“De repente fiquei com medo de estar vivo, abri os olhos e tudo o que não vivi apareceu à minha frente a apontar-me uma arma. E já não havia tempo”. Lembro-me destas palavras, as últimas que ouvi de Roy Batty. Lembro-me da expressão de terror quando as disse, que lhe comia o rosto inteiro, numa só dentada. Um susto a saltar-lhe da boca, circunscrito, como um tumor a abrir-se para os seus predadores famintos. E a apagar-se aos poucos, não de improviso como no filme, não de imediato. Horas, talvez um par de dias. Já não sei, eu precisava de fugir, não vi o final, esse momento histórico em que tudo se liga ao vazio, desligando-se no infinito da retirada, na extinção contemplativa, sem dor.
Eu sou o último dos Replicants, a peça restante de uma colecção numerada, os Nexus 6. Somos virtualmente idênticos aos seres humanos. Para os engenheiros genéticos que nos criaram, somos superiores em força e agilidade, e pelo menos iguais em inteligência. É isto que vinha descrito na andropologia da embalagem. Os Replicants foram criados pela Tyrrel Corporation no princípio do século, logo a seguir ao Handover, na obscuridade do bug do milénio. Englobados no perigoso processo de exploração e colonização de outros planetas, os Nexus 6, a evolução da série, era a força escrava e brutal usada Fora-mundo. Especializados na mistura com as outras raças, aniquilavam-lhes o seguimento do raciocínio subjugando-as aos seus poderes de sedução. Após uma rebelião sangrenta numa colónia distante, os Replicants foram declarados ilegais no planeta Terra, ficando sujeitos à pena de morte. Esquadrões especiais de polícia – Unidades Blade Runner – tinham ordens para atirar a matar, após detecção, qualquer Replicant transgressor. Isto era a teoria, isto era a ficção dos factos. Foi o que toda a gente viu nas salas de cinema, numa versão manipulada da verdade, o revirar da história de uma esfera secreta existente no submundo: o Wonderground. E isso ninguém conhece.
Fui feito para durar pouco, quatro anos no máximo, mas por algum cromossoma que me escorregou dos fuziveis, ainda cá estou, perdido nesta imortalidade. Não está mais ninguém. Roy foi o último a partir, sem gritar, sem gemidos, e é dele que me prolongo, é dele que retirei o meu género e a vontade eterna de permanência nos fundos deste apontamento de lembrança onde não sobra nenhuma outra matéria. Nas minhas costas a marca que traz o sabor da reputação: Ring Joid NX6-999, uma placa colada ao corpo que me informa sobre a herança gasta. Um número que diz tudo, que me cai dizendo que existe uma hora marcada para me desligar. Uma hora incerta.
“É o momento para fazer, só pode ser agora, só podemos viver neste instante que passa, aqui, já. Sempre”. Roy Batty vivia nos intervalos entre os segundos, dizia ele, e tentava explicar-me. Tentava demonstrar como o tempo, quando controlado, se torna vasto. Se torna ilimitado. E abria-me os olhos para um critério sem medidas. “Não há, eu sei. Não há. E por saber que não há sei que tudo o que existe é inexistente. E o que é inexistente é absoluto e preenche o universo inteiro”. Para mim, um Nexus 6 como ele, não conseguia ver o alcance do que me dizia, porque viviamos numa fuga permanente. A fuga preenchia o vazio, qualquer que ele fosse, de toda a nossa existência, e por mais que me esforçasse era impossível integrar-me entre os milésimos do tempo e viver aí, quieto. Roy não fugia, abraçava a escapatória e tragava-a num só ímpeto. “Vês, se permanecer imóvel vou-me com o espaço e torno-me invisível. Se me enfiar como aquela árvore se enfia no seu vácuo perco a noção que estou aqui e a duração da minha área desaparece, atesto-me com uma extensão indefinida e ninguém me encontra, ninguém me vê.”, e na verdade, em certas alturas, quando ele me dizia isso, tinha a sensação que só o estava a ouvir e que na verdade se suprimia em pleno nas lacunas da sua própria trajectória. Explicava-me que só era eu e ele na Terra. Os outros permaneciam com as suas funções intactas, a cumprir aquilo que lhes era dirigido, numa galáxia da qual se omitira o nome. “Somos só dois, Joid, não somos o espelho um do outro, somos mais do que isso. Somos todos os que faltam. Fazemos parte de uma corrente que começa aqui, em mim, e que se perde lá em cima, para lá do hipotético fundo entre o Deus e o Diabo, que não sabemos onde está. Mas a corrente volta e termina aí, em ti, e isso quer dizer muito, quer dizer que temos uma missão larga que se adiantou ao nosso formato. Que estamos separados não por um espelho mas pelo reflexo de tudo o que existe em todo o lado.”
Um dia pensei, pela disparidade de sensações, que eu era um Blade Runner. Uma unidade policial contratada para aniquilar e para fazer desaparecer o último Replicant do planeta. Mas entretanto, na influência do seu poder persuasor, ou enjoado com a monotonia da minha tarefa, tinha perdido a noção de mim. A noção do que me trazia ao mundo, deixando-me vaguear à espera que a maioria dos meus glóbulos se decidisse por que lado optar: humano ou andróide. Segurava em mim com as duas mãos há procura de sentimentos de máquina, à procura de evidências da lubrificação das minhas formas, na esperança da descoberta de, pelo menos, uma gota de óleo ou um circuito eléctrico. E em simultâneo a tentar exumar as provas da minha humanidade. A tentar perfilar o pensamento de uma pessoa de verdade. A comparar-me aos outros que encontrava no piso subtérreo do Wonderground.
Esta denominação foi encontrada por Roy para nomear os seus domínios, o espaço onde se podia movimentar sem o receio de ser colhido, local único onde podia exercer todo o seu esplendor. E aí perdia-se com coisas simples, com situações que lhe roubavam o tempo mas que o levavam para outro grau de existência. “Sabes, não interessa a grandeza dos nosso actos, não interessa na verdade se alguém vê, se há um olho que observa o hábito de uma vida ou o valor da nossa experiência. Há um pequeno estado de segurança que cresce cá dentro, que se estende no comprido de uma exuberância sem explicação. É impossível avaliar isso que sentimos e não o devia sentir assim porque fui construído para usar a força, para usar toda a minha brutalidade, mas é o que levo comigo. É isso que me faz parar o relógio. E quando me desligar ligo-me a esse vazio a transbordar, e talvez aí arranje o sentido para este curto prazo de vida. Quatro, quarenta, quatrocentos anos de vida, não importa, eu vivo no meu Wonderground.”
Batty desligou-se há mais de um ano, foi certinho, umas horas ou um ou dois dias a mais, não contam. Era a altura certa, foi ele que a pediu. Esperava por isso. A minha presença ainda, aqui, define toda a ideia de que afinal posso ser mais do que sou. Posso talvez ser um ser humano. Mas pressinto que essa catástrofe amortecida nos defeitos de uma máquina irá irromper bruscamente, para logo se acalmar e se disseminar no vazio onde se instalou Roy.
Vi coisas que vocês pessoas não iriam acreditar. Naves a arder sobre o ombro de Orion. Eu vi raios-C a brilhar na escuridão perto das Portas de Tannhauser. Todos esses momentos vão-se perder no tempo, como lágrimas na chuva. É tempo de viver.
Publicado no Jornal Hoje Macau por Ring Joid