«Dear Prudence» sintonizado na rádio. O pé direito dela, com as unhas pintadas de vermelho, de fora, quase encostado ao espelho retrovisor. A lata de cerveja ainda fresca colada ao travão de mão. Os RayBan clássicos, de lentes esverdeadas, presos na ponta do nariz, do meu. O vidro sujo de poeira, os limpa pára-brisas antes pretos e agora de tonalidade creme. Duas fatias de pão barradas com pasta de atum, ainda envoltas por celofane, sobre o porta-luvas aberto. Sem sorrisos seguimos a direito.
Faltam cerca de 20 kms para nos separarmos. Eu, ao volante, tinha cumprido a minha parte do acordo, ela cumpriria a metade que lhe estava reservada concluindo a segunda parcela da viagem sozinha. Pelo meio, nas duas noites passadas longe de casa, portámo-nos tão bem que nos ficámos pelas bebedeiras e por uns pézinhos de dança. Numa delas ainda meti o nariz no quarto, armado em segurança de beldade multi-milionária, mas fiquei-me pela correção, essa merda que me torna tão irritante. E agora ao faltarem 20 kms a ideia de a ver partir atormenta-me. - Escreve-me, por favor! - pedi-lhe depois de levar a lata à boca, angustiado. Os olhos irritados pela poeira desviam-se sistematicamente para o vermelho das unhas pintadas. - Escrevo, sim, mas sem promessas, passarinho.
Porra, penso, faltam 17 kms e não há nada a fazer, a minha parte está quase acabada, ela vai-se embora e eu vou ficar a vê-la a cruzar as linhas de asfalto ou de terra batida ou de caminhos de ferro ou lá o que nos espera daqui a 16 kms.
Um escavadora coberta de ervas, alaranjada de velhice, testemunha a minha desorientação quando abrando a marcha junto a um campo que em tempos havia sido lavrado. Naquele campo só a escavadora pode ver-nos. Imobilizo-nos ao lado da vedação a metro e meio da estrada. Faltam 12 kms para o fim. - Olha, sabes que mais, não me apetece nada deixar-te daqui a 12 kms!
- Então não deixes e vem comigo.
- Mas isso não faz parte do acordo.
- Precisas de documentos, de assinaturas, para definir isto?
- Não preciso mas sinto que falta sempre qualquer porra para ter a certeza do que quero.
- Qual porra, diz lá?
Naquele repente agarra nos meus óculos e coloca-os. Está a sorrir. Está a ganhar. Zeza, baby, faltam 12 kms, diz, ordena, manda, define as regras. A escavadora é capaz de se mexer se tu não te despachas. Pára de sorrir, Zeza, já ganhaste. A cerveja está à mão e eu agarro-a. A escavadora vai mexer-se, eu começo a rir com o nervoso, Zeza, faltam 12 kms para o fim. - Mas qual porra, diz-me, de que porra se trata? - a pergunta é feita a uma distancia tão curta que me impede de ver a escavadora lá ao fundo, alaranjada e coberta de verdes e acastanhados. Zeza, baby, não me apetece nada deixar-te daqui a 12 kms.
Hmmm..... 12 kms dá para muita coisa...
Afixado por: em julho 13, 2004 04:25 PM
Passo-te a mão por trás da cabeça, apanho-te os cabelos com força por entre os dedos. Imobilizo-te… The sun is up, the sky is blue it's beautiful and so are you...
Afixado por: em julho 13, 2004 12:57 PM
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Afixado por: em julho 13, 2004 12:43 PM