Encontrei-o parado, com os olhos agarrados algures fora da sala, virado para o vidro enorme que preenchia grande parte da fachada do café. Sentei-me e mandei vir o mesmo que ele havia escolhido: uma cerveja australiana de rótulo azul. - Então o que é que contas? - perguntei.
- Vou mudar de vida, M., vou mudar.
- Mudar, como, mudar de emprego, de casa, de rua, de carro, o que é mudar de vida, R.M.F.?
- Conheci uma fulana por quem me apaixonei... e, foda-se, não me venhas com lições de moral, a última merda que quero ouvir dessa boquinha de responsávelzinho da treta é uma lição de moral, ok!?! Poupa-me, ouve-me e poupa essa tua conta privada cheia de sentenças, cheia de liçõezinhas de moral, caralho. Gasta-a com outro qualquer, não comigo!
- Bem, pela quase histérica celeridade da resposta às minhas perguntas, pela antecipação da minha resposta, só podes estar mesmo afectado...
- Apaixonei-me, azar.
- Azar?! Azar é roubarem-te o carro no dia em que o vais vender por bom preço...
- Outra merda em ti que não suporto é esse teu jeitinho para comparar sem o mínimo jeito para ter graça... esta é de amigo, acorda, deixa-te disso, é ridículo!
- Está bem, está bem, está tudo muito bem...então conta lá, como é que te apaixonaste?
- Vai para o caralho!
- Vá, conta, esquece a cena do azar... ama-la?
- Sim.
- E como é que começou, a paixão?
- Não sei precisar, aconteceu...primeiro gostei da forma como gostou de mim, como disse desejar-me, como se referiu a mim como «todo tu dás tesão», como se mostrou disponível para entrar numa relação sem disponibilidade, com o tempo contado, com outra vida paralela...
- Deixa-me adivinhar, é mais nova...bastante mais nova?
- Sim, é mais nova, mas não é por aí. Atrasei o sexo quase involuntariamente, como se fosse refém da minha consciência, entendes?!
- Sim, claro.
- Pois, depois, quando se deu, finalmente, acabei por perceber que aquilo tinha tudo para correr melhor e para não ser barrado pela outra vida...
- Foda-se, és mesmo atrasado mental!
- 'Atão, caralho, estás aqui para me ouvir ou para me julgar, grande cabrão?!
- Desculpa... prossegue... desculpa-me, desculpa lá, vá...
- És meu amigo ou és irmão da minha consciência, grande cabrão?
- Vá, caga no que te disse, fala, prossegue... desculpa...
- Talvez seja melhor não te lembrar a vida paralela, doutra forma vais julgar-me e vais estar a fazer um esforço tremendo para não me atirares da cadeira abaixo...
- Não volto a pedir desculpas, prossegue se fazes o favor!
- Aquilo avançou de uma forma tolerante, justamente quando a tolerancia não era para ali chamada, e quando dei por mim estava preso à púbis dela, estás a ver?!
- Não acredito, agora é a púbis... e onde é que fica a cona neste caso, não há, é isso?!
- Sim, a cona, estava agarrado à cona mais perfeita que alguma vez vi na vida. Foda-se, man, não calculas o que é uma cona perfeita, nem tu nem ninguém. Eu conheço a melhor cona do mundo, não te passa pela cabeça. Falo com ela e ela responde-me, beijo-a e ela beija-me, como-a e ela segreda-me «come-me, come-me, come tudo»!
- Com que então é a cona dela, a cona jovem dela?!
- Não, caralho, não é a cona, a cona é um dos pontos a favor, a cona é parte da perfeição...
- Devias ouvir-te, rapazinho, devias gravar o que dizes para teres a noção do conjunto de disparates que estás a dizer...
- Sabes que mais, tu não és meu amigo, tu és um cabrão de um falso puritano, um norte-americano disfarçado de portuga, um gajo que faz exactamente o mesmo que eu mas que até ao melhor amigo prefere pregar lições de moral em vez de assumir que só não pula a cerca porque não consegue!
- Sabes que mais, não estou para te ouvir, ó tesão por todo o lado!
- Vai-te embora e vai bater uma punheta a imaginar a melhor cona do mundo, vai, vai-te daqui para fora, cobardolas!
- Vou mesmo, falar contigo tornou-se impossível. És imaturo, és uma criança que só pensa em ser adulto para poder fazer o que lhe apetece sem dar cavaco a ninguém. Mas o mais engraçado é ver que tu não tens a noção do ridículo, da anedota... ouve, endireita-te de uma vez, abre os olhos e vê o que andas a perder!
- És um triste, não sabes o que vale a vida... tu é que andas a perder, eu estou rico!
- Triste és tu, adeus.
Levantei-me e saí dali a correr. Levei a garrafa comigo e tentei despejá-la num gole. Fi-lo em dois. Ao procurar as chaves do carro no bolso acabei por deixá-las cair na calçada, com a fúria... ou talvez fosse nervoso. Se as tivesse deixado cair dois passos antes teriam entrado na sarjeta. Foda-se, que atrasado mental, tu e aquele cabrão!
E para quando uma participação regular neste Blog?
E o seu irmão, quando dás as caras?
E a cerveja em falta? E os barcos a passar?
Estou aqui, Moço
Afixado por: em abril 6, 2004 10:19 AM
Recado ou confissão?
Afixado por: em abril 6, 2004 01:00 AM
Repito, a partir do que escreveu o M, estais aí, Sister?
Diga-me que sim, não me deixe nesta incerteza.
hihihi! sister!
Afixado por: em abril 5, 2004 04:31 PM
Talvez seja altura de irmos beber umas geladinhas e ver os barcos passar ...
Afixado por: em abril 5, 2004 04:20 PM
Agora é que foi, o chocolate inteiro pela garganta abaixo,fdx Moço! Olhem façam como eu, gritem aos sete ventos, gritem no alto da montanha, libertem-se! "conos".
Afixado por: em abril 5, 2004 12:51 PM
Ui, ui!!
Afixado por: em abril 5, 2004 12:32 PM
Ui!!
Afixado por: em abril 5, 2004 12:24 PM