novembro 29, 2005

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«Quero deixar escrita uma confissão, que ao mesmo tempo será íntima e geral, visto que as coisas que acontecem a um homem acontecem a todos. Estou a falar de algo remoto já perdido, os meus dias de anos, os mais antigos. Eu recebia prendas e pensava que não passava de um menino e que não tinha feito nada, absolutamente nada, para as merecer. É claro que nunca o disse; a infância é tímida. Desde então deste-me muitas coisas e são muitos os anos e as lembranças. O pai, Norah, os avós, a tua memória dos antepassados - os pátios, os escravos, o aguadeiro, a carga dos hussardos do Peru e o op
obrio de Rosas -, a tua prisão corajosa quando muitos de nós homens nos calávamos, as manhãs do Passo do Moinho, de Genebra e de Austin, as compartilhadas claridades e sombras, a tua fresca anciadade, o teu amor a Dickens e a Eça de Queirós, mãe, tu mesma.
Aqui estamos a falar os dois, et lout le reste est littérature, como escreveu, com excelente literatura, Verlaine.»
Dedicatória de Jorge Luis Borges à mãe, Leonor Acevedo de Borges, no volume I da edição da Teorema das suas Obras Completas.

Leio isto e penso no verdadeiro significado de uma Obra Completa se não será apenas uma confissão que se faz a alguém, uma prenda que se devolve, em dedicatória. E ao percorrer todo esse caminho dos dias e horas se vai vivendo, sem consciência disso, em função de alguém - tudo o que fazemos fazemos por alguém - nas sobras de uma vontade que não conhecemos bem. Talvez Borges estivesse só a nomear uma pessoa a quem se confessar, alguém que no resto da sua sabedoria - no resto da sua função de se dar a outro - sobra de toda uma vida, a mãe.
O que fica de uma vida - de uma Obra Completa - é o começo dela, é a consciência da verdade que nos gerou, a verdade física. E o resto, para além de ser literatura, é um desvio onde raramente se encontra a direcção acertada. É uma ida sem destino à espera de um encontro com esse sublime que muitas vezes ganha forma na presença de outro ser como nós. Um corpo, uma mente, uma imaginação qualquer. Alguém a quem nos podemos confessar e dedicar por completo.
E o mundo, por vezes, é pequeno para isso tudo. Ficam os livros, fica a tentativa, fica a dedicatória. Fica o amor.

Publicado por O Homem do Leme | Para Sempre | 3:44
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