"Las calles" é o primeiro poema de Fervor de Buenos Aires, que é o primeiro livro das Obras completas de Jorge Luis Borges, com os versos numerados de cinco em cinco:
LAS CALLES
«Las calles de Buenos Aires
ya son mi entraña.
No las ávidas calles,
incómodas de turba y de ajetreo,
5 - sino las calles desganadas del barrio,
casi invisibles de habituales,
enternecidas de penumbra y de ocaso
y aquellas más afuera
ajenas de árboles piadosos
10 - donde austeras casitas apenas se aventuran
abrumadas por inmortales distancias,
a perderse en la honda visión
de cielo y de llanura.
Son para el solitario una promesa
15 - porque millares de almas singulares las pueblan
únicas ante Dios y en el tiempo
sin duda preciosas.
Hacia el Oeste, el Norte y el Sur
se han desplegado – y son también la patria – las calles:
20 - ojalá en los versos que trazo
estén esas banderas.»
(Obras completas, p.17)
Os versos livres organizam-se em quatro frases, conforme indica a pontuação. Uma segmentação sintática ressalta na primeira leitura.
É lapidar a primeira frase. Ela estabelece a metáfora da identidade intestina ante a cidade, dado que ganha relevo por se tratar da primeira frase do livro que traz no título a temperatura de "fervor", nada distante de nação nem de "entranha".
A segunda frase, versos 3 a 13, é atrelada à primeira pela elipse da expressão "son mi entraña", silenciada, conforme indicam as repetições minhas entre colchetes, em: "No [son mi entraña] las ávidas calles"; "sino [son mi entraña] las calles desganadas del barrio"; "y [son mi entraña] aquellas más afuera". Encontram-se na frase as definições e descrições de três tipos diferentes de ruas: as "incómodas", as "desganadas" e as que se localizam "más afuera". A riqueza da adjetivação rejeita, seleciona e especifica uma planta baixa das ruas do centro, dos bairros e dos arrabaldes. Delimitam-se as ruas de "mi entraña" entre as do segundo tipo e, principalmente, entre as do terceiro, mais periféricas.
Na terceira frase, as ruas delimitadas são mais caracterizadas. Constituem uma promessa para milhares de almas singulares. Na quarta frase, as ruas tornam-se, pelos gestos verbais, bandeiras e a pátria. Entretanto, um desejo poético e inicialmente ufanista sobessai: o de que elas, bandeiras e pátria, estejam nos versos traçados.
Mas os versos de "Las calles" acumulam outra divisão, mais rítmica. São vinte um versos que se apresentam em três movimentos – versos 1 a 7; versos 8 a 14; versos 15 a 21. E uma construção anafórica sustenta a tripartição. Três células distribuem-se pelas três partes rítmicas, de sete versos cada, traçando o ritmo poético fundamental:
Las calles... ya son mi entraña (v. 1-2)
[las calles] Son... una promesa (v. 14)
- y [las calles] son también la patria - (v. 19)
Observem-se os vinte e um versos de "Las calles" divididos pelo ritmo dos três movimentos assinalados com sete versos cada. A tripartição não corresponde à seqüência das quatro frases do poema. Os versos é que se ordenam em três movimentos. Com esta última palavra, não se pretende falar do "ajetreo" ou azáfama a que estaria remetendo a composição instrumental "Aire de Buenos Aires", Astor Piazzola, com arranjo para o seu próprio bandoneón dialogar com o saxofone-barítono de Gerry Mulligan (Summit, disco de Piazzola e Mulligan). Para essa composição existiria um referencial urbano, de agitação, expresso pelos solos de timbres opostos: o sopro grave do sax e o resfolego manual agudíssimo do bandoneón. Em passagens, os dois parecem perseguir-se alternadamente, por variações ascendentes e descendentes que perfazem acordes e que desenham a melodia. Mas os movimentos das ruas do poema, ainda que ritmicamente trabalhados nas palavras, não são tomados ao jargão musical. Trata-se de movimentos plásticos, desenhados pelas imagens verbais da visualidade. "Invisibles, "penumbra", "ocaso", "abrumadas", "honda visión" e os pontos cardeais são expressões que trazem maior vibração às ruas de "los versos que trazo" (não dos que canta), que os ruídos rechaçados no quarto verso, os das ruas de "turba" e "ajetreo".
O primeiro segmento de sete versos contém uma proposição encerrada no dístico inicial. Tempo ("ya"), essência ("son") e substância ("entraña") impregnam, com as quatro palavras do segundo verso, a expressão subjetiva intensificada pela posse ("mi"). Um segundo dístico (versos 3 e 4) avança no traçado de um silogismo: nem todas as ruas o são; excluam-se as incômodas, perturbadas e azafamadas. Os três versos seguintes fecham o primeiro movimento alterando o dístico – heróico, popular, descendente da oralidade medieval – para o ritmo do terceto, que confirma a expressão silogística, de sabor antigo e clássico. É então que a negação das ruas ávidas se completa. Surge, ao lado das oposições explícitas ("desganadas" contra "ávidas"), outra, implícita e básica: as ruas "del barrio", opostas, no verso 7, a seu paralelo rítmico anterior, que é o verso 4. Observemos a aproximação deles:
incómodas de turba y de ajetreo (v.4)
enternecidas de penumbra y de ocaso (v.7)
Os ruídos cedem ao visual obscurecido expresso pelos nomes "penumbra" e "ocaso". Ternura toma o lugar do incômodo das ruas ruidosas. O segundo movimento, contido nos versos que vão do 8 ao 14, apesar da descontinuidade apresentada pela pontuação, fala de outro tipo de ruas, as mais distantes ainda, aquelas que se perdem na visão não-visual. A "funda visão" fala de saber e de sentir, sugeridos pelos espaços amplos dos paralelos não opostos, como os do céu e do chão. O desenho desse plano contém as sugestões, contextualizadas em outras páginas do autor, como infinitude e eternidade. "Ávores alheias e piedosas" e "casinhas austeras", traduzo, não só negam as ruas do centro como a tradição poética que opunha campo a cidade, bem como deslêem os versos avassaladores de Charles Baudelaire ("Correspondences", Les fleurs du mal, p.11-12), que fala da natureza como correspondência a um templo de "pilastras vivas", e que embaralham o natural junto com a artificial alvenaria urbana. Este movimento afirma o espacial através da amplitude da Buenos Aires que tocará todo o pampa das Obras completas, que se segue ao poema em questão e ao livro em que se acha. A visão embaçada suplementa-se com a razão com o sentimento de solidão. Este sentimento que se sustém na "promessa", tão metafísica quanto nada transcendente, apesar de ser também uma promessa abraâmica. Céu e terra prometida são, antes, a inserção de Buenos Aires em reinos e mitos fundadores ancestrais e vários. Quanto ao décimo quarto verso, vê-se-lhe a estrutura anaforicamente com o dístico inicial. [As ruas de Buenos Aires] são uma promessa.
Três vezes sete, os sete versos finais completam cabalisticamente um silogismo e um ritual de estabelecimento de fronteiras, inicando uma obra de fundação mítica de Buenos Aires. Consulte-se outro poema de Borges intitulado "La fundación mítica de Buenos Aires" (Id.p.81). "Singulares" e "únicas" intensificam a descoletivização. As almas fazem parte do reino desse "Dios" e são filhas desse "tiempo" as almas que não marcham com a turba nas ruas centrais. No terceiro movimento desenha-se um mapa, do ponto de vista de leste (ou do distanciado, ou do Oriente). O verso 18 exclui o Leste, donde falaria o eu. Esboça-se, então, nos três últimos versos, o anseio de que as ruas, as desejadas, se estabeleçam como os versos a traçar. Bandeiras, ruas, versos e pátria se diluem e se fundem na forte hipálage da forma verbal "se han desplegado" (v.19): as ruas é que se despregaram, que se estenderam como bandeiras.
Ao desdobrarem-se as ruas em bandeiras e pátria, essas ruas de almas solitárias falam de uma procura de expressão temática. A leitura de "Las calles" pretende demonstrar que a animização de ruas e de efeitos recíprocos em almas contidas em pessoas não abrirá caminho apenas para uma teogonia, uma fé cristã, judaica ou panteísta. As metafísicas agenciadas em versos ou prosas de Borges não são transcendências corriqueiras, mas recursos experimentais de representação, nascidos nas fronteiras fertilíssimas da vigília, do sono e do sonho.
Traçar versos, como traçar um mapa, é uma tarefa ritualística para Borges. Entretanto, não há ritualização de uma nacionalidade referencial, de uma identidade portenha, nem da elevação de Buenos Aires e seus prolongamentos por todos os quadrantes da pátria, até um concerto universal, conforme faria supor o tom de solenidade que perpassa os versos. Trata-se, isto sim, segundo o poema, de ritualizar uma dramaticidade das ruas povoadas por almas solitárias, descoletivizadas, expurgadas do Obelisco ou da Plaza de Mayo, espaços de tantas reivindicações patrióticas. Sobretudo, trata-se de ritualizar, sem teogonia ortodoxa, o traçado de versos labirínticos, através de pontos cardeais aparentemente orientadores. O traço é um lance do grande jogo com mitos e arquétipos. Poemas, autobiografias, contos, prosas curtas, prólogos e epílogos devem ser aqui, estrategicamente considerados sob um mesmo estatuto de leitura. Por isto, observemos dois contos e alguns dos mecanismos do que seria a própria invenção, sem perder de vista o fato de que outros nomes urbanos, que aparecerão nos relatos, deixem de ser o da invenção de uma Buenos Aires por Borges.
Excerto de "A invenção de Buenos Aires" um ensaio de CLAÙDIO LEITÃO