outubro 11, 2005

fim da história

A M telefonou a chorar que o companheiro andava a sair com outra mulher. Perguntava o que havia de fazer, que orientação tomar e, mais grave ainda, pedia que nos puséssemos no lugar dela e lhe disséssemos como poderia ela acabar com o suplício de ver todas as noites o companheiro sair de casa com o pretexto de ir jantar com os amigos. Lançámos várias possibilidades: conversar abertamente com ele; procurámos saber até que ponto esta fase da vida deles seria um sinal de que tudo estaria a caminhar para o fim duma relação de doze anos; explorámos cautelosamente se ela estaria mesmo afectada profundamente, ou se este episódio de desencontro emocional não seria um desafio necessário à revitalização amorosa entre eles. A M garantiu-nos que o companheiro amava outra mulher. Fim da história. A partir deste momento, tudo o que se disser como acto de salvação poderá constituir matéria moral de agressão a quem tentou ajudar uma pessoa nestas circunstâncias. Qualquer previsão afectiva que exista para minorar o sofrimento é um esforço perdido. Os conselhos, que dão tanto trabalho de organização psicológica dentro de nós, nunca são levados a sério pelos outros. A vítima cai numa complexidade de vozes que a impossibilita distinguir o que ouve do que pensa. Se lhe dissermos para seguir um determinado rumo, o desespero cria uma alternativa altamente falível que a coloca numa posição de maior fragilidade. Porque tudo o que lhe dizem para seguir se apresenta numa simplicidade de compêndio em contraste com o índice conflituoso das suas emoções, ela acaba por se transformar no enredo do seu próprio sofrimento. Nestes casos de ajuda há uma projecção essencialmente teórica que consiste no combate ao caos existencial por via da harmonia consensual. M já não estava em linha, tinha desligado o telefone.

Publicado por O Escriturário | | 10:20
Comentários

Olha ele! E diz "muito bem muito bem", muito bem o quê?

Afixado por: m.s em outubro 12, 2005 12:49 PM

Muito bem, escriturário, muito bem

Afixado por: Moço em outubro 11, 2005 06:36 PM

ora bem, quanto menos vultos mais claridade.

Afixado por: a.remota em outubro 11, 2005 02:01 PM