Por Duarte Barral
«Numa altura em que o vírus influenza tipo H5N1 assume lugar de destaque em todos os noticiários, vale a pena tentar perceber melhor como funcionam os vírus e reflectir um pouco sobre porque é que estes são tão bem sucedidos na Natureza e nos causam tanto receio. Esta reflexão torna-se ainda mais interessante quando tomamos conta que os vírus, que são constituídos “apenas” por proteínas que envolvem um pequeno número de genes, estão no limiar de serem considerados organismos vivos, por não cumprirem alguns critérios clássicos da definição de vida, como a auto-replicação. E isto porque um vírus, para se multiplicar, tem que obrigatoriamente infectar uma célula viva. Ao infectar uma célula, o vírus apropria-se da sua maquinaria e literalmente põe-na a funcionar para se replicar, gerando um grande número de cópias que permitem ao vírus propagar-se às células vizinhas, destruindo, no processo, a célula hospedeira.»
«Ao longo da evolução os vírus desenvolveram estratégias notáveis para serem melhor sucedidos neste processo: alguns possuem modificações das suas proteínas semelhantes às das células hospedeiras, o que lhes permite usar da melhor forma uma maquinaria estranha. Outros bloqueiam e impedem a resposta imunitária da célula infectada para não serem detectados pelo sistema imunitário.
Dentro das estratégias que os vírus adoptam, uns são demasiado letais, como o Ébola e matam o hospedeiro rapidamente. Estes vírus tendem a ser eliminados rapidamente por não se poderem propagar. Mas há outros, como o HIV, que ficam latentes durante um longo período de tempo, permitindo o contágio eficaz entre hospedeiros. Mas não se pense que o Ébola não é tão bem sucedido, pois no animal que lhe serve de reservatório, e que permanece desconhecido, este vírus propaga-se sem prejudicar o hospedeiro, mantendo-se assim presente na Natureza.
Estes exemplos levam-nos a uma questão intrigante: não sendo os vírus organismos vivos, na definição clássica do termo, como podem ser tão bem sucedidos entre os organismos vivos? A resposta é, porventura, a sua evolução. De facto, os vírus têm uma taxa de mutação elevada e é possível gerar um novo vírus no espaço de décadas. Por isso se teme tanto que o H5N1 possa sofrer mutações e adaptar-se à propagação entre humanos. Esta alta taxa de mutação implica que se tenham de desenvolver constantemente novas vacinas contra o vírus influenza e que, por exemplo, a vacina contra o HIV continue a não existir. Se tivermos em conta que as drogas anti-virais disponíveis são poucas e de eficácia limitada percebemos porque é que entidades tão simples continuam a causar-nos pesadelos e a aparecer nas primeiras páginas dos noticiários. Apesar de tudo, as vacinas continuam a ser as armas mais poderosas de que dispomos contra alguns vírus e já permitiram erradicar a varíola e, eventualmente, permitirão a erradicação da poliomielite e outras doenças graves. Ao permitir “educar” o sistema imunitário para reconhecer e debelar rapidamente certas infecções virais, as vacinas dão uma preciosa ajuda a este sistema de vigilância fantástico que, ao evoluir juntamente com os vírus, aprendeu a combatê-los e, também ele, desenvolveu estratégias que são tão admiráveis quanto as dos organismos que combate.»
in Ciência Hoje