dezembro 14, 2005

Peço silêncio para as minhas palavras

Imagina o que nós dizemos aos outros e como eles mudam de sentimentos. Falamos para o mundo e eles julgam-se o mundo. Imagina como eles sacodem o coração quando as palavras que ouvem ou lêem começam a roer a admiração que têm por nós. Deixa, isso sou eu a pensar porque não tenho mais nada que fazer. Apetece-me desmontar pessoas. Sim, pessoas que eu descobri serem falsas por ordem de algumas palavras que disse ou escrevi. Falei disso a alguém e sabes o que me disse? Quem escreve sobre as pessoas dessa forma depravada e injusta corre o risco de se perder numa imagem desumana criada por si. Então eu tinha um dia negro à minha espera. Lembrei-me quando era uma criança e escrevia no profundo da minha ingenuidade. Escrevia sobre o ódio, mas o ódio que eu escrevia era natural demais para ser um sinal perigoso para ser destruído pelos outros. Imagina agora como posso eu ser diferente se o mal do que escrevo está gravado nos outros. E tu sabes que eu só escrevo como se fizesse uma limpeza emocional naqueles que realmente amo. Tenho este hábito de recuperar o humano para me alimentar dos seus fracassos. Estou onde está o sofrimento, tu sabes, mas as palavras são ainda a minha defesa. Sempre quis saber muito sobre os outros, muito para além do humano, e agora julgo não saber nada sobre mim, nada numa terrível consciência de viver por eles as suas tristezas. Quem me lê não imagina o sofrimento que foi preciso condensar num tempo escrito para que tudo voltasse a ter uma vida que escapasse à ficção de existir no meu pensamento. Peço silêncio para as minhas palavras.
em Escrita Ibérica

Publicado por O Escriturário | Nenhum | 3:32
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