Antes de ter ido ao casamento e antes mesmo de ter lido o texto do ilustre convidado, já tinha decidido que iria escrever sobre o fenómeno da oficialização/ institucionalização duma relação homem – mulher (em Portugal ainda não foram aprovados casamentos entre pessoas do mesmo sexo, e limitando-se a nossa experiência à geografia deste pequenoma che tropopaís, confina-se portanto o tema à heterosexualidade).
Enquanto ser pensante levo-me a tender que tal feito é merecedor de notícia. Ao contrário do John, há imenso tempo que não frequentava uma festa de união entre dois seres antagónicos ("esposo", "esposa" e "esposos" que são as nossas palavras mais feias, com a possível excepção de "paxaxa") e nunca fui convidada para madrinha, mas isso deve-se a ser uma pessoa distraída a quem acham graça e que por isso (desconfio) temem alguma irresponsabilidade, como se fossem incompatíveis a descontracção e a amadrinhagem.
Em todo o caso este casório foi diferente dos outros que até agora frequentei. Já tinha reparado que os noivos convidavam para a “festa de casamento” e não para “o casamento”, mas encarei isso com a maior das naturalidades, reparando que os outros convidados não tinham lido o convite porquanto perguntavam ou comentavam se o casamento era pela igreja ou pelo civil. Para mim não havia dúvidas.
Deambulando pelo recinto da festa ouvi várias vezes, pelos cantos, pelos ventos, em sussurro, proferir-se a palavra “comunista”. Já sentada no banco corrido com mesa à mesma altura ouço"é a primeira vez que vou a um casamento comunista, quero ver como é” e ouço ainda “deve ser o último!!” e “hahahahahahah”. Fiquei entusiasmada, sou franca, e imediatamente iniciei a perscrutação de diferenças entre um casamento normal e um casamento comunista. Para minha desilusão pouco ou nada encontrei. Tentei interpretar o significado das mesas à altura dos bancos, procurei qualquer coisa que me fizesse lembrar uma foice, um martelo ou uma estrela mas apenas encontrei as últimas, que estavam no céu, ao qual pertencem, e nunca ouvi dizer que fossem comunistas.
Porque a vida nos dá o que merecemos, tive a sorte de calhar na mesa de uma espécie de góticos mal encarados. Eram o comité central, lui même, mas nada emanavam de discrepante da aura do vulgo convidado, à excepção de uma certa expressão de inflexibilidade ditatorial que depressa se desvaneceu com a partilha de um charro.
Passaram três dias e eu adoro ver as minhas unhas, ainda pintadas, qual grito vermelho num teclado qualquer.
belo post!
Afixado por: em outubro 4, 2005 02:57 PM