mas é que Alá e eu não nos quisemos continuar os estudos.
A morte do amor... estreia daqui a duas semanas no Centro Cultural do Oriente.
Já à venda em Zoo Ai a versão em DVD pirateada. Os fundos reverterão a favor da construção de um cinema porno, requisito para a candidatura desta terra como património da animalidade.
Contra a identidade, pela identidade, marchar marchar.
Mercúrio, o Deus das azinhas nos pés, também conhecido como Hermes, era o carteiro encarregue da correspondência entre deuses e mortais. Numa das suas voltas passou por casa da boa da Afrodite, a Deusa da Beleza. Vulcano ou Hefestos, o marido, nunca parava em casa, era o ferreiro dos deuses e tinha a sua oficina num vulcão. Ninguém percebia as razões que levaram a mulher mais bela do universo a juntar-se ao mais feio dos deuses. Os deuses são sempre perfeitos fisicamente mas este aconteceu com uma perna mais curta que a outra. Talvez por isso se dedicasse tanto ao trabalho, um workaholic perfeccionista admirado pela qualidade e beleza das suas criações.
Era um deus esforçado entre libertinos com excepção de Minerva, intelectual guerreira acontecida da cabeça de Zeus.
Da visita de Hermes aos paços de Afrodite aconteceu uma criatura estranha que herdou o nome dos dois pais, Hermafrodita.
Ganesh o deus hindu com cabeça de elefante obedecendo à mãe não deixou ninguém entrar no quarto enquanto ela não tivesse acabado de tomar banho .O pai não o reconhecendo corta-lhe a cabeça furioso com a afronta do rapaz. Estaria bêbado?
Já não me lembro como foi mas sei que hoje Ganesh tem uma cabeça de elefante.
Titânia, a rainha das fadas competia com o marido, Oberon, pelas atenções e favores de um adolescente nascido a oriente. Entre deuses a monogamia é um aborrecimento contra natura. Veio uma águia e roubou-lhes o petisco com o bico levando-o para o seu ninho no monte Olimpo, deu-lhe um nome e um ofício, Ganimedes, o provador de vinhos.
Drácula ainda com sangue nos lábios recebeu o convite para a inauguração das mãos de Puck, o elfo. O sangue da freira que lavava roupa no rio não o saciara por completo, tinha sido demasiado fácil, pensava ele.
Puck desapareceu numa gargalhada fazendo-se redemoinho de vento. Ainda reapareceu mostrando o rabo azul ao príncipe da Transilvânia que apanhou em plenos dentes com uma trovoada sonora e nauseabunda de gazes. Este acontecimento deixou-o melancólico, com uma crise existencial.
Cansado de tanto apetite partiu para a Índia e fundou um reino. Teve um filho, Sidharta. Sidharta tinha um problema de glândulas que o fazia engordar muito.
Chamavam-lhe o Rei Elefante. Era rei mas nunca ninguém o amaria gordo como era.
Embora tivesse à disposição mil concubinas isto não o satisfazia. Em delírio resolve abandonar a vida do palácio em busca de uma dieta milagrosa. À sombra de uma Bodi desenvolveu uma técnica de auto hipnose que repetindo “quero emagrecer, quero emagrecer” esqueceu-se de tudo para sempre.
“Espelho, espelho meu há alguém mais bonito do que eu?”- Emanuel, o filho do carpinteiro obcecado pela sua imagem também se ia esquecendo que era apenas um homem. Não gostava de trabalhar e não queria estragar as suas mãos no oficio que o pai tentava em vão transmitir-lhe. Não parava um minuto em casa, gostava de se dar com as pessoas menos recomendáveis da aldeia.
Madalena, a sua melhor amiga apresentou-lhe Hipocrates, um médico grego que o iniciou na poesia, na filosofia e nas ciências.
Falou-lhe de como na capital do Império, Roma, os ricos estavam cada dia mais ricos e os pobres cada dia mais pobres. Era uma sociedade violenta dominada por uma pequena elite viciosa sem escrúpulos .
Hipocrates contou da sua vida em Roma como escravo, das orgias nos palácios, dos patrícios, dos sangrentos circos oferecidos às massas. Tanto os deuses como estas novas formas de espectáculo eram imagens abastardadas do modelo que lhes tinha servido de base, a cultura helénica, dizia o amigo.
Tudo isto ia corrompendo, confundindo o espírito de Emanuel, os pais já não o reconheciam, a aldeia tornara-se pequena. Uma revolução, era preciso uma revolução.
Entusiasmado com a viagem e com as cores do mediterrâneo deixou a aldeia em direcção à Grécia. O amigo tinha-lhe dado algumas moradas onde poderia ficar a troco de algum trabalho.
Tinha 17 anos quando deixou a Galileia.
Para trás ficava o oficio da madeira que o pai queria que ele continuasse.
Na Grécia dedicou-se a varias actividades em vários lugares durante três anos.
Trabalhou na vindima, pisou a uva e carregou ânforas de vinho e de azeite. Aprendeu a moldar e a pintar objectos vários em cerâmica, a extrair o mel das abelhas selvagens sem ser picado.
Um dia meteu-se por um bosque onde encontrou um velhote estranho com dois pequenos chifres na cabeça e pernas de cabra que o iniciou nos mistérios do corpo e da alma. Em troca pediu-lhe que o ajudasse a seduzir umas mulheres que fugiam sempre dele enojadas pela sua bestialidade. Estava farto de cabras e de marrar contra os bodes pelo direito ás mesmas.
Chamava-se Pan e dizia ser um deus caído em desgraça.
Farto de servir como isco daquele velhote insaciável que perseguia tudo o que tivesse um buraco onde enfiar-se, fosse homem, mulher, animal ou melancias, rebelou-se.
Antes de se despedir agradeceu tudo aquilo que tinha aprendido e deu-lhe um beijo. Pan tomou-lhe os lábios com fúria encantando Emanuel que se ajoelhou a seus pés.
Acordou num sonho. Era noite, era Verão.
Azevinho sabe a vinho, sabe a mel. Abraçam-no, massajam-lhe o corpo com azeite, preparam-no.
Sente-se exilado, deitam-no no musgo à beira do rio, cheira a eucalipto.
Morrem novos os que os deuses amam, dizia a lamparina que Mohamed descobriu durante os seus passeios com o rebanho. Sentou-se à sombra de uma oliveira encantado e intrigado com o significado daquela frase. Um bode que cobria uma das cabras distraiu-lhe os pensamentos por algum tempo.
Não conseguia perceber a frase, não fazia sentido. Se Deus nos ama, não nos pode fazer morrer novos.
Comeu um pedaço de queijo com pão e duas tangerinas. Deus é só um, que deuses são estes? Cansado de dar voltas á cabeça com aquele mistério adormeceu.
A lua parecia um olho de um gigante feito de estrelas com pálpebras de nuvens, parecia observar, curiosa, os passos incrédulos do pastor.
Amarrada a uma árvore com os olhos vendados Maria tremia assustada. Os galhos secos que se partiam indicavam que algo ou alguém se aproximava.
“Quem está aí ?”- Perguntou mas nada nem ninguém lhe respondeu.
Uma mão acaricia-lhe o rosto, desce pelo peito até ao baixo ventre. Uma boca, uma língua beija-a no pescoço, sussurra-lhe ao ouvido meu amor, meu amor.
Maria solta um grito, morderam-lhe o mamilo direito que começa a sangrar.
Enlouquecido com o sabor daquele sangue e com os gritos de dor morde uma vez mais e mais uma para continuar a beber aquele liquido quente que o rejuvenesce e aquece.
Ao fim da noite havia uma adolescente semi devorada, morta, amarrada a uma árvore e um homem ajoelhado a seus pés a chorar batendo com as mãos na cabeça.Acordou angustiado com o sonho, conduziu o rebanho para casa, beijou a mulher e os filhos e partiu para Meca. Se a montanha não vinha ter com ele, iria ele á montanha.
Peco desculpa ao Ruevisor pelos meus erros, o pruzidente ja me chamou a atencao mas e que o meu computador ta marado e lento e nao obedece. Nao consigo que me obedeca.
Venho aqui no meio de umas pernas de frango que nunca mais estao prontas. Fumo e bebo e so vou comer porque tenho que o fazer mas estou sem fome.
Eu queria-me libertar um bocadinho do peso da terra onde vivo, Macau, e de repente vejo uma photo minha e do pruzidente com respectivos nicks e descricao de um jantar e com referencia ao fotografo.
Tornou-se tudo de repente outra vez and on and on familiar e circunscrito.
Foda-se pruz!
Eu acabei de chegar ao hotel. (nota do Rivezoer: Motel, pá!)
Mas vou continuar a escrever se entretanto o Rivesoer nao me despedir pela falta de acentos e virgulas, mas ja vou pensar 3 vezes no que envio.
E eu nao quero pensar 3 vezes, estou farto de pensar 3 vezes.
Então vamos a isto que se faz chouriço, pisas o risco tás fodido.
Nada de citações que rimam com Evaristo, tens cá disto?
Escrevo bem, escrevo mal? Figuras de estilo saiam debaixo das pedras. Há baratas d'ouro no lixo.
Há um museu em Napoli onde se pode ver uma estátua do Deus Pan a cobrir uma cabra. Nunca vi tanta ternura numa cabra.
As ninfas fugiam dele, dizia a guia, por ser meio homem meio bode. E então é assistir ao cornudo às marradas com os outros bodes pelo direito às cabras.
Matei há bocado mais uma barata. Estava na cozinha e não era de ouro.
São inteligentes estes bicharocos e mexem-se bem. Algumas marretadas depois lá consegui que fosse ter com o pai externo.
Apontaram-me como candidato ao lugar de Mestre: venham a mim que há mil conselhos fresquinhos à venda, biológicos e tudo. Tou mesmo a precisar de umas massas e secalhar é a minha vocação.
Pagamentos em serviços também são bem vindos.
Votem em mim para Mestre que eu tenho caminhos para todos. Para cima, para baixo, na diagonal, em pé ou sentado.
Cavos espero!
O download d'As Maldivas (o Rivezoer aqui não lhe toca, tá cheio d'erros, qué mesmo assim que deve ser!)
Não sei se já repararam numa expressão que se costuma ver agora em tudo o que é reality show, série, concursos e filmes americanos: U can do it.
Do alto de um rochedo a uns 30 metros de água uma mulher esforça-se para vencer o seu pior medo. A prova é esta em troca de mais uns trocos. O monitor ao lado que acompanhou a resistente do salto mais baixo até ao salto mais alto.
Técnicas de salto para água com vista a reduzir as possibilidades de se magoar foram-lhe meticulosamente explicadas. O seu maior medo já devem ter adivinhado: medo das alturas, vertigens.
Os filhos em baixo gritavam para a mãe: "U can do it, mom, u can do it."
And u? Can U do it?
Do it on a scene, like a killer machine.Se tens garras afiadas, mandíbulas fortes, se és rápido e tens uma boa camuflagem então u are build for the kill!
Este documentário sobre predadores deixa-me sempre ansioso pois parece haver ali uma espécie de exaltação dos mais fortes way of life. Dos fracos não reza a história, será verdade isto?
Que fracos e que fortes?
Em cabecinhas alimentadas nestes moldes vai-se criando toda uma elite no mundo da barriga cheia dos medos de não virem a ser ninguém.
Chega-se de avião à ilha paradisíaca e admira-se a simplicidade das gentes locais e no regresso conta-se quase como uma acusa a falta de simplicidade dos que não puderam ir ou lê-se um livro new cristian age para se bater longas pívias nos cafés.
U can do it!
Creio num vinho sincero, generoso
Vermelho intenso e perfumado
como o amor dos rapazes
feito por entre videiras
e terra fresca aveludada
Creio no sorriso dos golfinhos
alquimistas brincalhões
Creio nas árvores amigas
e nas histórias que as folhas contam
quando o vento lhes toca
Quero crer em nós.
"Neste sentido o homem dionisíaco assemelha-se a Hamlet: ambos deitaram um olhar verdadeiro na essência das coisas, conheceram, e sentem nojo diante do agir; já que as suas acções não podem mudar nada na essência eterna das coisas, e acham ridiculo ou infame que se pretenda deles que se mantenha calado todo o mundo que esteja fora dos 4 pontos cardinais.
A consciência assassina da acção, para agir ocorre estar cobertos de ilusão -esta é a doutrina de Hamlet, não já a sabedoria a bom preço de Hans o sonhador, que não se decide a agir por demasiada reflexão, quase por abundância de possibilidades." in A Origem da Tragédia de Nietzsche