
Nos anos 70/80 passava na televisão ainda a preto a branco, em Portugal, uma serie de ficção cientifica, o "Espaço 1999". Vi-a devia ter para aí uns 10 anos e nunca mais a esqueci. Recentemente voltei a visioná-la por acaso e nisto assassinei uma memória que tanto me encantava. Achei o episódio enfadonho e ingénuo. Pode-se voltar aos lugares onde fomos felizes?
Basicamente a série conta-nos as aventuras e desventuras da primeira colónia terrestre na Lua que assiste terrificada, nos ecrans, à colisão de um gigantesco cometa contra a Terra. Como consequência a Lua é projectada para muito longe do planeta azul.
Nos anos 70/80 o ano 2000 era uma data mítica, acreditavam uns no fim do mundo, outros mais optimistas viam cidades espectacularmente avançadas, carros que levitavam e colónias na Lua.
Testemunho disso é o tempo em que a série decorria e que dava o titulo à mesma, Espaço 1999.
Se as tais cidades de ficção cientifica não correspondem ao imaginário da época, nestes idos de 2005, também é inegável que hoje em dia estamos rodeados de uma parafernália tecnológica que se tornaram banais e ditam novos comportamentos e ansiedades.
Sou ainda do tempo da televisão a preto e branco, dos primeiros computadores comerciais que eram basicamente usados para descarregar jogos gravados em cassetes audio: os ZX Spectrum. Muito antes do advento do Windows de Bill Gates. Alguém sabe o que é a linguagem máquina?
Cresci sem Internet, não haviam telemóveis e comprava o ultimo disco dos Jesus and Mary in Chain em Vinil. Tenho uma colecção de vinis mas não tenho onde os ler (é a palavra que se usa agora), ainda uso cassetes áudio para gravar musica e já me aconteceu querer mostrar uma música e não haver leitor de cassetes. Chamaram-me analógico.
As tardias cassetes de vídeo e mesmo os leitores de vídeo tornaram-se obsoletos com a chegada do DVD.
A minha geração cresceu sem saber como é que as fotografias iriam sair, agora estamos sempre bem com as máquinas digitais. Sem supresas está tudo bem, clean e sem caretas. Mas de onde vem este cheiro a ovos podres?
Ainda escrevo cartas de papel. Não é preciso nehum hardware especial para o fazer. Apenas disponibilidade e, modestia à parte, vontade de sair da carneirada.
Sem saudosismos regresso à série "Espaço 1999".
Vivendo eu agora num espaço não tanto fechado como aquele da série, pergunto-me como realmente se viveria ali naquela base lunar. Era auto-suficiente e portanto a sobrevivência mínima estaria assegurada. A população parecia multiracial e por exercício da lógica devia ser altamente qualificada em tudo o que fosse do domínio das ciências físicas e tecnológicas, além de ser igualmente bem preparada fisicamente.Os critérios de selecção e os salários deviam ser elevados,dada a especificidade do projecto e a componente risco.Um ambiente de elite naquela colónia pioneira.
Interrogo-me particularmente sobre o ambiente que se viveria em Alfa 1 depois do desastre, longe da Terra, sem possibilidades de retorno.
A tecnologia não basta e a ser verdade que nem só de pão vive o homem, sai do nada, de onde chamei este texto, um cenário no mínimo inquietante. Se calhar sou eu...
Esta é basicamente a historia não contada da série, muito mais provável e verosímil que toda aquela sucessão de encontros com criaturas alienígenas.
De repente, ao improviso, toda aquela população teve que conviver diariamente ad eternum com as mesmas pessoas todos os dias sem férias sabáticas na Terra. Irremediavelmente desenraizados começaram a passar mais horas nos ginásios de modo a combater o stress do presente e as saudades da Terra.
Consultas febris às imagens digitais da Terra espalharam-se como uma obsessão.
Vi também os primeiros filhos da Lua crescerem alimentados pelas histórias dos pais sobre as florestas, os mares e os animais da terra criarem toda uma série de mitos sobre aquele lugar que nunca conheceram.
Alguns em crises de adolescência acusaram os pais por terem vindo trabalhar para a Lua, que estavam fartos daquilo. Criaram-se drogas sintéticas para acalmar os ânimos.
Na net, no chat Lunar ninguém era aquilo que dizia ser, uma espécie de jogo/compromisso para criar a sensação que se estava a conhecer alguém que não pertencia a Alfa 1.
Não sendo uma população numerosa é credível que as poucas crianças de Alfa 1 fossem a luz de toda a colónia. O problema chegava quando cresciam e se sentiam sós. Com o tempo decidiu-se criar um banco de esperma e ovários para a criação de bebés proveta.
Não consigo ver se era uma sociedade puritana ou se pelo contrário considerando que nem toda a gente ali seria compatível, se houve casos de violação ou a proliferação de sexo esporádico e mecânico.
Como seria o ensino e o tribunal em Alfa 1?
Professores e juristas ficaram de fora do projecto nos seus primórdios, basicamente foram enviados para Alfa 1 cientistas de várias especialidades físicas e químicas. Não se previa o asteróide solitário que resolveu chocar contra a Terra. Delegaram-se competências, reciclaram-se ofícios na base do voluntariado em sistema de horas extraordinárias.
Como se inventa o dia quando a metafísica nos abandonou?
Joe escreveu isto no seu diário antes de se suicidar, era um dos primeiros filhos de Alfa 1.
Isto não passa de uma conjectura, deixo aos clientes do Motel que pacientemente leram estas linhas a busca do seu sentido e um grito:
De mais gente se consciencializar para a urgência que Tratados como o de Quioto expressam.
Bases lunares nao há ainda para aí aos pontapés.
Mais uma vez desculpem-me os erros mas é que Alá e eu não nos quisemos continuar os estudos.