junho 12, 2004

Virgem e suicida

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Andar de avião não é o mesmo que ir ao cinema. Pode sempre estar alguém à nossa frente mais alto, muito mais alto, que não importa. Nem damos por isso. Tanto faz. Até pode ser um gigante que não se nota. Depois de levantar voo já nada mais interessa. Voamos. É outra dimensão. É não estar em lado nenhum. É estar no Céu. Com os santos todos. Desde o número um ao último lista. Sentadinho lá atrás a fingir que lima as unhas.
Quando vou à casa de banho há uma rapariga que insiste em entrar comigo. A forçar a entrada. Comigo. Como se tivesse a enfiar uma coisa enorme dentro de uma gaveta. Eu a ser simpático, a deixá-la ir à frente, mas ela a ser simpática, a deixar-me ir primeiro, a empurrar-me até, a meter-me a mão abaixo das costas e a dar-me encontrões, a encostar-se toda e a impingir-se com toda a força. A olhar para todos os lados. Só quero lavar os dentes. Ela entra atrás de mim e tranca a porta, a luz torna-se mais luminosa. Detesto estas luzes. Com um bocado de esforço quase que se consegue ver os tentáculos do cérebro. Não perde tempo. Despe-se. Tira a saia e pendura-a no rebordo da porta, muito direitinha, não sei como é que tem tempo para isso porque no segundo seguinte já está a tirar a camisola. Atira-a para o ar que resta dentro da gaveta. Eu só quero lavar os dentes. Ela tapa-me o espelho e esconde-me a torneira com o enorme corpo luzidio, púrpura, que só parece de seda. Não me deixa lá chegar, à torneira. Pega na minha mão e leva-a para um sítio que eu cá sei. Podia dizer-lhe que a minha mulher me trocou pelo homem mais feio do subúrbio de aldeia onde vivo. Mas não digo. Pelo maior engodo. Para ver se a assustava. Mas não digo. Ainda me perguntava porquê. O maior bimbo que a terra plantou. Eu o que não quero são conversas. Já não me vejo. Só a vejo a ela. É violação, penso eu. Ela lava-me os dentes com uma coisa que eu cá sei.
Estou na coxia, no meio do corredor, na parte de trás do avião. Uma das hospedeiras sempre que passa por mim encosta a cauda ao meu ombro. Da primeira vez ainda pede desculpa. Perdão, disse. É duro. Começo a pensar o que faz ela para ter um rabo tão duro. Finge ajudar o passageiro do outro lado do corredor e lá está a esticar-se a meu favor. Em direcção ao meu ombro. É de propósito, tenho a certeza. Chama-se Louise. É violação, penso eu.
No balcão do check-in disseram-me que este era um lugar muito bom para mim. Tinham toda a razão. Parece que já me conheciam. Mister Joid, disseram eles. É verdade, estou rodeado de mulheres. Umas estrondosas. Outras melhores que isso. De voz rouca e tudo, como eu gosto. A novecentos e trinta quilómetros à hora não se pode querer mais.
Quando era mais novo via na televisão a versão original da sequela de Hollywood que está a passar no pequeno ecrã da minha companheira do lado. Eu olho para as pernas dela enquanto ela está distraída a rir-se que nem uma tonta. Mexe-as demasiado para quem só está de auscultadores. Está calor. Não tenho mais para onde olhar, os meus tentáculos neste segundo só me dão para isto.
Do outro lado estão duas irmãs. A Audrey e a Katherine. Conheci-as por acaso antes de entrar no avião quando, por engano, entrei nos lavabos errados. É violação, pensaram elas. Agora estão com frio. E eu aqui com um calor do caraças. Lá vem a hospedeira outra vez, a tal. Desta vez olha para mim sem mover os olhos e pergunta se quero alguma coisa. Está de frente para mim. Encostada ao meu ombro. Dentro dele. É dura e fofa ao mesmo tempo. Não tem underware, imagino eu. Demoro a responder. Ela demora a perguntar de novo. Parece que tenho de ir lavar os dentes. As duas irmãs, afinal, entram no filme que a minha colega do lado está a ver. Colombo. Mumbay. Taiwan Strait. Tudo no mesmo mapa. E o avião quase a mil à hora. Viajar de avião é melhor do que ir ao cinema. Pode-se comer à vontade. Bebe-se até fartar. Pedi vinho para acalmar. Montes de vinho. Tinto. Bebi-o todo. Agora tenho de ir lavar os dentes. Kweilin, assinalado com uma bolinha. Kunming. E outras terras ao lado. Outros subúrbios de aldeia, como o meu. Com nomes parecidos. Escritos com letras estranhas. Estamos a dez quilómetros de altitude e por incrível que pareça não estou com vertigens. Só alucinações.
Parece-me que isto é uma viagem oficial. Sou o único dos oficiais em Económica. Mas não troco o meu lugar com nenhum dos outros que me acompanham. Ah! As irmãs são muito amigas. Fazem festas uma à outra. Há pessoas que sabem meter conversa com toda a gente, falam que se desunham como se conhecem toda a gente há muito tempo. A mim já me conhecem há muito tempo. Mas há dez minutos atrás nunca antes as tinha visto. Estico os pés. A minha hospedeira traz-me mais vinho. Para tentar dormir junto dois calmantes que roubei à minha nova namorada, sem ela dar por isso. Não esquecer a rapariga do 64H, morena, com olhos cor de azeitona, daquelas verdes. Agora vou dormir, digo eu. Podem ter a certeza. Tento contar carneiros. Não passo do primeiro. Fico sempre encravado no mesmo. Vendo bem é um carneiro fêmea e está sozinho. Não há mais nenhum a seguir. Deixa lá ver se tem a voz rouca.
Isto é mesmo muito melhor do que estar no cinema. Pode-se mudar de filme a todo o momento. Estou lindo e a viagem ainda mal começou.

Publicado por eLustre Convidado | o 35 de Abril | o 35 de Abril | 20:04
Comentários

Que bela viagem, Sr. Prusidente!!
Tamem gramei...

Afixado por: Mary goRound em junho 17, 2004 02:53 AM

Picture yourself in a boat on a river,
With tangerine trees and marmalade skies
Somebody calls you, you answer quite slowly,
A girl with kaleidoscope eyes.
Cellophane flowers of yellow and green,
Towering over your head.
Look for the girl with the sun in her eyes,
And she’s gone.
Lucy in the sky with diamonds.
Follow her down to a bridge by a fountain
Where rocking horse people eat marshmellow pies,
Everyone smiles as you drift past the flowers,
That grow so incredibly high.
Newspaper taxis appear on the shore,
Waiting to take you away.
Climb in the back with your head in the clouds,
And you’re gone.
Lucy in the sky with diamonds,
Picture yourself on a train in a station,
With plasticine porters with looking glass ties,
Suddenly someone is there at the turnstyle,
The girl with the kaleidoscope eyes.

Afixado por: a.r. em junho 14, 2004 12:12 PM

Pois é... Ao menino, "pedem-lhe...o que não deviam!" Que se há-de fazer- O Prusidente é liinndooooooooooo!( Não faz mal, a essas oferecidas, hei-de eu vê-las, aqui no Inferno! AHAHAHAHAHAHAH!!!

Afixado por: Madame Satã em junho 13, 2004 02:14 PM

gramei.

Afixado por: fernando esteves pinto em junho 13, 2004 01:48 PM