
«São outras as imagens que triunfaram na comunicação catequética de Jesus: o Jesus dos milagres, o contador de parábolas, o Mestre que transmitia a sabedoria do Reino, o Profeta-Messias de Deus… Contudo, este foi provavelmente um dos aspectos do ministério de Jesus mais significativos para os seus seguidores e mais ofensivos para os seus críticos. Chegando Robert Karris (1985) a defender que, no evangelho de Lucas, Jesus foi crucificado pela forma como comia.
À mesa não se desenrola apenas um acto biológico, mas a significativa manifestação de alguns dos códigos mais intrínsecos de uma cultura. Quando se chega a perceber a lógica e o conteúdo dos alimentos, bem como a ordem que regula a mesa (com quem se come, onde se come, a estratégia da colocação da mesa...), alcança-se um conhecimento muito importante sobre a vida de um grupo.
O termo “fariseus” significa etimologicamente “os separados”. E essa separação pode constatar-se na configuração das suas refeições, das quais excluiam pecadores e pagãos.
Uma particularidade de Lucas, é que Jesus, por três vezes é convidado da mesa dos fariseus. São episódios dominados pela controvérsia, pois Jesus revela-se um hóspede inconveniente. No primeiro pasto, permite que uma mulher pecadora o toque. No dia seguinte, profere um discurso violento contra a hipocrisia ritualista. Na terceira refeição cura um hipódrico em dia de sábado e critica o protocolo da mesa.
A comunidade de mesa com os pecadores era tida, pelos adversários, como uma insolência de Jesus, uma actuação anárquica do ponto de vista social e religioso.
Crê-se que um dos motivos que levou Lucas ao privilegiar o paradigma da refeição e da comensalidade no caminho de Jesus, foi a realidade que lhe era contemporânea, à época da redação do evangelho: a necessidade de uma nova comunhão para lá das barreiras étnicas e de proveniência prefigurando a refeição um novo tipo de relações entre os homens.»
José Tolentino de Mendonça