novembro 19, 2005

Wonderland II


«Mas ao Joseph não conheço porque não conheci o pai dele. (...) Talvez uma divindade venha viver para a terra de vez em quando.Ele sobrepõe-se com força á visão confusa, tem a calma das montanhas e as suas emoções são tão selvagens, ferozes e vivas como relâmpagos, e tão destituídas de racionalidade quanto eu me possa ter apercebido (...) A sua figura crescera até se tornar enorme, até ser maior que as montanhas, e a sua força parecer-se-á com o irresistível impulso de vento. (...) Não se consegue conceber o Joseph a morrer. Ele é eterno. O seu pai morreu e isso não foi bem morrer, (...) garanto-te que esse homem não é um homem, a não ser que seja todos os homens. A força, a resistência, o longo e laborioso raciocínio de todos os homens, e também toda a alegria e sofrimento. (....) Ele é tudo isso, um repositório de um pedacinho de cada alma humana e, mais que isso, um símbolo do espírito da terra».

No momento em que a seca parece ter chegado à própria clareira, Joseph teve o intuito de fugir ou desistir. Contudo, sacrifica-se pela terra. Com uma faca corta as veias dos pulsos e o seu corpo «subiu ao céu e dele tombou a fustigante chuva. «Eu devia ter sabido – murmurou. – a chuva sou eu!) (...) Sentia a chuva cair e ouvia-a fustigar o sois Via os outeiros escurecerem com a humidade». A vida regressa com a chuva, a terra está salva, o povo de Nuestra Señora sai para a rua a festejar euforicamente.
«A expressão faminta dos seus olhos tornou-se voraz, ao contemplar o extenso vale verde. A ganancia que o dominava transformou-se em paixão. 'É minha – murmurou. – Até às suas profundezas, pertence-me; até ao centro da terra'. (...) Deixou-se cair sobre a relva húmida, apoiando com força o rosto contra ela. Apertando-a com dedos convulsivos, arrancava-a e voltava a apertá-la. As suas coxas batiam com mais força no solo. (...) Durante um momento a terra fora sua amante».
No centro de uma clareira embutida numa floresta densa existia uma rocha, «tão grande como uma casa , misteriosa e enorme. Dava a impressão de ser sábia e destramente talhada. (...) Parecia um altar que se tivesse fundido e rolado sobre si mesmo. Num dos lados da rocha havia uma pequena gruta (...) e dela corria silenciosamente um fio de água». Joseph, apesar de nunca ter visto a rocha, pensava tê-la visto algures, «talvez num sonho». E diz ao irmão: «Isto é sagrado e... muito antigo».

In A um Deus desconhecido de Jonh Steinbeck

Publicado por Mohamed Ali | Barros na Parede | 16:10
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