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[A nossa querida Madame Satã está de luto!]
«Nós pensávamos, eu e o Virgilio, que haviamos encontrado a fórmula mágica para o Amor.
Tanto ele como eu, necessitávamos do nosso espaço, de podermos acender a luz às quatro da manhã, para ouvirmos uma musica ou para continuarmos a ler aquele livro. Por isso, cada um de nós, arrumava os seus sapatos em sua casa, e então, chegava o Amor, e um de nós, qual adolescente namorado, corria, ora agora para a casa de um ou de outro, e viviamos a nossa noite, a nossa tarde, ou até, a nossa manhã de Amor. Um Amor tranquilo, que parecia não ter data limite. Um Amor vivido sem as discrepâncias 'normais' da comezinha discussão do 'deixaste a tampa da sanita com pingos de xixi'. Um Amor que acreditávamos, depois de treze anos de Plena Existência, sobreviveria até à nossa Morte. Porque não haveria o desgaste. A maçada de estar com o Outro. A discussão por causa das contas que chegam para pagar.
Mas, a verdade, é que a nossa profecia particular realizou-se. Só que, amargo é o destino, não pensávamos que tão cedo. Porque acreditávamos que Deus não nos roubasse o sucesso da nossa fórmula de Vida. Porque acreditávamos que o filho do Virgílio, tão amado, tão querido pelo pai, mereceria de Deus a ventura de ter um pai Vivo e presente, pelo menos por mais algum tempo. O divórcio dos pais, muito jovens, e logo após um ano de vida em comum, não havia traumatizado aquela linda criança, que por tudo e por nada estava a telefonar ao pai, e que por tudo e por nada, o pai e ele, faziam uma festa de arromba.
E nós, abençoados por Deus, acreditávamos que os nossos momentos estavam o mais próximo possível da felicidade. A Dor e a Tristeza não tinham porte pago nas nossas Vidas.
E eis que, ontem de manhãzinha, o toque absurdo do meu celular desperta-me do sono. Era a voz da mãe do Virgilio. Aflita. Incomensurávelmente perdida.
Corri como uma demente para o meu carro, e em cinco minutos estava na porta da casa dele. A ambulância já se preparava para sair.
Havia ultrapassado já a inefável fronteira da Morte, o meu Virgilio. Morrera na sua cama. Assim. Como um fruto que cai duma árvore. Sem aviso prévio. Sem ter tido tempo de pedir ajuda. Sem ter tido sequer o direito a uma suspeita, um pequeno alarme, de que o seu corpo padecesse de algum mal.
E terminara naquela manhã sem sol, o nosso Amor de treze anos. Venturoso. Cheio de aventuras e peripécias, como naquela noite em que decidiramos dormir na praia da Madalena, e acordáramos com o barulho ensurdecedor duma máquina escavadora, sob o olhar atónito e malicioso dos trabalhadores da Câmara.
Sinto-me num limbo. A minha vontade é a de conhecer o que está para além do Portal. Porque sei que, se o conhecer, talvez volte a ver o Virgilio com aquele seu bem humorado sorriso, sempre pronto a uma boa gargalhada, e a um desfiar infindável de anedotas...
Eu não conhecia esta Dor. Não sabia da sua côr. Do fel amargo do seu gosto...
E estou pr'áqui perdida... Sem força, sem ânimo, sem esperança, sem um fado que me possa sublimar esta dôr. E sem Amália para desabafar...
Já não tenho a minha melhor Amiga. Já nâo tenho o meu Amor. Lindo. Tranquilo. E o meu corpo, a minha mente, a minha alma, só respiram agora fealdade, intranquilidade, revolta, dôr. Deus não tinha o direito. E eu tenho tanta Fé. Contudo, neste momento, todos os livros que li, todas as convicções que tinha, todas as minhas certezas, não passam dum saco negro no fundo dum poço. Bem fundo.
Disse-vos uma vez, num dos meus escritos, que não tenho estaleca para ser artista, na total acepção da palavra. Um artista segue a máxima do ' show must go on '. Eu, acabo de cancelar por email, todos os meus compromissos artísticos. Não tenho Vontade. Não posso, impunemente, olhar de novo os céus de Paris, não posso respirar de novo, o ar frio de Estocolmo. Nem poderei pela enésima vez , fazer a Via Sacra na velha Jerusalém. Os três sítios agendados até ao fim do ano. Amanhã, supostamente, apresentar-me-ia durante um Jantar para turistas escandinavos. Impossivel. Seria mais fácil um camelo passar pelo orificio de uma agulha.
Já não posso cantar...já não posso sorrir...já não posso...já não posso...viver.
Se puderem, meus caros amigos leitores, que tantas alegrias me deram por se fazerem presentes na minha vida, apenas vos peço, tal qual Amália o fez num fado, um ' Padre Nosso por mim '.»
Pelas vossas palavras, pela vossa amizade, Obrigada.
Eternamente grata!
Valéria
choro consigo valéria, um grande amigo tb se foi, sem me despedir...
Afixado por: em outubro 26, 2005 12:36 AM
Chore Valéria, para mais logo voltar a cantar!
Afixado por: em outubro 25, 2005 04:23 PM
non ci sono delle parole giuste per questi momenti ma ci sono anche io moha con te
Afixado por: em outubro 25, 2005 03:21 PM