«As ruas de Buenos Aires
estão já dentro de mim.
Não as ávidas ruas, incómodas pla turba e pela azáfama,
mas sim as ruas monótonas do bairro,
quase invísiveis de tão habituais,
enternecidas de penumbra e ocaso,
e as outras mais longe,
alheias, de árvores piedosas
onde austeras casinhas mal se aventuram,
enevoadas por imortais distâncias,
perdendo-se em recôndita visão
de céu e de planície.
São para o solitário uma promessa
porque milhares de almas singulares as povoam,
únicas perante Deus e no tempo
e decerto preciosas.
Para o Oeste, o Norte, e o Sul
estenderam-se - são também a pátria - as ruas;
oxalá nos versos que desenho
estejam essas bandeiras.»
J.L.B. em "Fervor de Buenos Aires" / 1923
Este são os primeiros versos publicados por Jorge Luis Borges quando tinha 24 anos. As ruas. Compreendo que Borges se estende para lá da orla de Buenos Aires, para lá do seu espaço, da sua turba. Não é isso que vem da veia do poeta, que romanceia o amor pela nostalgia da terra. Para mim pode ser uma cidade qualquer, de Calcutá a Portland. O que fica são as ruas que temos dentro de nós, que se transportam coladas aos fígados.
O tradutor, Fernando Pinto do Amaral, substituiu a palavra "entranha", no original, por "dentro de mim". O que não acho correcto, a frase "As ruas de Buenos Aires já são minha entranha" diz muito mais do que o reduzido softcore aplicado do tradutor.
Ao fim de tanto tempo, um poema, como uma rua, ganham outra forma, estendem-se para lá da forma inicial, a de ligar uma ideia à outra, um espaço ao outro. "As ruas" de Borges são as ruas do mundo inteiro, numa rua só. A rua que cobre qualquer verso - todos os que por todos foram escritos - de uma ponta à outra. Como uma névoa de eterna e imortal distância.