"Espera e esperança no horizonte da loucura" - um ensaio de Eugenio Borgna
«O cenário é o da loucura, no qual as vivências interiores diferem das nossas apenas em intensidade. Por isto afastamos os loucos de nós, para não nos vermos e para evitar aquela consciência de si mesmo que, para os homens de hoje, é a experiência mais inquietante.
Porém Eugenio Borgna tem a delicadeza de se aproximar do mundo da loucura através da experiência poética, porque os poetas, como nos recorda Heidegger: ”São os mais arriscados”, aqueles que ousam empurrar a experiência humana até ao seu limite, de modo a lhes dar o sentido ou o seu não sentido, naqueles abismos de verdade, que a poesia, a literatura e de vez em quando a filosofia sabem alcançar, para lá dos diagnósticos clínicos, em que o vocabulário tantas vezes se assemelha a uma armadura defensiva.
Tanto a esperança como a espera estão relacionadas com o futuro, logo com o que está por vir.
A espera com o acontecer imediato normalmente ligada a um evento. A esperança com um futuro distante cheio de promessas, sem os traços de ânsia, de inquietude, de perplexidade, da insegurança que caracterizam a espera.
Há de facto uma enorme relação entre a espera e a angústia. Na espera uma vertiginosa aceleração e uma enigmática anticipação do futuro que queima o presente e torna insignificantes os seus momentos, porque toda a atenção e tensão são deslocadas para a frente, espasmódico concentrada sobre o acontecimento que se espera, como evento feliz que pode ficar defraudado ou como evento infausto que não se sabe como evitar.
Na espera não ha duração, não ha organização do tempo, porque o tempo é devorado pelo futuro que esvazia o presente ao qual tira qualquer significado, porque tudo aquilo que sucede é desviado pela espera que ganha forma no olhar e no rosto.
“Atendere, aspettare” (esperar/em italiano) reenviam-nos ao latim ex-spectare que deriva de specere que significa olhar. A espera faz-se no corpo e no olhar, onde se estratificam o temor, a angústia, a esperança e de vez em quando tragicamente o silêncio, porque o olhar de quem espera procura vislumbrar no olhar do outro a quem se dirige uma resposta à sua espera. E aqui Borgna, pela primeira vez, relata-nos a sua experiência pessoal no hospital de Novara (onde foi assistente antes do encerramento dos manicómios, em Itália, aos quais deu um grande contributo) para dar tema a relação médico-paciente, partindo da espera inscrita no olhar do paciente e da resposta àquela espera ignorada pelo olhar do médico, que muitas vezes não vê pessoas mas sintomas, não apreende vivências mas destroços de comportamento, julga poder curar uma alma prescindindo da alma.»
«Quando o olhar se torna clínico; nas palavras de Kafka “é mais fácil escrever uma receita que falar com quem sofre”; a competência sobrepõe-se à humanidade, a distância ao pedido de compreensão e, a espera que moldava o olhar do paciente, cai sobre si mesma desiludida e ignorada.
Ao entregá-la à genericidade dos fármacos não se viu a especificidade do sofrimento porque o modo de adoecer; se é igual para a todos quando as doenças são do corpo; é específico para cada um de nós quando a doença é da alma. Razão pela qual equiparar a competência psiquiátrica à competência médica significa não só ignorar a especificidade do sofrimento psíquico mas também a especificidade da intervenção psiquiátrica, que com a médica só tem semelhanças marginais.
O olhar do médico, mais do que o fármaco, pode restituir esperança à espera inscrita no olhar do paciente, porque a esperança, ao ver mais longe e ampliando o espaço do futuro, desloca a espera da concentração sobre o presente, liberta-a do imediato, expandindo-se em horizontes que a concentração sobre o presente tinha cancelado.
A esperança é, de facto, a abertura do possível. Esta faz referência àqueles novos céus e àquelas novas terras que são prometidas pelas religiões, pela utopia, pelas revoluções e pelas transformações pessoais que habitualmente tememos porque ancorados à nossa identidade assumida como um “facto” e não como uma interminável e nunca concluída “construção”.
Nós somos uma construção. E se a espera é a ânsia de que esta construção chegue a bom porto, a esperança activa o nosso comportamento de modo a que esteja nas nossas mãos chegar a esse porto.
Neste sentido dizemos que a espera é passiva, vive o tempo como qualquer coisa que vem na nossa direcção, ao contrário da esperança que é activa porque nos empurra em direcção ao tempo como aquela dimensão que nos foi designada para a nossa realização.
A dor, o sofrimento, a infelicidade são sempre acompanhadas de uma margem de passividade. Efeito psicológico da cultura religiosa que nos faz pensar “nas mãos de Deus”, as quais se a soubermos suportar sabe como nos garantir a vida eterna.
Os gregos, que não tinham esperanças numa vida extra-terrena, conheciam a crueldade da natureza que vive da morte dos indivíduos que gera, e a partir desta visão trágica, ensinavam a conter a dor e pelo breve tempo que nos é dado viver, a conduzir uma “vida boa” que, se bem governada e não desperdiçada à baila dos acontecimentos, podia também ser uma vida feliz.
Activos naquele tanto que nos é dado para viver e não passivos porque “nas mãos de Deus”.
E somos activos quando com a esperança caminhamos na direcção do tempo ao contrário da espera em que esperamos que o tempo venha ao nosso encontro.
Quando a espera é desabitada de esperança infiltra-se o tédio, onde o futuro perde balanço e o presente se dilata numa espessura opaca onde o objecto do tempo é aquele do relógio, bate no seu ritmo sobre tempo vivido que se encheu de areia, lamacento, prisioneiro.
No tédio extingue-se a espera, qualquer esperança aniquilada, não há mais projectos nem história. Afoga-se tudo na espuma do dia, do presente onde qualquer horizonte com significado se torna árido e se desliga.
Se um dia é como todos os outros , todos os dias são como um só. Na uniformidade perfeita de uma vida que saboreia este vazio de experiência, que acontece quando são tornadas vãs todas as esperas ,todas as esperanças, todas as ilusões.
É então que o impossível, como um muro, esbarra todas as vias do possível que alimentam o futuro. E o espaço deixado em branco do futuro, abandonado seja da espera, seja da esperança, é ocupado pela expansão do passado que devora todas as esperanças e todas as esperas, subtraindo ao tempo a sua dimensão do porvir.
Sucede aqui neste ponto a passagem do tédio à depressão, que faz retroceder todas as palavras que convidam à esperança, afundando-as naquele desarticulado à medida do qual existe apenas o grito, que às vezes despedaça a couraça espessa e opaca do silêncio que, maciço rodeia a solidão da depressão como estado de alma sem tempo.
Sem esperança e sem espera o tempo faz-se deserto que, na ausência de futuro, se expande do presente mudo (no qual, por invisibilidade, o deprimido desabita qualquer evento) ao passado que seca amores que não se enraizaram, criatividades extinguidas mal iniciadas, recordações que não têm nada para que se recordem, naquela solidão fragmentada onde o semelhante, na sua imobilidade sem expressão, colhe aquela outra face da verdade que é a insignificância de existir.
Então a morte, este silêncio absoluto, começa a falar com o timbre calmo de quem sabe como, em certas circunstâncias, pode ser sedutor o seu convite.
Fim da farra diabólica com a qual quotidianamente tentamos distrair a nossa alma.
Uma confusão que é a comédia do grito que se afunda num tempo sem espera.
No entanto, escreve Borgna, até no suicidar a esperança não é de todo extinta porque não se poderia cumprir este gesto se a morte não fosse tida como a única razão de vida, depois de as esperanças terem sido negadas, as ilusões falsificadas e as esperas ficarem sem sentido.
Esta situação muito frequente na adolescência muitas vezes se prolonga na vida,ora mitigada, ora exasperada ou travada e descompensada.
Fragilizada dos acontecimentos e das situações trágicas que muitas vezes derrotam uma existência, esta esperança conduz à morte como a “última esperança” quando esta não consegue mais projectar-se num futuro, porque não é mais capaz de recuperar um passado.
Tanto Judas como Pedro, de facto, traíram Jesus mas enquanto Judas, ao suicidar-se, encarregou ao passado o trabalho de exprimir todo o sentido da sua vida, Pedro conheceu o cansaço de reassumir o seu passado tirando-lhe a honra de dizer a última palavra sobre o significado da sua vida.
Este é o espaço onde se joga a esperança ou o gesto suicida.
Esperar não significa apenas olhar para a frente com optimismo mas sobretudo olhar para trás para ver como é possível configurar aquele passado que vive em nós, para jogá-lo em possibilidades que estão para vir.
Pelo contrário, suicidar-se é decidir que o nosso passado contém o sentido último e definitivo da nossa vida, para o qual não se dá mais o caso de reassumi-lo mas apenas de lhe pôr simplesmente um fim.
Assim sendo tanto o suicídio como a esperança jogam os seus dados sobre o passado e sobre o sentido que este vem assumindo para mim. E como sou eu a dar sentido ao passado, na esperança existe a liberdade de conferir ao passado a custódia de significados ulteriores enquanto que no suicídio existe a não-liberdade de quem no passado vê apenas um sentido inultrapassável e por isso definitivo.
Estas são as reflexões às quais nos convida Eugenio Borgna no seu último livro.
Impressões que nascem de uma vida a observar a enigmática noite e escura da loucura e que bem se adaptam também à nossa vida, onde o enigma não nos é completamente alheio e a escuridão, consequência do naufrágio da esperança, não é nunca em definitivo esconjurada.»
"Espera e esperança no horizonte da loucura" - um ensaio de Eugenio Borgna
Umberto Galimberti, La Repubblica 13 maio 2005
Publicado por Mohamed Ali | Barros na Parede | 9:01
u welcome.
what have become of midnigth summer dream
Thanks pelo ensaio!
Afixado por: em julho 10, 2005 04:03 PM