
Vi este filme só uma vez na Cinemateca de Lisboa há já uns anos. Como os bilhetes não eram caros dava-me ao luxo de aparecer lá quando me apetecia sem saber que filmes passavam.
Apanhei algumas “secas”, mas também tive bons momentos, que foram superiores aos maus, contabilizando. Grande João Bernard da Costa.
Foi o caso deste "Suddenly Last Summer" de J.L.Mankiewicz com a Elizabeth Taylor, o Montgomery Clift e a Kathryn Hepburn nos principais papéis.
Caravaggio em 1606 aceitou uma encomenda de um convento de freiras. Pintou "A Morte da Virgem" usando como modelo o cadáver de uma prostituta afogada no Tevere. O quadro que à epoca foi recusado pelas monjas pode ser agora admirado no Louvre.
Passou-se o mesmo com "La Madonna del Loreto" com a diferença que a cortesã que serviu de modelo ainda não estava morta. A pose desta Madonna, muito bonita, em trejeitos de bailarina e os pés sujos dos peregrinos ajoelhados agravaram ainda mais o escândalo.
Cá para mim sou mais inclinado a deuses que dançam que a deuses meio monstrengos estáticos e sisudos.
Seja como for estes detalhes, estas curiosidades creio serem irrelevantes. A obra do pintor dos fundos negros tem aquele cunho raro da obra que seja em que tempo for dialoga connosco e nos faz ver coisas novas. Vive seduzindo e sem idade, ”vai segura e não tranquila.”
Nunca mais me esqueci do que um professor me disse em relação ao teatro que deve começar por atingir/chegar ao público nas partes baixas primeiro, subir pelo coração e só por fim chegar à cabeça. Quando começa pela cabeça fica cerebral, pelo coração lamechas.
Podem servir estes detalhes para ensaios filosóficos ou de sociologia sobre o que vemos e o que não conseguimos ver, prisioneiros de costumes e estereótipos do tempo em que vivemos. Algo que está relacionado com a Alegoria da caverna de Platão.
Ao escrever isto tenho presente a qualidade dos textos do director da Cinemateca publicados pelo jornal Público e logo à partida sinto-me desencorajado, não obstante as intenções serem boas, mas isto de boas intenções diz-se...
Poque é que eu chamei aqui o Caravaggio?
Porque além de encontrar afinidades estéticas com o realizador do filme descubro as mesmas pulsões secretas, o mesmo arrojo e genialidade nas formas encontradas.
Embora no caso do Caravaggio estas piscadelas de olho se manifestem mais subtis.
"Subitamente no Verão Passado" apresenta-nos um Montgomery Clift no papel de um jornalista incumbido de escrever um artigo para o seu jornal sobre a morte, de contornos misteriosos, do filho único de uma Milionária excêntrica(Kathryn Hepburn) que vive numa espécie de mansão gótica.
Kathryn Hepburn embora já não esteja muito nova neste filme enche a tela com uma força descomunal que nos arrebata e prende, com ou sem legendas.
Ela fala do filho apaixonadamente, quase como se o idolatrasse. ”Ninguém resistia a Sebastian quer se tratasse de mulheres, homens ou pedras.”
O filho atravessa o filme como um fantasma, nunca lhe chegamos a ver o rosto.
Em extâse a mãe conta as viagens que fez com Sebastian pelos países do sul da Europa.
Agora vão ter que me desculpar mas a memória começa a falhar e já não me lembro muito bem como é que aparece em cena a prima menos rica do defunto, a Elizabeth Taylor.
É uma personagem angustiada que vive encerrada num manicómio por ordem da tia.
A tia conta uma história, uma versão dos factos â volta da morte do filho que não convence o jornalista. Este pressente que é na cabeça da insinuante prima que a verdade pode vir ao de cima, sem adornos e efeitos de estética.
Mas esta não consegue ou não quer recordar-se do que aconteceu, presa de crises e cigarros vários.
Finalmente ficamos a saber através de flash backs que Sebastian usava a Mãe como isco nas viagens que faziam para atrair rapazes.
Com o envelhecimento da Mãe começa a servir-se da prima que por artes e manhas convence-a a mostrar-se nas praias daquelas zonas agrestes e miseráveis do sul da europa de então em fatos de banho cada vez mais provocadores.
Sebastian servia-se também da sua imagem de estrangeiro rico para ir comprando, seduzindo as vontades dos nativos machos.
O feitiço resulta tão bem que acaba por voltar-se contra o feiticeiro.
Nestas últimas cenas assistimos a uma procissão pagã com cabeças e peles de cabras e música feita com instrumentos estranhos, há vinho à mistura.
Os rapazes iniciam uma perseguição febril a Sebastian pelas ruas labirinticas da aldeia mediterrânica. Ele tenta fugir, atira-lhes dinheiro na tentativa de os afastar mas sem efeito. Estão consumidos por um desejo mortal, desejam-no com violência.
Este final recordou-me o final do "Perfume", livro de Patrick Suskind.
Vemos uma multidão de corpos de homens e adolescentes cair sobre o homem dos fatos brancos sem rosto.
Deixamos de o ver mas ficamos a saber o que vai acontecendo debaixo daquela massa humana enlouquecida de desejo pelas palavras histéricas em crescente de Elizabeth Taylor.
“- Eles estavam a devorá-lo, a comê-lo às dentadas... Havia sangue, pedaços de carne nas suas bocas... Faziam esgares de alívio, de extâse, gemiam lambendo os dedos empapados com o sangue de Sebastian!”
Segue-se o confronto com a Mãe que em vao tenta dizer que a sobrinha inventou tudo,que é uma desiquilibrada mal agradecida.
Mais detalhe,menos detalhe em linhas gerais é esta a história de "Subitamente no Verão Passado."
Estas últimas cenas reenviaram-me para a Origem da Tragédia de Nietzsche
Inevitavelmente pensei também em Cristo, no seu corpo e no seu sangue, na componente sacrificial presente ainda nas touradas e em Baco.
Mais a coragem de um realizador na América da década de 50. Como é que isto passou?
Não sei mas imagino que nao tenha sido fácil. Ignoro como tenha sido a reacção do público de então mas por um exercício de lógica desconfio que não deve ter sido muito entusiasta.
Revela também como o pulsar subterrâneo pode levar a consequências imprevísiveis, crescendo no medo, da não aceitação geral de comportamentos considerados vergonhosos e repulsivos.
A obsessão é uma das mais evidentes e a falta de referências outra. Tudo à volta se abre se jogarmos de acordo com o que é normal (seja lá isso o que for), é tudo mais suave e menos complicado.
Catalogar este filme como objecto Gay é perder de vista o essencial, que é claro e iluminado, sendo sombrio, como na obra do Caravaggio ou se quiserem e puderem na poesia do Eugénio de Andrade.
Ninguém diz de um filme rapaz meets girl que se trata de um fime heterosexual!
Um grande filme do principio ao fim em todos os detalhes.
P.S.- Satisfeito Pruz.?
tendo um nome tão bonito (Nossa Senhora dos peregrinos) não sei que motivo vos leva a insistir num outro. mas, se é esse que querem, é isso que merecem (tal como merecem semelhantes amigos, e amigos dos amigos).
Afixado por: em julho 6, 2005 08:45 AM
Bem feita, Amigo do Pruz!!! a-d-o-r-e-i!
Afixado por: em julho 5, 2005 08:46 PM
Sr. Piero if you follow the link pode ver a Madonna dei Loreto de Caravaggio a que Mohamed se refere. Sim, também tem esse nome de Madonna dei Pellegrini, é a mesma!
Afixado por: em julho 5, 2005 02:23 AM
oh Mohamed, a madona do Caravaggio não é "del Loreto", mas "degli pellegrini".
Afixado por: em julho 4, 2005 11:44 PM
Mas...como foram descobrir o meu esconderijo preferido?
E...Caravaggio...um dos meus pintores por excelência!!!