janeiro 03, 2006

Resposta a Beltrano no fôlego de uma querela política

Estava claramente a armar-me em esperto...
«Caro Z.

Sim, tens razão, é um descrença nas virtudes de quem tem as garras do poder - não confundir com desconfiança.
Não quero acrescentar nada. Nem estou, com este meu modo, a perseguir, a correr atrás, ou a pôr em perigo, os objectivos e liberdades de que falas. Não é de todo minha intenção englobar-me nessa tarefa, porque ela vive, na sua essência, dentro de mim. Não é preciso soletrá-la e penso que não era a tua intenção estar a ensinar-me a andar. O que não quer dizer que seja a minha forma de vida, que esteja sempre a rezar para isso. Não. Porque os cidadãos por defeito são uns bichos e gostam que lhes dêem direccções, quando estão libertos só andam à procura de umas algemas, uns ançaimos, e, ouve, estou simplesmente a generalizar.
Isso é tudo muito bonito, essa coisa dos objectivos de uma sociedade, mas é tudo elouquência, um lugar mais que comum, nem te estou a ouvir falar, mas já te estou a ver seguir os passos para dentro da mesma gaiola. É desses discursos sem nada para dizer de que eu fujo. A tua capacidade de argumento baseia-se no atirar com os desfavorecideos para a linha da frente, tornando-os sonantes. Visíveis. Os coitadinhos. Pareces um politicozinho com o mesmo discurso falível que já não convence ninguém. Alegação vulgar e requentada. São esses gajos que se afunilam nos pântanos do poder pensando que estão a levar para a frente o que quer que seja. São simplesmente ridículos. Funâmbulos. Enterram-se e não dão por isso.

Não sei há quanto tempo cá andas mas já devias saber que a teoria escorrega na prática, que uma tese é pura conjectura: são suposições. A realidade é bem diferente, vive de factores desconhecidos. Vive do império do improviso. Da humidade, da erosão, da fertilidade da terra. Das Estações. Não quero dizer que a política seja de todo um processo aleatório. É um jogo. Uma utopia. Um simulacro de situações. Um mundo de boas intenções. E não lhe vanglorio nenhuma eficácia. Corrompe, na maior parte das vezes, o fluxo dessa lenga lenga do tira e mete. Ok, "pessoas na miséria".

Não estou, nem estava, a disparar, respondo a um tom acusatório com uma génese de insulto que usaste na tua espingarda de uma maneira descuidadada. Nem sequer estou sitiado num casulo a desoriente, apenas padeço desse mal de me considerar acima de tudo um cidadão do mundo. Não vivo amarrado a essa coisa da Pátria. A esse acaso de ter nascido no país em que nasci. Tive origem num Planeta todo ele virado para o caos. É dele que derivo. Abres a janela e podes vê-lo definhar diariamente. É aí que reside o meu desassossego.

No meio de toda esta discussão, considero a minha atitude mais válida para a percepção de um movimento ontológico mais claro.
Vale mais um gajo como eu, a viver no rebordo, no abismo de um mundo imaginário, do que cem como tu que se encarrilam nas linhas do empolamento social, que vivem encerrados nas normas. Cheios de medo do que não é servido numa bandeja. Do que não traz carta de recomendação. Do que é repentino e não vem no programa. Das falhas.

Para acabar, quero dizer, para que não te sintas de todo injuriado, que tudo o que está acima é especulativo. A mim move-me o prazer da resposta. Como um exercício. De jogar com esta afectação do confronto de ideias. Atirando-as ao ar. Nesta androginia de termos e de modos que sustem o relacionamento entre as pessoas. Vieste com uma receita eu larguei esta gosma toda. E nisto não estou a deixar cair o que escrevi. Toma-o como quiseres.
Um abraço.

A.

P.S.- "Portugal e os Portugueses" é um conceito de compartimentação da natureza que não me diz nada.»
E com isto só vou dormir seis horas. Damn it!

Publicado por António Faisão | Soluções para o País | 18:01
Comentários

oh sim o blg teve melhores dias mas este aqui é muito muito bom!

Afixado por: fâca em janeiro 10, 2006 09:41 AM