Os hábitos de leitura dos portugueses permanecem reduzidos. O preço do livro continua a ser o argumento mais utilizado para não o adquirir. Mas os livreiros do Porto insistem em contrariar a tendência, abrindo mais livrarias, desafiando a concorrência de cadeias como a Fnac, apurando o stock, complementando-o com actividades paralelas de incentivo e divulgação da literatura, apostando ferozmente no atendimento personalizado.
Hoje, a livraria Latina, na Rua de Santa Catarina, no Porto, reabre as portas numa casa elegantemente restaurada e ampliada. "Hoje, há menos gente a estudar, mas mais gente a ler. Aliás, só não lê quem não quer", defende, optimista, o proprietário, Henrique Perdigão, rejeitando a teoria do preço inflaccionado. "O que é que não é caro, actualmente?"
No sábado, foi inaugurada a livraria Index, na Rua D. Manuel II, perto do Palácio de Cristal. O espaço, vanguardista, com dois pisos luminosos, pintados de branco e verde alface, polvilhado de poufs transparentes de esferovite, beneficia os clientes com um bar e uma esplanada que, à semelhança do que acontece nas mais cosmopolitas cidades europeias, deverá estar aberto, mesmo no Inverno.
"Hábito faz consumidor"
O conceito preconizado pela Index, explica Justa Barbosa, co-proprietária, "é fazer com que as pessoas se sintam confortáveis aqui. Quero que percebam que isto é um espaço informal; que podem pegar num livro e levá-lo para a mesa para folhear, sem terem que o comprar. O importante é criar hábitos de leitura. Daí, a nossa preocupação em ter um espaço reservado para as crianças. O hábito fará o consumidor."
E acrescentou, para justificar o que diz ser a mais-valia da casa "O mercado está cada vez mais afunilado em dois sentidos: há livrarias muito tradicionais, que não conseguiram reagir à expansão das "Bertrands" nem ao surgimento das Fnac; e, depois, há essas cadeias, que são incapazes de responder às solicitações do cliente mais exigente. Queremos criar um ponto de equilíbrio entre esses dois pólos; ser uma espécie de Amazon, mas não virtual. O que as pessoas procuravam na Internet, encontrarão agora nas nossas prateleiras", garante. E dá um exemplo: "A área da Saúde está sempre em actualização. Não podemos ficar constantemente à espera das edições portuguesas. Vamos privilegiar os livros estrangeiros e as editoras mais alternativas."
O público-alvo está bem definido "É aquele que não encontra resposta na oferta existente. Pessoas que acabam os cursos superiores e têm necessidade de estar permanentemente actualizadas."
Justa Barbosa desvaloriza a crise económica e a sua eventual repercussão no mercado livreiro "Não me assusta nada a ideia de abrir uma livraria nesta altura, porque não me identifico com essa tendência, tão portuguesa, de ficar fechada em casa à espera que sejam os outros a dar o primeiro passo. Além disso, há sinais claros, na cidade, de que as pessoas estão dispostas a reagir a esse torpor generalizado."
A partir de Janeiro, a Index irá promover uma programação regular com colóquios para públicos alargados. "Queremos trabalhar sobre toda a literatura que não seja best-seller apostar nos fundos de catálogo, nas ciências da saúde, na arte e na arquitectura e, sobretudo, na área financeira." Antes disso, já a partir desta semana, a livraria irá "testar a receptividade das pessoas", abrindo às quintas à noite. Os livros têm sempre 10% de desconto.
"A crise é fortíssima"
Mas nem só de livrarias com design moderno, recentemente inauguradas ou sujeitas a lifting, é feito o mercado do livro no Porto. A livraria Lello, considerada uma das mais belas do Mundo, "nunca perdeu o comboio", assegura, orgulhoso, Braga Lello, à frente da casa há 11 anos. "A crise é fortíssima, mas nunca paramos de subir as vendas. Temos cerca de 120 mil referências nacionais e estrangeiras, contra as cerca de 40 mil que povoam as outras cadeias. Apostamos no atendimento minuciosamente personalizado, no aconselhamento, na troca de impressões, e isso tem feito toda a diferença", sustenta.
O aparecimento de novas livrarias tradicionais prejudica o negócio? "Não acredito que vá acontecer, mas deviam aparecer muitas mais. E deviam criar-se cursos, como os que existem em França desde 1970, para formar livreiros. Assusta-me que possamos desaparecer."
Herculano Lapa, responsável pela livraria Utopia, especializada em literatura política e marginal, corrobora "É um equívoco pensar que falta de dinheiro gera falta de leitores. Quem gosta de ler, lê sempre."
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Afixado por: em novembro 4, 2005 09:38 PM