
«Ainda hoje estou para perceber como vim parar a esta terra. Às vezes é mesmo estranho pensar nisso. Tem a aparência de um sonho. Estar a acordar para um sonho e viver dentro dele. Estranho como se pode acordar assim dentro de uma fantasia, onde todo o universo que nos suporta parece o que não é. É aquilo que não é, se me faço entender.
Nem chego ao ponto de lhe chamar pesadelo, tormento, ou assim, não, nada disso, é um quotidiano ficcionado em que o que se passa, de uma maneira geral, pouco importa. Quer dizer, aquilo que se passa aqui ao redor e o que vai lá longe e que por ventura designamos por nossa terra. O nosso país, essas coisas. Fico-me por aqui, não pronuncio o nome Pátria, que é de mau gosto. O que me parece a mim, e sou suspeito, é que o chão que pisamos não é bem um chão, é uma superfície. As ruas não são bem ruas, são cenários. As pessoas de quem nos vamos desviando não são bem pessoas, são figurantes, autómatos, andróides anabolizantes, que se replicam. E não vou ao termo fantoche, que não é preciso. O transeunte é um fingidor, porque normalmente vai em transe.
Esta coisa de carregar o corpo no dia a dia, de o mostrar, de o tornar resoluto, erectus, na chama da nossa evolução hominídea, às vezes é um fardo insuportável. Esta fácies que movemos a bom gosto do espectador, para não parecer mal, que nos representa, que nos dá cara, que nos simboliza é, sem duvida, um falso chamariz. Um engodo. Dois olhos, uma boca, um nariz. Estas orelhas e o resto. Que tédio. Até os macacos têm a percepção disso, do tédio que é sentir a própria imagem. Ora que envelhece, ora que se enruga, ora que se atormenta. Como se não houvesse mais nada para ver, para representar. Como se fossemos apenas isto. Um corpo, uma cara, uma voz. Um sentido. Belisquem-me se por acaso estiver errado.
Não sei como foi. Era de noite.
Não sei como vim parar a esta terra. Foi de repente, como um relâmpago. Viajava de carro com o meu amigo mais próximo, que vivia mais perto de mim. Essas coisas da amizade, melhores amigos e isso, coisas de longa data. Tristezas e alegrias juntos. Primeiros amores. Cumplicidades. Nessa noite, não sei se o carro era o dele ou o meu. Ele tinha um Peugeot nesse tempo, que precisava de ler jornais todas as noites para não se afogar de manhã. Era um meticuloso este meu amigo, tinha estas teorias que os carros se constipavam de noite. Eu tinha uma Renault 4L que me tratava por tu. Que dormia comigo ao relento, que me acariciava enquanto viajávamos de noite pelos moinhos do alcatrão. Conversávamos, eu e ela. A 4L. Foi amor à primeira vista. Sofríamos os dois do mesmo modo, com a mesma velocidade. Sabia todos os seus segredos. Por vezes carregava-a às costas e ela adorava. Eu adorava.»
«Mas nessa noite.
Não sei qual era o carro. Lisboa era a cidade e estacionámos na Avenida do Brasil, naqueles prédios que seguem em carreiro até lá ao fundo. Nada nos doía na alma. Tínhamos vidas estáveis, empregos fixos, seguros, duradouros. Namoros normais, como toda a gente que tem namoros normais. Subíamos, ou descíamos, não sei bem, esse despenhadeiro da adolescência, do ser adulto. Responsável. O de sermos grandes e sermos aquilo que gostávamos de ser quando éramos pequenos. De tentarmos ser o que queríamos ser. Sem rodeios. Ao invés da ilusão. Não tínhamos uma imagem a defender, não tínhamos assim grande coisa a defender. Imiscuíam-nos no vazio da sociedade. No seu buraco negro. Éramos uns entre os demais. Mas nunca tínhamos sequer pensado nisso. Não nos importava. Não sabíamos, não queríamos saber. Gostávamos das nossas coisinhas, de colocar os jornais no carro, de rolar com eles país abaixo, de nos perdermos sem consciência. Éramos isso. Normais. Estáveis. Sem futuro definido. Apenas o de toda a gente. A fogueira do destino da população inteira. Sem particularizar.
Era de noite.
Março ou assim. Um leve frio, uma leve brisa. Candeeiros que choviam luz sem nos cumprimentar, sem nos dar lume. Não o pedimos. A porta pesada do prédio. Porta feita em série, para a sequência da linha de edifícios que compunham a avenida defronte de uma das alas laterais do Hospital dos Malucos. Nem viva alma se via, de cá e de lá do muro. Subimos. O elevador com aquelas portas de armónio, que gritam melodias de canas se as abanamos. Um Tamborim, um Reco-Reco, umas Maracas. Um Xequerê, um Caxixi, um Pandeiro Pastoril. Uma Clave de Rumba ou isso. Era assim a porta que abrimos, a porta do elevador que nos levou a um andar qualquer, o sétimo, talvez, não me recordo mesmo nada. Um elevador que trincava melodias.
Da sala também me recordo pouco, nem do amigo que nos abriu a porta, mal lhe vejo a cara agora, embora tivesse um aspecto de rosto bem vincado, nem com ferro de engomar aquilo se endireitava. Sofás escuros, talvez, a dar para o cúbico, espalhados no soalho típico de quem já teve um cão em casa. Ou ainda tem. De verdade ou em sonhos. Ouve-se sempre o cão a raspar com as unhas nos tacos, que corre para saltar para cima do dono, quando este chega a casa. Um cão, sem pai, sem mãe, sem empregada. Não importa. Sentámo-nos. Não sei o que veio a propósito. O que fomos realmente lá fazer, se já levávamos a ideia encubada na cabeça. Uma semente qualquer pronta a florescer e a ganhar vida. Não sei. Não me recordo.
A noite escura.
A iluminar-se. De repente. Na figura de uma cor proibida. Esse que nos abriu a porta tinha estado nesta terra, aqui de onde escrevo, tinha por cá vivido, tinha por cá construído uma vida que lhe deu prolongamento quando regressou à... bem, vou dizer, à Pátria. O que é que ele disse? Nada de mais. Qualquer coisa. Vidas de funcionários de uniformes que mudavam de cor, consoante a época do ano, ascensão nas carreiras, negócios da China. Jornais, peças de porcelana , um mundo de fantoches. De andróides anabolizantes. Sei lá, não disse isso, de certeza. Mostrou-nos fotografias a preto e branco. Pequenas. Dentro de caixas. Nada demais. Velhos. Ruas com carros a passar. Uma estátua com um homem a cavalo a gadanhar em fúria. Água, um rio, ou uma baía. E de repente um trovão lá fora. Não sei o que foi. Ainda hoje estou para perceber.
Nem ficou de dia nem nada. A noite continuou.
Mas o relâmpago. De repente, e isto só me aconteceu se calhar uma vez, com essa intensidade, um não sei quê de visionário, que num ápice, nos trouxe uma vontade enorme de mudar de vida. De deitar tudo ao ar. De espalhar os alicerces pouco profundos, de os espalhar ao comprido. Sem receio nenhum do que viesse a acontecer. Mas foi a certeza. A certeza do acto consumado que me surpreendeu. Para mim, esta terra, eram os acidentes na primeira curva de uma corrida de automóveis. Era o amontoar de carcaças fumegantes à beira de um funil. Um funil feito de alcatrão. Era isso. Não era muito mais. Casinos, sei lá, que me importavam os casinos. O que quer que fosse. Era a vidinha que me segurava e que eu queria cuspir. Que sem saber, num abrir de luz, se colocou à minha frente e me barrou a visão. O caminho. Que nesse instante me deixou cego.
Sim, tínhamos talvez as caixas das fotografias no colo. Pequenas, as imagens, E íamos passando. Um ao outro. O meu amigo a pensar nos jornais que se tinha esquecido de mudar no carro, eu a pensar na morte da bezerra, como sempre. Mas foi entre uma coisa e a outra. Entre esse nada que nos representa, a qualquer hora do dia, que não tem nome, que não conseguimos definir, que olhámos um para o outro. Não nos vimos, olhámos tão somente. Como se olha e não se vê. Como se olha e se vê estrelas a passar. Telepatia, sonambulismo, os guizos das portas do elevador, o Balacató, o Xequebom. As castanholas. Tudo isso ainda a ressoar nos ouvidos. Cegos e surdos. Mudos não, porque dissemos. Porque falámos. Porque nos repetimos. E depois disso nos dias que se seguiram, semanas, deitámos abaixo o que possuíamos, o que exercíamos, em troca de um bilhete de ida para o desconhecido. Apenas a ida. E deitámos fora o que nos compunha. Os carros e tudo. A minha 4L, que vendi por cem contos, desfez-se ao atravessar um talhão de terra, uma semana depois. Partiu-se de fronte a uma árvore. Triste. Um sobreiro ou assim. E morreu.
Mas nessa noite.
Tudo o que dissemos foi feito. Tudo o que dissemos foi verdadeiro. Não foi preciso sangue nem pacto. Foi simples. Todo o verdadeiro foi termos vindo. Decididos ao que quer que fosse. À aventura dos descobrimentos, o tesouro escondido, o barco dos piratas. O dragão dourado ou qualquer coisa do género. Foi um tufão que nos deu e ninguém acreditou. Lembro-me de tudo isto porque faz tanto calor como fez no dia em que cheguei a esta terra, em 1900 e picos. Esta fornalha sem fogo visível que nos serve de corpo. Este incêndio. O que dissemos, com a imagem de alguém que tirava uma fotografia em cima do colo, sem saber para que lado se virar, depois de olharmos sem nos vermos, foi apenas: “Nós vamos para esta terra!”
E viemos. E continuo sem perceber como isso aconteceu. E o certo é que cá estou. E ele já se foi. E a verdade é que cá vou ficando. À espera que me virem na frigideira. O Gongo, a Caixa Surda, o Berimbau. Os intrumentos da minha percussão. Do meu elevador.»
Publicado por Ring Joid no jornal Hoje Macau no dia 22 de Julho de 2005.
Publicado por eLustre Convidado | Laranjas Orientais | o 35 de Abril | 6:05