«Trazia consigo a graça
das fontes quando anoitece
Era o corpo como um rio
em sereno desafio
com as margens quando desce.
Andava como quem passa
Sem ter tempo de parar.
Ervas nasciam dos passos
cresciam troncos dos braços
quando os erguia no ar.
Sorria como quem dança
E desfolhava ao dançar
o corpo, que lhe tremia
num ritmo que ele sabia
que os deuses devem usar.
E seguia o seu caminho,
porque era um deus que passava.
Alheio a tudo o que via,
Enleado na melodia
duma flauta que tocava.
[GREEN GOD - Eugénio de Andrade]
Este poema reencontrei-o no suplemento Mil Folhas do jornal Público de 26 de Junho último, ontem. Quem puder ou quiser que tente com urgência dar uma vista de olhos a este número do Público. Tantos e bons textos a propósito do Eugénio de Andrade.
Nunca percebi porque é que só nos dias que se seguem à morte de um poeta é que acontecem textos raros nos jornais. Estou-me a lembrar da morte da Sophia de Mello Breyner por exemplo.
Há palavras que, se quisermos, nos resgatam do nojo de alguns dias.
Experimentem dizer alguns poemas em voz alta.
Vi uma vez por acaso, há acasos assim, um filme dos anos 50/40 (?) sobre um rapaz que acordou com os cabelos verdes. Não me lembro do título mas talvez seja The Green Boy.
A acção passa-se numa aldeola que às páginas tantas começa a formar um círculo de escárnio e desconfiança à volta do rapaz.
Segue-se o lobby dos comerciantes; que receosos de que aqueles cabelos verdes possam ser entendidos como algum efeito secundário dos géneros alimentares que vendem, tentam convencer the green boy a cortar o cabelo.
De forma simples o realizador conseguiu dar a volta a um tema provavelmente dificil de retratar na América daquela época, o da diferença. O filme é de uma simplicidade nada fácil alla ovo de Colombo.
Hoje em dia não existe censura na indústria cinematográfica (Não?) americana. Mostra-se e diz-se tudo embrulhadinho numa quantidade hipnótica de efeitos especiais.
É dos paises em vias de desenvolvimento ou mesmo do terceiro mundo que ainda vai subsistindo a forma limpa e lenta de contar o mundo e o sonho. Seja da escassez de recursos, seja dos regimes totalitaristas, é destas paragens que nos chega ainda perceptível a voz da terra.