«No momento em que escrevo ainda não é possível saber todas as consequências das caricaturas de Maomé nas relações com o mundo islâmico. Por outro lado, é evidente a dificuldade que há em pronunciar-se sobre um assunto tão amplo e polémico em espaço tão limitado.
Para salvaguardar a transcendência divina, a Bíblia impõe o mandamento de Deus "Eu sou o Senhor, teu Deus, que te fiz sair da terra do Egipto, da casa da servidão. Não haverá para ti outros deuses na minha presença. Não farás para ti imagem esculpida nem representação alguma do que está em cima, nos céus, do que está em baixo, na terra, e do que está debaixo da terra, nas águas. Não te prostrarás diante dessas coisas e não as servirás."
A controvérsia sobre as imagens no cristianismo durou séculos e a chamada crise iconoclasta desembocou por vezes em perseguições violentas. Foi com o concílio de Niceia II (787) que, com base na encarnação do Verbo, foi reconhecida a possibilidade da representação de Cristo e a veneração das imagens. Mesmo assim, há, neste domínio, diferença entre os católicos, pródigos em imagens, os protestantes, reservados, que se limitam à cruz, e os ortodoxos, que são mestres na arte dos ícones.
Régis Debray fez notar com humor que o ano de 787 marca a data de nascimento de Hollywood, observando de modo fino que "uma cultura que honra as imagens honra também as mulheres. Velha constante das civilizações, que atravessa os tempos e as latitudes! Os que bombardeiam estátuas são os mesmos que lapidam as adúlteras. Quem fecha os museus mantém as mulheres fechadas. A inversa também é verdadeira em toda a parte onde a imagem tem direito de cidadania, a mulher tem o direito de participar".
Entre os muçulmanos, nem sempre foi interdita a imagem do Profeta. Depois, enquanto os teólogos sunitas proibiram qualquer representação humana do Divino, os xiitas reservaram a interdição a Maomé.
Pela sua própria natureza, o Sagrado é inviolável, não pode ser profanado, deve-se-lhe respeito incondicional.
Toda a questão reside, porém, na distinção, essencial, que é preciso fazer entre o Sagrado em si e as figurações humanas desse Sagrado. Foram sobretudo os místicos que estiveram atentos a esta diferença.
Mestre Eckhardt pedia a Deus que o libertasse de Deus, exactamente para preservar essa diferença e prevenir quanto ao perigo constante de confundir e identificar os conceitos, imagens e representações humanas de Deus e a Divindade em si mesma.
Tomás de Aquino, no fim da vida, depois de uma experiência mística, porque sabia que a fé não se dirige às fórmulas, mas ao Mistério, quis queimar tudo quanto tinha escrito.
Também no Islão há uma forte corrente mística. Pense-se, por exemplo, em Rumi.
O místico budista Nagarjuna foi radical. Segundo ele, o homem, se quiser tornar-se livre para a verdade suprema, religioso-mística, tem de ir além da dialéctica comum e mesmo da dialéctica hegeliana (ser, não ser e devir), para atingir a dialéctica dos quatro passos, que nega as quatro possibilidades afirmação (é), negação (não é), afirmação e negação (é e não é), dupla negação (nem é nem não é).
O que pode o homem finito dizer sobre o Infinito, sobre o Absoluto? Algo precisa de balbuciar, mas sabendo à partida que o que diz é finito. Por isso, o crente que pensa não receia os cartoons sobre o divino, pois eles nunca atingem o Divino em si mesmo, mas apenas as suas imagens e representações humanas. As caricaturas nunca caricaturam o Sagrado em si, mas tão-só o perigo das caricaturas humanas desse Sagrado. Os cartoons podem ser um apelo de transcendência, para que os crentes percebam que é preferível ser ateu a ser idólatra.
Ai de uma religião que pretenda ser imune à crítica! O filósofo Immanuel Kant deixou um aviso contra a menoridade religiosa culpada enquanto a mais nefasta "O iluminismo é a saída do homem da sua menoridade, de que ele próprio é culpado", e isso "sobretudo nas coisas da religião, porque a tutela religiosa, além de ser mais prejudicial, é também a mais desonrosa de todas".
O nosso tempo é "a idade da crítica", e a religião, apesar da sua "santidade", não se lhe pode subtrair, se não quiser expor-se a uma "justa suspeita".
No concreto, o problema situa-se na dificuldade em conciliar esta crítica, muitas vezes inevitavelmente provocatória e até corrosiva, com o respeito pelo outro nos seus sentimentos religiosos - uma questão do âmbito da razão prática prudencial.»
Anselmo Borges in DN