dezembro 19, 2005

O Handover foi há 6 anos

Para comemorar essa data, da transferência de poderes, deixamos aqui um texto da autoria de um amigo nosso.

A História pede sempre mais branco

"Crente é pouco
sê-te Deus
e para o nada que é tudo
inventa caminhos teus."
in O Verdadeiro Almanaque Borda D’Água

Rocha Vieira«Não sei bem o que me deu, mas deu-me para aqui, para abrir este baú. A verdade é que acordei a pensar em histórias que passaram por este pequeno canto do planeta, no horário mais nobre. O passado de certo modo é mesmo um lugar longínquo, o passado que se evaporou dentro de uma bandeira carregada ao peito, e agora são apenas os curativos a deixarem o seu rasto, a plastificarem a cicatriz. A enterrar as vigas. Tudo tão vago, tão efémero, que até parece ridículo. A História a deixar de ter importância. Eram outros os actores, os desígnios, as farpas. Penso que aqui tudo o que aconteceu, e nos dias que correm, não tem importância alguma. Tudo o que existiu deixou de existir depois da passagem de testemunho. Depois da chave do estabelecimento passar para outras mãos. As mãos da terra. Das gentes da terra, como é vulgar dizer-se. Foi tudo para a incineradora ou então levado na bagagem das velhas senhoras, assim à sucapa. Dentro das gavetas da mobília, disfarçado entre os serviços de porcelana e as imitações fraudulentas do que em tempos foram carteiras de marca. Foi assim que alguns sairam, com o rabo entre as pernas. E no fundo não tinha importância nenhuma, o que levavam, o que deixavam. Era igual. É tudo indiferente, agora.
Ficou essa cara lavada a que se chama património. A herança. Mas uma herança orfã. O testamento caducou há muito e ninguém o reenvindicou. E o que resta são as fachadas, as paredes que dão para a rua, limpas e bonitinhas, que são a imagem da miscigenação de todo este aparato. Da mestiçagem do território. Que se despenhou antes de chegar ao fim da sua rota de colisão. E agora fazemos parte de toda a Humanidade. Agora somos universais. Nesse dúbio sentimento de amor e ódio. De uma ressaca que não se sabe se aconteceu por ontem ou por hoje. Talvez viva na presunção de um amanhã mais funesto que nunca chegará. É sempre a queda para a desgraça, a que o povo tanto se habitua.
Indiferente ao caos urbanístico, indiferente ao que faz mover todo este estrado, ao subterrâneo do jogo, sente-se qualquer coisa no ar, qualquer coisa que floresce, um boião de novas frentes, o fervilhar de uma vida cultural mais intensa. Pessoas que se mexem e que criam uma nova onda. Um manifesto. Um susbstrato. É aí que jorra o presente, é aí que quero esbarrar e, por consequência, estatelar-me ao comprido.
Mas hoje fala a História. O resto virá depois. Decerto, todos os que presenciaram o passado já cá não estão. A maioria deles foi na debandada, nesse reverso da diáspora. Na esperança de plantar novas sementes no solo que os viu nascer, regressar à presença das origens, ao reconhecimento de um conforto perdido, e reiniciar de novo o sistema que os opera. Partir e dar de novo. Deixar para trás o passado distante, essa coisa velha. Tão distante. De pernas para o ar.
Uma ínfima percentagem, dos que cá estão, poderá ainda lembrar-se de uma coisa ou outra, não de tudo. Lembrar-se dos que foram. Do que por cá ocorreu. Alguns entretanto regressaram, e a esperança de despertar o poço das memórias acorrentou-lhes os dias. Falo sempre de um plural imaginário, de um grupo de gente sem face, como se estivesse a refugiar-me neles, a esconder-me do resto do mundo. A tentar argumentar com o escuro de um colectivo desconhecido. Como se soubesse muito bem o que eles pensam, o que fizeram, onde estão. Como se todos eles pudessem pensar em conjunto. Estou só a ganhar tempo, aqui, a ganhar espaço, a deturpar ideias, atirando-as ao ar. Vamos a isto.

Era assim antes da Transferência. Existia um Governador que governava no seu Palácio. Um Palácio cheio de súbditos. De grandes salões onde por vezes se faziam bailes e se dançava a noite toda até ao raiar da aurora. Bebia-se, comia-se e ainda se fazia o resto, num vão de escadas, ou nos aposentos da rainha. Era uma vida bela: uma rebaldaria! O Governador aos domingos saía na sua carruagem, com os seus oito cavalos brancos à trela, e circulava pela cidade onde se misturava com o povo. Levava doces e boas novas. Versado nas línguas e dialectos locais conversava com os anciãos e ouvia as suas preces, os seus conselhos, bebendo ao mesmo tempo a sua sabedoria. De noite regressava em extâse e mandava tocar os sinos das igrejas para mais uma festa. Só porque lhe apetecia. E o povo, do Norte ao Sul, subia até ao Palácio para de novo desfrutar das suas iguarias e da bondade do Governador.
Foi sempre do mesmo modo, a linhagem de governantes assim o impunha. De pais para filhos, depois para netos, os ensinamentos eram sistemáticos e aprendidos com prazer. Com tenra idade os filhos titubeavam tanto em latim como em mandarim ou em cantonense, mais tarde, já direitos e sem deixar cambalear a língua, prosseguiam até ao dialecto de Fukian. E era uma rica vida. Aos dez anos eram uns pequenos confúncios e até à idade adulta rumavam para os confins da China para aprender a suas doutrinas milenares. Religião, ética e dialética. Quando se entronavam governadores, por unanimidade do povo, estavam preparados para encontrar o Buda no topo do Monte da Guia a qualquer hora do dia, bastava querer, bastava olhar. Bastava sentir. Mas isso já lá vai.

Hoje, quando abri a janela e deixei entrar a luz deste novo dia, lembrei-me foi de outra coisa, que me despertava uma enorme atenção e curiosidade: As Reuniões. Foi isso que me rompeu a nostalgia e me revolveu a insónia pelo dia fora. Foi isso que me fez abrir o baú.
As Reuniões tinham lugar na fronteira, num velho tribunal situado na estação de comboios. Uma terra de ninguém mesmo ali a dois passos das Portas do Cerco, onde está ainda a fronteira com o imenso continente chinês. Era preciso muito espaço. Terrenos baldios. Para as tendas dos consortes. Na sala, apinhada de gente, e com ventoinhas que rodavam num silêncio ensurdecedor, o Governador reunia-se com todas as espécies de tribos das redondezas. Com todos os reis, todos os chefes, todos os capitões e cabecilhas de regimentos. De grandes agregados populacionais ou ínfimas aldeias perdidas nas estepes. Vinham das serras, vinham das cordilheiras, dos vesúvios, alguns para lá das cordilheiras Himalaicas. E chegavam durante a semana, ao longo dos dias, e acampavam, com os seus bois, os seus caldeirões, e por ali ficavam. Nessas alturas as festas mudavam-se para essa Terra de Ninguém, era aí que o sol nascia, e a coisa fazia-se atrás de qualquer arbusto, de qualquer moita, num pequeno montículo de areia onde se sentava o rabo dessas convivas de buço proeminente que tanto excitava os homens da cidade.
Dentro da sala, no grande dia d’A Reunião, todos se sentavam em pequenas carteiras de escola. Tudo falava. Tudo conferia as suas histórias e os seus tormentos. Os descendentes de Genghis Kan impacíveis, envergando sempre os seus barretes, eram os que inpunham maior respeito. Eram os únicos que se arrojavam a beber café e a comer um pastel de nata. Grandes homens. Atrás deles, estavam sempre os filhos dos eunucos, esses roedores de mares, uma velha guarda que apenas escutava o que se dizia, encostados às paredes a fumar cigarros. A primeira fila era ocupada em toda a sua extensão por um grupo de portugueses continentais, era o seu lugar cativo. Homens de bigode que ganhavam uma pipa de massa só por estarem ali, só por se fazerem representar, sem nada perceber, sem nada sentir. A maioria era motorista de táxi na Damaia, na Amadora ou assim, e vinham só para fazer número. Para jogar às cartas quando aquilo tudo terminava. E, claro, partilhar os garrafões de tinto.
E a coisa passava. Falavam todos em código. O Governador dava sempre o mote. De cor. Sem discurso gravado, era tudo improviso: "Fulano que bem conheço / é pior que lacrau / mas talvez se eu for melhor / ele se torne menos mau.", era assim que eles falavam, era assim que As Reuniões se passavam. E no final faziam todos festas uns aos outros. Eu andava lá pelo meio, metia-me com as gentes, escutava-lhes o coração. Era lindo. Mas o pior eram os mafiosos.
Os mafiosos andavam atrás de mim, olhavam-me de lado, porque eu lhes escutava os corações e eles diziam que não tinham cá isso, eles eram todos feitos de seiva de Dragão. Eu ria-me e brincava com eles, enquanto o Ajudante de Campo do Governador apertava o gasganete a algum mosquito que passava, e eles atiravam-se ao ar. Nunca mais me esqueço, uma das vezes, fartos de tanta palhaçada, perseguiram-me pela cidade fora. Perseguiram-me de mota, às dezenas, e eu na minha pequena Zundapp pisgava-me pelos becos mais escuros e pelos viadutos mais sombrios que compunham o ziguezaguear urbano do território. Era uma situação tramada. Dias depois já ninguém se lembrava disso e a vida prosseguia o seu rumo.

Eram outros épocas. Não sei porque me deu para isto, não era suposto. Há coisas que não vale a pena abrir, é deixá-las fechadas a navegar nos mares do esquecimento. Agora nada importa. Os tempos são outros. Tudo mudou e quem cá está pouco se importa com quem esteve. Segue-se para bingo ou para onde calhar, é sempre o jogo que fala mais alto. É o que vale. E é assim que isto acaba, para o caso de não terem percebido. As luzes que se acendam. Que se apague o cigarro.»
por Ring Joid - publicado no Jornal Hoje Macau em Dezembro de 2004.

Publicado por eLustre Convidado | Espaço 1999 | o 35 de Abril | 16:12
Comentários

online directory main

Afixado por: puk4q14@ebay.com em abril 24, 2006 10:43 PM

gostei!
e de te ver há 6 anos tb. de não dormir, de me enfiar no carro mais uns 7 e tudo isso.

Afixado por: a tua assussora em dezembro 21, 2005 05:08 PM