fevereiro 12, 2006

"Não leio o MVA nem por nada!"

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«Olá Z.

Peço-te ao menos que leias a Ana Sá Lopes, mas porque não o MVA, independentemente de ser fundador da Associação dos Gamadores de Gasolina ou anjo barroco no Vaticano. Apesar das desconfianças culturais que o Pacheco Pereira me merece, leio-o. E, deixa-me dizer que até subscrevo algumas partes do artigo, tal como, de resto, subscrevi as declarações do líder do CDS que na RTP esta semana produziu sobre o assunto. Não é que a liberdade de expressão seja agora património deste ou daquele - se houve iniciativa nestes dias que me agradou em Portugal (eppure si muove) foi a concentração de meia dúzia de gatos solidários (também não podemos exigir muito, sempre é Portugal) - à porta da embaixada da Dinamarca que reúne figuras ideologicamente divergentes como o Rui Zink ou o Vasco Rato. Por isso, a liberdade de expressão, tal como o laicismo, é um legado do liberalismo democrático e ponto final.
Sobre as minhas liberdades, não é que considere a invocação do direito à liberdade de expressão uma intermitência subjcetiva e até estranho que a uses como arma de arremesso, mas adiante. E também, não é preciso irritares-te dessa maneira.

Voltando ao artigo do PP, só acho que mais uma vez se está a querer fazer disto um nós contra eles. Outra vez. Até gostaria de analisar com mais tempo o artigo do PP, mas do que tenho da memória, considero-o explosivo. Falar em guerra neste contexto é, no mínimo, inconsciente, e só não entende isto quem não vive num qualquer outro país da Europa que não seja Portugal.

Preocupo-me mais com a rua europeia do que com a rua árabe. A rua europeia é cada vez menos branca, católica ou protestante, menos identificável e mais híbrida. Fixar a identidade europeia é um trabalho de Sísifo. Pensar a Europa em termos de identidades nacionais dos povos é inoperante, irrelevante, discriminatório e contribui mais para arrastar o problema - que é um problema (também é estético, principlamente estético, mas enfim, esta já dou de borla) político, de relacionamento com o que é diferente, de competências interculturais dos cidadãos, das instituições e, dos media que cada dia que passa vomitam disparates, a televisão então é um ver se te avias - do que para desenhar uma compreensão mínima do que está em causa. É muito mais fácil dizer "nós europa e eles mundo árabe" do que explicar que "nós" somos muita coisa e que o mundo árabe não é só "o mundo árabe". É manifesta esta dificuldade em enquadrar em termos mediáticos esta pluralidade e esta alteração estrutural do tecido cultural europeu.

Falar em guerra significa arruinar todo o trabalho de cooperação de diálogo inter cultural, interreligioso, mesmo ecuménico, destruir o trabalhar de anos de antropólogos, sociólogos, políticos, arquitectos, psicólogos, artistas, juristas, e toda uma rede imensa de associativismo, agencias oficiais, não governamentais, institutos e centros religiosos, que se encontram espalhados pela Europa e pelo Mediterrâneo. Decretar políticas identitárias, como parece sugerir PP e essa abencerragem do jornalismo luso que é Luís Delgado (mas enfim cada um com os seus fantasmas), baseada nessa ideia de guerra, do por mim ou contra mim, seria impensável para quem viaje e viva um pouco fora de Portugal. Basta teres um amigo de Belgrado e uma amiga de Zagreb - e não é assim tão difícil encontrá-los por essa Europa fora - sentados à mesma mesa para entenderes os erros da defunta Jugoslávia, e as lições que a Europa deve dali retirar, ou perceber-se o que se passa hoje na Holanda e o fim do modelo dos pilares para se deslumbrar o que as políticas securitárias fizeram à auto-percepção nacional dos holandeses e ao lugar-comum da tolerância holandesa. O que seria de uma cidade como Roterdão, só para dar um exemplo!

Já agora para quem se interessar sobre estas coisas, se lessem alguns autores sobre o chamo "euro-islão"não lhes faria dor de barriga. Deixo aqui algumas sugestões:

Tariq Moddod, embora se incline mais para uma visão comunitarista da coisa do que propriamente para um ideia multicultural que a, mim, também não me agrada muito, mas, enfim, melhor do que "é a guerra, é a guerra"; ou o mais interessante, agora parece conselheiro de Blair, Tariq Ramadam - "To Be a European Muslim".
Estas referências são óptimas neste tipo de exercício epistolar - dá cá a mão Marcelo. Reforçam-nos a credibilidade, permitem-nos discutir com menos leviandade sobre os problemas, fornecem um espécie de hegemonia cultural sobre a discussão e além disso ainda nos garantem argumentos de autoridade.
Brilhante!

Abraços,
JM»

Publicado por Jardineiro Mágico | Nós Todos Cegos | 17:38
Comentários

O Z. é um homem! E sim tem um DNA duro de roer!

Afixado por: Homem do Leme em fevereiro 13, 2006 09:10 AM

Nunca te passaria pela cabeça que Z podia ser uma mulher. Certo? Eis outra luta e essa bem mais perto. Verdadeiramente dificil não é opinar (que tb requer alguma coragem) mas sim mudar o que está enraízado no pensamento, há séculos, há milénios, inscrito no DNA.

Afixado por: Guerrilla Girl em fevereiro 13, 2006 09:06 AM

Concordo plenamente com a tua visão dos factos. O mundo tem exemplos à frente mas teima em continuar virado ao contrário. Às vezes parece que fazem de propósito, só para se distraírem.
Já é a segunda carta a este Z. que vejo aqui... quem é essa personagem afinal?

Afixado por: Fornecedor Alternativo em fevereiro 12, 2006 05:52 PM