dezembro 31, 2003

Beijos

Amanhã, dizem, começa uma vida nova. Quem me dera ter uma vida que fosse, sem as perturbações que afectam o meu dia-a-dia. Burocracias. Chatices. Milhares delas, que vão desaparecer hoje, no último dia, pelo cano abaixo da minha existência. Amanhã é outro dia, mas também é outro ano e por isso é outra vida. Cá estaremos. Com a força multiplicada por tudo aquilo que fizemos de bom e de mau. Felicidades. BOM ANO!

Publicado por Prusidente da Junta em 05:03 AM | Comentários (2)

dezembro 26, 2003

Back in Action

Voltei não sei bem para quê. Para desejar coisas boas. Acho. Há sempre algo de novo que se pode dizer mesmo que seja velho. Há sempre vírgulas que se despejam na sorte da alienação, por aí, uma aqui, outra ali, não é necessário ir mais longe. Para que serve isto, perguntam muito bem. Qual a intenção, onde quero eu chegar, vale a pena? Para que serve isto? Digam-me.

Passei os últimos dias, antes do Natal, em reuniões. A aturar pessoas chatas sem nada para dizer que me alumiasse. Apenas encontros formais com gente formal, sem iluminação. Numa delas reuni-me com outros presidentes de Junta, há milhares deles, centenas de milhar, 45643 mil, se tanto. Estivemos num anfiteatro, limpinho, desta cidade maravilhosa. Cada um disse o que tinha a dizer, mas a maioria ficou calada, foi só à comezaina, eu falei e ofereci os meus préstimos a esta humanidade civil. Falei do meu espaço e ofereci-o. Como não ofereci sandes de torresmo ninguém se mostrou interessado.
Um presidente de Junta, lá do norte, trouxe um espectáculo de magia para cima do palanque. Umas meninas que cantavam e despiam-se ao mesmo tempo, e no final transformavam-se em galinhas. Se conseguirem imaginar, felicito-os, porque não vi nada tão mau. Mas o pior estava para vir. Então, muito lesto, o prusidente de Junta, de uma aldeola qualquer lá de chima, pegou-lhes no pescoço e com uma pancada seca degolou-as uma a uma, ali mesmo, ao ritmo de uma catana, eram cinco no total, as madamas. Depois de as temperar, com ervas da região, e de ter atiçado um lume no meio da sala, assou-as. Num espeto. Quando o anfiteatro começou a arder e os bombeiros vieram, para apagar as chamas que se estendiam pelos cortinados, este presidente, lá do norte, subiu para o microfone e fez o seu discurso, desvairado, no meio da fumarada. Quis ele demonstrar como se recicla a música. Como do som se faz qualidade de vida. Como das mulheres se faz algo que se coma. Gostei. À noite viemos aqui para a Junta, para inverter o processo. Ainda agora estou para saber como é que ele faz isso.
O que percebi no meio de tudo isto é que para se ser Prusidente de Junta é necessário ser completamente doido. Talvez seja altura de pensar em tirar o meu Mestrado com senhores como este. Lá para trás do sol posto numa terriola qualquer.

Publicado por Prusidente da Junta em 10:22 PM | Comentários (1)

Volto para o Ano

Na Serra da Estrela encontrei o meu Amor. Fiquei com ele. Desesperado.

Publicado por Moço de Recados em 09:10 AM | Comentários (4)

dezembro 23, 2003

Vícios Intemporais

O meu Sistema Operativo (SO) caseiro rendeu a sua alma ao criador. Não sei o que lhe deu. Juro que não fui eu. Os sintomas foram ténues. Mal diagnosticados, por certo. Mas a doença foi fulminante. Débil, enfraquecido, ainda tentou esboçar um leve sorriso. Contudo, quando se desligou para dormir, jamais voltou a acordar. Foi o sistema que perdeu a razão. Que perdeu os sentidos. A Orientação.
Resta-me tentar umas magias voodoo para o ressuscitar. É que dentro dele exsitem dois componentes siameses, muito duros, ligados entre si por uma bomba relógio, que também fazem parte de mim. Que suportam o meu Sistema Nervoso Central (SNC). E morrendo eles, morro eu também.


Entretanto tenho o PuBlog a funcionar (à esquerda, por baixo da lista de Blogs). Não sei se ajuda, mas sempre é mais qualquer coisa que se distrai a si própria. Entram e saem sem ninguém lhes pedir. Deixando, de uma maneira geral, todos satisfeitos.
Já que estamos numa de entretantos, desculpem-me os amigos que vêm vestidos com um Mac, primeiro nos casacos Safari a manga esquerda está em cima da direita, e no Internet Explorer a coisa também não fica lá muito bonita. Perdoem-me, não é por mal. Vou tentar resolver o problema. A Junta foi criada para uniformes Windows e camisolas IE 6.0. Outras fardas são de difícil notabilidade. Para acabar. Quem traz esta lingerie apresenta sérios sinais de desconforto. Secalhar pica.
Perdoem-me, de qualquer modo. Somos alheios. E complicados, também.

Publicado por Prusidente da Junta em 04:30 AM | Comentários (6)

dezembro 21, 2003

Bomba A

Dentro em breve iremos ter uma nova Colaboradora. A nossa grande esperança. Reservei-lhe o gabinete com vista para o rio, onde o sol bate todo o dia, ora directamente, ora reflectido na fachada espelhada do edíficio em frente. Que nome tem? Tem um nome bombástico. E vai falar de A.M.O.R.. Para aqueles que não têm vergonha de falar nele, de o nomear. Love. Em todos os sentidos. Sem complexos nem preconceitos. A verdade, sem sombra, nua. Queremos trocar ideias, não curá-las, sobre as metástases de sofrimento que já passaram por cada um de nós. E que nos percorrem vivas. Sobre aquilo que nos atordoa a garganta. Que nos leva tempo a digerir. AMOR. Isso mesmo. A fonte mais inesgotável de informação. Trocas de amor, Ela adora trocas. Parece banal. Poderá ser. Mas e se for, há mal nisso?
A nossa Assussora terá nome. E terá vida em breve. Tudo depende deste senhor. Deixa desde já uma série de questões roubadas a um poeta, aqui e ali, mas que para começar não deixam de ser do mais pertinente que há no mercado. Queremos incentivá-lo, a si, que está aí desse lado, e ao seu ânimo, em busca do sentimento que move a humanidade...

«Há quem diga que o amor é um rapazinho,
E quem diga que ele é um pássaro
Há quem diga que faz o mundo girar,
E quem diga que é um absurdo,
E quando perguntei ao meu vizinho,
Que tinha ar de quem sabia,
A sua mulher zangou-se mesmo muito,
E disse que isso não servia para nada.

Será parecido com uns pijamas,
Ou com o presunto num hotel de abstinência?
O seu odor faz lembrar os lamas,
Ou tem um cheiro agradável?
É áspero ao tacto como uma sebe espinhosa
Ou é fofo como um endredão de penas?
É cortante ou muito polido nos seus bordos?

Os nossos livros de história fazem-lha referências
Em curtas notas crípticas,
É assunto de conversa muito vulgar
Nos transatlânticos;
Descobri que o assunto era mencionado
Em relatos suicidas,
E até o vi escrevinhado
Nas costas dos guias ferroviários.

Uiva como um cão de Alsácia esfomeado,
Ou ribomba como uma banda militar?
Poderá alguém fazer uma imitação perfeita
Com um serrote ou um Steinway de concerto?
O seu canto é estrondoso nas festas?
Ou gosta apenas de música clássica?
Interrompe-se quando queremos estar sossegados?

Espreitei a casa de Verão,
E não estava lá,
Tentei o Tamisa em Maidenhead
E o ar tonificante de Brighton,
Não sei o que cantava o melro,
Ou o que a tulipa dizia;
Mas não estava na capoeira
Nem debaixo da cama.

Fará esgares extraordinários?
Enjoa sempre num baloiço?
Passa todo o seu tempo nas corridas?
Ou a tocar violino em pedaços de cordel?
Tem ideias próprias sobre o dinheiro?
Pensa ser o patriotismo suficiente?
As suas histórias são vulgares mas divertidas?

Chega sem avisar no instante
Em que meto o dedo no nariz?
Virá bater-me à porta de manhã,
Ou pisar-me os pés no autocarro?
Virá como uma súbita modança de tempo?
O seu acolhimento será rude ou delicado?
Virá alterar toda a minha vida?
Ah, diz-me a verdade acerca do amor.»

("Tell Me the Truth about Love" - W.H. Auden, 1938)

São universais. As palavras. São avulsas. São de todos. Não custam nada.

Publicado por Prusidente da Junta em 08:12 PM | Comentários (3)

A Porta Não Abre

Não consigo sair daqui. Fiquei fechado cá dentro. Socorro!!! Quero ir-me embora.

Publicado por Prusidente da Junta em 06:48 PM | Comentários (1)

Notícia de Ante-penúltima Hora

Abertura dos Telejornais nocturnos, de ontem, dia 20 de Dezembro, do corrente ano, do Senhor, dos canais televisivos nacionais:

«O Prusidente da Junta conseguiu pela primeira vez entrar nos cinquenta weblogs.pt mais visitados, com a promissora posição de quadragésimo sétimo lugar (47º - para quem só sabe ler números), o que corresponde a cento e vinte e dois (122) visitantes. Não foi possível, até ao momento, entrar em contacto com o Sr. Prusidente já que este se encontra em parte incerta. Vamos tentar ao longo deste blogo de notícias divulgar mais informações sobre este extraordinário feito. O Primeiro Ministro...»

Estou fora, é verdade. Volto muito em breve, se o vento estiver de feição. Sei que, por exemplo, o Sr. Barnabé se deve estar a rir, do alto do seu milhar e meio de visitas diárias, a pensar quão rídiculos nós somos. Também é verdade, somos imensamente rídiculos, modestos também, mas isso é cá connosco.
Obrigado a todos, de qualquer modo. Para a semana, e em grande força no início do novo ano, teremos sérias novidades. Continuem sintonizados. Quentes Vénias. P.

Publicado por Prusidente da Junta em 08:47 AM | Comentários (1)

dezembro 19, 2003

Particípio Passado de Intoxicar

Pela primeira vez na vida tomei a minha primeira atitude deliberadamente criminosa. Usei SPAM no refeitório da Junta. Desculpem-me. Prometo que não volta a acontecer. Se por acaso se sentir intoxicado, deixe aqui o seu mais alto protesto. Nós agradecemos.

Publicado por Prusidente da Junta em 04:47 PM | Comentários (3)

Passador de Jugos

Há pouco senti-me um pouco mal e precisei de ir até ao rio apanhar fresco. Encontrei uma pequena garrafa a boiar, que veio ter comigo, quando me estava mesmo, mesmo, a sentir mal, com os meus restos a quererem sair à força; continha no seu interior este manuscrito, que eu aqui reproduzo:

«Chegou a minha vez de pegar nos remos. Pela terceira vez. Estamos nisto há horas. E sinto-te tão cansada. E eu tão cansada. Não aguento mais. Estamos perdidqs no meio do mar. Do oceano imenso. E se andàmos às voltas este tempo todo é porque também podemos ter andado a direito. O sentido será o mesmo. Não vemos o céu. Apenas água. Apenas o sal que nos percorre em golfadas. Que nos seca as entranhas. Que nos seca a alma. Apesar da vassidão líquida, molhada, em que fomos abandonadas. Será a minha última vez. Não aguento nem mais uma braçada. Nem mais uma légua. Antes fosse submarina. Suspensa desta realidade e de todas as outras. Desperta para o fundo. Do meu mar...»

Vou mandar analisar em profundidade, às autoridades competentes. Parece-me que estas garrafas sairam de circulação em meados do século passado. Nunca se sabe. Pode ser que andem para aí às voltas.

Publicado por Prusidente da Junta em 04:18 PM | Comentários (1)

Prego de Ferro Quadrado

Alguém entrou na Junta à procura de pregos de ferro quadrados. À entrada temos uma menina que, quando não está a namoriscar via sei lá o quê, dá informações. O visitante, ilustre, aflito, entrou e pediu indagações sobre os seus propósitos. Pregos quadrados. De ferro. A menina, bem ensinada, bem munida, de pronto respondeu "Quantos quer?". Dúzia e meia. Materiais de construção não faltam no nosso estabelecimento, estamos sempre em obras, somos sempre reféns de empreiteiros pouco zelosos, ou deixam o serviço a meio ou largam o que lhes apetece em qualquer lado. São umas víboras.
Quadrados não tinhamos, mas a menina, bem ensinada, prontamente os alisou, com a sua bela dentadura. Cinco minutos depois o nosso visitante, ilustre, radiante, abandonava a Junta, com o seu pequeno embrulho em papel timbrado com as fuças do Prusidente, eu portanto. Julgo que ganhámos um amigo. Estamos cá para isso.

Publicado por Prusidente da Junta em 11:54 AM | Comentários (1)

Pacificar o Jugo

Já acordei. Mudei de estilo, já não pareço o D'Artagnan. Volto mais tarde. Estou a transformar-me no Elephant Man.

Publicado por Prusidente da Junta em 02:59 AM | Comentários (1)

dezembro 18, 2003

Gone Like the Swallows

«I'm not here at the moment. Leave your message after the beep» . . .

Publicado por Prusidente da Junta em 05:28 PM | Comentários (4)

Descentralização secular

Há rumores que dizem que já não vamos durar muito. Quando ligo o televisor e observo o homem que vai desenrolando as notícias, que chovem de todo o lado, penso se estará mais alguém a olhar para ele. Na solidão do seu rectângulo. Observo-o com atenção, sinceramente receio que me queira dizer qualquer coisa, uma dúbia mensagem que só eu consigo ouvir. Sinto-o preso e não há outro que lhe possa estender a mão. E os rumores continuam. Pelo sim pelo não, adquiri morteiros e granadas para me defender. Dia após dia ligo o televisor. À mesma hora. Lá está o homem, sempre à mesma hora. Preso. Olha para mim directamente e vai debitando actividades de outros que não percebo. Acidentes e festarolas, e pelo meio vasculha mortos e feridos, talvez à procura de alguma traça. Não sei o que se passa com ele e porque razão me conta esses pormenores. Tento decifrá-lo.

Uma vez disse que já estava no ar. Ouvi: “Já está no ar!” - fiquei aterrorizado, era o sinal e corri para a janela, em pânico. Passei a noite em branco a olhar para o céu com as minhas granadas de estimação, que entretanto já tinha decorado com pinturas do Dali. E Daki, também. Salvem-me. Via luzes a piscar lá ao fundo. Achei que era alguém do outro lado com as suas mais apreciadas bazucas, decoradas à pressa com motivos góticos. Não se passou nada. No dia seguinte lá estava a mesma figura, à mesma hora, atrás do vidro, dentro do plástico. Esperei por nova dica. Apenas pessoas de um lado para o outro... umas vezes em fila paquistanesa, outras vezes ao molho. Rapazes de calções e camisolas a correr também de um lado para o outro, muito contentes. Magnéticos? Eu sei lá. Uns homens a falar para outros ouvirem. Mulheres de mão na anca. Vegetações densas com bandeiras em chamas. Se a coisa der para o torto já comprei umas catanas, just in case. E serei o último a saltar para o barco, cá me aguentarei enquanto tiver forças. Mas tenho a certeza que o merceeiro do televisor não vai ter tempo para se fazer à estrada. Fica sozinho para contar a história. Estoicamente com os seus colarinhos reluzentes. Sempre à mesma hora. Bye bye.

Publicado por Prusidente da Junta em 05:07 PM | Comentários (1)

O Regresso dos Impressores

Perdoem-me. Ursos polares deste planeta. Merecem tudo de mim e eu não estou cá.
Perdoem-me todos os palestinianos de Guernica, os moscovitas do Recife, os cubanos de Malta, os comendadores da Antárctida. Os Leon Trotsky's dessas tabernas reluzentes. Perdoem-me a letra. Estou todo tremeliques.
Perdoem-me os políticos da antiga Rodésia, os ex-roedores do Zimbabué.
Perdoem-me os fadistas de Setecentos, a escumalha das guerras de Cem Dias, os turíngios filhos de Ali. Perdoem-me os iconoclastas de Villa Viciosa, de mil nove e troca o passo. Perdoem-me as invenções bem sucedidas, os duques da Burgúndia e os imperadores apelidados com números romanos. Os construtores civis da Cidade do México. Perdoem-me as Luas Cheias. Os séculos começados por V e seguintes. Perdoem-me os direitos sucessórios da Martinica.
Perdoem-me as ruas a Este da cidade de Danzing a noroeste do condado da Alta Lorena. As antenas parabólicas de crómio de marca Shiba. Perdoem-me os disparos que não queimam a roupa, as referências aos tempos idos e os aceleradores de partículas do Ano do Senhor. Perdoem-me as ilustrações e as irmãs Lombardo. Gostava que as conhecessem melhor. Perdoem-me a bossa nova mas a intenção era passar despercebido.
Perdoem-me as horas extra e as ordinárias. Os pagamentos em géneros e as trombas do Falópio, que não tem outra cara. A alínea c) do formulário azul do Imposto sobre o Valor Acrescentado. Perdoem-me as cicatrizes de estilhaços desgovernados. As manchas nas notas de vinte. Os aborígenes da Atlântida. Perdoem-me a reconquista mourisca do Taj Mahal. Perdoem-me as suecas, todas elas. As manilhas de ouros e os truques com paus. Perdoem-me os cálculos de Newton e a descoberta do Sémen. As barragens do Rabi Solomon. Os aspiradores Hoover.
Perdoem-me as instâncias e os rebentos transgénicos. As representações de Agamémnon em cutelaria deficiente. Perdoem-me os anéis de Neptuno e os olhos verdes de Plutão. Perdoem-me os chineses do Alto Alentejo e todos os gambozinos de Xangai. Perdoem-me a falta de jeito e os paços de espera. Eu só queria falar de amor. Perdoem-me a raça murenga e os Sete Anões. As flores de Lírio. Perdoem-me as veias do destino. Perdoem-me. Os Ostrogodos. Os vândalos. Os Suevos.
Perdoem-me. Eles não sabem o que fazem.

Publicado por Prusidente da Junta em 04:13 PM | Comentários (2)

Conto Próprio!

O melhor disto tudo, de ser Prusidente da Junta, é que não há chefes para aturar e só se faz o que me der na mona!

Publicado por Prusidente da Junta em 12:36 PM | Comentários (1)

Capital afundo

Ontem aconteceu-me uma coisa muito estranha. Fui visitar uma obra numa zona a norte, no concelho limítrofe ao nosso. Uma barragem. Bem, digamos que era uma barragem, já que o termo técnico não se aplica de todo. Aquilo mais parecia um pantanal. Fui sozinho. Não gosto cá de andar acompanhado. Peguei na Furgoneta Oficial e lá fui, estrada acima. Imaginem uma construção monumental cheia de rasgões, como se um pássaro gigante tivesse andado ali a debicar. Foi essa a grande obra que me deram a conhecer. O que vale é que não era nada comigo, só fui lá porque me pediram.
Andei por lá às voltas a chapinhar, aos saltos, no espaço que se podia andar, em pequenas ilhas formadas aqui e além. Ainda para mais descobriram que havia por ali uma jazida de enxofre ou um ácido qualquer que fumegava tanto como cheirava, e cheirava muito mal. Berrei-lhes tanto que fugiram todos. Capitais europeus a fundo perdido, muito bem aplicados. Vão inaugurar em breve, dizem. Mas não é isso que vos quero contar.
Quando vinha a descer, desce-se por detrás da barragem, num sítio ermo cheio de vegetação daninha, por um atalho feito à dentada; depois de ter ido buscar os sapatos porque para andar lá em cima é necessário usar umas botas especiais de corrida e, entretanto, alguém roubado os chinelos que eu tinha levado, o que me deixou ainda mais furioso; deu-me para começar a correr por ali a baixo, à campeão. Mas esqueci-me... a meio do percurso aquilo faz um ângulo de noventa graus, à direita para quem vai a descer, deixando à vista uma escarpa sem protecção nenhuma. Vinha eu a correr, feito lampeiro, e de um momento para o outro estava no ar, como nos desenhos animados, e caí.
Caí de uma altura de, pelo menos, quinze metros, em cima de um morro cheio de pedregulhos, daqueles fininhos. E não me lembro de mais nada. Acho que morri.

Só me lembro de voltar para o meu carro, como se nada fosse, mas entretanto já tinha chegado montes de malta, quando souberam da notícia da minha queda, do meu falecimento. Jornalistas com as suas televisões. O meu pai, que vive do outro lado do país, até uma amiga minha da rádio já de microfone em punho. Tudo a chorar. E eu a convencê-los que estava vivo. Como não acreditaram em mim, peguei na carripana e fui-me embora. Secalhar ainda lá estão ou então já partiram para o meu enterro.

Publicado por Prusidente da Junta em 11:36 AM | Comentários (1)

dezembro 17, 2003

Dirija-se a ela!

Também não posso deixar de publicar este comentário na entrada «Reincidência auricular», a Junta vive para isto, para pessoas assim:

«Coincidência interessante. Aqui há uns tempos fui a uma exposição colectiva de jovens artistas, onde encontrei uma obra que não esqueci. Não eram fotografias de um fotógrafo cego, era um letreiro que dizia "aqui deveriam estar fotografias de um fotógrafo invisual, por razões alheias à sua vontade não as pode expôr, se encontrar um homem com um cão dirija-se a ele, ele mostra-as". A minha curiosidade fez-me procurar de imediato o homem e o cão. Encontrei-os, apresentei-me e pedi-lhe que me mostrasse então a sua obra. Ele mostrou-me tal qual como as vê. Descreveu-me em pormenor as suas imagens e eu vi-as como um cego. Da cabeça dele directamente para a minha sem passar pelos olhos. Sem olhos. Percebi que ele utilizava a câmara de uma forma bastante experimental, não tinha qualquer peocupação na revelação nem qualquer trabalho de pós produção. O foco era insidente, a profundidade de campo inexistente. O trabalho era baseado na repetição das imagens, o que variava era o objecto focado. Um trabalho de grande qualidade formal. Gostei muitíssimo. Parece que há uns tempos colaborou num filme do realizador português César Monteiro, recentemente falecido. Não me parece que o fotógrafo seja o mesmo, mas não deixa de ser uma coincidência.» - por M.S.

Publicado por Prusidente da Junta em 04:00 PM | Comentários (6)

A Ponte

A Junta abriu os cordões à bolsa e resolveu patrocinar uns amigos de longa data, que, pela enésima vez, se preparam para dar a volta ao Mundo. Se os virem passar digam que vão da minha parte. E, já agora, abracem-nos por mim!

Publicado por Prusidente da Junta em 10:18 AM | Comentários (2)

Vaga de Bundos



Não resisto a publicar esta foto, o meu irmão J. está aqui, em cima do lado direito. O meu primo D., ao lado dele. O outro meu irmão P., por baixo, ao meio. O J.B., o gordo. E eu, o do chapéu.

Publicado por Prusidente da Junta em 09:49 AM | Comentários (2)

Contra as mentiras e as Leis do Coração

...et si parfois l'on fait des confessions
A qui les raconter - meme le bon dieu nous a laisse tomber
Un autre endroit, une autre vie
Eh oui, c'est une autre histoire
Mais a qui tou raconter?
Chez les ombres de la nuit?
Au petit matin, au petit gris
Combien de crimes ont ete commis
Contre les mensonges et soi disant les lois du coeur
Combien sont la a cause de la folie...

Links: 1

Publicado por Prusidente da Junta em 09:27 AM | Comentários (0)

A medida das necessidades

O Primeiro Ministro, vi com os meus próprios olhos, sublinhou, por duas vezes, o défice estrutural do nosso país. Que lindo que foi, vê-lo a sublinhar. Com as suas patinhas de Arquimedes, consciente que as câmaras estavam com a luzinha acesa, com o seu penteado de monco, ei-lo a sublinhar. Quem o terá ensinado a fazer isso? Esta sim é a grande questão.

Publicado por Prusidente da Junta em 08:57 AM | Comentários (0)

dezembro 16, 2003

Sintomas de nível

Quando me quero ver, enrolo-me com fita adesiva, daquela larga, rafeira, e ando a assustar os transeuntes, como se fosse o Pai Natal, por essas ruas fora. Como se não quisesse ser mais o Homem Invisível. Eu sei que é chato, parece um bocado severo, ter essa atitude. Até me podem chamar nomes, variadíssimos títulos injuriosos. Mas não faz mal, gosto que me insultem, principalmente quando vou a atravessar uma passadeira com o sinal encarnado e vem de lá uma camioneta cheia de passageiros moribundos, que se dirigem não sei para onde, e me passam a rasar as têmporas. Não é distração, é de propósito. Às vezes, quando vou a conduzir, finjo que o carro da frente está a descair para cima de mim, descaindo para cima dele, e dou-lhe um toquezinho enquanto, assustado, lhe grito com a buzina. Aí não me chamam nomes, ficam com medo e, desaparecem.
No outro dia, numa reunião com o Ministro Bagão Felix, berrei-lhe tanto ao ouvido, como se fosse surdo, ele, dando-lhe a sensação que eu é que não ouvia nada. Passámos assim duas horas, lado a lado, a discutir normas de trabalho, que é coisa que me dá sono. O Senhor Ministro não cedeu. Foi até ao fim. Parece que até gostou da brincadeira. Os seus assussores é que me bateram quando me apanharam a jeito, deixando-me com um maxilar em cima de uma sobrancelha. Foi bom. Para variar. Não há nada como começar o dia dessa maneira.

Publicado por Prusidente da Junta em 04:36 PM | Comentários (1)

Estou-me nas tintas

Sim. Nas tintas. Qualquer cor serve. Qualquer suporte. Qualquer marca. Só peço que não as misturem. Nenhuma delas. Com nenhuma outra.

Publicado por Prusidente da Junta em 11:40 AM | Comentários (0)

Reincidência auricular

Desculpem-me os fotógrafos deste mundo, mas contratei um fotógrafo cego. Apareceu-me aí, há uns dias, com o seu portfolio debaixo do braço. Imagens simples. De campos, de animais, de automóveis em cruzamentos, músicos, rádios, muitos rádios, televisores também. Admirei-me. Como é que um cego, de nascença, pode tirar fotografias? Não, não é o cão, não precisa dele, anda sempre sozinho, com uma bengala dourada, só para os obstáculos invisíveis. Dias depois telefonei-lhe. Encomendei um trabalhinho. Há que tempos que andava a precisar de um repórter de imagem. Coisa simples, uma cerimónia de homenagem em que participei, numa terriola, que por acaso é capital de distrito, no Alentejo. Foi no fim de semana. Hoje apareceu com o resultado.
Lindo. Nunca vi nada assim. Mesmo para uma pessoa normal. Dez fotografias coloridas em tamanho razoável. Simples. Centradas. Bem expostas. E eu estava lá, vi-o actuar. Diz-me que tudo é uma questão de som. Consegue (con)centrar-se num som, focá-lo e enquadrá-lo no centro da imagem. Vejo-me a discursar. De olhos esbugalhados, de boca aberta. E está tudo lá, a cor, a luz. O som! Digamos que é quase uma ecografia. Colorida. Real. Quase que se mexe. É um autêntico sonar este meu fotógrafo. Cego. Diz-me, aqui está você, e lá estou eu. Aqui um carro, sim, lá está um carro. Aqui aquele senhor com quem se riu, sim, lá está o meu irmão a contar-me uma piada.
Contratei-o, claro. Vai acompanhar-me para, quase, todo o lado. Sempre que puder deixarei provas do seu talento.

Publicado por Prusidente da Junta em 11:05 AM | Comentários (3)

dezembro 15, 2003

Última chamada

Recebo todos os dias, pela manhã, a visita de um polícia. Vem sempre à mesma hora, ali ao dobrar das dez. Traz-me a exposição das ocorrências do dia anterior, como desculpa. Eu acho que ele vem cá mesmo para falar comigo, gosta de mim, o polícia. Também gosto dele. Tomamos café juntos. Conta-me o que se passou, descreve-me pormenores, diz-me o que viu, o que lhe disseram, fala-me de si. Eu fico calado, a imaginá-lo, a reconstruir o dia anterior pelo fluxo do seu pensamento. Isto não dura mais que cinco minutos. No final levanta-se e saí partindo para mais um relatório. Faço o mesmo. Parto para o meu dia. Com o tempo cheguei à conclusão que não podemos passar sem estes minutos. Só assim podemos fechar o dia que passou e abrir a porta ao que precisa de entrar. Nos fins de semana, quando não o vejo, arrumo o tempo em sequência, por cores, em períodos extensos de horas sem fio. Segunda-feira, embrulhado com o café, sem dizer uma palavra, tudo volta ao normal.

Publicado por Prusidente da Junta em 03:46 PM | Comentários (1)

Nursultan Nazarbayev

Retirei o passado que havia em mim. Cheguei-me ali ao lado, abri a gaveta, tirei uma faca e cortei as ligações que me uniam ao tempo que passou. Todo ele. Desapareceu. O que me espera agora? Meus senhores, o Dia de Independência do Kazaquistão.

Publicado por Prusidente da Junta em 09:06 AM | Comentários (1)

Para os Inocentes

Não reconheço nada. Não ajuízo, dexei de o fazer, por livre vontade. Estou longe das decisões que me interessam. Pouco me importa se apanharam o Saddam ou se descobriram os restos mortais do presidente Bush numa encomenda da DHL. Estou distante das minhas próprias indecisões. Quero lá saber. Existo? Não, não existo. Nunca vivi. Não vivo. Talvez dois ou três momentos de pura glória. Que duraram dois ou três segundos, se tanto. É tarde? Espero? Por mim, por alguém? Que venha, que vá? Sinto? Não sinto. Tornei-me na lápide do meu sepulcro. Tornei-me no monstro do meu próprio Lochness, cheio de ferrugem. Cheio de buracos dos tiros que falharam os alvos, da fruta da minha imaginação. Dois ou três momentos de glória. Que vale isso? No mercado. Ao lado dos robalos acabados de pescar? Uma moeda? Para troca? E trocar o quê?
Tenho uma altura de dois minutos e quarenta e cinco. Mas só dois ou três segundos se aproveitam.

Publicado por Prusidente da Junta em 08:49 AM | Comentários (1)

Chama-me

Queria ouvir sempre a mesma coisa. Um baixo. Um acorde de dez, doze segundos para a frente e para trás, sem me cansar. Sem atingir a exaustão. Podia ficar a ouvir isso para o resto da vida. Dez, doze segundos de um acorde, talvez quinze. Repetido. Sem mais. Ruído. Silêncio. Para sempre. Sem me cansar. Será isso o ninja da alma, não da minha, mas de todas elas?

Publicado por Prusidente da Junta em 08:30 AM | Comentários (0)

Sou o meu próprio parasita

Pergunta-me o que estou aqui a fazer.
"O que estás aqui a fazer?" - perguntou Lime a Purple.

Publicado por Lime & Purple em 08:16 AM | Comentários (3)

The Sad Skinhead

Apart from all the good times I gave you
You always felt bad with me
We went places, we smashed faces
What else could we do?
Apart from all the bad times you gave me
I always felt good with you
But I'm nervous
You are nervous too
What else could have happened to us?


(Music: Faust words by Jean-Hervé Peron)

Links: 1, 2, 3

Publicado por Prusidente da Junta em 07:59 AM | Comentários (2)

Virgens

Vou por esse país fora. Chego pelo ar e parto para Sul à procura de ensinamentos. Em busca do engano. Da esperança de encontrar a terra ilesa. Vou limpar os olhos para as florestas virgens. Vou em resguardo. Vou procurar-me. Na minha perdição.

Publicado por Mestre em 07:33 AM | Comentários (0)

dezembro 12, 2003

Contrato sem prazo quem quiser

Saio. De pé. Não é de dia. Ainda. Morria se fosse. Continuo em frente. Não espero. Não olho para trás. Em frente não há nada. Preciso desse nada que há em frente. Cruzo-me. Com paredes. Com luzes. Com alguém. Que não vejo. A noite. Que me conduz. Às cegas. Em frente. Não é dia. Ainda. Sorte a minha. Mais um minuto e morria. Aqui. Nesta luz. Nesta parede. Sem mais nada pela frente. Alguém que passa. E não vejo. Não olho. Não quero. Morria se fosses tu. De dia.

(music: Xploding Plastic - Happy Jizz Girls)

Publicado por Prusidente da Junta em 09:08 AM | Comentários (0)

I Know You

I know you
You were too short
You had bad skin
You couldn't talk to them very well
Words didn't seem to work
They lied when they came out of your mouth

You tried so hard to understand them
You wanted to be part of what was happening
You saw them having fun
And it seemed like such a mystery
Almost magic

Made you think that there was something wrong with you
You'd look in the mirror and try to find it
You thought that you were ugly
And that everyone was looking at you

So you learned to be invisible
To look down
To avoid conversation

The hours, days, weekends
Ah, the weekend nights alone
Where were you?
In the basement?
In the attic?
In your room?
Working some job - just to have something to do.
Just to have a place to put yourself
Just to have a way to get away from them
A chance to get away from the ones that made you feel
so strange and ill at ease inside yourself


Did you ever get invited to one of their parties?
You sat and wondered if you would go or not
For hours you imagined the scenarios that might transpire
They would laugh at you
If you would know what to do
If you'd have the right things on
If they would notice that you came from a different planet

Did you get all brave in your thoughts?
Like you going to be able to go in there and deal with it
and have a great time.
Did you think that you might be the life of the party?
That all these people were gonna talk to you and you
would find out that you were wrong?
That you had a lot of friends and you weren't so
strange after all?

Did you end up going?
Did they mess with you?
Did they single you out?
Did you find out that you were invited because they
thought you were so weird?

Yeah, I think I know you
You spent a lot of time full of hate
A hate that was pure sunshine
A hate that saw for miles
A hate that kept you up at night
A hate that filled your every waking moment
A hate that carried you for a long time

Yes, I think I know you
You couldn't figure out what they saw in the way they lived

Home was not home
Your room was home
A corner was home
The place they weren't, that was home

I know you

You're sensitive and you hide it because you fear
getting stepped on one more time
It seems that when you show a part of yourself that is
the least bit vulnerable someone takes advantage of you
One of them steps on you

They mistake kindliness for weakness
But you know the difference
You've been the brunt of their weakness for years
And strength is something you know a bit about because
you had to be strong to keep yourself alive

You know yourself very well now
And you don't trust people
You know them too well

You try to find that special person
Someone you can be with
Someone you can touch
Someone you can talk to
Someone you don't feel so strange around
And you find that they don't really exist
You feel closer to people on movie screens

Yeah, I think I know you
You spend a lot of time daydreaming
And people have made comment to that effect
Telling you that you're self involved, and self centred

But they don't know, do they?
About the long night shifts alone
About the years of keeping yourself company
All the nights you wrapped your arms around yourself
so you could imagine someone holding you
The hours of indecision, self doubt
The intense depression
The blinding hate
The rage that made you stagger
The devastation of rejection

Well, maybe they do know
But if they do, they sure do a good job of hiding it
It astounds you how they can be so smooth
How they seem to pass through life as if life itself
was some divine gift
And it infuriates you to watch yourself with your
apparent skill at finding every way possible to screw it up

For you life is a long trip
Terrifying and wonderful
Birds sing to you at night
The rain and the sun the changing seasons are true friends
Solitude is a hard won ally, faithful and patient

Yeah, I think I know you

(music: Nine Inch Nails - words by Henry Rollins)

Publicado por Prusidente da Junta em 08:44 AM | Comentários (1)

Sinto sem Segurança

Tenho a boca a saber a chocolate. Do teu sexo. Quando te despedacei. Na bancada da cozinha. Não consegui ver a cor dos teus olhos. Estavam dentro do teu cabelo. Eram só pálpebra. Só branco. Sem cor. Estava fria a pedra. Lisa. Sob o teu corpo. Escaldante. A libertar-se do vidro. Frágil. Doce. De pernas fendidas. Em absoluta vertigem. Para mim. Sem cor. As minhas mãos e as tuas. Líquidas. A caixa do pão. Vazia. Pelos ares. Dentro. O teu fim que nunca tem fim. Mole. Duro. Vozes que não têm voz. Dentro. Doridas. Em costas dedicadas. No metal. Vivo. Horas. Sempre. Na cozinha. De sabor azul. Verde. Amarelo.

Publicado por Prusidente da Junta em 07:44 AM | Comentários (1)

dezembro 11, 2003

O Sopro Amarelo

Abre-se aqui um novo capítulo na Junta. Lime & Purple são dois exequentes funcionários, está bem, são estrangeiros, que actuam sempre juntos. Têm toneladas de histórias para contar, sempre que chegam. A mim e aos outros. Mais do que o Moço de Recados eles fazem qualquer trabalhinho. Sujam as mãos se for caso disso. Ei-los.

Lime e Purple encostados ao muro amarelo, descem a rua.
- Sabes ir lá ter? – Diz Lime.
Purple olha para o relógio, dez e dois minutos.
- Consegues ir lá ter?
Purple amansa o passo e sustem-se no limiar da esquina. Acende um cigarro para ganhar tempo. Também quero ganhar tempo.
- Sabes onde fica? Vais lá ter sozinho? Sabes o caminho?
- Queres saber se sei lá ir ter? – Olha para a esquerda e para a direita num movimento prolongado e continua - Mas eu não vou! Não quero saber. Vou ficar aqui.
- Não vais? Não vais? – Lime só estava estupefacto, preparava-se para lhe dar um murro.
- Não vou e tu está quietinho, nem um sopro!
- Temos de ir, não podemos não ir.
- Mas quem disse nós? Vais tu e eu digo-te exactamente o que tens de fazer. – Atirou o cigarro para trás do muro e acendeu outro. Queria ganhar mais tempo. Eu também quero ganhar mais tempo. – Ouve-me com atenção, chegas lá, ainda de dia, e ficas à espera, à espera como estamos agora aqui à espera. Esperas que alguém venha, alguém há-de vir. E quando vier tu entras em acção. Lembras-te o que vimos ontem? Lembras-te como nos conseguimos safar ontem, sem ninguém dar por isso? Vais fazer exactamente o mesmo. Esperas por alguém que vai chegar mais cedo ou mais tarde, é melhor que chegue ainda de dia, e quando o vires, quando estiver a cinco passos de ti fazes exactamente o que fizemos ontem. Lembras-te?
- Não! – Lime estava a caminhar para o desespero.
- Não interessa, fazes exactamente o mesmo que fizemos ontem. Ontem e nos dias anteriores. Lembras-te dos dias anteriores?
- Não! Não me lembro de nada. Não sei do que estás a falar.
Purple olha de novo para o relógio, para os ponteiros metálicos que tinham a forma dele próprio. Ele próprio o relógio. Era um relógio dentro de um relógio. E dentro dos ponteiros haviam outros relógios, e dentro desses relógios mais ponteiros e por aí fora. Era um arquétipo do relógio e marcava dez e quase vinte. O muro amarelo encostou-se a Lime. Purple chegou-se também e apagou o cigarro deixando uma marca fumegante.
- Então é assim. Vais lá. Esperas. Ainda de dia. E fazes exactamente o que fizemos, o que fizeste, toda a vida. Lembras-te da tua vida, da minha? Isso mesmo toda a tua vida. E nada mais. E é importante que seja assim porque não há outra maneira.
- E tu, ficas aqui? A fazer o quê?
- Fico aqui à espera da multidão que vai sair daquela porta, e vou com eles.
- Com eles? Quem? Para onde?
- Vou com eles para onde eles forem. Vai sair uma multidão daquela porta e eu vou com eles, exactamente para onde eles forem e tu vais fazer o que te disse.
- Sim e depois?
- Depois vens para aqui e ficas à espera. Vai sair outra multidão daquela outra porta, estás a ver? E tu segues essa multidão. Perdes-te lá dentro e deixas-te ir.
- Para onde?
- Exactamente para onde eles forem. – O relógio sucumbia agora no ponto mais a sul e o ponteiro dos minutos preparava-se para galgar a ladeira. Purple começava a ficar nervoso. Não acendeu mais nenhum cigarro.
- Vai!

Publicado por Lime & Purple em 08:30 AM | Comentários (2)

dezembro 10, 2003

Rodeado de claro

Há qualquer coisa que não está bem. Não sei o que é. Quando me vejo aqui, ao espelho, algo me diz que a realidade não é bem esta. Que o dia que vivemos não é este. É outro. Qualquer.
Não inspira confiança. Cada segundo que passa. Colados às nossas costas, sem termos pedido nada. Não encomendámos nada. No entanto, eles continuam a vir, um atrás do outro, sem perdão. Vêm só por um segundo, depois morrem. Sem espaço.
Em cada segundo só há espaço para um segundo. Nada mais que isso. Dentro de nós só há espaço para o «nós» que somos. E nada mais que isso.

Publicado por Prusidente da Junta em 02:39 AM | Comentários (7)

dezembro 09, 2003

Os homens são uns joguetes

Nas mãos delas, é o que eles são. os homens rastejam, suplicam, humilham-se, acreditam no sonho e no paraíso em nome delas, as mulheres. As mulheres são as donas do mundo e ainda não se aperceberam disso. De que importam o dinheiro, o poder, o poleiro, comparativamente ao que elas nos fazem sentir. Pode até ser ilusão mas nem importa porque no acreditar já existe uma tentativa, desesperada ou não, de prazer. Nós, além de carentes, somos facilmente manietados, nós além de transparentes, nas mãos delas, somos uns joguetes.
Segundo e último capitulo referente à frase «atirem-me ovos», da autoria do Prusidente da Junta.
Até.
O Moço, de saída para outro recado.

Publicado por Moço de Recados em 06:17 PM | Comentários (0)

Os Homens são todos carentes

O Prusidente está carente, é tão certo como dois e dois serem quatro. Não há que enganar, meus amigos, ao pedir ostensivamente ovos no fundo está a pedir-vos que lhe escrevam, que lhe digam que gostam de o ler, que lhe façam chegar os vossos pensamentos, que lhe façam crer que o esforço não é em vão. Já vi disto em muito lado, em todas as casas onde servi. O Prusidente é um homem e sendo um homem é igual aos outros, é pão-pão queijo-queijo, é fraco e transparente. Os homens são uns fracos e mais fracos se tornam quando reparam que ninguém lhes liga ou se apercebem da existência de um outro qualquer capaz de chamar mais do que eles a atenção alheia. Ser homem é isto mesmo, é querer mas ter cuidado redobrado com a dimensão do querer, para que o querer não seja entendido como pouco masculino ou pouco próprio da masculinidade. Quem pede ovos desta forma só pode estar carente.
O Moço de Recados contra a fraqueza encapuçada mas, mesmo assim, a favor do Prusidente.
Adeus.

Publicado por Moço de Recados em 01:13 PM | Comentários (1)

dezembro 07, 2003

O Gerente Saíu

Pensei dez vezes se ficava. Pensei outras dez no que tinha para dizer e não me vinha à memória. Pensei em ti. Pensei que um dia, fora daqui, o que temos seria diferente. Pensei que amanhã temos tempo. Pensei em tudo e em nada. Em simultâneo.
Estamos fechados. Sem portas para sair. Estamos presos. No infindável regresso que é preciso elaborar.
Vamos voltar.
Qualquer dia.

Publicado por Prusidente da Junta em 04:14 PM | Comentários (0)

dezembro 06, 2003

Relações Extremas

Será pedir muito, que me encham as paredes de graffitis, que levem as resmas de papelada, a loiça, os pisa papéis, que me reguem as plantas? Só queria que subissem as escadas e lá de cima, do quinto andar, escorregassem corrimão abaixo. Os quadros podiam ficar de pernas para o ar. Venham. Estejam à vontade. Podem comer e beber. Despejem-me o bar. Afastem as cadeiras e mesas. Façam festas. Ponham música. Convidem os amigos. Dancem até de madrugada. Se vier a polícia, não se preocupem, vêm dançar também!

Publicado por Prusidente da Junta em 11:01 AM | Comentários (0)

dezembro 05, 2003

Acabem comigo!

Vou-me embora. Apago a luz. Deixo o rastilho a fumegar e nunca mais cá apareço! Se alguém perguntar por mim, digam que não me conhecem. E por favor: insultem-me! Atirem-me ovos, se me virem passar.

Publicado por Prusidente da Junta em 05:51 PM | Comentários (0)

Calor do caraças!

Encontrei há dias alguém, que mal conheço e vi duas ou três vezes, que me contou a história mais absurda que eu alguma vez ouvi. Não me lembro já dos pormenores mas assim por alto posso contá-la, versa mais ou menos assim:

“Em 1979, acho eu, um rapaz de nome Lubrídio apareceu na terra onde os pais desse meu amigo viviam. Não me lembro do nome. Digamos que se chamava Lorde Oeste. Não se esqueçam a história é absurda por isso o sentido pouco importa, não tem saída.
Lubrídio apareceu em Lorde Oeste num dia qualquer de setenta e nove, parecia que era Verão, o próprio desenrolar da história demonstra que a época em causa era quente, logo assume-se que seja na estação mais quente do ano. Verão, portanto! Talvez ele se chamasse Ludíbrio, desculpem-me. Se querem que vos diga já não me lembro de muito. Nesse dia de Verão, mesmo no limítrofe da década de setenta, em Lorde Oeste, Ludbríbdio, é melhor assim não vá eu errar no nome da criatura, apareceu. Nunca ninguém o tinha visto. O rapaz aparentava os trinta e tal anos, secalhar quarenta, mas também podia ter vinte e muitos. Lorde Oeste era uma terra pequena com nove a dez milhares de habitantes, situada na orla marítima, a cem milhas a norte da capital, não me peçam para converter para quilómetros. Cada um vivia a sua vida e a população marejava ora em dificuldades financeiras ora em difíceis condições ambientais. Isto sei eu de cor. E os indivíduos do burgo eram maioritariamente de origem feminina, digamos que setenta por cento eram raparigas, mulheres, miúdas ou velhotas ainda com corpinho para dar umas curvas, claro para quem gosta, e o restante era a populagem masculina. A maior parte deles sem bigode. Alguns com uma barba rala a armar ao pingarelho. Ludbríbdio veio no seu carro, um Mazda da última geração que fez a travessia avassaladora desde o Japão, directamente de Osaka, a bordo de um cargueiro também ele da última geração. O meu amigo enrolava muito a história, eu estava vai não vai para me ir embora a todo o momento, mas sem razão aparente fui ficando ali especado. Ora era um Mazda, ora era outra marca qualquer. Sempre japonesa. Eu acho que ele gostava era de barcos, demorou meia hora a descrever o cargueiro, com os seus tubos de aço, os motores a diesel gigantescos, e sei lá que mais. Meia hora. Só o nome do bicho, que eu não sei bem qual era, diz tudo. Ludbríbdio. Meu deus. As raparigas, tanto as mais novas como as mais idosas ficaram loucas assim que puseram os olhos em Ludbríbdio, os olhos, atenção. A olho nu quando saíu do carro, mal estacionado, o rapaz não tinha nada de especial, assemelhava-se a esses rapazes vulgares com ar levemente rufia que há por aí às toneladas. Mas as mulheres de Lorde Oeste ficaram doidas, diria quase, de lingua de fora. Os manfios dos homens que habitavam aquela funesta povoação também ficaram doidos, mas no sentido oposto. E planearam reunir-se logo nessa noite no centro da aldeola. Só faltava o xerife, que não existia. As mulheres vieram de suas casas, deixaram o que estavam a fazer, as panelas ao lume, os bébés a chorar, e foram no rasto de Ludbríbdio, do seu aroma, que naquela altura já se tinha espalhado por toda a fímbria naval que bordejava Lorde Oeste. E os homens estavam cada vez mais loucos. A reunião foi prontamente cancelada devido à espontânea individualidade de cada um, tanto os homens como as mulheres desataram a correr atrás do rapaz, uns para lhe fazerem a cama outros para se deitarem nela com ele. Nesta altura do relato o meu amigo não me soube dizer de que grupo ele fazia parte. O que aconteceu a seguir é digno de todos os almanaques de nível mundial. Sabe-se que Ludbríbdio tinha saído de um café local e deu com uma multidão à sua volta. As mulheres já meio despidas, devassas, lânguidas, de qualquer modo estava um calor insuportável, degladeavam entre si o primeiro lugar da contenda. Os homens apetrachados de machados, picaretas e ancinhos, já imiscuídos, mas em minoria, no resto da populaça grunhiam qualquer coisa individualmente e que no conjunto parecia um serrote a cortar fios eléctricos. Ludbríbdio não teve tempo para o que quer que fosse, nem para pensar quanto mais para acender o cigarro que tinha ao canto dos lábios, olhou, ao centro, à esquerda e no final à direita e regressou ao estabelecimento de bebidas e comidas, que por sua vez o acolheu de braços abertos. Escondendo-se. Não sei onde, porque não o chegaram a encontrar. Um grupo de cinco homens foram os primeiros a entrar no café, que abriram à machadada estilhaçando vidros por tudo quanto era chão, mesa e cadeiras. De Ludbríbdio nem pegada. O povo destruiu o botequim, desfez a casa de banho e no final estavam de tal modo frustrados que se viraram uns contra os outros à cacetada e a mimos sexuais. Nesta altura perguntei eu, “ah sim?”, o meu amigo fez tenção de continuar, mas cortei-lhe a voz e roubei-lhe a deixa, “estou com um bocado de pressa podemos encontrar-nos mais tarde”, e fui-me embora. Quando ia ao fundo da rua olhei para trás e vi o meu amigo a entrar num Mazda da última geração, a passar por mim e a dobrar a esquina. O interior do carro estava atafulhado de miniaturas de barcos de grande porte e a traseira cheia de golpes na chapa. Ele acenou-me quando me viu e reparei que atrás dele seguiam vários automóveis a grande velocidade. A largar brasas de paixão e ódio.

Publicado por Prusidente da Junta em 05:17 PM | Comentários (3)

Corroídos ao Lume

Se alguém ainda tinha dúvidas é melhor que as arrume a um canto. Por mim, liguei ao Primeiro Ministro a insultá-lo, a chamar-lhe nomes, de f**** da puta para cima. Por ficar calado. Por não se mexer. Por não acudir à consciência política e à responsabilidade que o faz chefe do Governo do nosso país. Deste espaço de terra. Porque ser Primeiro Ministro não é só ser chefe de uma trupe, de uma corja de gente mal amanhada. Cozida a custo para dar a noção de verticalidade. Não queria ofendê-lo, juro que não queria, mas a sua impassividade obrigou-me a isso, o silêncio de menino de coro, a injúria de terceiro balcão, que não se ouve, escondido atrás dos escondidos, sem pronúncia.
De resto, onde estão as manisfestações, os protestos de rua, os carros revirados, o batalhão de polícias de choque, os jactos de água, o gás lacrimogéneo? Está visto que de Molotov só conhecem o doce. Não vi ninguém gritar. Ninguém que se chegasse a mim, e gritasse comigo, de peito cheio, com boca de megafone: que nós não estamos com eles! Que nós estamos contra! Que não abdicamos dos nossos direitos, da nossa cidadania de Ser Humano. Que estamos pela Vida. Quem se chegou a mim, quando apanhei o metro na estação do Socorro, houve alguém que me abraçasse ao menos e comigo protestasse? Ninguém! Apenas me olharam como um estranho, como um louco que esperneava, para ali. Não me acharam deles, mas sim do universo longínquo dos dementes, dos que pensam mal, dos que não agem devidamente dentro das regras da sociedade. Dos que não compram castanhas. Dos que sobram. Sim. Faço parto dos que sobram. Ao menos que me interrompessem, que me levassem, para o canil mais próximo. Deixaram-me à larga, entregue aos meus espasmos. Como se fosse um mero comuna, dado a radicalismos.
Nem na Rua do Carmo, nem no Largo, quando para lá fui, munido com as minhas pistolas de alarme, me suspenderam o desígnio inabalável. De continuar. Nem a polícia à paisana se dignou mostrar-se. Antes ficaram todos agarrados aos bagaços na tasca da esquina, à escuta do álcool. A mim, que berrava, nem um golo.
Desprezo, portanto, este estado da nação. Que não ginga. Com o povo disperso que só quando lhe espetam alfinetes se digna salvaguardar os seus direitos. Só em bando. Em matilha. Em vara. Forjam pequenos suspiros. Intrépidos.
Por mim, não se livram, não me calarei, não me vou embora. Por mim. Eu sobro!

Publicado por Prusidente da Junta em 05:30 AM | Comentários (5)

Objectivos premeditados

Para quem ainda tinha dúvidas, que o Presidente dos Estados Unidos da América é o maior terrorista de todos os planetas conhecidos, ficou esclarecido com o anúncio da libertação de uma verba, das prisões de Guantanamo, talvez, para a construção de um novo programa de Armamento Nuclear. Para quem ficou calado. Aqui fica a ajuda para que desprendam a língua!

Fica aqui a definição, para os mais incautos:

Terrorismo:
sistema de governar pelo terror e com medidas violentas;
actos de violência praticados contra um governo, uma classe ou mesmo contra a população anónima, como forma de pressão visando determinado objectivo;
forma violenta de luta política com que se intimida o adversário;
modo de impor a vontade por meio da violência e do terror.

Antes fosse o epitáfio da administração Bush e estavamos todos bem. Sendo epigrafe da sua loucura só podemos começar a escavar já o nosso túmulo, para nos escondermos. Enquanto ainda temos vida.

Publicado por Prusidente da Junta em 04:40 AM | Comentários (1)

dezembro 04, 2003

Eu, pecador, me confesso

Nunca pensei em colar-me a uma destas manias, destas fixações encorpadas nas linhas rectas de um teclado de computador, em monólogo informático com o mundo dos vivos que não se sentem verdadeiramente próximos de ninguém. Confesso a dependência, confesso o receio de ficar magnetizado para sempre e por isso confesso recear ter que vos abandonar. A vocês que não me querem ler, vocês que não me entendem, a vocês que não sabem quem sou, entrego as minhas espada e armadura. Agarrando-me à verdade dos dias, sou mais um como todos, como cada um de vocemecês que escreve neste e noutros Blogs, sou viciado em escrita, estou preso a esta verbalização mental da qual procuro saír sem conseguir. Cheguei há pouco mas para bem da minha mente atormentada não me resta outra saída que não a do abandono, o da perda por falta de comparência. 5 a zero não é, quando muito pode ser um 5-4 a favor do meu adversário. O Moço retira-se para morrer, em silêncio.
Para elas ficam os beijos e a vontade de os dar, para eles nada.
Foi um prazer, fugaz mas intenso
Moço a recado

Publicado por Moço de Recados em 04:57 PM | Comentários (4)

No Quarto Inerte

O meu corpo caiu. E lá do alto espatifou-se todo, em estilhaços pelo chão. Quando acordou do sonho, em chamas, não restava mais que uma sinistra amálgama de ossos retorcidos. Músculos que perderam a vida, sem elasticidade e sem forma. Carnes ocas, que já não produziam som, nem movimento. O eixo que o percorria perdera-se. Sem sombra.
Levantado a custo. Peça por peça. Foi transportado dentro de um saco, em colisão sob si próprio. O meu corpo.
Retornado à superfície, a massa etérea desvaneceu-se, escorregando para a terra fresca, onde se recolheu para fugir à dor. Ajudaram-no mãos sábias de experiência. Revestindo-o com fluxos de plasma que o penetraram em direccão à sua essência que, em mutação, lhe solidificou as artérias.
Aos poucos ganhou vida. Cor. Significado.
Ao sol tornou-se de novo matéria. E junto de outros corpos que gemiam de esperança, reconheceu-se.
Consegue agora voltar a escrever. Por pouco tempo.
Este meu bocado de corpo.

Publicado por Prusidente da Junta em 03:45 PM | Comentários (1)

Natal é quando um homem estiver para aí virado

Gastamos o que não temos, procuramos o que não existe. Apesar disso voltamos ao local do crime, ano após ano. Masoquismo ou simples apetite pelo supérfluo. Seja lá o que for, o Natal apela ao pior de cada um, revela a incongruente paga de promessas de quem está cheio de vícios e pecados. Rezar, por exemplo, é dos actos mais desprezíveis que há. Quem reza pede ajuda, quem reza quer limpar-se da sujidade que transporta, quem reza espera ser perdoado. Mas, vai daí, na primeira oportunidade quem reza descarrila uma vez mais, outra sobre a anterior e mais uma ainda. O Natal, esse gajo balofo, quase disforme, agrada-nos e oferece-nos a vontade em falta no resto do ano. Comemos mais, rezamos mais, gastamos o que não temos, procuramos o que não existe. Cambada...

Publicado por Moço de Recados em 03:29 PM | Comentários (4)

Fala-se em Gajas e os tansos agitam-se logo

Meus caros, sois previsíveis até mais não. Penitenciai-vos por serem tão óbvios, ajudai-vos com umas vergastadas valentes.
Folgo em saber que sou realmente popular, a ponto de merecer sete respostas sob a forma de comentário mais ou menos correcto. Bastou-me falar em gajas para ver os pelos do peito a esticar, a esticar, a subir e a perfurar as TermoTebes amareladas. Aliás, para que saibam, a utilização do termo Gajas foi precisamente pensada para testar o grau de insurreição dos leitores deste Blog. Ninguém se insurgiu contra o termo, todos gritaram vivas enquanto massajavam a mancha de carne que começa onde a barriga acaba, ninguém se ofendeu com a palavra Gajas, ninguém a considerou sequer depreciativa quanto mais ofensiva. Pois bem, voltando à razão que torna os leitores do Prusidente da Junta vulgares detentores de pila e testículos, as meninas, mulheres ou ainda não, merecem mais consideração e homens com alguma subtileza na atitude. Os Moços de recados são chamados para todo e qualquer serviço, verdade que os torna sensíveis, também, a vontades e exigências do sexo oposto. Não somos especialmente habilitados para todas as tarefas, não estamos sempre preparados para tudo o que se avizinha mas conseguimos aperceber-nos dos interesses que as move, as mulheres.
Digam-me senhoras, justifica-se que prossiga?

Publicado por Moço de Recados em 11:12 AM | Comentários (3)

dezembro 03, 2003

Tanto barulho para nada

Meus caros, vocemecês, e esquecendo de vez os que respondem remetendo exclusivamente para Macau conversa que se quer universal, parecem-me agastados em demasia por causa de umas simples linhas provocatórias. O Moço de Recados quis tão somente agitar as águas, as ervas altas dos campos cultivados, as bolas de borracha na piscina de bolas, as cabeleiras das crianças de tenra idade, disparando pequenas farpas às couraças mais sensíveis. Essas armaduras de Tatú ou de Pangolim podiam ser mais resistentes, não acham?! Aos ofendidos sugiro melhor poder de encaixe, aos que respondem com raiva cega aconselho um melhorado jogo de cintura. É que de repente parecem-me todos gajas em época de crise pré-mestrual. A saia fica-vos mal e da irritação despropositada resultam incómodas e inestéticas erupções cutâneas. De hoje em diante se é de gajas que se trata seja de gajas que se fale.
Beijos

Publicado por Moço de Recados em 04:49 PM | Comentários (13)

Nem sempre

Acredita em mim. Eu venho. Mais tarde.

Publicado por Prusidente da Junta em 09:53 AM | Comentários (1)

dezembro 02, 2003

Oh Meus Amores De Braços Abertos

Ora então como vão as minhas boas meninas e os rapazes malvados?
Ninguém me consulta, ninguém se confessa. Ninguém tem qualquer problema. Pudera! Desde que o Cherne e a sua trupe (makakanela a símia que pensa que sabe fazer contas, e o makakacebo, o macaquinho que lambe mancebos) chegou ao circo, são tantas as tropelias que nem os perdidos assumem as suas causas, nem os casos os atormentam. É a vida como dizia aquele rapaz sempre de cócoras que cavou à campeão deixando o pessoal entregue aos bichos...e não só a elas também!

Ora vinde a mim os vossos problemas que o Mestre está aqui para vos ajudar. Eu sei que tenho andado arredado...outros afazeres e outras paragens me chamaram, e o Mestre nunca recusa dar tratamento a qualquer caso de perdição merecido. Fui longe mas valeu a pena! Oh se valeu!
Mas vós minhas queridas, dizei-me. Que tendes feito? Como tendes resolvido os vossos casos perdidos, e como tendes gozado dos de vossa perdição?
Ou com a minha ausência andaste sublimando as vossas taras por aí sabe-se lá com quem. Ou terá sido com bruxas e bruxos? Ou com bombeiros? Ou com mancebos? Ou com GNR contratados pro Eufrates? Ou com seminaristas? Ou com funcionários das Finanças? Ou com estagiários do 2.º canal? Ou...enfim...com Bushs de borracha. Talvez!
Vinde a mim minhas queridas amigas, vinde! Deixai-vos de devaneios! Vinde colocar os vossos casos ao Mestre e não vos importeis das causas, porque as consequências serão, sempre, de perdição!

Publicado por Mestre em 08:34 AM | Comentários (4)

O que se vai ouvindo

Segura-te. A ti. É melhor. Estou à tua espera. Com a minha língua de tempestade revirada. Temo os teus sonhos eléctricos, quando rezas na máquina de luz. Temos vida. Temos mesmo uma coisa boa a andar.
Vem. Se pensas que vamos conseguir, é preciso que te segures a ti.
Dá-me uma ajuda. Podes levitar-me. Se o todo em tudo for verdadeiro.
Oiço a tua voz no fundo do quarto. Chega-te mais perto. Preciso de ver a tua cara.
Tenho que te dizer, não sou eu que te vou introduzir, mesmo conhecendo as pessoas que te podem mudar.
Há caminhos por onde não vou, mesmo que te aches especial.
Todos têm segredos e este é o meu. Se roubei e menti foi porque me disseste. E agora nada faz diferença.

Publicado por Prusidente da Junta em 08:00 AM | Comentários (1)

dezembro 01, 2003

O que vi hoje

O sorriso mais longo. O caminho obstruído. As rodas no passeio que subi à pressa. As ventoinhas. O risco. Alguém que fugia, a correr. Nove e catorze. O meu relance num reflexo de mim. As curvas. O Livro. O contrário. A parede a cair. O chão por fazer. A vista. A tarde. O tempo a passar. A escuridão. Ela. Ela. E ela. Uma chorava.

Publicado por Prusidente da Junta em 05:21 PM | Comentários (0)

Demasiado longe para suficientemente perto

Podias ter sido tu. Se para além do olhar te tivesse seguido. Ou perguntado se o que estava a ver era o mesmo que te aclamava. Fiquei. Neste nó. Na mesma linha. À espera de um descarrilamento. Que não veio.
Se te tivesse seguido não estava aqui. Cego. Ou a caminho.

Publicado por Prusidente da Junta em 03:54 PM | Comentários (1)