
Esperem só um bocadinho, estou aqui a atar o sapato, não tenho muito jeito para isto, apareceu-me uma hérnia no cérebro que me limita certas funções, é isto e pentear-me, demora uma eternidade. Também só consigo escrever, neste teclado, com a mão direita, a outra tem uma inclinação para algumas teclas, algumas letras, chega-se a elas e fica ali a acariciá-las, a fazer-lhes festinhas. A imaginar, na sua mente de mão, uma certa palavra, um certo nome. Já está. Decidi-me pelo nó cego, sempre dura mais tempo. Dura uma eternidade e fica mais bonito.
Conto-vos a história, deste meu problema, sempre se adianta qualquer coisa, e ficam a gostar mais de mim, se calhar.
Não começa mal. Nem bem. Começa em Coloane comigo às voltas de carro, a olhar para ontem, e com um gajo feio, de óculos, num Antonov encarnado do século passado, que de repente se mete comigo. A acelerar que nem um desalmado, a acender os piscas, a fazer-se de bonito. De engraçadinho. A olhar para mim com aquele seu ar duplo. E a pisgar-se na sua lambreta. É assim que começa. Podia começar de uma outra maneira qualquer. Continua. Eu a ir atrás, a querer apanhá-lo, a pedir mais pelo meu carro automático. A pedir-lhe muito mais, a pedir-lhe tudo. No Istmo. Nas rotundas do Istmo. Ele à frente, a distanciar-se. Taipa. Rotundas da Taipa. A perdê-lo de vista. Sozinho. Na noite. Completamente sozinho. Não pára a história. Agora que penso nela, como aconteceu, em tudo o que vivi nela, perco a ideia que a pode tornar escrita. Continua. É a parte melhor, agora. Ao aproximar-me da ponte Nobre de Carvalho, já ele levava uma vantagem como daqui a Espanha, ao negociar a curva, já cheio de febre, a suar por todos os lados, perco o controle do meu carro japonês e vou estampar-me contra o macaco que anuncia o Ano Novo Chinês. Acho que foi de propósito. Para me magoar. Do resto já não me lembro. Li num jornal no dia seguinte. Ou na semana seguinte, também já não me lembro. Uma fotografia do macaco dentro do carro ao meu lado, quase a acariciar-me, a fazer-me festas na cara, a rir-se que nem um perdido. A gozar comigo. Eu de olhos fechados. Dizia na notícia que os bombeiros demoraram uma hora a desencarcerar-me. Só que o pior é que quando falavam em mim, não era eu, era o macaco. É verdade, confundiram-me com o símio e quando terminaram o servicinho levaram-no na ambulância, com máscara de oxigénio. Deixaram-me a mim no pedestal em posição de combate, num passo perdido de dança contemporânea. Esquecido. Na noite. Só faltavam umas luzinhas de orelha a orelha a dizer “Seja Bem-vindo”. Devo ter ficado em estado de coma. Só me lembro de acordar com uma daquelas trovoadas da época, ainda de madrugada, perder o equilíbrio, e estatelar-me ao comprido no relvado feito de calhaus. Levantar-me. Ver os carros a passar e olhar para mim de tanga e com um chapéu de marinheiro. Carro nem vê-lo. Quando comecei a andar reparei que tinha um alto na cabeça. Nunca mais saiu.
É uma história de amor. E é disso que vos quero falar. Mesmo não sendo isto que queria contar, foi o que me passou à frente.
Está bem. Não me conhecem, eu sei, devem estar para aí a pensar quem é que eu sou? O que é isto. Eu apresento-me. Sabem aquele gajo que deu um soco no George Bush quando teve a ideia de invadir o Iraque? Era eu. Aquele que vos conta uma história à noite, vos adormece e ainda despeja o lixo? Sou eu. Lembram-se do 11 de Setembro, aquele cão que guiou o velho cego desde o 349º andar? Era eu, o cão. Aquele que ensinou o John Travolta a dançar no Pulp Fiction? Eu. O silêncio que ouvem à noite? Sou eu. A ressonar. Sou tudo o que possam imaginar a multiplicar por vinte. Só tenho uma confissão a fazer. Não sei se a consideram pertinente: eu não existo. Sou um pensamento dentro de um quarto fechado. Sou feito apenas de coragem. Chega? Não. Ao princípio é simples, anda-se sozinho. Só nos vem à memória outra fase muito mais batida. É esse mesmo. Bebe-se a coragem até dum copo vazio. Estão todos vazios. É simples. Ao princípio. Começar frases. Ajustar dimensões. Histórias tristes assim tão lindas como esta. O jornal com a minha fotografia. Com o macaco a falar-me ao ouvido, a pedir-me descanso. A fotografia de mim, a sonhar, em estado de coma. No meu mundo. A acordar, com um raio qualquer, e cair com o degelo. Uma pedra no sapato? Sou eu. Não podem perceber mais nada. Também não consigo explicar. Comecei daquela maneira. A apertar o sapato. Agora só tenho a cama aberta. Cheia de mim. Isto é pessoal. Não podem perceber. Sabem, aquelas trepadeiras que se agarram às pernas das casas e nunca mais as largam? Mesmo que as cortem, nunca mais as largam? Sou eu.
E bem podias vir no Ferrari, que te deu o magnata do jogo para te pôr a milhas quando andavas a catrapiscar a filha dele. Agora tenho a minha bicicleta. Pedais. Sabem o que são? Acham-nos pertinentes? «Ridículo» é a palavra que quero usar, mesmo que não tenha nada a ver com o caso. Já agora lembro-me de outra coisa. Nunca comprem produtos previamente embalados, embalem-nos, escolham-nos com cuidado, quando se abrem normalmente são diferentes do outro lado. Têm outra cor. Outro cheiro. Se vos cheira a podre, my dears, é porque o material já está fora de prazo e, segundo dizem, o material tem sempre razão.
E a minha mão esquerda já se agarrou ao B e ao L. Tenho de ir passear. Apanhar fresco.
Amor. É só do que queria falar. A culpa é vossa. Olham-me com essa cara e eu distraio-me. Prezem-no. Dêem-lhe tudo. Se têm um em casa. Adorem-no. De modo gigantesco. Construam-no. Respirem-no. Pode ser ao lado. Pode ser sempre ao lado. Mas acreditem. Há sempre uma seta, uma flecha, uma lança, chamem-lhe o que quiserem. Um fulminante. Que lhe pode acertar em cheio. Não me quero lembrar. Calo-me. A música mais simples em que podem pensar? Sou eu. Na ponta dos vossos lábios.
Maybe I didn't love you
Quite as often as I could have
And maybe I didn't treat you
Quite as good as I should have
If I made you feel second best
Girl I'm sorry I was blind
You were always on my mind
You were always on my mind
And maybe I didn't hold you
All those lonely.. lonely times
And I guess I never told you
I'm so happy that you're mine
Little things I should have said and done
I just never took the time
You were always on my mind
You were always on my mind
Tell me..
Tell me that your sweet love hasn't died
Give me..
Give me one more chance to keep you satisfied
I'll keep you satisfied
Little things I should have said and done
I just never took the time
You were always on my mind
You were always on my mind
You were always on my mind...