
«Ode a tudo»
(Para a Zélia*)
Vou cozinhar para ti. Sei que gostas de coisas boas, tipicamente simples, saídas da terra. Não interessa de onde. De quem é a terra. É preciso apenas que tenham muito sabor. É isso que vou fazer. Andei toda a semana por estas estradas quentes. A subir a serra, do sopé para meia distância do cume. A descer de novo para uma parte mais fria e a reencontrar esse horizonte que se desprende da vista, numa curva contra curva. Lá estava o vale do lado esquerdo. Ao fundo a montanha mais alta do sul do país. Uma paragem de autocarro à direita e talvez um cão a ladrar, não tenho bem a certeza. E fresco de novo, só por um segundo. Mudou tanta coisa que não sei por onde começar. Vai ser um prato de carne. É bom, acredita.
Quando voltaste dentro daquela caixa fiquei no jardim a noite toda. Dormi na rede sem me balançar, à espera que o céu caísse de vez em cima de mim e me acordasse do pesadelo. Tentava esconder-me. De mim e dos outros. Corria para o fundo qualquer de uma azinhaga. Para chorar. Para que ninguém me visse. Deitado no chão, a olhar de novo para as estrelas, talvez no sítio onde íamos apanhar amoras. Agora já não existem nesse sítio. Não existem em lado nenhum. Desapareceram. Compram-se no supermercado, sem as silvas, e custam os olhos da cara. Acreditas nisso? Eu também não.
No dia em que te levámos fomos todos em silêncio. Vieram homens e mulheres de todo o lado. Nos seus burros, nos seus carros de bois. Vinham do outro lado dos montes. Nos seus tractores, nas suas carrinhas de caixa aberta, que pararam em transgressão em qualquer lado, sem se preocuparem com isso. Vieram movidos pela ideia que o sol estava a estremecer, em rodopio, aos saltos, e a brilhar de uma outra forma. A chamar por eles. A dizer-lhes que aquele era um dia especial. Mas homens e mulheres que nunca mais te esqueceram, que na recordação viva de ti trouxeram as famílias, numerosas, e os gatos, e os cães. Para se despedirem de ti. Estava um dia cheio de luz. Seguimos-te e imitámos o teu silêncio. Todos. As pessoas vinham de veredas e ruas íngrimes juntando-se na mais completa das ordens, enquanto caminhávamos. Posso dizer-te que foi lindo. Quase no fim passámos em casa do teu amigo, ele disse-te adeus, do alto do seu olhar de bronze, e deixámos-te. Os gatos não miaram. Os cães não ladraram. Muitas flores e um ramo de uma árvore tua caíram por cima desse fosso geométrico onde te enfiaram. Agradeceste. Eu sei que agradeceste. A árvore que ia crescer dentro de ti. Soubemos todos. Quando saímos nunca mais fomos os mesmos. A cidade nunca mais foi a mesma. Parou congelada naquele verão quente. Lembras-te das groselhas? Já não existem. As borboletas? Raramente lá vão e são todas da mesma cor. Não há cães nem gatos. Apenas erva a crescer em desatino.
Vou fazer-te Goulash. A mesma receita que a avó te fazia, sabes? Que por sua vez era a receita de um restaurante em Budapeste onde vocês estiveram. Lembras-te? Foram os dois para a cozinha, bisbilhotar, à procura do cozinheiro. Telefonei-lhe há pouco, a perguntar-lhe como se fazia. Ela ainda a sabia de cor, claro. Lembrava-se até do nome do homem, chamava-se Lórand Kardos Ogúz e o restaurante ficava na praça Franz Liszt. Mas se lhe perguntares, se eu falei com ela mesmo agora, já não se lembra. Lembra-se apenas do essencial. Do mais importante. Do dia em que te viu descer a rua pela primeira vez. A cor da camisa que trazias vestida, as mãos nos bolsos, o olhar que lhe fizeste. Ela a mudar de cor à janela. A tornar-se amor, à primeira vista. E lembra-se de tudo o resto que vale a pena lembrar. E o que vale a pena lembrar foram todos os dias que passou contigo, todos eles, sem tirar um único. Claro, agora não tem espaço para mais. Para saber se já tomou ou não os comprimidos. Se é Verão ou Inverno. O que é que isso interessa? Ela lá sabe o que interessa, e é muito, é tanto. São tantas voltas ao mundo. Foste sempre o meu modelo. O nosso. Ainda és. Queria ser assim feliz como tu, ter essa capacidade infinita para estar sempre atento, atento ao saber, às brisas da inovação, ser a vanguarda do tempo e em simultâneo transportar um sol de conhecimentos. De vida. A querer inventar-me com as coisas mais ínfimas. E ser feliz como nunca vi ninguém ser feliz. Como nunca vou ver ninguém ser feliz, dessa maneira, mesmo que viva setecentos e cinquenta anos. Porque o teu ser feliz foi a felicidade dos homens todos juntos, desde que o Homem apareceu neste planeta. Há duzentos e quarenta triliões de anos. É preciso saber muito, não é, para lá chegar?
( O homem que encontrei hoje na rua sorria, desalmadamente, quase que não tinha roupa no corpo, nem dentes, não lhe perguntei nada porque tinha a cara toda esborratada de felicidade. E Amor. Em grande. Numa headline de parietal a parietal. Não tinha cabelo, o homem. Ainda tudo é possível no mundo trivial que se atravessa, foi o que gravei.)
No teu laboratório ia ver-te trabalhar. Atravessava o jardim a correr com medo dos cisnes negros que me mordiam o rabo. Nessa altura os carros andavam mais devagar, as pessoas sabiam conduzir, e chegava-se num instante, sem perigos. Entrava. Lá estavam as mulheres todas, que trabalhavam contigo, que sorriam a toda a hora. Felizes, também. Com os seus tubos de ensaio na mão. Os papéis. As pipetas. Os garrotes. Os pica dedos. Picaram-me o dedo e saiu uma bolha de sangue que eu depositei nos lábios. Na sala ao lado tinhas as tuas máquinas, que os médicos todos compram mas que nunca usam e que estão sempre a brilhar. Ficava a olhar para elas, aquelas naves espaciais. A conduzi-las. Ainda lá estão? Devem estar. Vendeste tudo, ao desbarato.
Já não chegaste a tempo. Tinha uma família muito bonita. Amalgamou-se com um calor qualquer ou com a corrosão da humidade. Mas gostava muito que conhecesses umas pessoas pequeninas. Já lá vamos, está bem? Sabes o que é o amor? É nós todos gostarmos de ti, sempre. E eu delas. Essa é a definição da palavra, a mais simples que se pode arranjar. A melhor que sei. A que vou responder no exame da minha faculdade.
Também íamos para o café. Ler. Ouvir os homens que vinham logo ter contigo. Que num ápice perguntavam. Perguntavam. E tornavam a perguntar. E ouviam. Tudo. Os homens que aprendiam contigo, sempre com sede do que lhes dizias. O homem dos jornais, que tinha nome de pássaro como tu. Ficavam os dois a chilrear montes de tempo. O que é que eu pedia nessa altura? Torradas, só podia ser. Com manteiga.
E os táxis? Os homens dos táxis. Lembras-te? Já não existem. Reformaram-se todos. Não fazia sentido transportarem outras pessoas. Venderam os carros, sem se preocuparem com o lucro, saíram da terra, desapareceram. Nunca mais ninguém os viu. Voltaram no dia em que a tua cidade te fez uma homenagem. De novo com os seus carros de praça. Debaixo dos plátanos. A reluzir. À espera que chegasses. Levaram o livro debaixo do braço, que fizeram sobre ti. Pesa duzentas e vinte gramas. Chamaram-lhe ‘Memória Viva’. É o que estou ali a fazer na cozinha, para que não te esqueças. Agora tens também uma rua com o teu nome. Sabias que em Porto Alegre, no Brasil, existe uma rua homónima à tua, só que de outra pessoa? Coincidência, não é? É de um general.
(Acordou com dores de estômago, a pensar que tinha todas as doenças do mundo, mas como a viu, ao lado, a respirar como uma fada, ficou descansado e voltou a adormecer.)
Entrava pelo teu hospital adentro. Percoria os corredores como um fio. Conhecia os andares todos. As máquinas espaciais de todos os médicos. Ficava à espera com os doentes. A olhar para eles. A adivinhar-lhes as dores. Depois entrava e lá estavas tu, sempre de bata branca, a contar leucócitos dentro de um microscópio. A contabilizar os glóbulos brancos. A falar alto, com um pianinho ao lado e a tocar aquilo que vias lá dentro: os linfócitos, os monócitos ou mesmo certos eosinófilos. No fim tínhamos uma gymnopédie, lenta e dolorosa. De vez em quando lá se encontravam alguns basófilos. São os piores. Agarram e não largam mais. Vão até ao osso. São apenas aquilo que se vê, não têm mais nada por baixo. Nada mais para descobrir. São um bife, todos os dias da semana. Noutros dias estavas a compor madrigais sob sedimentos urinários. No pianinho que marcava números. Naquela profusão toda de vidros de aumentar. Às vezes visitávamos o teu irmão que tinha um buraco na garganta por onde falava. Sim, também era médico.
E quando eu desaparecia sem deixar rasto, só porque me apetecia fugir de casa, ou quando ia dormir para o telhado, e encontravas a minha cama vazia? Não havia telemóveis nessa altura, que chatice que era. Nem assim ficavas chateado. Fingias apenas, mas eu sei que não ficavas. Quando te desgravei das bobines onde estavas a falar de música dodecafónica e te substitui por uma peça radiofónica sobre a Volta a Portugal também só ficaste furioso, mas não chateado. Quando substituí o nome do Alban Berg por outro de um corredor chamado Zequinha. Ou mais adiante, quando já estavas na pintura, e mudei Paul Klee por Toupeira, e Vassili Kandinsky pela chegada à meta do pelotão seguido de uma queda colectiva, apenas torceste o nariz ao de leve. A pensar que aquilo era tudo mentira. A tua sorte foi não perceberes nada de teorias das fitas magnéticas.
A mim só me bastavam dois dos teus passos. Com eles podia chegar onde quisesse. À Lua, se fosse preciso. Se ainda tiver dois genes dos teus posso tentar ir mais longe. Onde nunca fui. E desembrulhar-me. Pode ser que me visites, outro dia, num país mais frio, onde o sol nunca desce.
Podes sentar-te, aí nessa mesa azul. Não faças caso, é pequena demais, eu sei. Só chega para a semana, a outra que comprei. Come. É o melhor Goulash que eu alguma vez fiz na vida. Ensinou-me o Lórand Kardos Ogúz. Nunca mais vais esquecê-lo. É uma memória viva e está quentinha. Está bem. Imagina que somos amigos do Gulliver. Somos todos pequeninos. De novo crianças.
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* Zélia é o nome da minha avó.
"Ode a tudo"
[Publicado por Ring Joid in Hoje Macau – 9 de Julho de 2004]
Muito bonito!