foi esse o meu pecado é esta a minha pena.
Não creias, Lídia...
I
Não creias, Lídia, que nenhum estio
Por nós perdido possa regressar
Oferecendo a flor
Que adiámos colher.
Cada dia te é dado uma só vez
E no redondo círculo da noite
Não existe piedade
Para aquele que hesita.
Mais tarde será tarde e já é tarde.
O tempo apaga tudo menos esse
Longo indelével rasto
Que o não-vivido deixa.
Não creias na demora em que te medes.
Jamais se detém Kronos cujo passo
Vai sempre mais à frente
Do que o teu próprio passo
II
Escuta, Lídia, como os dias correm
Fingidamente imóveis
E à sombra de folhagens e palavras
Os deuses transparecem
Como para beber o sangue oculto
Que nos deixou atentos
III
Ausentes são os deuses mas presidem.
Nós habitamos
Nessa transparência ambígua,
Seu pensamento emerge quando tudo
De súbito se torna
Solenemente exacto.
O seu olhar ensina o nosso olhar:
Nossa atenção ao mundo
É o culto que pedem.
IV
Falamos junto à luz. Lá fora a noite
Imóvel brilha sobre o mar parado.
À sombra das palavras o teu rosto
Em mim se inscreve como se durasse.
V
Faz da tua vida em frente à luz
Um lúcido terraço exacto e branco,
Docemente cortado
Pelo rio das noites.
Alheio o passo em tão perdida estrada
Vive, sem seres ele, o teu destino.
Inflexível assiste
À tua própria ausência.
VII
Eros, Neera, sacudiu os seus
Cabelos sobre a testa larga e baixa
Eros-Neera-Antinoos
Irrompe no terraço.
Palmeiras nas ruínas de Palmira
Eros poisou seu rosto no teu ombro
Eros soltou as feras
Do halali, Neera.
Sophia de Mello Breyner Andresen (1919 - 2004)
(Homenagem a Ricardo Reis, 1972)
sorry! sairam em triplicado, os comentários. Onde está deve, dever-se-á ler deves.
senhora!
nas tuas mãos
despejei a minha vida
quero de volta
o que me deves...
eu.
senhora!
nas tuas mãos
despejei a minha vida
quero de volta
o que me deves...
eu.
senhora!
nas tuas mãos
despejei a minha vida
quero de volta
o que me deve...
eu.
"Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há-de dizer.
Fala: parece que mente
Cala: parece esquecer."
F.P.
senhor stillforty...still forty??
Falamos junto à luz. Lá fora a noite
Imóvel brilha sobre o mar parado.
À sombra das palavras o teu rosto
Em mim se inscreve como se durasse.
a luz lá fora, cega-me. não páro
caminho em direcção a ela. à sombra
das palavras que tu dizes. no teu
rosto a dualidade. tu e eu ou nós?