Leio tudo trocado, logo na primeira frase, e começo logo a acelerar a passar para um outro campo. As coisas não querem dizer muito, mostram apenas um acto, só que vejo de modo diferente, sou estrábico, e à segunda frase já não estou a ler o mesmo texto. Já estou a imaginar castelos, a imaginar ventres a rebolar por cima do meu olhar... por cima de mim...
A frase era assim: "Lido no interior da América do Sul...", referia-se a alguma coisa que foi lida no interior da América do Sul, neste caso a "A Língua Absolvida" de Elias Canetti, trata-se de um ensaio sobre o autor, só que para mim é alguém já com um chicote na mão a desbastar rochedos no meio de uma floresta Amazónica qualquer. A lidar por entre os bosques cheios de gibóias e árvores tropicais, e até não, até pode ser outra coisa, uma aldeia esquecida no interior desse continente de expressão latina.
No que lhe segue, "... ressalta n’A língua absolvida, o universo paradisíaco dos livros que firmaram a tradição oral em letra impressa.", já eu vou de cabeça perdida, com a língua a molhar um universo paradisíaco, a firmar o que falo em escrita. Em tatuagens no lado de dentro da pele.
E o resto é o que é, é literatura, é o que se lê. O que se lê é um espaço infinito. Uma palavra nunca é a mesma. Tem milhares de caras diferentes, de expressões, de leituras. De lidas.