24 de Março de 1937
«Gostam de me examinar. De explorar todas as partes do interior do meu corpo. À procura de factos perdidos ou de flores. Ramos de flores. É estranha esta humanidade em todas as suas vontades. Querem sempre chegar mais longe quando podem muito bem ficar onde estão. Quietos.
Hoje de manhã chegou um carro. Vinham duas enfermeiras lá dentro e um homem todo vestido de azul. Um azul que eu nunca tinha visto. Digo azul porque é a palavra que me lembro quando penso nisso, porque não sei bem que cor era aquela. Era bastante desconhecida.
Era azul!
Comecei a ouvi-los ainda vinham a subir as escadas: "Sr. Walser? Vamos passear!", e eu: "Passear para aonde? Não gostavam de me perguntar primeiro se gostava de ir passear? É que ainda não colhi flores. Ia mesmo agora passear, na verdade...", e o senhor de azul:"Sim, vamos passear, vamos levar o carro."
Enfiaram-me no carro e andámos aos solavancos um bom bocado. Aquele azul a ferir-me os olhos e a escorrer para cima de mim, a debotar-me a vista. De repente parámos, estávamos numa terriola no meio de uma colina densa, Kreuzlingen chamava-se assim.
"Venha", disseram-me, "aqui há muitas flores!"
Estávamos na verdade no sanatório Bellevue. E eu já não estava para que me tratassem como uma criança, ou um velho senil, mas deixei-me ir, não valia a pena discutir. Eu não discuto.
Cá fora estava um homem sentado numa mesa com os cabelos revoltos ao vento. Cheguei-me a ele.
"Que está a escrever?", perguntei.
"Escrevo tudo, escrevo a humanidade toda, escrevo o que eles têm de aprender. Escrevo as suas vontades."
"Eu também escrevo, mas vou deixar de escrever. Não vale a pena."
"Daqui para a frente só vai haver isto que tenho nas mãos, nada mais vai ser lido. O resto são flores."
"Gosto de flores", disse-lhe.
"Eu sou o Nijinsky e amo toda a gente. Sei que sentem a minha falta. Por isso escrevo."
"Ouvi falar em si, sim, ouvi, mas não me lembro porquê..."
"Eu também não!", disse Nijinsky.
Pensei continuar, mas não valia a pena, lá estava outra pessoa a fazer-me passar por velho. Ou por criança.
"Venha disse o Sr. de azul, o meu nome é Ludwig, vou mostrar-lhe as minhas flores..."
E assim foi. Mostrou-me as flores. Eram bonitas!»
[DA SÉRIE "Os Encontros Falsos de Rober Walser" - OUTRA COLECÇÃO]