Hoje apetece-me tudo. Hoje apetece-me tudo o que me apetece. Morder-te,
hoje apetece-me morder-te, roer-te, hoje apetece-me roer-te ainda mais. É que hoje tudo o que me apetece és tu. Apetece-me muito mais, trincar-te, lamber-te, absorver-te, absorver-te mais. E mais ainda é o que hoje me apetece.
Vai minha tristeza
E diz a ela que
sem ela não pode ser
Diz-lhe numa prece
Que ela regresse
Porque eu não posso mais sofrer
Chega de saudade
A realidade é que sem ela
Não há paz não há beleza
É só tristeza e a melancolia
Que não sai de mim
Não sai de mim
Não sai
Mas se ela volta
Se ela volta
Que coisa linda
Que coisa louca
Pois há menos peixinhos
a nadar no mar
Do que os beijinhos
Que eu darei na sua boca
Dentro dos meus braços os abraços
Hão de ser milhões de abraços
Apertado assim, colado assim, calado assim,
Abraços e beijinhos e carinhos
sem ter fim
Que é pra acabar com esse negócio
De viver longe de mim
Não quero mais esse negócio
De você viver assim
Vamos deixar desse negócio
De você viver sem mim
João Gilberto - «Chega de Saudade»
Conheci o amor e deixei-o escapar por entre os meus dedos...
Faz impressão o trabalho que se tem em se ser superficial
Faz-me impressão o baralho o vulgar e o intelectual
Sinto depressão conforme perco tempo essencial
Sofro uma pressão enorme para gostar do que é normal
Deixo tudo para mais logo não sou analógico sou criatura digital
Tendo para mais louco não sou patológico sou como o papel vegetal
Faz-me impressão ser seguido imitado por gente banal
Faz-me um favor estou perdido indica-me algo fundamental
Acho que o que gosto em mim o que me motiva é uma preguiça transcendental
E em ti o que me torna afim o que me cativa é esse sorriso vertical como uma impressão digital
Sinto-me uma fotocópia prefiro o original
Edição revista e aumentada cordão umbilical
Exclusivo a morder a página em papel jornal
Faz-me impressão o trabalho a inércia faz-me mal
GNR, in Valsa dos Detectives.
“Amor enim, ex quo amicitia nominata est...”
“Ex quo axardescit sive amor sive amicitia. Ultrunque enim ductum est ab amando...”
Cícero
“Porque o amor do qual a amizade recebe o nome...”; “Assim se inflama tanto o amor como a amizade. Porque tanto um como a outra vêm de amar”, Laelius de Amicitia, VIII, 26, e XXVII, 100.
A vida por vezes depara-se-me de uma forma tão bela que me sinto arrebatadamente feliz, no entanto esmagada. Deveria sentir-me leve Senhor Doutor?
- E onde anda o Pais de nós todos? - Perguntei ao Moço esta manhã.
- Não sei, francamente não sei. - Respondeu
- Estará bem?
- Não sei que te diga, Controlado. Gostava de saber mas não sei nada, estou fora de tudo, estou longe do poder de decisão.
- Querias estar lá, é?
- Acho que sim mas não sei se adiantaria...
- Já não andas de avião, não é?
- É.
- Mas ias, se fosse preciso?
- Sim. Mas não é lá que devo ir, não sou eu quem deve meter-se no avião. Ele é que deve sair de lá, nem que seja por duas semanas.
- Ele não faz isso, não é?
- É, ele não quer fazer isso.
- Concordas?
- Ele é que sabe, nenhum de nós tem o direito de opinar.
- Concordas?
- É, é mesmo assim, nenhum de nós deve dizer-lhe se sim, se não. Ele é que sabe.
- Vais?
- Não devo.
- E ele, vem?
- Acho que não.
- Lembras-te do teletransporte, do Star Trek e d´A Mosca? Dava jeito, não é?
- É, dava-nos jeito.
A tesão, ora aí está um assunto que nos une a todos. Mal ou bem interessa a todos os pecadores, a uns mais do que a outros, na verdade, mas interessa a todos. Pessoalmente sinto-a com uma frequência assustadora, é um tormento, aparece-me quando menos a espero mas, sei, em doses mais avantajadas quando o encantamento surge através da escrita. As palavras trocadas, em crescendo de intensidade fazem-me aumentar no tamanho e na perversidade, trepo, galgo degraus, à conta das frases ou de simples palavras como Boazona. Repito-me? Sim, repito mas de que importa isso se a tesão também se repete tanta vez, seja no local de trabalho seja em casa, em frente ao computador ou no cinema, seja no carro, seja na garagem, seja no jardim. Um amigo meu diz-me, volta e meia, que a tusa inoportuna o obriga a masturbar-se na casa de banho do serviço, lá naquele ramo da função pública onde perde tempo com processos chatos até mais não. Mesmo para gente cujo trabalho é uma chatice a tesão surge como a salvação circunstancial, difícil de ignorar. A tesão é tão boa, a tesão é vida, a tesão aproxima-nos dos animais nossos amigos, a tesão é o que importa, é o que nos separa dos tansos que vão à missa todos os dias e que só fodem - fazem amor perdão! - numa determinada posição e que não conseguem imaginar uma penetração anal como deve ser porque se trata de um sacrilégio, próprio dos animais nossos amigos. E pronto lá vou eu ter que terminar isto falta-me sempre tempo, porra, sempre, sempre...desculpai, desculpai-me pecadores.
-Está?
-Sim?
-Estás-me a ouvir?
-Estou-te a ouvir sim, diz...
- Onde estás?
- Estou no sofá...
-Estás vaga?! Que se passa, esqueceste-te?
-Não, não me esqueci, é que tomei três clonix, estou dopada.
-Três clonix para quê?
-Para acabar com a tesão, foda-se! Como é que tu consegues?
-Porque queres acabar com a tesão? Não faças isso, anulas a tusa e acabas contigo... que grande disparate. Sentes-te bem?
-Sinto-me junkie, super bem, vejo bolas cor de rosa e estrelinhas quando fecho os olhos. Sabes o que é, estou cansada de ser quem sou, de andar praí cheia de tusa por tudo e por nada, quero ser uma mulher vulgar deitada no sofá....
-Bom, se precisares de alguma coisa... diz-me.
-Amas-me?
-Sabes que te amo sempre, sou a tua máquina mimadora.
-Mimas-me? Vem cá mimar-me.
-Estou a ver que o clonix não te fez grande mossa, fico mais descansada Monroe, bolas, que susto!
-Estou bem... sinto-me maravilhosa, vejo meloas frescas a pairarem sobre o meu ventre.
- Diz-me uma coisa, a vida é bela?
- A vida é bela!

Belo dia hoje...
O que vale é uns compensarem os outros..
Mas belas histórias e boas perspectivas de futuro, sabem que nem ginjas.
Obrigado pelo apoio dado no meu anterior texto.
Deu-me força para hoje poder estar neste belo estado de espírito.
Sempre há amigos, ó A.R., sempre há amigos e eu hoje dei-lhes trabalho. Fizeram exercício sem ter que ir para aqueles ginásios neuróticos. Andar de tapete rolante a olhar para a televisão... não obrigado. Não me vejo. Talvez trabalhar nas obras me dê mais alento. Sempre se vê qualquer coisinha mais interessante. Raspar os tectos, assentar azulejos. Agora correr em passadeiras rolantes sem ir a lado nenhum, que desperdício de tempo e energia. Esses sim, precisam de teoria sexual. Como é possível? Com tantas maneiras boas de perder uns quilinhos.
Quem quer ir correr para a praia amanhã? Ou jogar umas raquetes? Com o calor, no fim, ainda vai apetecer um mergulho e depois é o que Deus quiser...
Ou então ficar em casa, no quentinho da alcova, podem fazer-se vários tipos de exercício... Se for necessário vale a pena ir aos livros, vá! Mais vale isso do que ir para a passadeira.
A piscina ainda é o menos, sempre se vê a água a passar. Muda-se de ambiente e não deixa de ser sensual. Os corpos molhados, meio nus, eu gosto.
Façam pelo melhor, beijinhos e boas férias.
- São duas imperiais, faz favor.
- Estás a pedir em meu nome?
- O que é que tem? Não queres, é isso?
- Só não gosto que tomes a liderança, chiça...
- Olhe, ó faz favor, retiro o pedido, traga-me só uma imperial, o resto fica para depois!
- O que é que estás a fazer?
- A mandar a tua imperial para trás, simple as that.
- I hope you burn in hell, simple as that!
- Isso lembra-me o Blog...
- O Blog?
- Sim, o Blog.
- Olhe, ó rapaz, pssssiu, rapazinho...traga-me uma imperial para mim também!
- Arre.
- Arre, o quê?
- Nada, deixa lá, saiu-me...
- Chiça, porque é que eu ainda me dou ao trabalho de vir ter contigo?
- Perguntas bem, perguntas bem, porque é que te dás ao trabalho de vir ter comigo?!
- Não seja por isso... - Arrastou a cadeira para trás e desandou pegando na mala com uma expressão determinada, independente, segura. Coloquei os óculos escuros e abri o jornal. As imperiais vieram e eu poisei o jornal. Arre, eu devia era pôr-me ao fresco o quanto antes.
Senhor Doutor, diga-me, o que devo fazer? Ir-me ou ficar-me?
On the floating, shapeless oceans
I did all my best to smile
til your singing eyes and fingers
drew me loving into your eyes.
And you sang "Sail to me, sail to me;
Let me enfold you."
Here I am, here I am waiting to hold you.
Did I dream you dreamed about me?
Were you here when I was full sail?
Now my foolish boat is leaning, broken love lost on your rocks.
For you sang, "Touch me not, touch me not, come back tomorrow."
Oh my heart, oh my heart shies from the sorrow.
I'm as puzzled as a newborn child.
I'm as riddled as the tide.
Should I stand amid the breakers?
Or shall I lie with death my bride?
Hear me sing: "Swim to me, swim to me, let me enfold you."
"Here I am. Here I am, waiting to hold you."
Tim Buckley - «Song to the Siren»
Isto é uma curiosa evolução, para não dizer revolução, que se verificou em Portugal desde o 25 de Abril. Estamos todos, literalmente, sob escuta.
As 15.000 escutas telefónicas que os jornais dizem terem sido feitas aos suspeitos de corrupção no futebol somadas às dezenas de milhares que foram feitas durante as investigações do caso Casa Pia, mais os milhares que foram feitas no caso das "facturas falsas" - e estas são apenas aquelas de que se tem tido conhecimento porque os processos foram mais "mediáticos" - devem totalizar quase cem mil escutas. Não parece excessivo julgar que se a este número acrescentarmos todas as escutas feitas durante os últimos anos em muitas centenas de investigações a redes criminosas, de tráfico de droga e de imigração clandestina e prostituição, mais casos avulso de suspeitas de corrupção, tráfico de influências e criminalidade económica, o número das escutas telefónicas chegue e ultrapasse mesmo o milhão.
Um milhão, ou mais, de escutas telefónicas, eis o que nem o major Silva Pais, o defunto último director da Pide, e os seus diligentes inspectores, alguma vez terão sonhado nos seus sonhos mais cor-de rosa. É certo que se por um lado os portugueses telefonam hoje muito mais do que há 30 anos - lembremo-nos que não havia telemóveis e a espera para se ter um telefone instalado em casa chegava a levar anos - e se as novas tecnologias digitais permitem a realização de escutas sem o fatal "clic" denunciador na linha telefónica provocado pela inserção das cavilhas, a verdade é que isto é uma curiosa evolução, para não dizer revolução, que se verificou em Portugal desde o 25 de Abril.
Estamos todos, literalmente, sob escuta. A imprensa garante que o Presidente da República, primeiro-ministro, ministros, membros do Conselho de Estado, tiveram as suas conversas escutadas e gravadas. Dezenas de milhares de cidadãos anónimos, porque são amigos, conhecidos, familiares ou têm relações de qualquer espécie com um suspeito sob vigilância policial, viram as suas conversas, das mais triviais a outras que desejariam por uma variedade de motivos legítimos manter confidenciais, ouvidas por quem não era suposto estar a ouvir.
O destino dessas gravações, garantem as autoridades, está rigorosamente previsto na lei. Se o juiz decidir que não têm interesse para o processo, serão imediatamente apagadas e destruídas. Daquelas gravações que a polícia e os magistrados entenderem que têm a ver com a investigação, só serão transcritas as partes relevantes. Temos que ter confiança na lei, e em que não há polícias desonestos, funcionários corruptos, ou simples desleixo e incompetência. Devemos acreditar que a confidencialidade com que falamos ao telefone das nossas vidas pessoais ou dos nossos negócios não será violada por funcionários que usam o que devia ser secreto ou destruído para fazer chantagem, para espalhar o boato ou para exercer influências.
Devemos, 30 anos depois do 25 de Abril, voltar a ter medo de falar ao telefone. Nunca se sabe quem está a ouvir. A revolução tecnológica deu nisto. Bela evolução!
JOSÉ JUDÍCE title="in Portugal Diário - 26 de Abril de 2004"
O prazer da câmara escura. Cheia de luz negra. De escuridão colorida. De preto puro e luminoso. A câmara escura onde nada se vê. Onde se sente o calor das caixas, dos líquidos, do químico. O ruído todo de fundo. Onde nada existe. Onde nada mexe. Onde nada se sente. Onde o tempo morre.
«(...) "Ó meus amigos, não há nenhum amigo."
Endereço-me (je m'adresse) a vós, não é assim?
Quantos somos nós?
- Contará isso?
- Endereçando-me assim a vós, talvez não tenha ainda dito nada. Nada que seja dito neste dizer. Nada talvez de dizível.
Talvez deva confessá-lo, talvez nem sequer me tenha ainda endereçado.
Endereçado a vós, pelo menos.
Quantos somos nós?
- Como contar?
- De um lado e do outro de uma vírgula, a seguir à pausa, «Ó meus amigos, não há nenhum amigo», eis os dois membros disjuntos de uma só e mesma frase. Uma declaração quase impossível. Em dois tempos. Inarticuláveis entre si, os dois tempos parecem disjuntos pelo próprio sentido do que, ao mesmo tempo, parece afirmado e negado: « meus amigos, nenhum amigo». Em dois tempos mas ao mesmo tempo, no contratempo da mesma frase. Se não há «nenhum amigo», como poderei, meus amigos, chamar-vos meus amigos? Com que direito? Como me levaríeis vós a sério? Se vos chamo meus amigos, meus amigos, se vos chamo, meus amigos, como ousar ainda dizer, e precisamente a vós, que não há nenhum amigo?
Ora, por mais incompatíveis que pareçam, e votados a anularem-se na contradição, eis que numa espécie de desejo desesperadamente dialéctico os dois tempos formam já duas teses, talvez dois momentos encadeiam-se, parecem juntos, comparecem, no presente: apresentam-se como que de um só traço, de um só sopro, no mesmo presente, no presente mesmo. Ao mesmo tempo, e diante não se sabe de quem, diante da lei de não se sabe de quem. O contratempo sorri ao encontro, comparece a ele sem demora mas sem renúncia: não há encontro prometido sem a possibilidade do contratempo. Desde que há mais de um.
Mas quantos somos nós?(...)».
Jacques Derrida in Políticas da Amizade, Campos das Letras, Lisboa, 2003.

Um caos!
Dois caos!!
Três caos!!!
Quatro caos!!!!
São uns a seguir aos outros. É um mega CAOS.
Sem principio nem fim.
Como é que será possivel desembaraçar-me de tal umbrólicu?!
Nínguém me responde... pois, eu percebo. Tomara eu saber e não precisar de perguntar.
Nem precisar de pedir... pedir é mau, muito mau. Para as várias partes envolvidas. Basta ter que se pedir para ser mau, muito mau.
Há momentos em que se torna dificil, viver...
Sejam felizes, por favor! Vão ver o mar, vão plantar batatas, vão beber umas fresquinhas, vão pró caralho, mas vão.
Eu fico aqui a pensar nas perguntas para que não tenho respostas.
De barriga cheia desandámos directos para as ruas, eu adoro estar perdida mas tu sabias bem onde estavas. Era o teu mundo minúsculo, não cheguei a perceber se gostavas dele ou se te resignavas. Encontrámo-nos com os teus amigos, ouvimos música na casa de uns, não me lembro quem eram, sei que tinham boa música. Depois fomos sair com outros tantos. Um deles falou-me da “Montanha Mágica”, disse-me que convivia diariamente com aqueles personagens, que estava apaixonado pela Cláudia Chauchat, que se sentia Hans, todo ele Hans. E disse que tu eras lindo “Olhem para este homem, ele é tão bonito...”, eu por acaso também acho. Fomos a um bar de portugueses, voltaste a fazer-me perguntas e tiraste conclusões que eu nem queria ouvir. Depois fugimos e infiltrámo-nos no outro lado, para mim um lado estranho e agreste. Cercaram-me, fitavam-me de olhinhos cerrados, eram pequenos e musculados, não percebi o que queriam, tu de mãos nos bolsos gozavas o prato com um sorriso. Pensavam que eu era uma puta russa, e eu deixei-me ser durante uns minutos, mas de repente eram muitos e tu mantiveste-te a gozar o prato calmamente, não me hei-de esquecer do teu sorriso perverso. Desembaracei-me deles, e dançámos os dois. Depois voltámos ao hotel, despedimo-nos e eu subi ao vigésimo e tantos andar. Nos quartos repousavam os da outra dimensão. Lembro-me de ir pelo corredor a dizer o nome deles a cada porta, largando gargalhadas sarcásticas, relutante em voltar àquela zona. Fiz o corredor de gatas, imaginei-os na cama deitadinhos, um a um, elas e eles com os seus cabelos duros e as barbas brancas…"se vissem o que eu vi, se soubessem o que eu sei!" E ria sentindo-me repleta.
...interessante constatar que a mim acontece tudo ao contrário. Sou um caso à parte, um daqueles casos chamados difíceis, pouco óbvios, que se esquivam aos diagnósticos. As minhas reacções não são nada típicas. Por exemplo, não fico triste nos primeiros dias. Fico radiante, toda a gente diz que estou mais bonita e tudo. Adoro a sensação de libertação dos primeiros meses. O poder estar sozinha, não ter que dar cavaco a ninguém, não ter que esperar, não ter que perguntar, não me preocupar, não ter que ter paciência, custa-me ter paciência, cansa-me, mas estou melhor, já vou tendo paciência naturalmente, sem sequer pensar nisso. Sou anormal, não sofro com saúdades, sublimo-as, não caio em melancolia, acho que descanso em nostalgia. E os meus amigos não acreditam, insistem em que estou triste, que estou mal, repetem palavras animadoras, que eu não rejeito mas não preciso delas para nada. Porque quando choro dá-me prazer, e eles não acreditam!
Este delicioso estado de libertação quiçá oposto ao amor perdido, tão estranho a quem me quer convencer de uma raiva que não sinto, nasce precisamente do perdão. “Adeus, desejo-te as maiores felicidades”. É o que eu sinto, dizer não importa. E é ele a ir por um lado e a liberdade, ainda morna, a entrar pelo outro. Sou eu a entrar pelo outro.
Não mato o amor, nem faço por esquecer, deixo-o ficar enquanto ele quiser, mais cedo ou mais tarde transformar-se-à noutra coisa. É inevitável. Melhor ainda, até gosto de o alimentar, a esse amor, pois traz-me à lembrança não ser nem o único nem o último. Quando durmo não gosto de sonhar. Gosto sim de sonhar acordada, consciente, gosto de saber que são ilusões, como outras quaisquer. E transporto-me para outros sonhos muitos mais altos, belos, belíssimos agora que nada me impede.
Às vezes sinto-me mal por me sentir bem, o que acha senhor Doutor?
It's hard being a man
living in a garbage pale
My old lady called me up,
she tried to hit me with a mop
I can't stand it any more, more
I can't stand it any more, more
But if Shirley would just come back, it'd be alright
If Shirley would just come back, it'd be alright
I live with thirteen dead cats
a purple dog that wears spats
they're all living in the hall
and I can't stand it anymore
I can't stand it any more, more
I can't stand it any more, more
But if Shirley would just come back it'd be alright
if Shirley would just come back it's be alright
It's hard being a man living in a garbage pale
my old lady called me up
she tried to hit me with a mop
I can't stand it any more, more
I can't stand it any more, more
But if Shirley would just come back, it'd be alright
I cried, if Shirley would just come back it'd be alright
What ya gotta lose?
Velvet Underground - «I Can't Stand It»
Acorda-se todos os dias no pesadelo. Numa tristeza profunda. Que só termina no fim do dia quando de novo se dorme. E se abraça o sonho.
As evoluções do 25 de Abril:
Casa Pia - sexo infantil, todos ao cu.
Futebol - mais vale pagar pouco por uma mentira do que a dobrar por uma verdade.
Política - a democracia é para os ricos, o voto é para os pobres.
Durmo. Se sonho, ao despertar não sei
Que coisas eu sonhei.
Durmo. Se durmo sem sonhar, desperto
Para um espaço aberto
Que não conheço, pois que despertei
Para o que ainda não sei.
Melhor é nem sonhar nem não sonhar
E nunca despertar.
Pessoa,Fernando
I'm an underwater fraulein
I'm an underwater fraulein
all I know is my rhyme
all I know is my rhyme
long lost daughter of mine
can you send me a sign
can you send me a sign
Feels like devotion
under my skies
feels like devotion
makes the rockets fly
And I don't know if a word
can explain all the possibilities
and I hope it is clear
I don't think complaining is
the answer here
I'm an underwater fraulein
I'm an underwater fraulein
Chorus
And I think sometimes you're right
when I'm wrong
and I think sometimes you're wrong
when I'm right
Thank God I can see your side
Chorus
(give me a little while / I will see your side)
Luscious Jackson - «Devotion»
Foi ao som deste tema retirado de «Electric Honey» que me fiz à estrada hoje. Queria experimentar a S.B.Green mas continuo a busca sem, no entanto, a encontrar à venda. E precisamente por isso fiz-me à estrada hoje, bem cedinho. Não descobri a solução para o problema e, à falta de resposta, desejei ser uma Underwater Fraulein. Estarei a ficar louco, senhor Doutor?
O SEXO DISPENSA A TEORIA

"O governo apaga, o povo escreve!"
I tried but I could not find a way
Looking back all I did was look away
Next time is the best time we all know
But if there is no next time where to go?
She’s the sweetest queen I’ve ever seen (CPL593H)
See here she comes see what I mean? (CPL593H)
I could talk talk talk talk talk myself to death
But I believe I would only waste my breath
Ooh show me...
ROXY MUSIC - «Re-Make Re-Model» - 1972
Numa fracção de segundo tive dois sonhos:
O primeiro. Tinha a minha mão junto à tua, era verão, era calor, estávamos em trajes de praia, de mãos dadas. Tu eras pequenina. Eu era eu. Não te vi a ti nem a mim. Apenas senti a tua mão. E corremos. Salta-mos para dentro de água, uma piscina imensa, sem fundo. Ouvi gritos de alguém a dizer cuidado. Vários alguéns. A água estava fria. Tu não sabias nadar, eras pequenina. Quando olhei debaixo do líquido todo ele fresco, tu já lá não estavas. Só a imensidão do fundo que não tinha fim. E os gritos filtrados pela profusão da água.
O segundo. Estava a dormir e acordei. Vi a minha mão na mesa ao lado da cama como se fosse um bibelô. De repente começa a arder. De repente fica em brasa. E eu, no preciso momento em que isso acontece, com a mesma mão que estava em brasa, mas que ao mesmo tempo estava no fim do meu braço, agarro e aperto o vermelho incandescente, como se fosse lava quase sólida. Acordei de seguida com um salto.
Agora venha de lá um simbologista freudiano para explicar o meu imaginário.
Foder sempre também cansa. Estou enjoado de todas as posições. Não há segredos. A imagem repete-se. Os movimentos dos corpos são monótonos. O tempo de prazer demora sempre os mesmos minutos. O som dos teus gemidos é sempre igual. Cada um pensa na sua própria vida. Os pensamentos desviam-nos a atenção do que estamos a fazer um ao outro. Começamos a foder com a ansiedade doentia de acabarmos. Esgotamos o corpo para nada. A insatisfação é o nosso orgasmo.
Os homens que não se mexem na cadeira ao ouvir ou ler Boazona não sabem o que vale a vida. A Loira Monroe ou a Doutoral Mamalhuda com o complemento Boazona, antes ou depois, devem ser as mulheres mais desejáveis do Planeta. Levantem-se, Boazonas, espalhem os vossos encantos.
Controlado pelo Tráfico Aéreo in Motel Prusidente.
doutoral mamalhuda says: entao???
loira monroe says: então o que?
loira monroe says: boa?
loira monroe says: queres-me?
loira monroe says: muito
loira monroe says: hein?
doutoral mamalhuda says: boa
loira monroe says: quem me ama? quem????
doutoral mamalhuda says: vai ser tam bom
doutoral mamalhuda says: Loira
loira monroe says: diz diz
doutoral mamalhuda says: eu
loira monroe says: alguem me ama?
doutoral mamalhuda says: eu
doutoral mamalhuda says: eu
doutoral mamalhuda says: bora nessa?
loira monroe says: ah estou feliz!
doutoral mamalhuda says: queres-me?
doutoral mamalhuda says: vamos amarmo-nos?
loira monroe says: quero pois
loira monroe says: amora
doutoral mamalhuda says: na croácia
doutoral mamalhuda says: não, la, vamos amar homens
doutoral mamalhuda says: ate lá, nós
doutoral mamalhuda says: tu e eu
doutoral mamalhuda says: eu e tu
loira monroe says: amora negra
loira monroe says: saborosa
doutoral mamalhuda says: eu vou arrasar croatas, ke gosto muito de carne eslava
loira monroe says: ui ui ui
loira monroe says: nunc provei!
loira monroe says: deve ser bbooooooom!
doutoral mamalhuda says: hmm
loira monroe says: hm hm hm
doutoral mamalhuda says: caspios nunca aprovei
loira monroe says: chlep
doutoral mamalhuda says: mas ja provei de muitos pontos do globo
doutoral mamalhuda says: vendo bem
doutoral mamalhuda says: te ja
doutoral mamalhuda says: boa
loira monroe says: boazona!
loira monroe says: hmmm ai BOAZONA
doutoral mamalhuda says: sim...
doutoral mamalhuda says: moi
loira monroe says: boaaaaa
loira monroe says: ZONA
loira monroe says: nham
loira monroe says: nham nham
loira monroe says: nham nham nham
doutoral mamalhuda says: vem cá
doutoral mamalhuda says: vem vem
loira monroe says: vou ai vou amora
loira monroe says: nem sabes o que te espera
doutoral mamalhuda says: vem framboesa boa
doutoral mamalhuda says: hmmm
loira monroe says: nham nham nham
loira monroe says: shlep!
doutoral mamalhuda says: nhoca nhoca
loira monroe says: hmmmmmm
loira monroe says: hihihihihih
loira monroe says: aaaaaaaai oohhh! siimmmm!
loira monroe says: sim! assim !
loira monroe says: mmmmhmmmm
doutoral mamalhuda says: uaua!
loira monroe says: auauauaua OH!
doutoral mamalhuda says: tás sola?
doutoral mamalhuda says: tou vendo
doutoral mamalhuda says: oh??!!!
doutoral mamalhuda says: já???
loira monroe says: não, mas agora..estou
doutoral mamalhuda says: és rapida amore mio
loira monroe says: mas está a voltar
loira monroe says: inda não!
loira monroe says: não já!
loira monroe says: hihihihhih
doutoral mamalhuda says: ah
doutoral mamalhuda says: aspeta
doutoral mamalhuda says: pela noite...
doutoral mamalhuda says: dentro
doutoral mamalhuda says: VVV
doutoral mamalhuda says: vou-me
doutoral mamalhuda says: chegou ela..
loira monroe says: a vaca gorda?
O arlequim transformista, tagarela, com cara de mafioso feio até dizer chega, nojento, muito nojento, rapidamente pegou na sua estratégia habitual para ganhar casas naquele joguinho de tabuleiro. Em saltinhos de bezerro cego fez-se crescer, gritou e tentou ameaçar-me aos berros, em pequeninas cuspidelas de fraco armado em forte. Como das outras vezes que olhámos de frente um para o outro não pestanejei e deixei um ligeiro sorriso tomar o lugar da boca. Naquele instante condensava pausadamente todo a aversão e desprezo que sentia pela criatura que se exibia à minha frente. Mal acabou a última palavra da frase ofensiva dei-lhe um soco no queixo, com toda a força que o meu braço direito encerrava. E no meio-segundo que a queda estava a demorar dei-lhe outro no olho com a minha mão esquerda, fechada como se fosse uma cunha. O actor poisou no solo inanimado e eu saltei-lhe para cima do tronco tratando de socá-lo seguidamente, respondendo às ordens da multidão. MATA, MATA, MATA, ACABA COM ELE. O primeiro soco acertou na cana do nariz e partiu-a. Havia jactos prontos a sair-me pelas unhas das mãos, todo eu luzia e faiscava. Dois, três e a mão ficou manchada de sangue. Os raios chegavam-me aos olhos e saíam que nem loucos, delirantes. Quatro, cinco e a a mão penetrou por entre os olhos naquela cabeça sem vida. Seis e a mão sentiu o comprimir do cérebro depois da destruição dos ossos que o protegiam. Foda-se, todo eu era luz a entrar pelo palhaço rico, ridículo, que tinha a mania que controlava a cena, que dominava os bem formados. Sete, oito, nove, dez e a cabeça era uma esponja de sangue, uma pedaço de plasticina vermelha moldada de novo de cada vez que um soco acertava no alvo. Onze, doze, treze e a multidão gritava já CHEGA, CHEGA, CHEGA, PÁRA, CHEGA, PÁRA! Acordei, talvez no vigésimo, e subi de imediato apoiado nos pés crivados no fundo da arena. Caramba, estava cheio de ódio, cheio de força, cheio de neons a deslizar pelos músculos, pleno de brilho e fogo preso. Caramba, este tinha sido prazer puro, vontade real de matar, de reduzir a pó, este, sem gaja para foder, sem necessidade de a foder para o afectar, tinha sido morto com um prazer imenso. Matei o cabrão com imenso prazer, foda-se, matei o único que não estava nos planos com uma vontade superior à vontade de matar todos os outros.
O público sentara-se, havia gente a vomitar, havia pessoas a correr para as saídas. Não aguentavam aquilo mas eu estava-me a cagar para eles, faltava o Bill, o último de todos, o primeiro da lista, o alvo preferencial. Limpei as mãos nas coxas e fui-me a ele. Corri nos poucos metros que nos separavam e imobilizei-me juntinho a ele, e mal estaquei, aquela figura de homem a perder a juventude abateu sobre os joelhos e ficou-se com a cabeça pela altura das minhas cuecas. Fixava o chão abaixo de nós, fixava nada, fixava o passado recente. Do topo disse-lhe, «não te ajoelhes, não és do género de o fazer, não te deixes iludir pela força bruta porque não é com ela que te vou derrotar...ouve e sofre, grande cabrão...
Tu foste longe de mais. Pisaste o bosque, entraste nele, percebes? Entraste no bosque e agora andas às aranhas perdido porque não encontras a saída. Mas a porta está aqui à tua frente, meu cabrão fedorento, e vais começar a sair pelos dedos. Pela ponta dos dedos. Que é coisa que tu não podes usar. Não tens capacidade para tanto. Fica um segredo nosso. Não conto a ninguém. Vais começar a chupar os teus dedinhos, aqui à minha frente e de seguida vais trincá-los devagarinho, um a um, até ao osso. Raspando os dedos com que escreves. Até não sentires mais nada. Tu não vales nada, compreendes o alcance disso? És apenas um que anda para aí, como os outros. A fazer o que os outros fazem, ou pior, sem rasgo, sem poder de criação. Com a mania que és massivo. Por isso nem eu te vou tocar. nem falar no que tens lá em casa. Vá podes começar. Tens imaginação para isso, para te comeres a ti próprio? Para chafurdares na tua própria merda, para começar a comprimir a goela com os aros que te servem de dialética? Olha para mim. Olha bem. Quiseste pisar o bosque, não foi? Como se o conhecesses. Como se fosse teu. Mais um. Mais uma voltinha. Querias vê-lo com os teus próprios olhos, com os dedos que já não tens. Vá engole. Depressa. Não percas tempo, que tenho mais que fazer. Agora comes os lábios de imediato a língua que te faz falar. Nunca mais vais dizer uma palavra, ouviste?
Olhei para as bancadas e vi apenas uns grupos de resistentes, acenei-lhes e disse-lhes adeus - Acabou-se, pessoal, podem basar, este vai viver, não lhe faço mais mal, acabou-se, basem paras as vossa casas, vá, toca a andar já não há mais nada para ver! - Eles levantaram-se e lá sairam do topo Norte, da Central, do Peão, dos Galinheiros, uns primeiro do que os outros, uns mais certos do que os outros, como tudo na vida afinal.
O Bill sem coragem para me enfrentar achava-se ainda de joelhos. Os óculos estavam enterrados na poeira da goela. Peguei nas calças, nas botas, no colete e dirigi-me à saída. Já me tinham aberto a porta e eu estava pronto para sair dali. O calor era peganhento mas hoje sabia-me bem.
Fim
«Whether at Naishapur or Babylon,
Whether the Cup with sweet or bitter run,
The Wine of Life keeps oozing drop by drop,
The Leaves of Life keep falling one by one.
Then to the Lip of this poor earthen Urn
I lean`d, the secret Well of Life to learn:
And Lip to Lip it murmur`d - "While you live,
Drink! - for, once dead, you never shall return."
And if the Cup you drink, the Lip you press,
End in what All begins and ends in - Yes;
Imagine then you are what heretofore
You were - hereafter you shall not be les
So when at last the Angel of the Drink
Of Darkness finds you by the river - brink,
And, proffering his Cup, invites your Soul
Forth to your Lips to quaff it - do not shrink.
When You and I behind the Veil are past,
Oh, but the long long while the World shall last,
Which of our Coming and Departure heeds
As much as Ocean of a pebble - cast.
One Moment in Annihilation`s Waste,
One Moment, of the Well of Life to taste -
The Stars are setting, and the Caravan
Draws to the Dawn of Nothing - Oh make haste.
Would you that spangle of Existence spend
About the secret - quick about it, Friend!
A Hair, they say, divides the False and True -
And upon what, prithee, does Life depend? »
Estou farta de lamechisses. Passou o tempo, já passa da hora. A partir de agora é AMOR a partir! NHAM, NHAM, NHAM.

Agora que o Prusidente voltou torno-me apenas um súbdito do arco e da flecha. Conseguem ver-me, lá ao fundo, eu com mais alguém?

Sempre estive aqui, espectante, a olhar para o mundo à minha volta. A observar em redor. De variadíssimos ângulos e perspectivas. Neste deserto perdido.
O olhar por vezes deixa de ser compatível com o sentir, torna-o dúbio. Desfocado. Posso afirmar, no entanto, que me tornei outra pessoa. Alinhado no desalinho. Capacitado na incapacidade. Cheio no vazio. Acredito que um processo binário tem sempre muitas arestas. Nunca é só uma coisa ou a outra, opostas entre si. Existem nuances, determinações, sintomas, que as envolvem. Que as desmontam, simulando um outro estado, uma outra presença, uma outra vida. Contudo, são sempre formas do sentir, de encarar a realidade, o amanhã. É uma previsão fora do tempo. Sem espaço para se instalar. São unidades de simulacro que se entornam no diâmetro do presente.
O viver existe de muitas maneiras, as decisões que se tomam surgem de muitas vertentes, influenciadas pela ideia de felicidade, talvez, o projectar de um sonho, ou, em contínuo, o rasgar de uma insatisfação, que se pensa ser permanente. São caminhos que se tomam, passos que se dão, que se dirigem, por vezes, à oposição de nós próprios. Mas é aí que nos encontramos, é aí que vamos buscar o nosso canto de verdade. A nossa esperança de saída para um destino melhor. O nosso destino. Nas nossas próprias mãos.
São dois os principais problemas de Portugal: os poucos pessimistas profissionais, que passam a vida a contaminar o resto da população, e uma governação inadequada, ineficiente, ineficaz e fora de contacto com a realidade no país. Que Portugal e os portugueses têm inegáveis qualidades, não hajam dúvidas. Não é por nada que Portugal é um país independente e a Catalunha, a Bretanha, a Escócia e a Bavária o não são. Não é por nada que o português é a sétima língua mais falada no mundo, à frente do alemão, do francês e do italiano. No entanto, estas qualidades precisam de ser cultivadas por quem foi eleito para liderar e dirigir o país. O que acontece é que nem agora, nem por muito tempo, Portugal tem tido líderes dignos do seu povo, capazes de liderar a nação, realizar os projectos que foram escolhidos para realizar. O resultado é uma onda de pessimismo, no meio dum mar de desemprego, desinteresse e desorientação que serve de combustível para a economia emocional não funcionar, aquela economia que é tão importante quanto a economia das quotas de oferta e procura. A consequência é uma retracção não só da economia mas também do psique da sociedade, com uma introversão patológica a manifestar-se no escrutínio colectivo do umbigo nacional, ou um pouco mais abaixo. A não-história da pedofilia, já uma psicose nacional, é um belíssimo exemplo de até onde pode chegar uma sociedade quando nem é orientada nem estimulada a pensar em horizontes mais saudáveis. Há mais que um ano, a imprensa portuguesa regurgita a história do abuso sexual de meninos do orfanato/escola Casa Pia, apontando nomes sonantes da vida pública que nem têm lugar aqui, visto que até ser provado ao contrário, uma pessoa numa sociedade civilizada, é considerado inocente.
Na busca de quem foi ou quem não foi, deu origem ao levantamento na praça pública duma lista substancial de nomes do mundo artístico, desportivo, e político, aos mais altos níveis. Não é a causa do pessimismo em Portugal, mas espelho dele. A noção que "nós não prestamos, somos os coitadinhos da Europa e a alta sociedade é podre" se ouvia nos finais dos anos 70, desapareceu e com a não governação do primeiro-ministro José Barroso, voltou. Está tangível, quanto mais para um estrangeiro que ama e estuda este país há 25 anos. Outra manifestação deste pessimismo é a negatividade ao nível das conversas nos cafés (inaudíveis nos claustros de cristal onde pairam os governantes do país) acerca dum evento que a priori é a melhor hipótese que Portugal alguma vez tem tido para se projectar na comunidade internacional? o Euro 2004. O Euro 2004 é o ponto desportivo mais alto na história quase milenar de Portugal. É um dos três mais vistos eventos televisivos no mundo e é uma excelente oportunidade de enterrar de vez a falácia que Portugal é uma província espanhola. Mas o que é que acontece?
Enquanto o resto da Europa se prepara com entusiasmo para o Campeonato da Europa em Futebol, se ouve em Portugal por todo o lado que os estádios não estão preparados, ou que não são seguros, ou que os aeroportos não estão adequados ou que vai haver problemas com hooliganismo ou com terrorismo. Disparate! Ou pior, uma vergonha, por quem perpetua este tipo de lixo que se chame notícias por aí. Para começar, os estádios estão tão prontos que já se joga futebol neles. Segundo, as normas de segurança têm de obedecer a rigorosíssimas normas de controlo estipuladas pela inflexível UEFA. Terceiro, os aeroportos têm dos sistemas mais avançadas de controlo de tráfico aéreo, total e completamente integrados nos da União Europeia e mais, os adeptos não vão todos chegar no mesmo dia, nem todos de avião. Quarto, quando os bilhetes foram vendidos na Internet, foi consultada a base de dados proferida pelas forças policiais dos países presentes no Euro 2004. Quinto, Portugal é alguma vez um alvo para ataques terroristas, desde quando? Só se fossem as FP-25 de Abril. Porém, onde estão as autoridades a explicarem a verdade, a estimular a população, a instilar o optimismo, não só para o Euro 2004 mas para galvanizar a economia, a liderar o país? Exactamente onde estiveram, estes ou outros, quando os interesses dos portugueses estavam a ser vendidos por um preço barato, o que levou gradualmente à situação actual em que uma família portuguesa gasta substancialmente mais do seu ordenado em necessidades básicas do que no resto da Europa. Não se admite que num supermercado espanhol, se encontram exactamente os mesmos produtos bem mais baratos do que em Portugal, não se admite que no Reino Unido o cesto básico de alimentos custa bastante menos, quando se ganha cinco, seis ou sete vezes mais. Há duas semanas, vi três restaurantes no centro de Londres com o cartaz "Comam o que quiserem por £5.45 - 9 Euros, ou um pouco menos. Os portugueses gastam uma fatia tão grande do seu ordenado em mantimentos fundamentais que não há capital disponível para os serviços, restringindo a economia a um modelo básico e muito primário. Se bem que Portugal é um país pequeno, também é a Bélgica, a Dinamarca, os Países Baixos, o Luxemburgo, a Suiça, a Irlanda. Estes países têm um plano de médio e longo prazo e nestes países ganham os lugares de destaque pessoas competentes e devidamente qualificadas e formadas. Em Portugal, o plano é ganhar as próximas eleições, ponto final.
O que acontece depois? Há uma onda laranja ou cor-de-rosa a varrer o país e ocupar todos os quadros altos e médios, seja em ministérios, em faculdades, em firmas, até em hospitais. O grande plano é, quanto muito, de quatro anos, o que explica a pequenez de pensamento e a falta de visão personalizada por uma ministra das finanças que trata a economia do país como se fosse uma dona de casa maníaca, que, munida com uma tesoura gigante, tenta transformar um lençol de cama de casal numa bata para uma boneca diminuta? Corta, corta, corta.
O resultado disso tudo é o que se vê: desempregados à espera de desemprego durante largos meses, não semanas, sem receberem um tostão do governo que elegeram para os proteger. Quão conveniente por isso que o país fale de pedófilos e não da economia, do emprego, da falta de poder de liderança deste "governo" PSD/PP, da ausência duma cariz democrático, ou social, ou ou calor humano destes, que foram eleitos para proteger seus cidadãos. O que fizeram? Absolutamente nada. Lamentaram que o país era um caos, e calaram-se. Então, onde estão as políticas de salvação? Portugal está, e por muito tempo tem sido, liderado por uma argamassa de cinzentos incompetentes que venderam os interesses do país irresponsável e negligentemente para fora. Portugal precisa de quem tenha o brio e a chama suficiente para incendiar a paixão do povo deste país lindo, desta pérola do Atlântico, de ajudá-lo a ir ao encontro dos seus sonhos, acreditar em si, redescobrir as suas consideráveis qualidades e colocar Portugal num lugar de destaque entre a comunidade internacional. O leitor pode apontar quem tenha feito isso nos últimos anos? O José Barroso está a fazê-lo? Caso contrário, se não descobrir, e rapidamente, quem for competente para governar este país, os projectos audazes e brilhantes, que vão de mãos dadas com o espírito e a alma portuguesa, como por exemplo a EXPO 98 e a EURO 2004, ambos com uma gestão excelente e uma preparação de que poucos países se poderiam gabar, perder-se-ão no mar de lamúria que assola Portugal. Francamente, a paciência dos que tanto lutaram para fazer qualquer coisa deste rectângulo atlântico, começa a esgotar-se. Já que gostam de dizer que quem não está bem deve mudar-se, começa a ser uma excelente ideia.
TIMOTHY BANCROFT-HINCHEY
Director e Chefe de Redacção
PRAVDA.Ru - Versão portuguesa

Deixa estar, não faz mal, é só uma fotografia, mais nada!

Preciso de magia. De ser mágico. De conseguir a fórmula milagrosa. Seria tão fácil pedir-lhe. Ou criá-la de viva voz. Com falas tão sedutoras e mil encantos. Mas como? Ser eu, apenas eu? O muito mais eu?
Um efeito fantástico. Um duende cheio de desejos para oferecer. Com fadas. Com princesas. Castelos.
E abraços e beijinhos. E coisas tão doces. Tão bonitas. Os dias todos tão lindos.
E viver feliz para sempre!?
Juro que só bebi um Bloody Mary ! Continuemos... Estava eu a dizer, que por esta blogosfera, vê-se cada cromo, que é p'ra rir, até se coçar. Também há gente super, gente muito bem informada, gente culta, que até apetece ler e conhecer. Mas neste Portugal há de tudo. E como o Pimba está na moda, há uns meninos bonitinhos, armados em analistas politicos, uns à direita, outros à esquerda, e vai-se a ver, o bonitinho do menino que se farta de "gabar" as politicas do amigo Bush, é menino de papá, que até o deixa guiar, o Mercedes ou o Porsche, nos fins de semana, para assim, brilhar junto das meninas ou dos meninos, que isto agora, homens, onde é que eles estão? 'Tá-me a lembrar um, que bem conheço, e mora na minha rua, que também blogueia às vezes (Sei quem ele é... bolas, até pareço a Madalena Iglésias no Festival da Canção!), sempre armado em bonitão, com sorrisinhos pr'a lá, sorrisinhos pr'a cá, e vai-se a ver, é uma bichona daquelas que mete medo, e de vez em quando, é vê-lo, quando o papá não está, a chegar de madrugada aos beijinhos e abraços com um jovenzinho matulão, que nem sei se tem idade para aquela variação. Outros há também que, por certo, são grandes prosadores, merecedores de elogios vibrantes, artistas, poetas, pintores de sonhos mil. Para esses, o meu abraço... quentinho... vermelhinho. E para terminar, há ainda aqueles, que se deitam a adivinhar, se o número 25 é evolução, se é revolução, ou ainda se é o numero d'algum bordel afamado. Que enfado! O 25 é fogo, é arte, é vigor, é paixão. Por isso, SÓ PODE SER REVOLUÇÃO. Pois então!
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O dom da palavra não é meu!
Quando cheguei, depois de três meses de ausência, encontrei-te deitado. Estavas triste e amuado. Três meses de ausência tinham que ser desforrados ali, naquele momento, aproveitando o facto de estares deitado, à minha espera. Sorriste ligeiramente, aquele sorriso dizia que me querias por isso avancei, devagar.
Despi-me, estava muito calor. Fiquei só de roupa interior.
Não te mexias, mas não conseguiste esconder o sorriso de felicidade, e a tua respiração acelerou quando me aproximei. Olhavas-me de soslaio, mimado, lindo com esses olhos malandros. Estavas mais bonito que nunca. Deitaste-te de barriga para cima pronto para as minhas carícias e fitaste-me, atento, os olhos condizentes com os pelos do teu peito. Mal te toquei a tua respiração tornou-se ainda mais rápida, ofegante, beijaste-me delicadamente, mordiscaste-me, depois começaste a lamber-me sem parar. E eu ofereci-te o meu pescoço, eu gostava que me lambesses o pescoço. “Calma, com calma”. Pingos de saliva cristalina caiam no chão, estava calor e tu transpiravas, que saudades! Transbordavas de amor, um amor incondicional por mim. Que honra ter sido uma deusa para ti. Perdoaste a minha ausência, esqueceste-te que eu te tinha abandonado e naquele momento o mundo era só nosso outra vez.
Bem, mas o pessoal lá chegou ao CóCó. Entrámos à má fila, tás a ver, e ninguém gostou de nos ver. Começámos a saltar e atirámo-nos pó chão e fingimos que távamos a nadar, ganda loucura. Tava mesmo naquela qu'éra peixe. Comi um sapato duma garina que lá tava. A gaja levantou a bolinha apanhou logo um soco na fuça que ficou a fazer de peixe connosco. Às tantas fomos embora e como a chavala continuava a pensar qu'éra peixe, pú-la no lavatório, assim já se sentia mais ambientada.
Fomos apanhar o comboio das 5h30. Não tínhamos bilhete. Aparece o picas com cara de parvo que me irritou logo. Começou a desatinar. Não ouvia nada do que ele dizia, só lhe via a boca a mexer, a mexer. Era feia à brava aquela merda de boca. Comecei a ferver por dentro e disse-lhe “esteja quietinho c’a boca senão ainda fica sem ela. É feia mas é a única que tem...”. O homem continuava a gesticular a boca. Fiquei altamente descontrolada, tás a ver, peguei na cena de picar os bilhetes e furei-lhe a boca toda. Ganda nojo... era sangue por todo o lado e o gajo com a boca furada ainda mexia. Gritava. Ia a passar um puto a vender pensos e catei-lhe um molho e dei ao picas. Ina a fúria do gajo, altamente curtida, a cena. Foi pena é ter ficado ainda a mexer a boca.
Paí no próximo fim de semana vou ao Circo Chen, tou a pensar em soltar a bicharada.
Bem chavala, porta-te mal e desatina bué
Tchau
A Guarda Costas da cidade selvagem.

O perfume tomava-me conta das narinas e à medida que me ia aproximando do corpo de atleta velho mais enjoado me sentia. Apertei o nariz e o mundo naquele recinto ouviu-me nazalado - Ouve, braço direito mais desenvolvido que o esquerdo, descansa, também não te vou bater. Tu, de todos, és o menos reles. Se pagas é contra vontade, é apenas e só porque vais na corrente, deixas que te comandem, deixas-te levar pelos gajos que tomas por amigos. No que te diz respeito, a tua mulher esteve ali à minha mercê, deitada de pernas abertas, a implorar, a arfar, declaradamente indefesa e eu só não fiz miséria porque às tantas me apareceu um rebento teu à porta do quarto, mesmo, mesmo quando a primeira «gota do amor» me pendia da piça. A criança olhava-me inexpressiva e eu assustei-a com cara de mau mas mesmo depois de desaparecer no corredor não fui capaz de fazer miséria... como não a fodi, para não deixar o trabalhinho incompleto, prometi-lhe amor para todo o sempre, disse-lhe que a queria só para mim e que estava disposto a abdicar de tudo só para ficar com ela. Confessei-lhe que, ao longo daquele tempo todo, tinha querido roubar-ta dos braços e que ali, naquele quarto, estava tudo em jogo. A princípio ainda hesitou mas dali a nada estava a fazer as malas e a discutir as frases que teria prontas para tu leres mais tarde... quando saí de lá já metade das calças, dos sapatos, das jóias estavam bem guardados em sacos Louis Vuítton made in China... aliás, se lhe ligares agora vais ouvi-la a soluçar, a dizer que não havia mais nada a fazer, que a vida não é dos fracos, que lutar pelo amor vale a pena em qualquer parte do mundo. Não a fodi mas beijei tudo o que havia para beijar e devo dizer-te que a tua mulher não é das que gostam de banho...
Enquanto o Kouros escorria mesclado com desperdício corporal, silencioso, decidi adormecer o homem banzado, traído na sua própria casa. Bastaram dois dedos a apertar-lhe o nariz para o fazer vergar. Deslizou sobre si mesmo, enrolou-se e dormiu, numa cambiante do sono dos justos. A multidão gritou então MORTE, MATA, MATA O QUE FALTA, MATA O OUTRO, MATA MATA e eu readquiri a pose de vencedor, com o braço a apontar para o céu. Depois voltei a olhar para baixo, para o dos membros superiores desenvolvidos de forma desigual, e senti-me verdadeiramente poderoso. No meio daquele quadro terno, com um homem enrolado como se fosse o em palhinhas deitado mas maior, entrou em cena o maior tagarela do Planeta, o que não fazendo parte daquele grupo fazia parte de todos e mais algum, o errante, o drogado, o filho da puta fora a Mãe, o menino prodígio acabado de vez. Caiu na arena de papo cheio armado em salvador da Pátria. Desafiador, bazófia, mal escanhoado, cagão e falou-me de alto. Apetecia-me acabar com o jogo frente ao último dos matraquilhos mas com aquele mete-nojo na arena tinha mesmo que retardar o fim de festa.
Continua para acabar na próxima
Hoje apetece-me morder-te, roer-te, hoje apetece-me tudo o que me apetece. Hoje apetece-me muito mais, trincar-te, lamber-te, absorver-te. E mais ainda é o que hoje me apetece.
Descida dos Infernos, tendo como capa o vermelho escarlate das sublimações de certa blogosfera, apraz-me falar um pouco do que tenho lido, e igualmente sobre a personalidade , por vezes algo duvidosa, de alguns bloguistas militantes. Os Infernos não são porém, ao contrário do que se possa pensar, maus ensinadores, no que diz respeito ao "respeito" (adorei esta!). Por isso, a ponta de meus dedos flamejantes, não tocará em nomes; isto é em pseudónimos, porque parece que, por aqui (a Blogosfera), adora-se falar muito, mas ama-se pouco "dar a cara". Só alguns é que têm a ombridade de se identificarem. Eu, por ser Infernal, não me identifiquei completamente. Mas, precisamente por ser satânica a minha origem, ficarei , creio eu, desculpabilizada... Há certas coisas que me põem de rastos. Imaginem, eu, uma sacerdotiza dos Infernos. Então não há certos bloguistas, que parece que ainda vivem no cinzento de outras épocas!? Eu, que adoro o vermelho (sou eu e a Fáfá de Bélem!), vejo tristemente que certas pessoas ainda vivem nos tempos passados, cheias de cambiantes de cinzento, sem alegria. Outras há, que parece que só existem eles. Muito coloridos, muito gritantes, passam a vida a lamentar-se pelas faltas que têm, pelos direitos que dizem ter direito (adorei novamente esta!), que até parece, que o mundo gira em torno deles. Esses meninos que se julgam infernais, cheio de cores, não passam afinal de meninos tontos que ainda não descobriram nada da vida... Ah, meus caros amigos, por agora, vou refrescar-me com um alto cocktail bem vermelho - um Bloody Mary - e depois, retemperada, continuarei... "Inté...!!!"
As gotas de transpiração perfumada, mescladas com húmidade relativa a jorros, caíam desamparadas pela cara do pagante. A funda metálica estava presa nas mãos trémulas do feioso mas faltava audácia naquele cérebro vazio. Em nome da pose cheguei a pensar em acender um cigarro, sabia que no estudado acto de ganhar tempo faria com que igualmente crescesse o medo naquele palhaço ridículo já conquistado pela calvície. Mesmo assim concluí que a vontade de acabar com tudo em poucos minutos assustava bem mais do que o ganho de tempo. Quanto mais real fosse a minha demonstração de superioridade maior seria o susto a explodir nas trombas dos outros todos. Desapertei e atirei para o chão as pulseiras de pregos, despi o colete de cabedal, descalcei as botas, baixei as calças também de cabedal mas forradas a malha de aço e voltei a erguer-me em cuecas. Havia pequenos vidros no chão mas eu permaneci descalço. Dei um pulo pequeno, tal e qual um especialista em salto em altura durante o aquecimento, e desembestei direito ao apavorado. Quando a funda se encontrava no primeiro movimento circular já o meu impulso me tinha feito subir à altura da cabeça dele. Disparei-lhe um pontapé tal que senti a cabeça a largar tudo o que era amarra óssea e a ficar-se presa apenas por pele e rede sanguínea. Aquilo ouviu-se, aquilo matou a fraca esperança do grupo outrora seguro e em estado de graça. O Pequeno manteve-se em pé de cabeça à banda, desfeito por dentro, reduzido a poeira em forma de corpo de machista. Quando calquei os pés despidos no chão acinzentado levantou-se uma nuvem de nada, do mesmo nada que se apoderara das cabeças dos outros. Ao avançar dois passinhos na direcção deles dei um ligeiro toque no último morto para que ele embatesse com estrondo sobre a arena. Mal tocou no que nos amparava a todos a multidão levantou-se a gritar mata, mata, mata, MATA TODOS, MATA TODOS, MATA TODOS, MATA TODOS, MATA TODOS!
Ergui o braço em sinal de agradecimento e estalei alguns dos ossos do meu tronco preparado para tudo, para foder, para foder a rebentar, para foder a esburacar, para foder aqueles cús de todo e qualquer anónimo sentado ou de pé. Eles aplaudiam e eu sorria, sorria mais forte ainda, imediatamante antes de começar a gargalhar sonoramente. Às gargalhadas seguiu-se um braço esticado e um dedo a apontar para o que de entre todos era o mais genuíno, o único que conhecia os reais prazeres da vida tal como se habituara a viver com eles, a absorvê-los, desde pequeno. Enfermo, padecia de um mal que lhe atrasava os movimentos, tal como se apresentava restava-lhe usar a inteligência, sabia que nada podia contra a minha força e segurança.
- Tu - disse-lhe - sabes que não vais levar, tu sabes que eu seria incapaz de te bater, de te ver sofrer fisicamente. Mas vais sentir agora a dor que jamais imaginaste sentir, a que mais ataca a tua masculinidade de fodilhão! Eu, ao longo da última semana, estive por cinco vezes a comer alegremente a tua senhora... agora que a fazes permanecer em casa a tratar dos vossos pertences, ela sente-se relegada para segundo plano, para o que tentou ser para te agradar mas sabe que não é nem pode ser. Sente-se saturada naquele corpo de tipa nova e opulenta cheia de tesão e de vontade se ser comida por todo o lado. Nunca antes me tinha esporrado tanto, nunca tinha metido o braço tão fundo, nunca antes tinha experimentado tal coisa. Não é um esfomeada, uma sedenta como as outras, entende, é até uma fulana muito terna e paciente...mas aquilo é o fim do mundo, rapaz, quando está a gostar!
As lágrimas entraram em descarrilamento enquanto me fixava arrasado. Largou o tridente e virou costas e, enquanto a multidão gritava MATA, MATA, MATA, arrastou-se até ao túnel e encostou-se à grade que nos separava dos Leões. Os animais acercaram-se dele e ao contrário do que seria de esperar não o tentaram morder. Ficaram ali, ao lado, a sentir a mesma dor, a olhar nervosos para a arena e para o homem encostado à grade. A minha cabeça moveu-se então lentamente do derrotado mas intacto para o penúltimo do grupo, o Pai tardio, o jovem fora de prazo. Sorri-lhe com um ar trocista e dei dois passos na direcção do seu Kouros sobre pele bronzeada. Tremeu a abanou a cabeça em negação - Não, não me faças isso!
Para acabar dentro de dias.
A barba ainda não tinha crescido e já eu tinha estragado duas Wilkinson de lâmina simples em desesperadas tentativas para aparar o buço. Sentia-me na flor da sexualidade, masturbava-me que nem um bruto, lavava as partes várias vezes ao dia, perfumava-me e compunha a cabeleira. Era um homenzinho, antes do tempo. Por aqueles dias ninguém sabia o que era a internet e as revistas de mulheres nuas custavam dinheiro a mais e eu só pensava em foder. Andava eu pela ronda da rua ao lado da minha, onde me esperava a minha nova namorada de 11 anos dali a vinte minutos, quando me deparei com um cigano, pequenito, a amedrontar três gajos do meu tamanho. Instintivamente meti-me a caminho, decidido a acabar com aquela farsa. Gritei ao ciganito, agarrei numa pedra e ameacei-o ao mesmo tempo que corria na direcção dele. O ciganito bracejou e continuou a ameaçar os três meninos bem, educadinhos e nada familiarizados com aquela agressividade toda. Bracejou uns segundinhos porque depois abalou a fugir virado para mim, também a dizer - Eu conheço-te, estás fodido, está fodido! e eu respondi-lhe, autoritário na pele de puto munido de bilhete de identidade e registos de morada fixa - Eu sei onde dormes, sei quem é a tua Mãe e o teu Pai, desaparece daqui cigano de merda! Os outros três chamaram-me porreiro e outros nomes do género, eu sorri com a cara de parvo que ainda tenho e meti-me pela rua a fazer tempo para o encontro. Ao fundo vi-a a dirigir-se para o ponto estudado mais cedo que o previsto, levava a irmã mais nova pela mão. Tal como no dia anterior ia dar beijos às duas, sem pressas, sem pressões. Um homenzinho antes do tempo, assim era eu.
Naquele tempo andava o Mestre olhando o povo depois de mais uma fúria dos elementos.
Um daqueles a quem o raio tinha destruído tudo o que para ele era Vida e Harmonia, veio perto do Mestre para saber como reconstruir a sua Alma, dizendo:
- Mestre poderia a minha desgraça ter sido maior, pois que outros com tudo ficaram arrasado! Mas nós ainda temos algumas paredes de pé, e a esperança de haver alguma coluna que suporte o reencontro de tudo o que fomos e tivemos...
Ao que o Mestre lhe respondeu:
- Pensais vós humildes servos a quem a destruição atingiu e o amor toldou, que estais melhor do que aqueles a quem não ficou pedra sobre pedra, restando-lhes apenas o vazio?
- Pois vos direi que esses poderão construir de novo, criando com alicerces mais fortes o futuro a partir do nada!
Perante o espanto do homem, o Mestre foi mais claro:
- Pois não sabes tu que uma casa velha para ser reconstruída tem que ser arrasada? Pois... caso contrário as novas paredes, construídas sobre as velhas e podres, cairão arrastando tudo consigo!
Vai e destrói o que há para destruir!
Pois que as paredes velhas não aguentarão o peso do novo sobre o passado!
- Mestre - disse o Homem - que a Tua sabedoria me ilumine!
«Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.»
I'm rolling down a well worn road
I'm wondering if I'll ever know
If I'll be better than I was before
When I surface through the service door
Bye
I'm on standby
Out of order or sort of unaligned
Powered down for redesign
Bye bye
I'm on standby
According to the work order you signed
I'll be down for some time
I'll be down for some time
I got good at saying "I gotta go"
Number one at saying "I don't know"
But from the stories that I've heard
You humans require more words
Bye
I'm on standby
Out of order or sort of unaligned
Powered down for redesign
Bye bye
I'm on standby
According to the work order you signed
I'll be down for some time
I'll be down for some time
Grandaddy - «I'm On Standby»
«Se não podes olhar, não vejas. Se não podes ver, não repares.»
Paz.
Acho que nunca senti esta paz.
Que me cerca.
Que me rodeia e me afaga.
Paz de tempo.
No sobejo do inumerável.
Que diz perdição.
Que sente tudo.
Que nada para longe.
O sol.
O dia.
Em mim.
Que podia ser tudo.
Todo.
Por ti.
E que se afasta.
Nos remos do vento.
I was born in the town of Paisley in early 1960
And placed in the care of an old eternal bachelor
A strict disciplinarian, a passionate antiquarian
His collection of myths and legends was spectacular
As a younger man he'd been to see Japan
Where a master in a white kimono taught him
In a shining moment the myth of the bishonen
The youthful hero doomed to fall like blossom
And how could I forgive the ugly fugitive
Who brought me up according to a fantasy?
For when the old man stared at me
He drowned in evil beauty
Thinking of the early death in store for me
He taught me to be good with words, he bought me ceremonial swords
And in this way came grace and expertise
The words were to cut down and to kill the muscle-bound
The swords to fell my intellectual enemies
And women should be hated but first impersonated
Charm, he said, is essential to misogyny
He taught me how to woo the girls in order to outdo the girls
And the fun would come when I'd got them to love me
And how could I resist the old misogynist
Who brought me up according to a fantasy?
My softness and fragility
My feminine grace and delicacy
Made death himself afraid for me
And so in time I grew to be blond and beautiful
Pale and frail, with many male admirers
I was promised by my father a retainer for a partner
So loyal that nothing could divide us
Shocked by my suggestion that I'd rather have a woman
My stepfather replied I had no choice
This man would cut his entrails open protecting his bishonen
He informed me in a solemn, trembling voice
How could I disobey that surreptitious gay
Who brought me up according to a fantasy?
For when the old man stared at me
He drowned in evil beauty
Thinking of the early death in store for me
So me and my retainer encountered many dangers
On travels through the North and through the South
We ripped open the bellies of many famous bullies
And our reputation spread by word of mouth
In the mountains of Morocco we stopped and shared a bottle
With a blind old man with a bearded, bandaged face
And though the sun had sunk and the man was very drunk
He seemed to speak with my stepfather's voice
Saying "How could you forget the ageing martinet
Who brought you up according to a fantasy?
Your softness and fragility
Your feminine grace and delicacy
Will be the death of me"
Surprised at 28 to find myself so late
Changing from a boy into a man
I'm starting to feel guilty that nobody has killed me
Early as my stepfather had planned
I've found myself a girl and stopped roaming the world
My retainer's gone to be a mercenary
Now I work in a merchant bank, I'm well-liked by the senior ranks
Though behind my back the juniors call me fairy
And how can I placate the ugly reprobate
Who brought me up according to a fantasy?
For when the old man stared at me
He drowned in evil beauty
Thinking of the early death in store for me
I stay awake some nights when my wife turns off the lights
And starts breathing regularly next to me
And I think of fallen petals and bodies pierced by metal
And how I'll never now fulfil my destiny
Father spare my shame, let me pass my name
To a boy with greater beauty and more bravery
For if I have a son I'm going to raise him to die young
And lay him in the grave that you prepared for me
Momus in «Bishonen»
Sempre se morre demasiado cedo. Miguel Torga sai do mundo aos 87 anos, depois de uma longa e dolorosa doença. Dirão os piedosos que foi um alívio para ele, os resignados que já vivera bastante, os pragmáticos que a sua obra estava feita. Todos têm razão, nenhum a tem toda - se a minha opinião serve para alguma coisa. Porque há uma diferença entre estar morto Torga e estar Torga vivo. Talvez ele já não tivesse muito para dizer: chega sempre o momento em que a energia da palavra se esgota. Além disso, sabemos que a morte não poderá apagar nenhuma das palavras que escreveu. O que extingue a vida e os seus sinais, não é a morte, mas o esquecimento. A diferença entre a morte e vida é essa. O que mais conta para nós, neste caso, é outra diferença muito mais humana: a diferença entre estar e não estar. Podia Torga não escrever uma linha mais - mas estava aí. E agora deixou de estar.
Não conheci Miguel Torga. Nunca o procurei, nunca lhe escrevi. Limitei-me a lê-lo, a admirá-lo muitas vezes, outras não tanto. Foi só de leitor a minha relação com ele. Algumas vezes, nestes últimos tempos, os nossos nomes apareceram juntos, e sempre que tal sucedia não podia evitar o pensamento de que o meu lugar não era ali. Por uma espécie de superstição induzida pela pessoa que foi e pela obra que criou? Não creio. O motivo é certamente muito mais subtil do que aquele que se poderia deduzir de um mero balanço de qualidades suas e defeitos meus. Achava que havia em Torga algo que eu gostaria de ter, e não tinha: o direito ganho por uma obra com uma dimensão em todos os sentidos fora do comum, a música profunda de uma sabedoria que nascera da vida e que à vida voltava, para não se tornarem, ambas, mais ricas e generosas. Que Torga não era generoso, dizem-no. Mas eu falo de outra generosidade, a que se entranha nesse movimento de vaivém que em raríssimos casos une o homem à sua terra e a terra toda ao homem.
Demasiado cedo morreu Miguel Torga. Compreendo agora quanto gostaria de tê-lo conhecido. Demasiado tarde.
Estava a conduzir o meu camião, à noite pela estrada, morrendo de vontade de encontrar uma mulher. Ao passar por uma plantação de abóboras, pensei comigo mesmo: uma abóbora é macia, é húmida por dentro... hummmmm... - sem ver ninguém por perto páro o camião, escolho a abóbora mais bonita, corto um buraco do tamanho apropriado e começo a curtir com ela. Fico tão empolgado que nem me apercebo da chegada de uma viatura da polícia.
- Desculpe-me! - interrompe o policia. - Mas por acaso o senhor está atracado a uma abóbora?
De repente, assustado, olho para o policia e digo:
- Uma abóbora??!! Foda-se!!... Cinderela, já é meia-noite?!?!
A falsidade de um juízo. não representa já para nós uma objecção contra esse juízo; é nisso que reside, talvez, o carácter mais estranho da nossa nova linguagem. Trata-se de saber em que medida esse juízo favorece e conserva a vida, mantém, e desenvolve mesmo, a espécie.
... Confessar que a não-verdade é uma condição vital é opor-se. no entanto, e de modo perigoso, às noções de valor habituais; e basta que uma filodofia o ouse para se colocar desde logo para além do bem e do mal.
FRIEDERICH NIETZSCHE
«Enquanto não alcançares a verdade, não poderás corrigi-la. Porém, se a não corrigires, não a alcançarás.»
Sou, simplesmente, uma pessoa com algumas ideias que lhe têm servido de razoável governo em todas as circunstâncias, boas ou más, da vida. Costuma-se dizer que o melhor partido para um crente é comportar-se como se Deus estivesse sempre a olhar para ele, situação, imagino eu, que nenhum ser humano terá estofo para aguentar, ou então é porque já estará muito perto de tornar-se, ele próprio, Deus. De todo o modo, e aproveitando o símile, o que eu tenho feito é imaginar que essas tais ideias minhas, estando dentro de mim como devem, também estão fora - e me observam. E realmente não sei o que será mais duro: se prestar contas a Deus, por intermédio dos seus representantes, ou às ideias, que os não têm. Segundo consta, Deus perdoa tudo - o que é uma excelente prespectiva para os que nele acreditem. As ideias, essas, não perdoam. Ou vivemos nós com elas, ou elas viverão contra nós - se não as respeitarmos.
Lime e Purple descem uma rua qualquer.
- Viste passar o Gorila?
- Vi!
- Acreditaste no que viste?
- Não.
- Reparaste bem?
- Sim, era o Gorila!
- Num descapotável.
- Sim, mas um descapotável serrado. Mal serrado, diga-se. Cheio de rebordos, falhas, borbotos.
- E o cabelo, chupadinho.
- Parecia-me uma grande carrada de cuspo.
- Também achei. Luzidio. Mas uma coisa achei estranha.
- O quê?
- Os olhos!
- Pois. Não os tinha. Que olhar estranho. Pequeno. Sem vidro.
- Lembrou-me um boneco. Daqueles que têm um ponto apenas, lá no fundo.
- De Lego?
- Hmm... acho que não. Talvez um Playmobil.
- Mas diz-me uma coisa...
- Sim?
- Porque ia ele de marcha-atrás? Ia a fugir de alguém?
- Não me perguntes. Parecia amedrontado. Com um pavor de cuspo.
- Raio de gajo. Que figura!
- Que é que queres... é o Gorila!
- Pois...
Beijaram-se no final da esquina e seguiram para lados opostos. Refira-se, como adenda, que os opostos nem sempre são opostos. Por vezes é apenas ilusão de óptica. Um factor de simulacro.
Atão chavala, tás por aí ou é negativo? Eu tou afirmativa que tou por cá sempre boa. Qué feito? Eu tou na escola tás a ver... ganda noia tás a ver, aquela merda até é porreiro tás a ver, só filing ca gente tem que pensar c’aquilo já foi fábrica que fabricava bué poluição... e depois tem bué people. Atão aquilo era uma uma fábrica das grandes, e atão sem maquinaria ainda fica maior. Depois encheram aquilo com gente, vê lá quanta gente lá tem... bué... bué... tudo a fazer uma barulheira do caralho mas aquilo ainda lá cabia mais people se fosse preciso, c’o pessoal não deixa ninguém agarrado... A gente desenrasca um gajo se for preciso. Aconchegamo-nos mais um coche. No outro dia, eu e a Fani fomos à fábrica de bolachas com uma ganda lata, a vêr se podíamos ver as maquinetas funcionar, aproveitávamos para pedir bolacha, mesmo partida, pó pessoal, mas o gajo era manhoso, tás a ver, e topou-nos logo. Correu connosco sem bolachas, sem nada man. Caguei pá cena que estava bem disposta, caso contrário metia o gajo na cena de empacotar. Noia total!
Sexta feira o pessoal tava numa d’ir pá cidade desatinar, bebemos umas bjecas, demos uns tiros na broca dum bacano, tás a ver...
...e fomos ao casal ventoso... demos um chuto, uns snifs, e depois metemos um ácido p’álucinar na noite. No comboio resolvemos ir de uma ponta a outra a saltar por ali a fora...ina o pessoal tripou! Fizemos o comboio aos saltos umas 4 vezes. Depois resolvemos ir de joelhos, todos em fila, com as cabeças pró ar, a gritar e a chorar, a fingirmos qu’éramos pessoal de Fátima... ganda loucura... depois obrigámos um gajo todo betoso que lá tava a ir de uma ponta à outra a rebolar. Nós íamos atrás dele com os braços no ar a tentar chegar ao teto. Não conseguimos pá... somos pessoal rasteiro. Quando chegámos à cidade foi um desatino... íamos todos a cambalear, tás a ver, todos com pinta, todos malucos, quando chega um chavalo, tás a topar, que nos pergunta se o pessoal quer curtir pó cócónu(ts)teu cú. O pessoal achou yá, tás a ver, é sempre fixe e relaxante dar cacetadas nos betosos, Yá, fomos, tás a ver, baril. Fomos na carrinha do bacano, íamos ábrasar com uma força... foda-se, c’aquilo chegámos lá num segundo de fracção contra o tempo. Senti-me no espaço... vi o E.T. com o seu dedo curtido a iluminar-me o caminho... devia ser das trips tás a ver, mas foi do caraças. Senti-me mesmo noutro mundo, muito mais fixe tás a ver.... o pessoal tinha casado e vivia com os pais e sogros e as noras e com os genros mais os filhos e os netos.... tudo deitado a olhar pra um planeta encarnado, tudo a fumar charros... tudo com uma ganda moca... tudo no mocanso... tudo a rir, quentinho e aconchegado e iluminado pelo planeta encarnado. Eu cá curtia.
(...)
Aquilo era um campo de batalha, aquilo era uma zona de guerra, cheia de destroços, de frases suspensas no céu, presas não sei bem onde, povoada por corpos sem vida de espectadores a quem faltou a paciência para continuar a olhar para a estratégia dos gladiadores. Eu era igual a qualquer um dos gajos com bolas de picos e tridentes nas mãos, padecia do mesmo mal, era tão cabrão quanto eles, só não pagava mas no resto era da mesma matéria. Estava mais forte que nunca, numa semana refeito das horas de viagem, consciente do poder mental que trazia de tantas e tantas vitórias anteriores. Para trás deixara um rasto de infelicidade masculina, de cabeças enfeitadas com cornaduras monumentais, ganhas em poucos dias, em jantares, noites de sexo tórrido, martinis secos em dias de calor ou simples troca de opiniões sobre o disco nº 2 do ex-vocalista da banda cujo terceiro disco foi o melhor daquele ano. Achava-me muito cheio de mim, convencido mas lúcido, com a determinação inabalável dos vencedores. A derrota não fazia parte do meu vocabulário. Entrei na arena e fiz-me ao alvo mais fácil de todos, o gajo mais insignificante do grupo expectante. Delgado, feio, meio morto, risquinho ao lado, desaparecido, era sem dúvida o mais fácil dos alvos. Disse-lhe que a resistência da mulher dele havia durado apenas um final de noite gasta em argumentação sobre tamanhos, formas e marcas de chapéus - um item tão do agrado daquele ser feminino desinteressante e igualmente minúsculo. «No fim, depois do sexo oral, que ela me jurou a pés juntos nunca antes ter feito contigo, delgado marido, apeteceu-me passar-lhe com o automóvel por cima» disse-lhe a ele olhos nos olhos. «O broche foi horrível, pá, tal a sofreguidão da tua gaja!». Conteve a irritação como o fazia desde tenra idade e como não foi capaz de me agredir, arrumei-o com uma cabeçada no nariz. Caiu ensanguentado, protegido pelos joelhos, perdido entre os braços dobrados. Porque aquilo era também um jogo de exibição, por mais que não fosse perante os que estavam à minha frente, ainda o pontapeei na cabeça duas vezes, a segunda das quais quando já ele não imaginava sofrimento adicional. Não mexeu mais e entre os outros houve uma ou outra boca aberta. A seguir virei-me para o maior e mais gordo de todos, a esse disse-lhe ao longe «com a tua não houve nada até porque é das poucas que me merece simpatia, mas não te esqueças que tiveste outra que volta e meia aparece por cá...tal como a do teu amigo tinha uma fome animal, de devoradora de carne de homem, DE HOMEM, percebeste?!». Começou a crescer-lhe o rubor do ódio, o sangue tentou a custo desobstruir as veias carregadas de gordura letal, o metro e oitenta ameaçou subir uma nadinha mais. Não lhe dei tempo para conversas, corri que nem uma seta e soquei-o com toda a força na pança. Curvou-se e esvaziou o estômago em dois segundos. Saiu tudo, feijão a feijão, pedacinho de pão a pedacinho de pão. Perante tal demonstração de fraqueza não humilhei o que já estava perdido, a morte encarregar-se-ia dele dali a minutos. Guardei as forças para mais tarde. Restavam quatro, três dos quais não poderiam ser agredidos gratuitamente para não ferir susceptibilidades, para não beliscar a minha coerência. O que faltava socar era o mais baixo do lote, o maior atrasado mental do lote, o lacaio, o ridículo, o espantalho que afugenta o mulherio que não aceita dinheiro por um bom minete. Incapaz de fixar mulher por perto, aquele feioso era o que maior prazer de vitória merecia. Suava, o bicho, nervoso como um hamster, buscando amparo nos outros cobardes. Lentamente cada um deles deu um passinho atrás e o pequenito ali ficou, amedrontado agarrado à funda metálica. Estalei os dedos e raspei as botas na areia. «Filho da puta , esta vai doer-te tanto, tanto, que amanhã ainda vais estar a perguntar o que é que te atingiu...«Oh my God, was it a plane, was it a bird or a SuperFuckingMan?»
Continua dentro de poucos dias.
I caught you knockin'
at my cellar door
I love you, baby,
can I have some more
Ooh, ooh, the damage done.
I hit the city and
I lost my band
I watched the needle
take another man
Gone, gone, the damage done.
I sing the song
because I love the man
I know that some
of you don't understand
Milk-blood
to keep from running out.
I've seen the needle
and the damage done
A little part of it in everyone
But every junkie's
like a settin' sun.
Neil Young - Needle And The Damage Done
O dr. Barroso acusou o Governo espanhol de «ceder à chantagem», «desertar» em face do inimigo e tomar uma «posição dúbia», em troca de uma ilusória segurança. Nem Bush se atreveu a tanto. Mas, com 180 homens no Iraque (sob comando italiano), Portugal tem manifestamente outra autoridade. As grandes potências não devem permitir os desvarios de aliados menores (e o autor de Bicesse já provou a sua visão estratégica). Ninguém sabe o que deu ao dr. Barroso para dizer inopinadamente estas coisas. Sobretudo porque ao mesmo tempo Figueiredo Lopes, com enorme cautela burocrática, declarou que a GNR só ficava no Iraque se o «conflito» não «se agudizasse», sendo claro que ele se vai «agudizar». De qualquer maneira, esse pormenor não conta. Segundo o dr. Barroso explicou, o Primeiro-Ministro não comenta os comentários dos ministros, nem os ministros comentam os comentários dele. Cada um fala para o seu lado, muito livre e democraticamente. E, a seguir, em caso de sarilho, manda explicar que não foi bem compreendido. Agora, por exemplo, já se esclareceu que, insultando Zapatero, o dr. Barroso não quis de modo algum insultar Zapatero ou pôr em causa «a soberania espanhola» (um gesto simpático da parte dele). Como ficou líquido que Figueiredo Lopes não tenciona retirar a GNR do Iraque, excepto no dia em que a retirar. Este método de governo, que pouca gente no estrangeiro percebe, é uma invenção nacional com futuro: atrapalha o terrorismo, irrita a Espanha, embasbaca o mundo e estabelece vigorosamente a irresponsabilidade portuguesa. Se por acordo universal o País se tornar inimputável, talvez nos deixem em sossego. Um manicómio não se leva a sério. Aposto que é o plano do dr. Barroso.
Lime diz:
como é que vai isso?
Purple responde com uma pergunta:
tens ai um martelo?
e continua:
daqueles pneumáticos...
cheio de imaginação:
das obras??
Por fim, quase a coçar a cabeça, atira:
preciso de acordar...
Lime, incrédulo:
não...
Purple já vai longe:
preciso que mo enfies pelos ouvidos...
e em desespero:
fazes isso, por mim?
Lime cheio de compaixão, sugere:
estás a precisar de enfiar qualquer coisa na cabeça?
Purple:
Não. Estou com sono!!
No entanto é tão bonito, o que se sente.
O que descobrimos.
Em ti. Em mim.
O respeito solene.
Que seria uma pena perdê-lo.
Rejeitar.
Os milhões de possibilidades.
De viver.
Em pleno.
O protótipo do colonizador colonizado.
O ressaibo plebeu de quem herdou a deserdação.
Gostava de ser o escritor dos que não sabem ler.
Em troca, o barrete estalinista
por bons serviços prestados ao inimigo absoluto
de tudo e de todos adiadas as almas
para o dia do baptismo na grande igreja
do comunismo futurista
onde os porcos são menos porcos que os comunistas.
A saudade portuguesa congelada no frio do Kremlim
e hipotecada para umas férias sensuais
no caraíbe do Fidel
ou nos retiros místicos de lanzarote da Pilar.
(Textos do Capado)
O prazer de estar sozinho.
A surpresa inaudita de ser sozinho.
Ao vivo.
Um certo sabor de independência.
A ouvir o transpirar do próprio corpo.
A sentir cada movimento.
E a transbordar de novidade.
Sentada aqui desejando num chão de cimento
Desejando que tivesse apenas algo que tenhas vestido
Eu ponho-o quando vou sozinha
Tiras os teu vestido e mandas para mim?
Eu sinto falta do teu beijar e sinto falta da tua cabeça
E uma carta com a tua letra não significa que não estejas morta
Foge para fora no deserto quente
Molha todo o teu vestido e manda para mim
Eu sinto falta da tua sopa e sinto falta do teu pão
E uma carta com a tua letra não significa que não estejas morta
Então despeja o teu pequeno-almoço e derrama as gotas do teu vinho
Veste apenas esse vestido quando estiveres a morrer
Sentada aqui desejando num chão de cimento
Desejando que tivesse apenas algo que tenhas vestido
Sangra as tuas mãos numa árvode de