agosto 22, 2005

Sem história

Levantou a cabeça do jornal e olhou para a mulher deitada no sofá em frente. Estava para lhe fazer a pergunta há bastante tempo, mas não tinha a certeza se ela lhe responderia ou o achasse um tipo perverso possuidor de um sistema de ideias sexualmente indecorosas. E a pergunta era simples: se ela guardava na memória a queca mais fantástica em vinte anos de casados. Ela olhou-o com algum incómodo traçado no rosto, mas ele insistiu: gostaria de saber se houve um momento de sexo entre os dois, uma imagem que ainda fosse visita constante na recordação erótica dela. A resposta foi negativa e tão fria como uma rapidinha encostados ao balcão da cozinha. E não valia a pena insistir no arquivo sexual da mulher porque ela acabou por confessar a sua falta de especialidade para avaliar o erotismo desses actos. Para ela todas as quecas eram iguais e vinham desprovidas de intensidade que as distinguiam umas das outras. O empenhamento sexual dele; as performances mil vezes idealizadas, originais na abordagem ao corpo; todo o amor investido em sociedade com o desejo; as fantasias e paraísos construídos pelo prazer; as cascatas de palavras luminosas, cada uma a relampejar no ouvido dela as obscenidades e as indecências que mantinham o corpo aceso; tudo isso não passava de um péssimo poema na sua vida conjugal. Não havia um momento de doçura no instinto sensual daquela mulher. Nenhuma inspiração que activasse positivamente a sua memória sexual. Uma mulher-moldura que se adapta a qualquer tipo de imagem que se faça dela. Ele voltou a colocar os olhos no jornal. Nessa noite eles fariam sexo como das outras vezes. Sem história.

Publicado por O Escriturário | Nenhum | 9:58
Comentários

cá para mim ela até curtia o momento. histórias para quê?

Afixado por: a.r. em agosto 23, 2005 10:58 AM