
«...I'm OK
With my decay
I have no choice
I have no voice
I have no say
On my decay
I have no choice
so I'll rejoice...»
by Grandaddy
É preciso estar sozinho para ir aos sítios onde se está sozinho. Sozinho sou amigo dos sítios onde estava com os meus amigos. Agora são os meus únicos amigos, os sítios onde estou sozinho.
Quando estou sozinho peço a comida que pedíamos, os pratos todos, como se não estivesse sozinho. Como se não estivesse sozinho, como sozinho os pratos todos.
Lembras-te, o sítio da tua password? O pedaço de papel que trazias na carteira, que tinha escrito o que querias comer, o que gostávamos de comer. O que comíamos sempre no sítio da tua password?
E lembras-te do primeiro homem que nos escreveu muita coisa, que te escreveu o nome, e o meu, e que a partir dai usámos para sempre. Não por estar certo, mas por estar a acontecer, porque estávamos a conhecer, porque estávamos sozinhos?
Mesmo que fosse errado o que o homem nos dizia, o que escrevia, nós estávamos certos em usá-lo, porque estávamos a vê-lo pela primeira vez, a ouvi-lo, a conhecer, a acontecer, o homem, as palavras, as letras.
Lembras-te como guardámos o papel para sempre, com desenhos que fizeste, com as palavras do homem que ilustraste? Dobrávamos o papel. E eram as nossas primeiras palavras, os nossos primeiros desenhos. Os nossos nomes que guardávamos para sempre. Lembras-te guardámos para sempre. Sem o papel, guardámos para sempre.
E agora, quando tenho o prato à minha frente, que comíamos a fumegar, o prato quase a ferver, quase em brasa, a olhar para mim, a fazer desenhos de prato. Não é que me apeteça comê-lo, mas como estou sozinho como-o contigo. E a cerveja, lembras-te dela? Cerveja no sítio da tua password? Grande, como o nome que aprendemos facilmente?
E agora, com a comida na boca, sei que estás aqui, sei que o sabor é o mesmo. Sei que o sabor é o mesmo, é o teu sabor. Sei que estás aqui, porque estás sempre aqui com este mesmo sabor. Sempre que se está aqui, sozinho, o sabor é sempre o mesmo.
Porque hoje descobri que não tenho ninguém. Tendo alguém, não tenho ninguém. Ninguém como tu. Hoje percebi que não tenho ninguém como tu. Por isso vim aqui para estar sozinho. Sozinho, contigo.
Porque hoje descobri o significado, o significado do que fizemos quando chegámos. Com as malas, no final da rampa, em frente de coisa nenhuma, de algo que já não existia. Foi grande o que fizemos, foi tudo o que fizemos. Porque o que existe é estar sozinho. Nesta coisa nenhuma. Nesta coisa nenhuma que é a minha terra. Que descobri que era a minha terra. Que descobri que era a tua terra.
Olham todos para mim. Todos os olhos olham para mim. Porque pedi os pratos todos. Como-os como se não tivesse sozinho. Os pratos todos. A fumegar. Ainda. Sempre.
Porque hoje apeteceu-me morrer, porque hoje me apeteceu matar gente, toda a gente, todos os olhos de toda a gente. Porque hoje fui feio. Muito feio. Porque hoje sei que sou sozinho. Porque hoje sei que esta é a minha terra. Porque hoje sei que, no final da rampa, existe esta coisa nenhuma. Existe esta terra de ninguém que é minha. Que é tua.
E tu sabes que é tua. Porque foi aqui que nasci. Foi aqui que nascemos, tardiamente. Foi aqui que acontecemos. Tarde. No final da rampa. Com as malas. Sozinhos. Com o papel, os desenhos do homem, as letras dos pratos a fumegar.
Porque eramos testemunhas de nós. Eramos nós como testemunhas de nós. E hoje fui feio como sempre fui feio. Como sempre sou feio. Sem o papel mas com o nome guardado dentro de mim. O desenho do meu nome guardado dentro de mim. Neste sítio sozinho. Sozinho, contigo.
«E dizes tu que és meu amigo
Que me dás tudo o que eu preciso,
Eu quero mais
Quero muito mais.
E dizes tu que és meu patrão
Tenho muita sorte em não dormir no chão,
É o que tu dizes
É o que tu dizes
É o que tu dizes
É o que tu dizes!
E vens tu mais a tua tropa
E eu só tenho a minha manta rota
E já sei que vou levar co’a moca
Por tentar abrir a boca,
E comigo é sempre assim
Eu sei lutar até ao fim
É tudo ou nada!
É tudo ou nada!»
Xutos e Pontapés por Lulu Blind
"Cegos e surdos não fazem nenhum, comem papas e bebem rum!"
Amigos de quem mais gostam, algum de vós gostou do Beautiful Girls, o filme com o Timothy Hutton, o Matt Dilon e a Uma Thurman? E porquê?
O Sr. Prusidente já reparou que ontem tivemos 251 manfios que nos vieram visitar? Esgotaram tudo o que havia para comer e beber. É preciso renovar os stocks. Vá, Sr., anime-se, secalhar é melhor chamar os pedreiros, os trolhas, os carpinteiros...
Acordei com um machado espetado na testa, mas na parte de dentro. Agora não sei como é que isto se tira. Ajudem-me.
O conto de fadas para quem não tem imaginação
"A mesquinhez, a estreiteza imaginativa são os vícios definidores da nossa época.
Somos incapazes de escrever, ou de querer escrever, ou de saber ler sem escrever, epopeias. Em compensação, escrevemos romances.
O romance é o conto de fadas de quem não tem imaginação. Todos nós, ou inferiores, ou em momentos de inferioridade, sonhamos com atitudes da vida real. Sonhamos também, é certo, com o longínquo; mas isso é, em todo o caso, a poesia da mesquinhez. "Tout notaire - dizia G. Flaubert - a rêve de sultanes". O ajudante de notário, porém sonha apenas com uma sucessão de acontecimentos em que entra a vizinha possível, o marido dela, ele galã, e assim por diante.
A literatura, como toda a arte, é uma confissão de que a vida não basta. Talhar a obra literária sobre as próprias formas do que não basta é ser impotente para substituir a vida."
Fernando Pessoa, in Páginas sobre Literaturatura e Estética, Livros de Bolso Europa América, Lisboa, 1986.
Can´t take my eyes of you, Wives and Lovers, The Look of love, Spooky, Sunny e Moon River surgem alinhados com cabeça pela Columbia, empresa discográfica agora armada do Stereo e munida de uma dedicatória de outro canastrão - mas de sucesso muito menor - o Donny Osmond. Assim é In the lounge with Andy Williams, disco que vos aconselho esteja eu sóbrio ou alcoolizado. Hoje deu-me para aqui em vez de me ter dado para, por exemplo, o So Tonight That I Might See dos Mazzy Star. Estarei eu em estado de TPM por influência de outrem ou será tão somente o medo dos quarenta?
«You're just too good to be true.
Can't take my eyes off you.
You'd be like Heaven to touch.
I wanna hold you so much.
At long last love has arrived
And I thank God I'm alive.
You're just too good to be true.
Can't take my eyes off you.
Pardon the way that I stare.
There's nothing else to compare.
The sight of you leaves me weak.
There are no words left to speak,
But if you feel like I feel,
Please let me know that it's real.
You're just too good to be true.
Can't take my eyes off you.
I love you, baby,
And if it's quite alright,
I need you, baby,
To warm a lonely night.
I love you, baby.
Trust in me when I say:
Oh, pretty baby,
Don't bring me down, I pray.
Oh, pretty baby, now that I found you, stay
And let me love you, baby.
Let me love you.
You're just too good to be true.
Can't take my eyes off you.
You'd be like Heaven to touch.
I wanna hold you so much.
At long last love has arrived
And I thank God I'm alive.
You're just too good to be true.
Can't take my eyes off you.
I love you, baby,
And if it's quite alright,
I need you, baby,
To warm a lonely night.
I love you, baby.
Trust in me when I say:
Oh, pretty baby,
Don't bring me down, I pray.
Oh, pretty baby, now that I found you, stay...»
O azeite escorre...
No largo encontravam-se dois ou três ouvintes, eu era apenas observador. Escutavam a música da época, na véspera do dar e receber. Parados estavam, com as testas apontadas para o céu. Acima era ainda visível o rasto branco do último, alinhado dois minutos antes. Identifiquei-lhe a origem pelo barulho, nem precisei de olhar.
O 190 D nunca se engasgou, aceitou toda e qualquer ordem sem soluços, sem recusas, sem medos primários. Segui rumo a Salamanca desejoso de beber umas canhas desde que não fossem San Miguel. O trajecto fez-se dentro da ordem, em respeito assumido pela lei, no dever pelo dever e respeitando-o como se respeitam as unhas pintadas de uma virgem falsa que nos faz vergar com um subtil descer do olhar. O 190 D imobilizou-se e o um euro e meio caído no parquímetro deu-me para quase mais duas horas do que daria em Portugal. Entrei confiante, achando-me o mais belo dos seres masculinos. Ninguém me deu razão, todos cagaram de alto. Achei-me portanto invisível o que acabou por ser altamente benéfico. E no fim das caminhadas a canha foi a única que falhou por ser, irremediavelmente - ao que parece - naquelas paragens, San Miguel. Não encontrei nenhuma de unhas pintadas mas descobri pardais em vez de pombos. Percorri a cidade à procura de uma beata no chão e tal como outra marca de cerveja não descobri nenhuma. Tudo certo, exacto, preciso e imaculado. A puta da cultura pode deixar-se comer sem se fazer pagar e à saída ainda nos sorri. Podes voltar quando quiseres, ó tanso, é só meteres-te à estrada em fuga do inferno dos pequeninos.
Abandonei os ocres a custo e tive pena de não ter partilhado a experiência com o sr.Prusidente. O homem teria gostado daquilo, seguramente.
Ser vassalo é ser palerma. É admirar, escutar, concordar sem consciência. É um sibilar mudo em sintonia disforme. É ser o outro antes do eu. É dar-se todo. É advinhar o outro. Estender-lhe os passos, a bandeja, as ideias. É abrir-se e deixar voar o cérebro. É dispor o destino ao destino. Ao destino. É obedecer sem ordem. É constituir-se arguido do seu próprio juízo. É induzir o reflexo.
Ser vassalo é ser tudo menos o próprio. É emprestar-se ao adiantamento. É algemar-se de livre vontade. É... o que quiserem.
A dor não dura para sempre. Há um momento antes do sempre em que a dor termina. E já não dói mais.
Três na linha novamente. Grande farra! Só não vejo nada...cambada de voyeurs.
Vendi-me, por muito pouco, ao investimento estrangeiro. O que lá vai, lá vai. Tivessem vido mais cedo.

Com uma intensão semelhante mas desta vez sozinha, ela parte.
«I wish I was a hunter in search of different food
I wish I was the animal which fits into that mood
I wish i was a person with unlimited breath
I wish I was a heartbeat that never comes to rest...»
As palavras não a comovem, não significam nada, não se encaixam no seu sonho de liberdade para aquele fim de semana. Chega a pensar se porventura aquela partida brusca e sem destino faria sentido...Senão porque não sentia o arrepio a correr-lhe nas veias? Seria porque na realidade nada tinha deixado para trás? – “Não tinha nada para deixar!” – assolada por tais pensamentos Pandora endireita-se bruscamente no assento, passa a mão na cara e despenteia os cabelos, estica o pescoço e conclui aterrada que ninguém lhe sentiria a falta – “E é preciso abandonar alguém para nos sentirmos livres?! Não pode ser.”
Não sei se impelida por alguma teimosia ou se por instinto, arrepia caminho certa de que num dos troços da viagem sentiria vontade de nunca voltar.
Já a jornada ia longa quando pára numa bomba para tomar café e comprar um isqueiro. Há três horas que não fumava – “Tanto melhor”- pensa.
Bate a porta do carro, os seus passos parecem-lhe lentos em relação à velocidade que tomara até aí.
Recostada displicentemente na cadeira do café, exalando círculos de fumo absorta a quem a rodeava, é surpreendida por um homem:
- Então, está tudo bem? diz Trips sentando-se rapidamente a seu lado de modo a disfarçar alguma timidez que as vicissitudes do tempo e da ausência não perdoam.
- Ah! Tu! – diz ela corando – não contava...
- Vais para o Porto?
- Não, porquê?
- Nada, podias ir para o Porto...
- Vais tocar ao Porto?
- Sim. Está tanta gente, muita gente aqui não achas?
- Pois, é carnaval.
- Então faz boa viagem – diz Trips apagando rapidamente o cigarro enquanto se levanta.
- Adeus- diz ela com uma voz sumida, seguindo-o com o olhar e circundando-o habilmente com uma das bolas de fumo – “Sempre gostei daquelas ombros rectos”.
Segue viagem. Agora já não pensa nem tão pouco ouve a música. Funde-se com a paisagem que muda a todo o instante tornando-se cada vez mais densa.
«I wish I was a forest of trees that do not hide
I wish I was a clearing no secrets left inside
I wish I was a stranger who understands the sky
I wish I was a starship when Saturn's flying by...»
A estrada por sua vez é cada vez mais estreita e Pandora está finalmente só.
Ao longe, contrastando com o céu de fim de tarde, um vulto escuro e magestoso eleva-se por entre as árvores. Dominada por um sentimento arrebatador e, posso afirmar, simultaneamente devorador, Pandora escancara a boca querendo engolir duma só vez toda aquela magnitude. Com o coração dilatado, acelera na direcção do Gigante que imóvel a aguarda, impassível e indiferente, como aliás sempre foi, a criaturas insignificantes.
«I wish I was a writer who sees what's yet unseen
I wish I was a prayer expressing what I mean»
Música: Soundtrack "Run Lola Run"
Isto é o que se chama trabalhar para aquecer. Vou-me embora! Fiquem na Santa Paz do Crepúsculo, senhores ouvintes. Retiro-me. Para outras trevas!
«Tome-se um homem,
Feito de nada, como nós,
E em tamanho natural.
Embeba-se-lhe a carne,
Lentamente,
Duma certeza aguda, irracional,
Intensa como o ódio ou como a fome.
Depois, perto do fim,
Agite-se um pendão
E toque-se um clarim.
Serve-se morto.»
de Reinaldo Ferreira
E o nevão na Serra da Estrela? Meu Deus. Que drama. Que holocausto. Tanto vento. Neve. Coisa fria. Pessoas perdidas. Três ou quatro pelo menos. E os escuteiros perdidos, os GNR's perdidos. E os senhores a comer nos restaurantes perdidos. A suarem opiniões. Os directos dos quarteis, das florestas, dos postes, dos camiões cisternas. Os directos. Meu Deus. Mas veja lá, não ficou perdido? A sua sandes não ficou gelada? Prove lá, veja bem, sinta, não acha que está gelada? Quantos autocarros viu passar? E escuteiros? E GNR's? E helicópetros?
Na Serra da Estrela havia centenas de jurmalistas perdidos à procura da notícia. A foguear o drama, o holocausto. A fingir que estavam com frio. Nas serras da estrela dos estúdios de televisão nacionais os jornalistas perderam-se nas sandes geladas. Nos escuteiros com o cú gelado. Nos padres. Nos ciprestes. Gelados. A darem largas à imaginação há muito tempo congelada. Tudo em prol do espelecretereaccatcatdor!!
Esmurrei o carro da Junta. Foi sem querer. Distraí-me a olhar para umas pernas e com o pensamento que veio a seguir. Como o olhar não voltou para onde devia, esmurrei a viatura. Como se fosse de papel, o carro da Junta, amarrotou-se, encolheu-se, gritou. Ui! Incrédulo não queria acreditar nos meus olhos, que ainda não estavam lá. Não queria ver. Eu sei que o carro é da Junta, que tem arranjo, que se endireita, mas a sensação do momento que não devia ser momento ficou a latejar-me nas fuças. O senhor em quem bati, incrédulo também, face ao seu arranhãozinho invisível ao lado do meu amarrotanço, riu-se, encolheu os ombros e quase me pediu desculpa. Por estar no momento em que não devia estar. E afastou-se. É o carro da Junta. É para estimar. Eu, o Prusidente, embriagado na distracção, teimo em criar-lhe tatuagens, à frente e atrás. Coisas de muito pouca ordem. Mas que magoam, o orçamento sentimental. E, para além disso, fica mal, passar nas ruas da cidade, e as pessoas pensarem, lá vai o Prusidente com o seu carro amarrotado!
Não vai durar muito. É preciso preparar a viatura para qualquer visitante ilustre. Que se avizinha.

Ter tesão é estar em brasa, a todo o momento. A ferver, num lume qualquer. A lubrificar a libido. Ter tesão é estar alerta. Alerta com toda a superfície da pele. É ter a epiderme. A derme. Em brasa. Em chama. Ter tesão é querer agarrar-se ao corpo. A qualquer corpo. É querer explorá-lo. Até à derme. Ter tesão é não ter espaço. Ter tesão é pensar que qualquer hora, qualquer minuto, qualquer momento é tesão. Ter tesão é ter tesão. É querer usar todos os sentidos. É querer embrulhá-los de prazer. Ter tesão é querer esfregar-se de sexo. É querer esfregar o sexo. Qualquer sexo. A qualquer hora. O contrário de ter tesão é não ter tesão. É estar morto. Ter tesão é o instinto da necessidade primitiva. Ter tesão é pulsar. É sentir o sangue nas veias. É sentir a multiplicação das células. Ter tesão é ser viciado em orgasmos. É querer vir-se a toda a hora. Ter tesão é ser orgasmo. Ter tesão é viver no desejo eterno da tensão do orgasmo. É desejar. É foder. Ter tesão é não conseguir viver. Ter tesão é viver encostado a ela. Ter tesão é viver. É não aguentar mais. É explodir em implosão.
É a doer, senhores ouvintes. É a doer!
Estava com o Lenhador. Mais o Chysky. Subíamos a rua, os degraus da rua. Com as nossas duas melhores amigas. Alegres. Todos nós alegres. As ruas alegres. Pessoas que subiam connosco. Outras que desciam. Outras que abriam as portas de casa. E fechavam. Outras com baldes. Outras com mangueiras. Outras aos gritos. Aos gritinhos. Nós subíamos. Todos nós alegres.
De repente. Salta para o meio de nós um bicho peludo. Um homem peludo, gigante, disforme, monstruoso. Torto. Que na sofreguidão do seu ser se atira à Luze, uma das duas nossas melhores amigas. O homem tinha uma cabeça enorme. Sem nada lá dentro. Só a sofreguidão do seu ser. Atirou-se a ela, encostando-a à parede. Rasgou-lhe a saia. A pequena saia escocesa. Com alfinete. Branca e preta. Aos quadrados. Com a mão encostada à parede por cima do corpo dela. Despindo-se da sua pele peluda, toda ela. Todo ele. Peludo. Disforme. Monstruoso. Sem conseguir falar. Sem conseguir grunhir. Só força. Só sofreguidão. Torto.
Saltei com o Lenhador ao mesmo tempo para cima dele. Para cima do pêlo. Ele, encostado à parede, encostado a ela. Ele a cair. O Lenhador também. Eu encavalitado, a bater-lhe na cabeça. Com um descascador de fruta. De plástico. De fruta gigante. Um descascador de plástico gigante a bater-lhe na cabeça. Na sofreguidão do meu ser. Disforme. Sem conseguir grunhir. Eu. Todo eu ele. Todo eu monstro. Peludo. Ele a cair. A morrer. A morrer num beco escuro. Eu com o descascador intacto, cheio de sangue. Eu todo eu cheio de sangue. Dele. Todo dele. O Lenhador em pé. Ele no chão monstruoso. Monstruoso. Num beco escuro. Caído. Sem conseguir grunhir. Sem nada dentro da cabeça. Sem sangue.
Descemos. Esquecidos. A tentar esquecer o beco escuro. A Luze com a sua saia escocesa. Com o alfinete a brilhar. Tão bonita. O Lenhador com duas cervejas na mão. Na outra mão um shot de tequilla. Eu com o instrumento para a fruta, escondido dentro de mim. A precisar de ser escondido fora de mim. A precisar de ser derretido. O plástico. O sangue.
Fugi para o bosque. Por detrás das casas. Nas traseiras das ruas. Onde as pessoas abriam as portas. Com baldes e mangueiras. No bosque. Na parte de trás das casas, sem portas. Só paredes escuras. Longe. A arma do crime a precisar de ser desfeita. Queimada. Eu a adormecer no bosque. No meio do escuro. Desfeito. Aos quadrados brancos e pretos. Tão bonitos.
A escuridão a ser queimada. Com o dia a amanhecer. Eu no bosque. Com medo. Pavor. Pânico. A querer enterrar-me. A ver o homem peludo ao longe a correr. Monstruoso. A ver o Lenhador ao fundo a correr. O Chysky. A Luze. Todos a correr em direcção a mim. Eu a acordar. A pôr-me de pé. A fugir. Para cima de uma árvore. A fugir para outra. E para outra. E para outra. E para outra. Sem saída. No bosque queimado pela manhã. O monstro a chegar. Eu sentado numa mesa. Grande. Numa clareira grande. O homem peludo a falar comigo. A sorrir. Com a sua cabeça. Cheio de vida. Lembras-te quando me mataste? Lembras-te quando me mataste? Foi tão bonito. O monstro a falar comigo. A falar escocês comigo. A sentar-se ao meu lado. A brincar comigo. Todos eles a sentarem-se. A trazerem comida. O Lenhador a trazer cervejas e shots de tequilla. Para todos. A Luze a sentar-se ao meu lado. A dar-me beijos. O homem peludo a dar-me beijos. Todos em festa. Todos nós alegres. Sentados.
Por ter salvo o homem da sofreguidão do seu ser. Por o ter morto. Por lhe ter dado vida com a morte. Por lhe ter dado a manhã queimada com o plástico da sua morte.
Todos nós alegres. Todos nós pessoas alegres. Cheios de vida. Sentados.

Estava à espera de directivas. Para entrar a ferro e fogo. Por mim sinto-me bem em qualquer sítio. Vamos a eles.
Avisam-se os senhores passageiros que a linha editorial desta coisa a que designamos por blog vai mudar. Mudar para muito pior. Se já era mau, preparem-se porque vai para além da qualidade zero. Vamos ser o ground zero destas coisas que andam por aqui, nesta esfera do mundo todo ligado. Não quero saber. Nada importa, é descer até à cave, abraçar os ratos e as cavernas de monstros e ficar por lá a rebolar. Feios. Ratos. E Maus. A Junta a partir de hoje vai ser um calabouço. Uma masmorra húmida nos confins da terra toda ela ligada. Mortos. Sim. Um blog de mortos. O primeiro.
Quem quiser que me acompanhe. Falo por mim. Os outros que se decidam.
Cuidado com esta cabeça! O Mundo começa a reparar no nosso Prusidente. Na mente brilhante do nosso autarca de base! O cheiro de neurónios incenerados tolda a Web.
Agora que ele descobriu o que é especulação só falta um dia destes descobrir que já na antiguidade a divindade dos comerciantes e dos ladrões era a mesma. Lá chegará com algum esforço, pouco suor, e muito xanax.
U Prusidente a nóbéli já!
Depois dizem que não fazem mal à saúde!! Amónio? Sinhueres!! Amónio não, carago! Levedante. Agente levedante, dizem eles. Devem estar a gozar comigo. Eu já ando cá há muito tempo. Não nasci ontem. Não sou maçarico! Tão a ouvir? Eu não nasci amanhã!! Não nasci ontem!
Estão 3 Online, que multidão!!! Vamos fazer uma festa, uma orgia, uma manifestação?

Imaginem. Vão ao mercado para comprar uma peça de fruta. Quando lá chegam reparam que há muito poucas peças de fruta. Três ou quatro que se podem comprar avulso. Outras seis que se podem comprar em conjunto. Uma custa 95. No conjunto das seis, cada unidade custa 93. Mas só precisam de uma. No entanto têm dinheiro para comprar o conjunto das seis. O mercado está a fechar e no final do dia não há fruta nenhuma para comprar. O que fazem?
Compram o conjunto das seis. E quando a fruta acaba põe à venda por 97 só cinco peças, ficando com a outra que precisam. Vendem tudo em pouco tempo.
Resultado. Levam a peça de fruta para casa por 67!
Agora imaginem ter comprado a 88 e ter esperado mais uns tempos e vendido de novo a 100. Multipliquem por milhões e pensem que estão ricos...
Tive uma revelação. A vida muda. Eu mudo. Em silêncio. Para outra vida. Velado noutra relação. Entre muros. Os meus muros. Que mudam. Comigo mudo em silêncio. Na exposição de uma outra vida. De outro rumo. Outra direcção. Outro caminho. Mudo para outro mundo. Em absoluto silêncio. No meu muro de silêncio mudo.
«Girl
I wanna take you to a gay bar,
I wanna take you to a gay bar,
I wanna take you to a gay bar, gay bar, gay bar.
Let's start a war, start a nuclear war,
At the gay bar, gay bar, gay bar.
Weow
At the gay bar.
Now tell me do ya, a do ya have any money?
I wanna spend all your money,
at the gay bar, gay bar, gay bar.
I've got something to put in you,
I've got something to put in you,
I've got something to put in you,
At the gay bar, gay bar, gay bar.
Heow
You're a superstar at the gay bar.
You're a superstar at the gay bar.
Yeah you're a superstar at the gay bar.
You're a superstar at the gay bar.
Superstar.
Super, superstar!»
EXPLOREM o resto 'cause it's fucking cool!
Bom fim de semana e um entrudo alegre eu cá vou de macaquinho.
Não consegui largar a papelada. Ela não conseguiu largar-me. Ossos do ofício.
Quando o conheci era um petiz com cara de anjo mau, capaz de fazer despertar os mais proíbidos desejos aos devotos da virilidade. No género de Tadzio.
O rapaz cresceu, rapou os caracois loiros e tornou-se duro como um homem. Eu vi porque estava lá entre folhas e livros, ele não reparou porque se fazia homem. Vi formar-se um bando de cachorros que brincavam e rosnavam, como é próprio da idade. Pouco mais tarde era já um gang de cães danados. Gostava de os observar. Conhecia-os a todos, distinguia-os um por um pela actuação, eles não reparavam, demasiado ocupados a serem homens. Já eu largara os livros e as folhas quando o bando se dispersou.
Hoje, parece que sou uma privilegiada, para além da vista de mar, posso desfrutar diariamente da, por vós tão desejada, companhia daquele que foi Tadzio, agora o académico alemão em crise, mas neste caso sem busca de um ideal de beleza. E tomamos café e falamos vagamente desses tempos e dos vossos nomes aos quais ele reage com um sorriso de anjo mau.
«Texas that´s where i
Belong
It seems to me...»
Acham que Istambul é um bom sítio para dar o nó? Ou preferem Cabul?
Diz ele que é uma vontade de quatro. Como se tivesse rendido. Quatro que têm tanto de igual como o preto e o laranja fluoroscente. Está doente, o homem. Passou-se. Como um parafuso e uma sandes de queijo. Ainda para mais, ainda para mais, na Rússia. Um tremoço e uma camisola de lã. E o gato? Não perguntaram ao gato? Não seria antes uma decisão de cinco? É que assim sempre daria para desempatar! Será que vêm aí as invasões e é preciso fugir para a montanha?
Hoje fiz uma visita a um quartel, não sei a que propósito, mas lá me convidaram e eu, com o rabinho entre as pernas, contrariado, lá fui. Uma escola quartel, com toda a rigidez do que é ser militar. A tábua rasa do ser humano. Tão rasa que rasteja pelo chão e ainda se ri. Com que finalidade existem militares, pergunto-me eu, sempre que vejo espectáculos como estes. Tenho a impressão que estar preso ou suportar a rigidez da hierarquia militar é quase a mesma coisa. Põe-se o humano de parte e o que resta torna-se um número, um brinquedo, que se mexe como se quer, um bocado de qualquer coisa, como um cão. Senta-se. Rebola. Salta. Vai buscar o osso. Tudo num estalar de dedos. E ainda se riem de contentamento. Que se pede de um militar, acima de tudo, que obedeça? Que dê a vida pelo chefe? Um soldado, um número, um cão, é um pedaço de qualquer coisa. Vê-los a marchar, todos em conjunto, parar, marchar, hop, apresentar armas, esquerda volver, marchar só com uma perna, sem as pernas, marchar, marchar; os números todos a marchar, cães a ganir em silêncio, pedaços de qualquer coisa que riem entre os dentes, hop, hip, hop... é a coisa mais deprimente que se pode ver. Mas eles riem-se... enfim...
Angel don't take those sleeping pills you don't need them
Though it's just time they kill
Angel give me your sleeping pills you don't need them
Give me the time they kill
You're a water sign I'm an air sign
Gone gone to Valium can you get me some?
You're a water sign and I'm an air sign
Too Siamese to catch the leaves from those trees
Angel don't take those sleeping pills you don't need them
Though it's just time they kill,
You're a water sign, I'm an air sign
Pumped up with Valium, could you get me some?
You're a water sign, I'm an air sign
With sweet F.A. to do today, with sweet F.A. to do today...
...Angel, don't take those sleeping pills
«Sleeping Pills» - SUEDE
Tantas saudades eu tenho daquele rapaz, tantas, tantas, tantas, tantas, tantas, tantas. Não fora o Prusidente e ele era o meu melhor de maior confiança. Acho que se perde, quase sem calcular o risco da perda. Tal como o outro está longe, só que desta vez por opção própria. Isola-se, desaparece, prefere esconder-se, apesar da saudade dos amigos. Diversifica, soma os riscos. E nós sem ele não somos os mesmos.
Ora voltemos às banalidades:
"Vivemos num mundo em que o passo acelerado do desenvolvimento tecnológico e científico nos transporta para uma realidade que há bem poucas décadas ainda pertencia ao domínio da ficção científica.
O espírito racional dá os seus frutos, e de certo modo ninguém os contesta. Mas os que esperavam esta vitória do espírito científico servisse para esmagar todos os vestígios de "irracionalidade", têm perante si o mais veemente desmentido dos factos. Na verdade, paralelamente aos sucessos científicos, a mais variada gama de crenças "irracionais" vem proliferando pelo mundo fora, e a ela aderem pessoas das mais diversas proveniências, independentemente do seu grau de instrução e educação, sejam cidadãos de países capitalistas, comunistas, ou países ricos ou pobres. Acreditar nos (ou tolerar os) signos astrológicos, sejam eles do Ocidente ou do Oriente, é um incontornável ingrediente da vida dos nossos dias (...)" in Luís Ortet, “Guia para a Astrologia Chinesa – e previsões para o Ano do Macaco”. Livros do Oriente, Macau, 2004.
Então agora digam-me lá como gerem os Senhores/as a Astrologia?
Desprezam-na deitando um cantinho do olho não vá o diabo tecê-las, ou obedecem ao comando dos astros? Acham que é coisa de gaja? Utilizam-na em caso de necessidade? Quando estão apaixonados sem serem correspondidos? Afirmam-se como Leões indestrutíveis ou como Balanças equilibradas? Sentem-se poderosos como os Dragões ou palhaços como os Macacos? Espetam os cornos como o Touro, ou deleitam-se como as Virgens? Vá confessem, gostam de ver escarrapachado o futuro perante a incapacidade para gerir o presente. Certo?
Quantas vezes morri afogado? Duas, talvez três. Ainda me lembro. Atirava-me para a água e, sem me aguentar, a bracejar que nem um pato, ia ao fundo. Atirava-me para águas profundas, a pensar que ficava a boiar, que não tinha peso para descer. Errado. Ia ao fundo e morria. Ia ao fundo e não existia mais nada. Só água escura, no fundo da minha inconsciência. Havia sempre alguém que saltava depois de mim, a quem devo estar aqui hoje, o meu irmão mais velho, nadador versado, ou outro anfíbio qualquer. Que pegava em mim e me tirava dali. Não sei se me saltavam em cima, se me faziam respiração artificial, se me davam pontapés na mona. Normalmente acordava no chão de uma casa, aos soluços, como se nada tivesse acontecido. A olhar o olhar dos outros, petrificado. A pedir um chocolatinho. Grandes tempos.

Mais uma vez é preciso mudar de sítio, ir para outro lugar, não se sabe onde, longe, perto, não me compete decidir. Não posso. Só existe a certeza da mudança, que me trespassou como uma vara de ponta a ponta e agora que me lixe. É como eles quiserem.
Vou -me ausentar. O último que apague a luz...
Por cima de uma Junta há sempre uma Câmara. Em cima de um Prusidente de Junta está sempre um Presidente de Câmara, infelizmente. Não se pode evitá-lo, faz parte da constituição. Está escrito. Nos anais da República. No entanto, para aliviar, o meu Presidente, seja ele qual for, tem o ensejo de se lançar a outras lides. Deve ser do lugar, que começa a aquecer, e a mania de se candidatarem a outra Presidência começa-lhes a subir ao nariz. Tanto sobe que começa a entornar. Eu acho bem. Assim escuso de o aturar mais tempo. Ficamos os dois felizes. Se o país fica feliz, isso já é outra história.

A Loira Monroe. Foi assim que a conheci. Entre pragas de bichos versados em Lermontov. Entre juncos silvestres de séculos idos. Ventos de nobres mortos em guerra. Tiras de letras fugidas de outros caminhos. Letras de letras. De outras letras. Livres. A Loira Monroe. Debaixo de água. Depois do sossego do amor de quem não estava. Depois de céus caídos em folhas de murmúrios. De segredos. Segredos de segredos. De outros segredos. Em terras que já não existem. Decepadas no voar das horas. No teu voar. Loira Monroe. No teu luar. Luar de luar. De outros luares. Debaixo da água. Fugidos ao vento. Vento de outras guerras. Como agulhas em feno. Fugidos a quem conheci. Nas pragas. De segredos. Nas horas de outras horas. Horas de horas. Murmúrios de outros murmúrios. Queixas doces. Loira Monroe. Queixos doces. Debaixo de água. Nas letras das tuas letras. No sussurro de outras vozes. De quem não estava. Loira Monroe. De quem não estava.

Se me apetece estar calado, para quê ouvir? Ruídos, barulhos, berros, estalidos, para quê? Nós os podem calar? Roubar-lhes a fonte de energia? Enfiar-lhes uma martelada mesmo no meio do tímpano? Serrar-lhes a amígdala com uma escova de dentes? Ou com uma fola de papel, para ver se gostam? Não? Há multas para tudo, não podiam arranjar uma para os ladrões do silêncio? Um imposto?
Calem-se, por favor!
- Vou passar o fim de semana para a montanha junto ao mar. Libertar-me do frenesim e da frustração de querer fazer muito e não fazer nada. Queres vir?
- Tenho de estudar, tenho que ler senão o que será de mim. Ele mata-me, aniquila-me, talvez fosse bom sair daqui. Quem me dera poder deixar cá os meus pensamentos. Sim vamos!
- Olha para esta vista...não há descrição...esta água límpida.
- A montanha todos os dias muda. Este silêncio, o barulho das moscas...
Ela é canhota, segura o livro ao alto e com a mão esquerda escreve. A outra vai para dentro. Senta-se à frente da janela a que chama aquário. Fica indecisa, lá dentro a vista é enquadrada, lá fora a imensidão e o vento.
- "Cá dentro" - decide.
Elas lêem, escrevem, a montanha em frente é só já uma sombra negra recortada.
- Tal e qual os desenhos das crianças não achas?
- Sim, olha a árvore solitária!
- Adoro ciprestes..
- E o que achas do "horizonte de expectativa"?
- O quê? Expectativa de amores húmidos? diz ela rindo nervosa e frenética.
A outra desliza para a brincadeira e, depois, coloca um ar doutoral:
- Não filha, não é amor, é de arte que te falo. Arte sem amor. Arte que nasce precisamente do não-amor. Do não-lugar húmido. Do não-sexo. Vazio.
A loira Monroe surpreende a doutoral. Tira-lhe o tapete dos pés:
- Vazio referencial de Gadamer? Ó querida, isso é tudo uma g'anda treta. Vem mas é cá ver isto - esganiça a voz - Anda!
As duas deitam-se na relva, rebolam como duas enormes e graciosas aranhas felpudas, e riem de felicidade.
- Há algo mais belo do que esta natureza à La Toscana?
Lá dentro, em casa, dois mosquitos são vorazmente engolidos pela aranha. Um minuto mais tarde a loira Monroe persegue, obstinada, o animal a comando de gritos estridentes da Doutoral mamalhuda que salta na cama:
- Faz qualquer coisa!
- Quando te enervas incha-te a boca, ficas sexy, sabias? diz a outra hesitando com o sapato na mão.
- Mata-a!
Impelida pela boca carnuda, num gesto feroz e preciso, loira Monroe esmaga a aranha. Derreada senta-se no chão, triste.
- Desculpa, é que não consigo coabitar com esse tipo de animais - diz mamalhuda tirando o ar doutoral.
- Era tão grande... parecia... acho que olhou para mim.
- As teorias de Brian O'Doherty são interessantes, bem diferentes das dos teóricos. É que ele é um usuário, a exposição de arte tratada por um artista é bem diferente...
Nesse instante passa um helicóptero. As raparigas, em consonância como que numa coreografia bem ensaiada, esperneiam gritando " Let me go! Let me go!". O helicóptero segue o seu caminho, elas voltam à leitura.
- A fotografia veio revolucionar a expressão estética. Na pintura as margens desapareceram, a representação da paisagem passa a ser um recorte duma paisagem maior.
- Sim, e as molduras, que não eram mais do que o símbolo que anunciava a condição de "grande mestre" e uma condição monetária...
- Mas já no séc. XIX a forte convenção do horizonte atravessa com muita facilidade o limite da moldura...e que tal se me emoldurasses mestra? Faz de mim uma obra prima!
- Cala-te, não levas nada a sério, és de uma leviandade...
- Sempre sirvo para matar aranhas... e ela olhou para mim, nunca hei-de esquecer aquele olhar.
- E as aranhas lá têm olhar! Quantos olhos tinha vá - diz ela colocando novamente um ar doutoral. Monroe arregaça as calças e pousando vaga e pensativamente os olhos nas suas pernas acrescenta:
- Muitos fica sabendo - passando docemente as mãos nos joelhos - Tantos quantos pelos tenho nas pernas.
- Bem se vê que não tens homem há um tempo, loira Monroe.
- Aquele olhar...talvez tenha morto o que me restava...
- Que tal irmos à Jugoslávia no Verão?
- Que cheiro estranho! Sentes?
Loira Monroe abria as narinas qual felina a perscrutar no ar o cheiro de uma presa.
A outra prosseguia, enlevada e alienada – frise-se – no seu sonho de liberdade:
- Sim , na Jugoslávia, através da ruptura da História, encontrarei – aqui pára e olha frontalmente para Monroe, que continuava a dilatar furiosamente as finas narinas – encontraremos a superliteralidade dos nossos corpos... – sentiu um calafrio e aconchegou-se na manta de patchwork bafiento e aracnídeo.
Monroe saíra do seu transe animalesco e num gesto bizarramente cândido, começou a acariciar as suas longas pernas:
- Chiça! Não há ninguém que me faça rapar os pelos! – e, olhando para os cabelos pintados, e muito mal pintados, da já não tão morena Doutoral que desaparecera por baixo das mantas e almofadas, diz – Nem Courbet, nem Matisse, nem a arte de pendurar quadros, nem mesmo os cubos de Judd, me farão dizer não à Jugoslávia!
Abafe-se. Meta-lhe uns púcaros. Faça qualquer coisa que a Junta anseia pelo seu regresso. Que não seja atípica, nem das galinhas. Olhe, nem dos... patos. Se tiver que ter que tenha qualquer coisa mais nobre. Não tanto de capoeira mas mais de rapina. Que é como quem diz de animal que voe sobre as montanhas.
Se a questão é intestinal, pois será uma consequência do vómito que sentimos pelo que nos rodeia, e não há nada que uma cenourita cozida e uma aguinha de arroz não empate.
Da coluna é que espero que não seja, que nós queremos na Junta só gente vertical.
Ponha-se lá bom senhor Prusidente. Um abraço da equipa.
O Prusidente não está para aqui virado. Deu-lhe uma coisinha má que lhe deixou os membros lassos. O Prusidente sente-se atípico e não pode vir cá hoje. Perdoem-me, fica para qualquer outro dia.

Toda a vida vivi com este quadro. Perto de mim. Como toda a vida vivi perto de quem o tinha. Que não vivendo. Vive sempre perto de mim. Dentro.

«Everytime the day darkens down and goes away
Pictures open in my head
Of me and you
Silent and cliché
All the things we did and didn't say
Covered up by what we did and didn't do
Going through every out I used to cope
To make the repetition stop:
What was I supposed to say?
Now I never leave my zone
We're both alone
I'm going home
I wish I'd never seen your face»
(entre para ouvir...)
Elliot Smith - «Waltz #1» e aqui e aqui!
Não consigo mais... tinha tanto nada para dizer.
"Au début, la beauté
Au début, la beauté, pour les messieurs
C'était des poils, de toutes les sortes
Au nez, au cul, sur le thorax
Ou même en forme de barbe
On portait aussi le ventre
Et les épaules trop larges payaient la taxe
Seulement, on a protesté
(Personne ne sait plus qui, car il l'a regretté après).
Alors un homme nouveau
(Et pas un self-made man, vu qu'il serait un con,
S'est donné la peine de naître
Il s'entraîna depuis son plus jeune âge
Et devint beau comme Jean Marais
Grâce à la quintovence de l'abbé de Frileuse
Il pratiquait tous les sports de salon
Depuis la pédérastie combinée jusqu'au pistolet Eureka
Mais on l'accusa de ne pas être un homme
Aussi, pour prouver le contraire, il a eu un enfant avec un chien
Ah! Ah! Vous êtes bien embêtés."
Boris Vian
"Taste classifies, and it classifies the classifier. Social subjects, classified by their classifications, distinguish themselves by the distinctions they make, between the beautiful and the ugly, the distinguished and the vulgar, in which their position in the objective classifications is expressed or betrayed."
Pierre Bourdieu
Bom fim de semana.
Tenho andado com a cabeça às voltas sem saber que prenda hei-de dar à minha namorada no dia dos ditos. Por um lado não queria sequer cumprir a obrigação desta repetitiva data festiva do calendário gregorio-capital-globalizante, mas... por outro lado... dar uma prenda à minha namorada dá-me sempre um prazer desmedido. Desmedidamente desmedido estou mesmo em o reforçar. Mas queria dar-lhe uma prenda original.
Flores?
Sim flores são uma óptima prenda para quem se ama, mas... flores dou-lhe eu todos os dias. Estou a imaginar o homenzinho pequenino com um ramo delas a entrar pela fábrica de monos onde a minha namorada ocupa o tempo, de braço esticado como que a dizer-lhe: tomai senhora, ele vos envia estas pétalas como prova do que sabeis!
Não flores, hoje, já tem as da conta.
Um anel? Um colar? Um broche?
Quantos anéis, colares, broches e outros actos de amor de ouro e prata ela não guarda já nos cofres dos bancos e no cofre do seu coração!
Absorto nos meus pensamentos entrei na pastelaria para beber um café. Um grande plakard anunciava o dia dos namorados apontando para uma quantidade enorme de doces, chocolates... bolos de americanada garridice.
Olhei para o empregado do costume com ar enjoado: Pedro dá-me um café! Tá a sair, mas o doutor está com ar preocupado, inquiriu fazendo-se valer da sua prática psicológica de balcão.
É verdade, e lá lhe dei conta dos meus problemas.
Olhe, diz-me o Pedro, dê-lhe um bolo daqueles, e apontou.
Daqueles, entre bolos de arroz, pastéis de nata, de amêndoa, fartes e jesuítas, estavam uns queques com suas maminhas mas com um formato diferente, mais ovais do que redondos.
Óh Pedro quais? Daqueles? Queques? Sim! Não! Não doutor não são queques, são quecas, não vê que são diferentres, foram feitos especialmente para a ocasião! Dê-lhe uma quéca senhor doutor! Dê-lhe uma quéca, e vai ver como a sua namorada jamais o esquecerá!


Amanhã, acredita, é outro dia, não está ninguém, ficamos sós. Tudo desaparece, com medo. Medo de ti, de mim. Matam-se. Por ti, por mim. Fogem. Para muito longe. Ficamos sós. Todos os amanhãs.
Fui fazer um servicinho à Penitenciária, vou lá entregar paninhos quentes todas as semanas. Já trato os presos por tu, porque me pedem coisas, do género "oh moinante orienta aí uns trocos". Desta vez, quando vinha a sair, para os lados da ala F, encontro uma espécie de Carlos Cruz, com um envelope na mão. Chegou-se a mim o mais que podia, quatro metros de distância, e grita-me: "Moinante, agarra lá isto!". Atira o sobrescrito para o chão. Eu, discretamente, integro-o nos paninhos quentes e saio. Ainda ouvi "ele é a minha única salvação". É claro nunca mais me lembrei. Só hoje, quando mandei tudo para a lavandaria, é que me caiu em cima de novo. Lá estava o envelope com as letras desfeitas pela humidade, o papel amassado de escamas, esbaforido, mas conseguia ler-se: "Para o Prusidente da Junta (rsff)". Quis abri-lo, sou curioso como a merda, mas não consegui. Quis destruí-lo, queimá-lo, comê-lo, na última das hipóteses, tudo sem efeito. Parece que só o Prusidente o pode abrir, com um código que tem dentro do cérebro. Coisa que eu não suponha o Sr. Prusidente possuir, cérebro, mas enfim. Tenho o maldito envelope carcomido em cima da minha secretária, a Lulita, também avia paninhos quentes, se lhe pedirem. É ela o fiel depositário da salvação de Carlos Cruz. Que se lixe a taça, que eu não tenho tempo para recadinhos. Para isso anda cá outro.
Quanto ao Abril também tenho umas coisa para contar. Não perdem pela demora.
Aqui estou senhor Prusidente a responder à chamada!
Assina: Cabo do Rancho
É preciso lembrar, avivar a memória de tempos idos. Trazê-los de novo para perto. Para que o tempo fique registado para sempre. Com os pés no futuro criámos esta nova categoria. Aberta a todos. Fica aqui, na nossa Junta, para não se perderem. Para continuarem a ter sentido. Para viverem em paz. De espírito.
«The bogus man is on his way
As fast as he can run
He´s tired but he´ll get to you
And shoot you with his gun
Focussed his mind
On something he cared about
But it came out a shout
Just like before
The bogus man is at your heels
Now clutching at your coat
You must be quick now hurry up
He´s scratching at your throat
Concealed his doubt
By skilful evasion
But he couldn’t find out
About deception
The bogus man is on his way
As fast as he can run
He´s tired but he´ll get to you
And show you lots of fun»
«The Bogus Man»
Roxy Music («For Your Pleasure ») 1973
letra de Bryan Ferry

Logo de manhã, telefonei ao Presidente da República. Ainda estava a dormir, era cedo, mas sou dos poucos que tem o seu número de telemóvel. Só para emergências - disse-me ele. Era demasiado cedo. Mas logo percebeu que a coisa era grave. Jorge, é hoje, não há tempo a perder. Acciona-me a máquina! Passados quinze minutos, talvez dezoito, liga-me ele. Prusidente, já engrenei a primeira.
Então ficou marcado para hoje. Passei toda a manhã a fazer cartazes. Com palavrões garrafais. Vou com o Presidente, lá para as quatro da tarde, em direcção à Assembleia da República, combinámos no leão do lado esquerdo. Ficamos em aceso protesto até ao lusco-fusco. Até que a voz nos peça para parar. Até que o gás lacrimogéneo nos atordoe o palato. Que as mangueiras nos reguem o coração. Depois partimos para o Marquês, via Bairro Alto, Camões, Rossio. Paramos em todas as estações e apeadeiros. Tascas podem ser examinadas, só para ganhar balanço.
Acabo de receber outra ligação de Belém - Prusidente, já está em segunda mais-mais. Vamos a eles.
Quem quiser que se junte a nós. Sabem onde encontrar-nos. Vamos a eles!!
É preciso estar lá em cima. De algum modo é preciso subir. Três quatro degraus será o suficiente, desde que se atire de cabeça, impulsionando todo o corpo para a frente, como se fosse uma esfera. No infinito que vai do impulso ao contacto com o chão há sempre tempo para reconsiderar o ângulo, aponte bem, não faça por menos, aponte para a desfiguração. Irá sentir-se muito melhor.
O sonho faz de ti um homem. Leva-te para o céu, a cavalo na tua musa. Perdes o tempo a cacetear dragões, ladrões, invasores lendários. Lanças-te ao rio para banhos de peixe fresco. Na procura sôfrega do cadáver do poeta. Que vive uma longa vida gratuitamente. Algures. No teu sonho.
Ora bem até que enfim!
Tou a gostar, vamos lá a agitar isto. Vamos mandar vir e mandar ir. Já estava a pedir a demissão porque isto já estava mais para o lado do convento do que para a ventania nas cabeças. Introspecção a mais com laivos de sacristia. Confessionário? Era o que me faltava! Qualquer dia tinha que desenhar uns buraquinhos no écran do computa e pendurar umas rendinhas em volta.
Porra!
De resto tudo bem. Quanto ao poder...senhor Prusidente mais um deslize. O senhor não tem poder para passar o poder seja a quem fôr. O senhor convidou os assessores, mas o seu poder, senhor Prusidente da Junta, veio do eleitorado, essa mole que vota sem saber o que faz.
Por conseguinte enquanto não abrir a caça ao voto, o lugar é seu e depois... continuará seu certamente.
Senhor Prusidente, o senhor é monárquico? Desliza pró ditadorzeco? Ou afinal é só cacique como lhe convém ao cargo?
Bora lá! Vamos dançar tá?

Foi reposta a veracidade do que quer que seja. Aviem-se com ela. Estão contentes? Aqui vive-se democraticamente. Todos gritam, todos se espantam. Há regras? Não sei. Será um bog (sim bog... não m'enganei) uma rebaldaria (em itálico)? Digam-me vocês.
Onde se lê Prusidente da Junta, em baixo, leia o que lhe apetecer. Thanks.
Fiquei escondida à espera. Vi-o entrar, foi emendar o cônjuge para cônjuge. Adorei vê-lo, todo prefiladinho, empitocado, muito direito. Um manga de alpaca é o que é esse tal revisor oficial. Apeteceu-me despenteá-lo, mandá-lo dizer um palavrão: "vá diz NUMARO 1", mas a criatura não tem o mínimo, não dá luta. Se quiserem escondam-se, ele virá AQUI emendar certas palavras. xxxiuu não façam barulho.

Parece que temos aqui uma revolução. Gosto de revoluções. Estava a ver que nunca mais apareciam, mas vamos por partes.
Senhor, Mestre, caso não saiba a nossa Junta possui um revisor de texto e um departamento gráfico, foi algo que não lhe expliquei, perdoe-me. São eles que às vezes limpam os gabinetes. Retiram-lhe as baratas e o pó acumulado. No entanto, acontece que, por vezes, limpam demasiado. Não têm cuidado. O revisor é dado a automatismos morfológicos, digamos que é uma máquina a rever sílabas e letras miúdas, por isso dê-lhe o desconto. Por mim, já lhe dei um puxão de orelhas. Mas proteste sempre, venha ao meu gabinete e revire-me a papelada toda, se for caso disso. Não quero que tenha alguma apoplexia, senhor.
Quanto à segunda parte, quando se refere ao poder. Senhor, Mestre, na minha humilde opinião, creio que pisou um certo risco ao ter esse comportamento títulocentrico (está em itálico, lá está a mão do revisor...), o que me deu a cheirar, ao chegar-se à frente dessa maneira, foi que V. Exa. tem sede de poder. E como tal não quero que fique seco. Vai daí, meu Mestre, deLEGO-lhe a prusidência da Junta. Faça dela o que quiser. Estenda-se ao comprido, dispa-se, parta a loiça toda. Beba à vontade, até cair para o lado. Sossegue.
Para finalizar digo-lhe que quando o convidei a ocupar essa cadeira foi com a esperança que da sua veia saíssem todos os ensinamentos que o percorreram ao longo da vida. Que de alguma forma nos tornasse seus testemunhos. Se quer gritar e espumar da boca, está bem, sempre é uma opção. Sua. Até sempre.
Onde se lê Prusidente da Junta, em baixo, deve ler-se outra coisa qualquer.
"msm=»P388*=472
my Message 4U-Ligue 12300 e no Dia dos Namorados surpreenda a sua cara metade com uma dedicatória original. Programe ja o seu envio ( Eur 0,30/min+Eur 0,60/envio)".
Fdx mil vezes fdx. Isto é demais. Estou sem palavras, estou toda vermelha, Estou com raiva. Saiam-me da frente que eu não respondo por mim. Mas o que é isto?!
PROGRAME JÁ O SEU ENVIO!!!!!!!!! ? Ai de quem não o fizer pois é um péssimo cônjuge, um namorado de merda, um egoísta, uma egocêntrica....
Uma DEDICATÓRIA ORIGINAL! até me engasgo!
Invadem-me o telemóvel com mensagens para fazerem dinheiro à custa das minhas paixões?! Quero que se lixem, que vão para o buraco mais fundo, que se enterrem.
Uff que alívio, realmente é bom despejar as angústias em cima da populaça da junta.
E já agora digam-me
O Amor " Será parecido com uns pijamas,
Ou com o presunto num hotel de abstinência?"
O observador está só, num ermo místico ou na orla duma cidade...estranhos encontros entre os adormecidos e os acordados.
Entrem no "night train", percam-se.
Vão ao Kiasma Museum of Contemporary Art.
Mas volte com a coluna direita.
Quero só perguntar-lhe se tem alguma coisa contra o uso de acentos na língua portuguesa, se tem alguma coisa contra as minúsculas, se tem alguma coisa contra neologismos enfáticos...
Quando escrevi rtp em minúsculas, era isso mesmo que queria escrever, era assim que queria nomear aquela "coisa" pública e impúdica. Queria com as menores do alfabeto mostrar a sua própria menoridade. O senhor Prusidente achou que não, pensou-se mestre escola e alterou, faltando só as reguadas bem merecidas para quem cometia erro tão grave!
Achou também o senhor prusidente ser de palmatória o erro de chamar lambebótas à "cambada" ali referida. Lambe botas é mais correcto pensou! E pensou bem.. só que não era para ser correcto, era para ser o mais depreciativo possível, e o neologismo - que não é assim tão neo quanto isso - funcionava como um grão de areia que faz a engenagem parar um pouco. É o grão de areia para o leitor, também ele, se associar ao vómito do escrevente.
Por vim só lhe direi que não sei por que (não porque) razão fez estas tropelias, mas lá terá os seus porquês (ou serão por quês?).
Um abraço do ainda Mestre para o, espero, novamente Prusidente
Foi assim que escrevi e foi assim que editei. Não são frases soltas sob o titulo genérico de "È óbvio que me vou demitir" como ficou afixado no átrio desta Junta que eu julgava ser um espaço de livre pensamento, de liberdade de criação.
São todos títulos sem texto porque não precisam de texto, eles estão nos próprios títulos, gritos de raiva pelos atentados cometidos em "A pública é impudica como se tvê"!
Mão de quem não sabe o que é o poder, também ele vítima sabemos de outros prusidentes e prusidentas, sob a capa de "eu vou dar-te ali uns toques...tens umas letras repetidas..." mais não fez do que alterar, o que não era para ser alterado, tal como esta última pinga de água que foi transformar num texto, textos fora do contexto sem qualquer contextualidade.
E se na "impudica" que ele não gosta que seja impúdica, a sua mão me indignou, mas inda o desculpou por distração habitual nos seus actos, a segunda mostrou ser de impudidícia total. Ou seja o prusidente que ganhou a Junta e nos convidou para seus assussoures, mostrava que a simples razão de ser o fiel depositário dos códigos de entrada na sala de cada um, isso lhe dava o poder de controlar as nossas próprias cabeças! O poder é tanto que ficou bêbado. O nosso prusidente está a transformar-se num Presidente!
Ora nós não queremos um Presidente. Nós queremos o nosso Prusidente de volta!
Deixei arrefecer o fogo do momento em que me apetecia partir isto tudo. Com a ajuda da cibernética o caldo que estava entornado não se tornou num tornado. A retória foi-se pelo espaço quando em mudança de página o save não foi seguro. Mas a verdade é a verdade. E vai ser reposta...
Apareci e mantive-me por mais de uma hora a falar de banalidades. Gostei tanto que tenho direito a vezes dois e vezes três. Repito-me amanhã, cedinho.
Gostais da televisão, queridos meninos? A ilusão da perfeição fascina-vos, é? A mim, mesmo em repetição, continua a mexer-me com os sentidos, a ilusão da perfeita.
Hoje ao entrar na junta deparei com uma rapariga que me barrou a entrada. Empunhava um cartaz, daqueles com um pau, à americana, que dizia:
QUERO OS RECADOS DO MOÇO!
M.s
A mulher era parecida com alguém que eu conheço, ou talvez já a tenha visto por estas bandas, talvez até no restaurante da esquina, a beber copos de acool com o Moço, não sei...
Aqui fica o recado.

Deixei-o ir sozinho. Até chegar aqui e cair. Não aguentava mais, nem mais um milímetro. Nem mais um milésimo de milímetro. Consumido como um peixe vivo. Neste pântano luminoso. Longe da minha reserva natural. Deixei de poder desempenhar-me. Caí luminoso neste pântano. Com as guelras atadas de espanto. Sem equilíbrio. Sem a pose da espécie que represento. Nem por diploma vou conseguir sair daqui. Nem com a ajuda de cem mil elefantes. Cem mil qualquer marca de guindastes. Cem mil coisa nenhuma. A minha reserva natural. Não se levanta. Neste mangal de sete espécie de anfíbios. Neste terreno húmido de microbiais, cheio de Egrettas garzettas e de algumas Ardeolas bacchus. Não funciono, roubaram-me o manípulo que me dá corda. Nem a lei da bala me leva para longe. Nem daqui a sete mil milhões de anos conseguem descolar-me do colo do chão.
Eu não quero!
Pretendem fazer pesquisas na minha vida privada. Na minha actividade humana. Querem abri-la, vejam só. Dizem que estou fora da lei, que não tenho os documentos em dia, que provoco dificuldades às pesquisas que se pretendem fazer. Depois dizem que não há maneira de me documentar, porque eu não deixo. Até me fizeram uma operação stop, ia eu na Marquês de Tomar, para me medirem os pneus. Vejam bem, a mandarem despir-me, para avaliar o estado da minha carroçaria. Com os carros a apitar lá atrás, as buzinas a insultarem-me de revés, sem darem a cara, uma amálgama de buzinas, sem identidade. A avaliarem-me, eu que nunca faltei ao meu próprio juízo. Como se fizesse parte da fauna selvagem mal registada que anda por essas ruas e becos. A levarem os meus documentos, as minhas quotas do Benfica, a desflorestarem-me o arvoredo. Pesquisas, dizem eles, estudos sistemáticos, para bem da engrenagem. Óleos, pistons, parafusos. Tudo mal apertado. Tudo a dar de si. Eles a darem de si. A caírem aos bocados. A provocarem-me com a surdina das buzinas. Na Marquês de Tomar, vejam só!

Vês? É aqui que tens de acertar. Não custa nada. E eu não peço mais.
Se fosse uma pessoa normal tinha dez vezes mais dinheiro do que tenho.
Se fosse poupado teria vinte vezes mais.
Se investisse como deve ser teria trinta vezes mais.
Se não tivesse problemas de memória teria quarenta vezes mais.
Se me filiasse em algum partido teria cinquenta vezes mais.
Se me casasse com a filha do merceeiro teria sessenta vezes mais.
Se fosse corrupto teria setenta vezes mais.
Se fosse dirigente desportivo teria oitenta vezes mais.
Se fosse traficante teria noventa vezes mais.
Se fosse amigo do W. Bush teria cem vezes cem vezes mais.
E por aí fora...
Encontrei-me com o Moço e o Mestre. Apanhámos o mesmo autocarro, por acaso. Em diferentes paragens. O Mestre a queixar-se, que precisava de descanso. Eu a dizer para se reformar. Ele a responder, sim, vou para o Ribatejo. Eu, vai para um sítio que eu cá sei. O Moço, a dizer também quero.
A segunda cena somos nós na Quinta da Serra, sentadinhos, lá fora no empedrado do jardim, a apanhar sol. A ouvir a brisa, a beber um refresco. O Moço a dizer que aquilo é que é vida. Eu, a vida ainda está para vir.
Começam a chegar carros com raparigas que se enganam e vão ali parar. Outras raparigas que saem da casa, com ar de quem acabou de acordar. Com casacos de pijama de seda, sem mais nada por baixo. Eu a subir ao primeiro andar, a cruzar-me com mais raparigas, acabadas de sair do banho, nuas, o toque da pele na minha, desculpe, a casa de banho, com tartes e restos de tartes espalhadas pelo chão. Como se fossem velas. Eu, são de quê? Esta conheço.
Eu e a minha rapariga, aos beijos na parte de dentro, encostados à porta, com a porta a bater, com raparigas que queriam entrar. E ela: tão bom....
É tarde, eu sei. Não posso evitar. À volta do mundo o abandono morde. E a lua com a sua calma de abandono mata-nos, sem pedir licença. Faz parte da tradição. O mundo, a lua, a morte. O abandono.
O verdadeiro AMOR é o amor de cão!
Senhor Presidente, desculpem, sim?
até o prusidente...
o poder corrói e bem
o poder corrói e bem
o poder corrói e bem
era o que me faltava...
Site promocional do livro "A Vida de Pi" do escritor Yann Martel. Experiência única de interactividade, para ligações rápidas. Seleccione a versão full screen e seja paciente. Preparado? Não tenha pressa.
É aqui: A Vida de Pi.
(produzido por Screenbase)
Soubesse eu que hoje vinhas e tinha ficado.
Soubesse eu que hoje vinhas e tinha-me arranjado.
Soubesse eu que hoje vinhas e tinha jantado.
Soubesse eu que hoje vinhas e tinha rezado.
Soubesse eu que hoje vinhas e tinha fugido.
Soubesse eu que hoje vinhas e não tinha resistido.
Soubesse eu que hoje vinhas e tinha adormecido.
Soubesse eu que não vinhas e tinha enlouquecido.
Soubesse eu o que sei e não te tinha conhecido.
Soubesse eu o que não sei e não me tinha oferecido.
Três janelas e uma porta e não tinha acontecido.
Três janelas e uma porta e tu assim estendido.
Três janelas e uma porta tanto sangue escorrido.
Três toques na porta o vizinho embranquecido.
Não há toques na porta um polícia enfurecido.
Três janelas e uma porta já ali tinha acontecido.
«...make me a present
make it something sweet
small enough to go unnoticed and big enough to complete...»
Estou nas montanhas. Fugi ontem de noite sem ninguém dar por isso. Fugi por fugir, só porque me apeteceu fugir. Não há razão para aqui estar, apenas a esperança que as montanhas sejam o ultimato da minha fuga. Agora perdi-me, mas não vou entrar em pânico, não é preciso. Perdi-me às voltas à procura de qualquer coisa, que me passou pela cabeça e, que já esqueci. Estava a fumar um cigarro, ali ao pé de um monge com uma camisola que dizia Ostrogodos FFC, mas de repente, distraído, enganado pelo olhar e pelo cansaço, desnorteei-me. Ele desapareceu e eu ZUCA, perdi-me. Sentei-me aqui onde ainda estou sentado, agora. Não me levanto. Não preciso, mesmo no meio da montanha. Fico à espera que passe qualquer coisa, por mim, um Ostrogodo FFC, ou pela minha cabeça, e me faça levantar e dar largo às pernas. Talvez a galope na síntese da escuridão.
Ela gostava de o retratar. Ele gostava que ela o captasse. Ela retratava-o das mais diversas formas. Ele expunha-se de muitas maneiras. Ela gostava de se esconder, ele gostava de se exibir. Ela vestia-o, ele despia-se. Nunca falaram, nunca assumiram, apenas corriam para casa, todos os dias. Ela mora no 5º C, ele no 6º B.
Acabo de ver, em diferido, no canal internacional daquela coisa pública (paga por todos nós) e impúdica (paga por todos nós) que dá pelo nome de rtp, o telejornal de ontem dia 8.
Em verdade, em verdade vos digo que todos os dias me apetece chegar aqui e despejar nesta Junta a indignação que toda aquela mediocridade virada profissionalismo de alta escola, de colarinhos engravatados de salvattores, e de seios apertados em bras chanel, pendurados na cambada de recém graduados em semiótica de lambebótas, me provocam.
Muitas vezes me interrogo se tudo o que ouço não passa de ignorância, incultura, falta dos mais elementares princípios... ou se essas ignorância, incultura e falta de princípios, não terão virado condição sine qua non para quem se candidata a funcionário dessas máquinas de propaganda dos mais variados interesses, a que alguns se atrevem designar como órgãos de comunicação social.
Uma das notícias (?) de vigésima quinta importância neste "noticiário" foi a dos 25 anos do estabelecimento de relações diplomáticas entre Portugal e a República Popular da China.
E então...
Então o pivot anuncia a efeméride, a seco, e chama a atenção para uma menina que vai entrar do exterior para o desenvolvimento...
Para o quê?
"Aqui da Cruz de Pau..." - ou do pau da cruz que temos que carregar, ou sei lá de onde - pé de microfone aí está a grande repórter a entrevistar um chinês que tem um grande armazém, e que diz viver muito bem em Portugal. Ela, com rasgo estridente, vibra. Vibra porque ele, coitadinho do chinesinho, até já aprendeu a língua... uns comentários ao aumento da comunidade chinesa... mais umas bocas duma menina chinesa a dizer que a família foi ao jardim à beira mar murchado e que também gostaram muito, e etc.
Passa ao estúdio.
Nova ligação ao exterior. Agora é à feira do relógio onde se misturam ciganos com chineses e outras minorias étnicas. E pronto a coisa ficou despachada. A seguir já pode vir o futebol, e por aqui ficamos.
O resto que se lixe, que daqui a mais 25 faz 50.
É isto. Pobre país! Não houve uma imagem do acontecimento... um texto sobre o desenvolvimento das relações... sobre a questão de Macau... sobre a forma como os nossos empresários utilizam esse relacionamento com o país de maior crescimento económico do Mundo... Nada... nada disto.
A menina estridente veio mostrar aos tristes dos portugueses explorados, desempregados, sem futuro, que com o desenvolvimento das relações, os cidadãos de um país miserável, como é mostrada a China, foram acolhidos neste Portugal, altamente desenvolvido, que lhes deu todas as condições para enriquecerem!
Ao menos podiam interrogar-se... se tivessem capacidade mental para isso, se estivessem habituados a esse exercício fundamental para o desenvolvimento das capacidades mentais humanas.
Como por exemplo tentar perceber como é que esses coitados vindos de um país miserável, rapidamente crescem... e contribuem para o pouco desenvolvimento de um País, a cujos cidadãos muitos deles dão emprego.
Ou, talvez, interrogarem-se sobre o porquê de todo o Mundo querer fazer (e fazer) intercâmbio - negócio, sim negócio! - com a China, menos os merceeiros de empresas que temos nesta terra.
Desculpem lá companheiros da Junta esta má disposição matinal mas... já não os a