janeiro 02, 2006

Um Plácido Homem

«Estendendo as mãos para fora da cama, Pluma admirou-se de não encontrar a parede. "É boa! Se calhar as formigas comeram-na..." E voltou a adormecer. Pouco depois, a mulher agarrou-o e sacudiu-o: "Está a ver, seu lázaro! Enquanto você se dedicava ao sono, roubaram-nos a casa!" E, na verdade, um céu intacto estendia-se para todos os lados. "Tá! O que 'tá feito, tá feito!'"
Pouco depois, um ruído fez-se ouvir. Era um comboio que avançava sobre eles a toda a velocidade. "Com o ar apressado que tem...", reflectiu, "... chegará com certeza antes de nós", e voltou a adormecer.
Mas o frio acordou-o. Estava totalmente encharcado de sangue. Alguns pedaços da sua mulher jaziam perto. "Com o sangue...", lembrou-se ele, "... surgem sempre não poucos dissabores; se o comboio pudesse não ter passado, que feliz eu seria! Mas visto que passou...", e voltou a adormecer.
– Vejamos – dizia o juiz – como explica que a sua mulher tivesse sofrido ferimentos de tal gravidade (quando a encontraram estava retalhada em oito pedaços) sem que o senhor, ao lado dela, esboçasse um gesto para o evitar, se apercebesse sequer do que acontecia? Eis o mistério. Nele reside todo o caso.
"Por este caminho, não posso ajudá-lo", pensou Pluma, e voltou a adormecer.
– A execução fica marcada para amanhã. Acusado, tem alguma coisa a declarar?
– Queira desculpar – disse Pluma – mas não segui o caso.
E novamente adormeceu.»
por Henry Michaux numa tradução de Alexandre O'Neill

Publicado por O Gajo Novo | Para Sempre | 15:38
Comentários

Finalmente escrevem/se coisas nesta casa

Afixado por: alexis na casa da mata em janeiro 3, 2006 10:02 AM

o maravilhoso Pluma :)

Afixado por: cristina em janeiro 2, 2006 04:16 PM