julho 06, 2005

Ao longe, um (não) país triste

«Antes de tudo, quero dizer que não cultivo a tristeza, nem sequer sob a capa de uma qualquer estética, se há algo que cultivo é, ao contrário, um vitalismo radical. Se há algo que me apaixona é a realidade em nudez e crueza, é o aquilo que é. Por isso, agora falo para vos falar de um país triste. Mais triste ainda visto da distância, em que voluntariamente me coloquei há mais de uma década.
Antes de qualquer juízo, de qualquer discurso, a verdade é que o que há para falar é inequivocamente triste. E, paradoxalmente, o que há é um país em desaparecimento ou que, pelo menos para os mais lúcidos e desassombrados, talvez já tenha mesmo desaparecido. Para mim, perdoem a pessoalidade da coisa, se assim se pode dizer, a Portugal resta o estatuto de nação. Foi o lugar onde nasci, onde nasceu uma das línguas que falo: nada mais.
Tudo o resto é inerme, inválido, insosso, insuportável. Tudo o que resta é um aparelho de Estado, fronteiras de mapa, cada vez mais ténues, e uma colecção de indivíduos nascidos no interior delas ou seus descendentes, indivíduos sem destino ou rumo.
No sentido em que um país é uma entidade que existe por acordo entre homens livres, e no sentido em que ser triste não é, a limite, ser livre no sentido absoluto pois se trata de uma privação, Portugal é hoje, na realidade, um não-país.

François Julien, filósofo francês com o projecto de pensamento mais sólido das últimas décadas, afirma, sem inovação mas com grande acuidade, que “la crise de la pensée occidentale est identique à lá fin de l’impérialisme”*. Ora, dir-se-ia, talvez Portugal ainda não tenha sequer entrado num verdadeiro estado de crise dada a queda do seu império ser relativamente recente. Mas para esta afirmação ser logicamente aplicável é necessário, também, considerar que existe um pensamento português, o que não é de todo líquido pois, se existisse, as suas manifestações seriam visíveis e não são. Traduzir-se-iam em soluções e não traduzem.
Apesar de Eduardo Lourenço, de José Gil, de Boaventura Sousa Santos e dos diagnósticos e reflexões que nos oferecem, não existe, em termos gerais, de povo e de massa, um pensar digno desse nome não só ao nível mais básico da consciência da pobreza triste em que se habita., como na busca de alternativas urgentes. Existe um queixar-se, isso sim, um reflexo automático permanente e antigo que se alimenta de si próprio e cega e adormece e embrutece. A dificuldade constante tornou-se, no seu sentido etimológico, um estupefaciente. Se as dificuldades desaparecessem os portugueses ficariam sem tema e sem discurso. Quando, de raro em raro, elas se atenuam, esse tempo de algum desafogo não é aproveitado nem investido na criação de meios, de estruturas, de comportamentos, que previnam o regresso do mal-estar que resulta do estar mal.
A dinâmica é simples e transparente: as bases delegam no topo a resolução dos seus problemas (como é enfadonho repetir estas noções óbvias, estas frases feitas que a comunicação impõe) e o topo não merece confiança porque, claramente, tem primeiro que se servir a si próprio, consumindo nesse processo os escassos recursos materiais e intangíveis do não-país. Nesse não-país, junto da classe dos políticos, a noção e a prática do sacrifício é nula e anula qualquer desejo de um renascimento. Desde os primeiros passos na infância política, as pessoas - porque se tratam de pessoas, de carne e de ossos e não de algo impalpável, não de entidades sobrenaturais e ausentes como parece ser crença generalizada: o famoso e misterioso “Eles” - as pessoas, dizia, começam de imediato a subir por degraus de interesse, espezinhando a ética como um animal danado, incómodo.
A avassaladora e democrática maioria dos senhores e senhoras que vemos sentados (quando a isso se dignam) na Assembleia da República é um exemplo vivo de ausência de pensar. Por eles, como por lentes humanas, miramos o vácuo absoluto do pensamento, mas também da acção, de quem apenas consegue, e com exasperante mediocridade, operar no circunstancial, no imediato, por reacção. É uma desgraça de ponta a ponta.
Sem império e sem pensamento, aprisionando os seus cidadãos em salários que são verdadeiros coletes-de-forças (quer o Estado, quer as empresas, nacionais ou não), murando as suas magras alegrias com impostos altíssimos e impossíveis de evitar quando aplicados a bens de consumo, este não-país surge-nos de democracia trémula (vejam-se quaisquer estatísticas de afluência às urnas) onde se começa a ouvir cada vez mais, em certos círculos até melhor ilustrados, a expressão, a exigência: “menos direitos, mais garantias”.
Enquanto não houver uma verdadeira crise, esse território do continente europeu denominado Portugal viverá de dolorosa crise em dolorosa crise. À excepção de uns mínimos milhares de famílias de onde deveriam surgir os mais capazes e mais generosos (mas não surgem), Portugal é triste e sem projecto – basta ver o olhar entediado, perdido em névoas pós-prandiais da ministragem e da deputanagem (é um facto que nos arredores de S. Bento se alojam ninhos da mais alta gastronomia, ou se não há sempre o BMW para ir almoçar à Linha).
E por tudo isto, cada vez mais, quando o interrogam, “So where are you from Lord Gin?”, este responde, “ I was born in Lisbon, I am from Macau.”
Talvez uma solução possível, um vero projecto de pensamento político e de acção política, fosse a criação de uma Europa das cidades: as estruturas tradicionais da civilização, sistemas de vida democrática muito mais flexível e directa, de administração e gestão muito mais fáceis.
Se o actual projecto Europeu titubeia é porque ninguém nele se revê de modo a sacrificar a sua identidade. Por outro lado, parece-me, uma Europa das cidades-república seria inovadora, renovadora da essência da história do continente, e reforçadora das identidades.
As cidades, não os países, são a raiz da Europa. Imagine-se uma constelação de urbes, co-existindo em rede, especializando-se em indústria, em cultura, em lazer, gerindo os recursos dos seus lebensraum rurais adjacentes, resolvendo os problemas de forma descentralizada e veloz (na verdade a noção de centro passaria a ser puramente nominal, quiçá eventualmente rotativa). Imagine-se o regresso da pólis e de homens verdadeiramente soberanos e envolvidos. A queda de toda uma estrutura política insolúvel se imagine, e dê-se labor ao pensar, aquilo pelo qual somos livres. Esse primeiro passo é, sem dúvida, uma responsabilidade da filosofia e corresponderia, simultaneamente, a um revitalizar do seu papel fundamental, no entanto é à política que cabe fazer a transmissão das ideias para que estas se possam tornar ideais. A ética da política é a pedagogia.


*François Julien, in «Penser d’un dehors (la Chine)», Paris, Éditions du Seuil, 2000.
Nesta obra, em formato de entrevista (com Thierry Marchaisse), F. Julien propõe que para nos arrancarmos à nossa própria tradição de pensamento, num acto de higiene do pensar, é necessário faze-lo de um “fora”, de um exterior. No seu caso, e pela sua formação de sinólogo, Julien elege a China como lugar desse pensar sobre as categorias europeias, num movimento inaudito e sem paralelo na história da filosofia. A sua obra, já extensa, parte, sobretudo, da estética dirigindo-se no sentido de outras áreas, como a política. Recomenda-se sem reservas a sua leitura a todos os que desejem acompanhar o que de mais pertinente se vai desenvolvendo no campo da filosofia.
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LORDE GIN por RUI CASCAIS in Hoje Macau

Publicado por eLustre Convidado | Nós Todos Cegos | Personagens | 12:54
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