junho 24, 2005

Luxúria entre Zagreb e Trieste ( 2ª Parte)

O seu cabelo era preto, asa de corvo, e uma melena tombava-lhe sobre a testa bronzeada, emoldurando-lhe a face simétrica. Nariz aquilino, lábios pronunciados. Lara interrogava-se sobre quem seria aquele homem, que nacionalidade teria, qual o motivo da sua viagem. Havia já nesse momento uma espécie de acordo tácito, de silêncio, de mistério.
Improvisamente, o homem levantou-se. Lara observava os seus movimentos de lince, lentos e firmes ao despir o blazer que deixava à mostra os seus bícepes estonteantes. Sem nada dizer aproximou-se de Lara e, de uma forma decidida, segurou-lhe na mão.
"Vieni?", sussurrou, olhando para a porta do compartimento.

A noite era já senhora, e a cortar o silêncio, só se ouvia o arrastar do trém, em direcção a Trieste. Como um autómato, Lara levantou-se e deixou-se levar pela mão firme, porém acariciadora. Reconfortante. Sairam do compartimento e subitamente encontravam-se frente ao WC das senhoras. Lara não conseguia pensar direito. Numa fracção de segundo encontrava-se dentro do cubículo, esmagada pelo corpo do homem que começara a beijá-la sofregamente. Uma grossa gota de suor escorregava na sua face, e amaciava o rosto da mulher rendida. A boca molhada do homem percorria o caminho dos seios de Lara, que arfava de prazer. Dedos 'frémissantes' descobriam o corpo da mulher rendida, esmagada contra a parede do minúsculo compartimento. A língua quente do macho, desenhava figuras abstractas no peito de Lara, completamente perdida na luxúria que os invadia.
O tronco nu, esmagado contra a nudez do peito de Lara, fazia-a experimentar sensações descoordenadas, turbilhões de pensamentos, entre o racional e o irracional. Aquelas duas mãos, firmes e carinhosas, levaram Lara a baixar-se em direcção ao baixo ventre vigoroso que pulsava de prazer. A língua da mulher, descobria os mais íntimos recantos, ávida de desejo, enquanto o membro do homem, se tornava cada vez mais rijo, pulsante...
Inadvertidamente, um resquício de racionalidade invadiu o pensamento de Lara. Ela não sabia quem era aquele Deus. Não sabia de onde vinha, para onde iria. Interrompendo por segundos o desvario, os seus olhos fixaram o verde do olhar à sua frente na sua plenitude. Ele entendeu o seu receio. Abanou a cabeça. Não trazia nenhum preservativo.
Levantou-se. Novamente as suas línguas molhadas elaboraram uma dança nas suas bocas. O homem insistiu firme, todavia deixando espaço de manobra à fêmea enjaulada. Num rompante, Lara, pegando na roupa caída no chão, libertou-se das mãos cálidas do macho, abriu a porta, cobrindo-se rapidamente com a camisola, e desapareceu no corredor...
O casal que tinha ido ao bar já havia regressado. Estavam em amena cavaqueira, quando Lara entrou no compartimento do comboio, tentando alinhar os cabelos, trocaram um sorriso. Três minutos passados, o homem entrou. Sentou-se, olhando a mulher que fugira das sua carícias... Estava tenso, ainda mais lindo que antes. Lara arrependeu-se de lhe ter escapado. Não conseguia deixar de apresentar um certo desconforto. Pegou numa revista ao contrário, e folheou-a, como se estivesse a ler os títulos. Na sua mente só vislumbrava os seus lábios, aquele membro erecto, a caminho da plenitude.
Do altifalante, uma voz monocórdica anuncia: "Trieste". Ao olhar pela janela, uma placa sinalizadora dita a ordem do fim da viagem. Pelo menos para a mulher.
Todos se levantaram, sacos ao ombro, e lentamente dirigiram-se para a porta de saída. O homem seguia Lara. Trazia, com ele, apenas uma pequena mala preta. Antes de saírem da carruagem o homem pegou no braço da mulher, e duma forma educada e firme, perguntou-lhe:
"Come ti chiami?"
"Lara", respondeu quase entre dentes.
"E tu?"
"Laurentino ".
Os dois desceram e dirigiram-se à saída... Num último olhar esboçaram um sorriso. Já distantes um do outro, no mesmo instante, olharam para trás. E os seus olhos tocaram-se pela última vez.
[FIM]

Publicado por Madame Satã | Enfados do Vício | 16:49
Comentários

Pois que assim seja!

Afixado por: Madame Satã em junho 26, 2005 07:24 PM

Senhora Madame, este texto está a pedir que lhe dê a volta, torná-lo mais canibal. Que me diz se o passar para o Controlado Pelo Tráfego Aéreo, acho que ele gostava de lhe dar um toque.

Afixado por: O Rivezoer em junho 25, 2005 03:17 PM