outubro 24, 2005

Cambalhotas na cama

M estava desorientada, e uma mulher neste estado bate inconscientemente contra os vidros da sua própria razão, estilhaçando tudo à sua volta. Telefonou dois dias depois e confessou com alguma amargura e revolta que fazia sexo intensamente com o companheiro quando ele chegava das noitadas com a amante. Questionava-se, entre soluços, como é que ele aguentava tanto sexo. M obrigava-o a ter relações com ela, num cocktail de angústia, desespero e vingança. Esta imposição sexual arruinava-a no seu íntimo, mas mesmo assim continuava com o esquema humilhante de querer salvar uma relação através das suas debilitadas emoções. M é uma mulher fraca por natureza, e numa situação destas a sua fraqueza transformava-se numa força negativa e conflituosa. Queria saber como era a outra na cama, se fodia como ela, posições e fantasias; nada escapava à sua forma de inquirir como se procurasse nas respostas do companheiro (muitas delas suspeitas e desvalorizadas pelo ambiente tenso que se instalara entre eles) um motivo que realmente esclarecesse a violação de fidelidade que ele lhe devia. Por mais cambalhotas que desse na cama, M nunca conseguiria descobrir um indicador de preferência da parte do companheiro que a pusera naquele estado e transformara a sua vida para sempre. Não daquela forma tão baixa de enfrentar um caso de adultério. A sexualidade em M não era uma resolução em si, mas um problema a agravar-se em cada noite que passava. A imagem que ela transmitia era a de uma mulher fragmentada em muitas histórias de mulheres que já passaram pelo mesmo. Em M o sexo era o ponto estratégico e o seu meio de defesa, porque era pelo sexo que ela pretendia recuperar o seu lugar de mulher única e ao mesmo tempo esgotar no companheiro todas as formas de diversão extra conjugais. Por fim, tinha uma voz de sexo estafado quando nos disse antes de desligar que nunca na vida tinha fodido tanto como agora.

Publicado por O Escriturário | Nenhum | 18:44
Comentários

É difícil, sim senhor, mas consegue-se. Nessas alturas os níveis de tudo são tão altos que a energia e a vontade não faltam.

Afixado por: ee em novembro 1, 2005 01:03 AM